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Relatos Ardientes

Mãe e filha, as palhaças de uma festa só para homens

O sol da tarde entrava em profusão pela janela do apartamento e iluminava a desordem de contas sobre a mesa da cozinha. Marisol Aguirre, quarenta e quatro anos, revisava os números com a testa franzida, o dedo percorrendo uma coluna de dívidas que se acumulavam como uma sentença. A blusa de algodão grudava nas costas por causa do calor úmido de Acapulco, e uma mecha de cabelo preto caía sobre o rosto toda vez que ela se inclinava. Fazia dezenove anos que contava cada peso, desde que o pai de sua filha evaporou numa noite e deixou para trás só roupas desaparecidas e dívidas que cresciam como mato.

—Outra vez a mesma coisa —murmurou, afastando a mecha.

Camila entrou naquele momento com a fantasia de palhaça pendurada numa das mãos. Aos vinte e dois anos, era o contraste exato da mãe: alta, magra, atlética, com a pele morena clara apenas dourada pelo sol do Pacífico. Usava uma camiseta larga e shorts curtos, e se movia com aquela leveza que faz virar cabeças na rua. Tinha largado a universidade um ano antes, alegando que preferia ajudar no negócio da família a ver a mãe se afogar em preocupações. Marisol conhecia a verdade: o dinheiro não dava para as duas coisas.

—Não se preocupa tanto, mãe —disse Camila, largando a fantasia sobre a mesa e abraçando-a por trás—. Esse contrato paga bem. O cliente disse que queria algo especial. Com o de hoje quitamos a luz e a água, e talvez parte da hipoteca.

Marisol cobriu a mão da filha com a sua, sentindo a maciez daqueles dedos finos contra a palma áspera de tantos anos enchendo balões.

—Tá bom. Experimenta a fantasia nova, pra ver se serve.

Camila se trocou no corredor, em frente ao espelho rachado. A roupa de bolinhas vermelhas se ajustava nela como uma segunda pele: a saia curta plissada roçava de leve a parte de baixo das nádegas, a meia arrastão abraçava as pernas longas e o top esticava sobre o peito. Ela ajeitou a peruca laranja sem terminar de encaixá-la, deixando o cabelo verdadeiro aparecer pelas laterais.

—O que você acha? —perguntou, girando devagar—. Luzinha, pronta pro show.

—Você está linda —respondeu Marisol, ajustando o plissado da saia. Os dedos dela demoraram um instante a mais sobre o tecido e logo se afastaram—. Mas essa saia é muito curta. Pra não distrair as crianças.

—São crianças, mãe. Só vão olhar os balões.

Marisol entrou no quarto para vestir a fantasia de Bolha: o conjunto largo de bolinhas multicoloridas, a peruca vermelha enorme, o nariz redondo, o sorriso pintado de branco. Sob o disfarce caricatural continuava havendo uma mulher madura, de quadris largos e seios pesados, que levava tempo demais aprendendo a usar o próprio corpo apenas para fazer rir. Puseram os malabares e os balões numa bolsa velha e subiram no sedã que cheirava a confete e maquiagem.

—Me fala da universidade —pediu Marisol enquanto dirigia em direção à parte alta da cidade—. Você pretende voltar quando pudermos?

—Talvez. Agora o importante é te ajudar. Não quero que você carregue tudo sozinha.

—Sozinha não. Bolha e Luzinha, a dupla invencível —brincou, e de Camila escapou uma risada fresca.

***

O endereço as levou a uma casa de fachada moderna, com janelas enormes que refletiam o laranja do entardecer e uma piscina iluminada por baixo. Não havia balões na entrada, nem guirlandas, nem o burburinho agudo de uma festa infantil. Em vez disso, por trás dos vidros se moviam silhuetas altas e largas, e pela porta entreaberta escapava cheiro de cigarro caro e whisky.

Quem as recebeu foi Damián Castro, o anfitrião: trinta e sete anos, ombros que esticavam uma camisa branca aberta nos primeiros botões, barba aparada e olhos verdes que as percorreram de cima a baixo com uma intenção que não era cortesia. Ele se deteve primeiro na saia de Camila, depois no decote da fantasia larga de Marisol.

—Sejam bem-vindas. Sou Damián. Vocês devem ser as palhaças. Entrem, a festa já começou.

Lá dentro a casa vibrava com música de grave profundo e risadas grossas. Quinze homens bebiam na sala, sem uma única criança à vista, e todos os olhares se voltaram para elas quando entraram.

—Com licença —disse Marisol, ajeitando a peruca—. Onde estão as crianças? Nos contrataram para uma festa infantil.

—Vi as fotos de vocês nas redes, principalmente as suas, Camila —respondeu Damián com um sorriso lento—. Essa fantasia me fez pensar que era um show para adultos. Aqui não tem criança nenhuma, só homens comemorando meu aniversário. Mas eu pago igual. Na verdade: se adaptarem o número para algo um pouco mais... divertido, eu pago o dobro.

Camila sentiu o rubor subir do pescoço até as orelhas. Marisol se endireitou de repente, o instinto protetor tensionando seus ombros, mas o valor já fazia seu trabalho na cabeça dela. O dobro é a hipoteca atrasada, as contas médicas e um mês para respirar.

—O dobro —repetiu, medindo cada palavra—. Explique. Que tipo de adaptação?

—Algo com mais movimento, mais pele —disse ele, baixando a voz—. As curvas de vocês merecem coisa melhor do que balões. É só entre amigos.

Mãe e filha se olharam. Havia alarme naquele olhar, mas também uma pergunta que nenhuma delas ousou dizer em voz alta. Marisol pensou na luz que poderiam cortar qualquer dia, no envelope que aquele homem prometia.

—Tudo bem —concedeu por fim—. Começamos com o nosso e vemos. Mas nada que a gente não queira. E no nosso ritmo.

***

Damián se recostou num sofá de couro e ergueu o copo de whisky.

—Vamos. Mostrem o que vocês têm, Bolha e Luzinha.

Camila começou com três bolinhas coloridas, os braços se movendo com graça, o tronco girando para acrescentar drama. Cada giro fazia a saia curta subir por um instante e cair de novo. Marisol encheu um balão comprido, moldou-o em forma de cachorro com voltas rápidas de suas mãos experientes e soltou uma piada velha sobre palhaços desastrados. Os homens riam, mas não era uma risada inocente: era apreciação crua, olhares que se demoravam no balanço do peito de uma e no vaivém dos quadris da outra.

—Lindo truque, Bolha —soltou um convidado corpulento, de barba espessa—. Mas imagino que você pudesse fazer algo mais interessante com essa boca.

Marisol sentiu o comentário como um golpe quente no ventre. Desviou com uma piada rápida —algo sobre inflar um elefante e a falta de pulmões— e a sala explodiu em gargalhadas, mas o ar já tinha mudado. Os olhares ficavam mais famintos, e mais de um se ajeitava discretamente no assento.

—Esse seu corpo se mexe sozinho, Luzinha —disse outro, mais jovem, com tatuagens nos braços—. Não pensa em usar ele pra outra coisa além de girar bolinhas?

Camila não interrompeu os malabares, mas o comentário a fez perceber como se movia, como a saia subia a cada giro e um calor crescia entre as pernas sem pedir licença. Damián ergueu a mão para acalmar as risadas.

—Deixem elas trabalhar. Mas o pagamento extra continua de pé se elevarem o nível. Nada de balões. Queremos ver do que vocês são feitas.

Marisol deixou o balão de lado e se aproximou da filha. Pensou outra vez nas contas empilhadas, no alívio que aquele envelope significava. E, por baixo desse cálculo, reconheceu algo mais incômodo: o desejo reprimido que carregava havia anos, despertando no pior momento.

—Com o dobro a gente quita tudo —sussurrou Camila, deixando as bolinhas caírem na bolsa com mãos um pouco trêmulas—. Só um pouco mais... divertido.

O sussurro roçou sua orelha como uma carícia.

—Tá bom —disse Marisol para a sala, a voz rouca, ganhando um tom de desafio—. A gente se adapta. Mas no nosso ritmo.

***

Começou pela peruca. Marisol a tirou devagar e deixou o cabelo preto, com fios prateados, cair sobre os ombros. Sacudiu a cabeça e um murmúrio baixo percorreu a sala. Camila a imitou, soltando o cabelo longo até a metade das costas e passando os dedos por ele. A maquiagem exagerada escorria com o calor, misturando-se ao suor em linhas brancas e pretas que lhes davam um ar mais selvagem, mais exposto.

—Muito melhor —disse Damián—. Agora dancem.

Marisol tomou a mão da filha e começou uma dança improvisada ao ritmo da música, que alguém aumentou. Seus quadris largos balançavam com confiança madura; o peito pesado se movia dentro da fantasia. Camila girava ao lado, mais brincalhona, deixando a saia subir o suficiente. Um homem de cabelo grisalho se inclinou para a frente, os olhos fixos no decote de Marisol.

—Essas tetas são impressionantes, Bolha. Não esconde isso.

Marisol desabotoou os primeiros botões da fantasia com dedos que já não tremiam de medo. O decote se abriu e deixou à mostra a parte superior dos seios, a pele morena brilhando de suor sob as luzes baixas. Camila, estimulada, abriu o zíper lateral do top e mostrou o contorno firme dos seus, os mamilos marcando contra a borda do tecido.

Damián se levantou e se aproximou. A camisa aberta deixava ver o peito tonificado, e o volume dentro da calça já se marcava com clareza. Estendeu uma mão para Marisol.

—Me deixa.

Ela não se afastou. Ao contrário: tomou a iniciativa e pressionou o peito contra o torso dele num roçar deliberado, lento, sentindo a rigidez que crescia contra seu quadril. Damián inclinou a cabeça e a beijou fundo, com a língua urgente, e ela respondeu com uma fome contida durante anos, as unhas se cravando na camisa dele. O gosto de whisky lhe encheu a boca.

A um metro dali, um convidado girou Camila com firmeza para admirá-la de perto, os dedos pousando de leve na curva de suas nádegas.

—Esse coração que você traz atrás é uma tentação, Luzinha —murmurou contra sua orelha.

Ela respondeu com um movimento brincalhão, roçando-se contra ele por um instante. Outro a beijou no pescoço, descendo pela garganta até o decote entreaberto, e Camila sentiu o calor se concentrar entre as pernas até se tornar impossível de ignorar.

***

Os homens formaram um círculo mais fechado, as respirações pesadas, o atrito de roupas sendo desabotoadas. Marisol guiou uma mão grande até seu peito exposto e deixou que aqueles dedos apertassem a carne até afundar nela. Camila ergueu a saia e se deixou tocar, a mão de um desconhecido percorrendo seu quadril, outro beijando seu pescoço, duas bocas e quatro mãos reivindicando seu corpo ao mesmo tempo.

Damián as conduziu até o sofá central, cercadas pelo semicírculo de corpos. Os homens abriram as calças; Marisol tomou um entre seus seios pesados, apertando-os para envolvê-lo, e subiu e desceu num ritmo lento enquanto inclinava a cabeça para lamber a ponta. Camila alternava entre vários, a língua desenhando cada relevo antes de fechar os lábios e sugar, a saliva escorrendo pelo queixo até o peito.

Por cima de um ombro alheio, mãe e filha se procuraram com o olhar. Não foi vergonha o que passou entre elas, mas uma cumplicidade muda: o reconhecimento de que aquilo tinha deixado de ser uma transação.

—Chega mais perto —murmurou Marisol, estendendo a mão em direção à filha. Os dedos dela tremiam ao roçar a pele de Camila, e um arrepio idêntico percorreu as duas.

Ela se ajoelhou atrás de Camila sobre o tapete, afastou suas coxas com firmeza suave e baixou a boca. A língua percorreu o comprimento úmido numa passada lenta, e Camila arqueou as costas com um gemido rouco enquanto dois homens se posicionavam atrás da mãe. Um a penetrou por trás com uma investida profunda; outro o substituiu em seguida, revezando-se com um ritmo que fazia sua carne tremer a cada impacto.

Camila, inclinada para a frente, recebia um membro atrás do outro na boca, alternando com voracidade, a língua girando, os lábios se fechando com força.

—Continua assim... —sussurrou, a voz entrecortada—. Você me faz sentir tão cheia.

Marisol respondeu com uma passada ainda mais insistente da língua, perdida no sabor e no prazer da filha ao mesmo tempo em que o próprio corpo se sacudia a cada penetração. A sala tinha se convertido num coro de respirações pesadas, pele contra pele e gemidos baixos que subiam em ondas.

***

Damián guiou Marisol até uma mesa baixa e a ajudou a deitar de costas. O mármore frio contrastou com sua pele ardente. Um homem se colocou entre as pernas dela; outro se ajoelhou sobre seu peito. Camila se aproximou pelo lado e a beijou nos lábios com uma ternura inesperada, as línguas se enredando, enquanto guiava mãos alheias em direção ao próprio corpo.

—Sua pele tem gosto de tudo isso —murmurou Camila entre beijos.

Depois as reorganizaram no chão, de quatro, uma ao lado da outra, as costas arqueadas em curvas distintas: a de Marisol mais larga e madura, a de Camila mais esguia. Os homens se revezavam numa cadeia fluida, passando de uma para a outra sem pausa. Elas se davam as mãos, os dedos entrelaçados e escorregadios, e se olhavam nos olhos entre os suspiros ofegantes, um laço invisível se fortalecendo em meio ao caos.

—Olha pra mim —sussurrou Marisol contra os lábios da filha—. A gente está juntas nisso.

Camila respondeu apertando sua mão com força, o corpo se sacudindo a cada investida, os olhos fixos nos da mãe.

O ritmo não afrouxava. As penetravam por turnos, na boca, por dentro e por fora, uma rotação constante que as mantinha à beira sem deixá-las cair. Num momento as acomodaram uma sobre a outra, Marisol embaixo e Camila por cima, os corpos colados pelo suor, os seios esmagando-se num roçar contínuo enquanto os homens alternavam sem descanso.

—Não aguento mais —ofegou Camila.

—Gozem em cima da gente —acrescentou Marisol, a voz tremendo de urgência.

O fim chegou em uma maré. Os homens as cercaram e se derramaram sobre elas em jatos quentes que lhes cobriram o peito, as costas, o rosto, o cabelo. Mãe e filha se beijavam entre os respingos, as línguas saboreando o alheio misturado à própria saliva, os dedos entrelaçados se apertando com força, os corpos convulsionando juntos em um êxtase compartilhado que parecia não querer terminar.

***

Exaustas, cobertas por uma camada que esfriava sobre a pele, se separaram devagar. Recolheram as fantasias rasgadas com mãos trêmulas, o tecido grudando nos corpos molhados. Damián, recuperando o fôlego, lhes entregou um envelope grosso e roçou a bochecha de Marisol com um dedo.

—Valia cada peso —disse—. Voltem quando quiserem. Tem mais de onde isso veio.

Elas assentiram sem palavras e saíram ao amanhecer. O sol nascente tingia o céu de Acapulco de rosa, em contraste brutal com a crueza do que levavam sobre a pele. No carro, o silêncio era cúmplice.

Chegaram ao apartamento e tomaram banho juntas. A água quente levava em filetes os vestígios da noite. Marisol abraçou a filha por trás, o peito ainda sensível pressionando-se contra ela, e Camila virou a cabeça para buscar os lábios da mãe num beijo lento sob o jato.

—Nunca imaginei isso —murmurou.

Marisol sorriu com cansaço, mas com uma chama nova nos olhos. Depois de secas, conferiu o envelope: notas suficientes para quitar tudo e mais. Então o telefone vibrou. Uma mensagem de número desconhecido, com uma foto anexada: as duas no clímax, entrelaçadas. O texto dizia que tinham adorado a festa, que se um dia quisessem trabalhar assim —com pagamento garantido e discrição total— respondessem àquela mensagem. Que havia clientes dispostos a pagar muito para repetir aquilo.

Marisol sentiu um arrepio na espinha, mas também um calor traiçoeiro que não soube nomear. Desligou o telefone sem responder. Camila, lendo por cima do ombro dela, entreabriu os lábios.

—Mãe...

A porta que se abrira naquela noite não tinha se fechado por completo. E, no silêncio do apartamento, com o sol já alto filtrando-se pelas cortinas, as duas souberam que aquela porta entreaberta só esperava um empurrão para se abrir escancaradamente.

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