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Relatos Ardientes

Minha irmã abriu meu presente e não teve mais volta

A janela panorâmica do sótão tremia sob o açoite da ventania. Bilbao tinha silenciado naquela noite, soterrada por uma nevasca como ninguém lembrava ter visto igual, e o quatorze de fevereiro parecia congelar antes mesmo de começar. Lá dentro também não fazia calor. Marina, minha irmã, atravessava a sala com a elegância tensa de quem não sabe ficar parada, vestida num vestido de seda cinza que se ajustava às suas curvas com uma fidelidade quase ofensiva.

—Eu odeio este dia —disse, servindo-se de um uísque sem gelo—. É um lembrete comercial de que as pessoas preferem mentiras doces a verdades incômodas.

Eu a observava do sofá, na penumbra, com meus vinte e três anos pesando nos ombros como uma corrente elétrica. Para ela, eu sempre fui o irmão mais novo, aquele que a olhava com uma devoção que ela fingia não entender. Mas naquela noite a neve nos tinha isolado. Não havia encontros, nem desculpas, nem portas pelas quais escapar. Só estávamos nós e o sangue que compartilhávamos, o mesmo sangue que me ardia nas veias ao ver o brilho do álcool nos lábios dela.

—Você não precisa de bombons, Marina. Nem de rosas murchas —respondi, e minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia—. Você precisa de alguém que não tenha medo de você. Alguém que saiba que, por baixo dessa armadura de arquiteta, existe um incêndio que ninguém se atreve a tocar.

Ela se virou devagar. Seus olhos verdes, afiados, me dissecaram. Deixou o copo sobre a mesa e se apoiou no piano de cauda, cruzando as pernas longas, vestidas com meias finas que terminavam em scarpins de salto agulha.

—E você se acha esse homem, Adrián? —perguntou com um sorriso carregado de condescendência perigosa—. Você é meu irmão. O normal é me trazer flores por obrigação, não analisar meus desejos.

—Muita coisa é normal. Mas hoje é Dia dos Namorados, e eu tenho um presente para você.

Levantei e fui até ela. Sentia o perfume dela, aquele aroma de sândalo e pele morna que me perseguia havia tempo demais. Tirei do bolso do moletom uma caixinha pequena, embrulhada em papel vermelho, e a deixei sobre o piano, ao lado da mão dela.

—Abre. Ou não abre. Mas, se abrir, precisa saber que não vai haver volta atrás. Eu não serei mais o menino que você cuida.

Ela sustentou meu olhar por um tempo que pareceu uma eternidade. O desafio vibrava entre nós. Por fim, com os dedos longos, rasgou o papel. Dentro, sobre um leito de veludo preto, repousava um conjunto de renda vermelho-sangue, tão explícito que era quase uma provocação. Havia um bilhete com minha letra apressada: «Vista para mim, ou terei que vestir você».

O ar da sala ficou denso, difícil de respirar. Marina pegou a renda nas mãos, acariciando o tecido com uma expressão que eu não soube decifrar. O peito dela subia e descia com uma agitação que denunciava que seu pulso já não era o de uma irmã mais velha tranquila.

—Você sabe o que isso significa? —sussurrou sem me olhar—. Se eu vestir isso, rompemos tudo o que existe entre nós. Manchamos o sobrenome de um jeito que nem toda a neve de Bilbao vai conseguir limpar.

—O sobrenome já está manchado pelo quanto nós nos queremos. Para de fingir. Você me olha há anos quando acha que eu não percebo.

Cheguei mais perto até meus pés roçarem os dela. Tirei a caixa das mãos dela e a larguei sobre o piano.

—Sobe. Veste. E, quando estiver pronta, desce.

Ela me olhou uma última vez. Não havia medo nos olhos dela, e sim uma luxúria escura que acabava de despertar depois de anos em hibernação. Pegou a renda vermelha, virou-se e subiu a escada. O som dos saltos sobre a madeira era como o tique-taque de uma bomba prestes a explodir.

***

Fiquei sozinho, com o coração martelando as costelas. Fui até a janela panorâmica e vi a neve continuar soterrando a cidade. Estávamos presos numa bolha de vidro e pecado. Minhas mãos tremiam, não de medo, mas de uma antecipação animal que vinha se formando havia tempo demais na escuridão.

Uns passos no andar de cima me obrigaram a me virar. O ruído dos saltos pelo corredor era lento, deliberado, uma tortura rítmica. Então a vi surgir no topo da escada.

Marina já não era a mulher fria e eficiente que subira minutos antes. Tinha se despido da seda cinza e de qualquer vestígio de dúvida. O conjunto vermelho se ajustava ao corpo dela como se tivesse sido tecido sobre a pele. O tom sangue realçava a brancura das coxas e a plenitude dos seios, que a renda mal continha.

Desceu os degraus sem tirar os olhos dos meus. Aos trinta e seis anos, caminhava com plena consciência do poder que sua maturidade exercia sobre a minha obsessão.

—Era isso que você queria ver? —perguntou ao alcançar o último degrau, com uma voz carregada de um erotismo gélido que me deixou cada músculo tenso—. Sua irmã transformada na sua fantasia mais suja?

Não respondi com palavras. Atravessei a sala em duas passadas e a prendi pela cintura. Ao roçar no lado nu dela, ela soltou um suspiro curto. A pele dela ardia. Puxei-a para mim, obrigando-a a sentir a dureza do meu desejo por cima da calça. Ela cravou as unhas nos meus ombros.

—Olha você... —sussurrou, o hálito de uísque roçando meus lábios—. Você treme como um menino, mas me olha como um lobo. Sabe o que nossos pais diriam?

—Diriam que somos os monstros que eles criaram —respondi, e, sem dar tempo para ela replicar, capturei seus lábios com um beijo violento, faminto, que tinha gosto de traição e de uma necessidade desesperada.

Marina não resistiu. Me devolveu o beijo com uma fúria que me deixou sem ar, a língua dela reivindicando a minha com a autoridade que só ela tinha. Empurrei-a até a grande mesa de jantar de madeira escura, a mesma que sempre fora o símbolo da nossa retidão familiar. Varri com o braço o caminho de mesa e um vaso de flores secas, e a ergui para a superfície fria num movimento brusco.

As pernas dela se abriram para me receber, as meias roçando minhas coxas. A imagem era obscena e perfeita: o corpo maduro, cheio e experiente dela, sobre a mesa onde jantávamos em família.

—Hoje não há hierarquia —disse ao ouvido dela, enquanto descia as mãos pelas coxas e sentia a umidade que já encharcava a renda—. Hoje só existe fome. E você tem tanta quanto eu.

—Prova —desafiou, jogando a cabeça para trás e expondo o pescoço—. Quebra o tabu, Adrián. Me quebra.

***

O vaso se espatifou no chão, e aquele foi o último som a pertencer ao mundo da razão. Marina ficou reclinada sobre a madeira, com a coluna arqueada e os olhos presos nos meus, carregados de desafio e de uma luxúria que beirava o pânico.

Não tive piedade da lingerie. Procurei o fecho da renda e, com um puxão seco, libertei a plenitude dos seios dela. Vê-los expostos ao frio da sala enquanto ela tremia sob meu toque foi como levar um choque. Peguei-os com as mãos, apertando-os com uma possessividade que a fez gritar.

—Desgraçado, Adrián... —gemeu, enquanto meus lábios marcavam seu pescoço—. Você vai acabar comigo.

—Nós já estamos acabados, Marina. Desde aquele olhar no funeral do papai, nós dois sabíamos que terminaríamos assim.

Me livrei da minha própria roupa com urgência animal. Quando minha pele nua encostou na dela, o contraste fez os dois de nós gemermos ao mesmo tempo. Ela abriu mais as pernas, me envolvendo com as coxas fortes. Me olhava com espanto: o menino que ela guardava na memória tinha desaparecido.

Conduzi meu desejo até o centro dela e a encontrei encharcada, pronta. Ao entrar nela, o mundo parou. Foi uma invasão total que a deixou sem fôlego. Marina jogou a cabeça para trás, cravando as unhas na madeira, o rosto contraído entre o êxtase e a agonia.

—Adrián! —gritou meu nome, mas já não era um aviso. Era um pedido de socorro.

Comecei a me mover com um ritmo implacável. Não havia delicadeza, só a necessidade de reivindicar cada centímetro do interior dela, de lembrá-la de que o nosso sangue era o mesmo e que, por isso mesmo, ninguém a conheceria jamais como eu. A mesa vibrava a cada investida, nos afastando da moral e nos afundando no abismo.

Marina, a mulher que sempre tinha o controle, desmoronava sob o meu corpo. As mãos dela, que antes comandavam, agora se agarravam aos meus braços buscando confirmar que aquilo era real. Os gemidos dela se tornaram incoerentes.

—Você é minha, Marina... —rosnei ao ouvido dela—. Do seu sangue e de mais ninguém.

—Sou sua... —admitiu com a voz quebrada—. Me faça sua para sempre.

A explosão nos atingiu com uma violência cega enquanto a neve continuava caindo lá fora, apagando o rastro de um mundo que para nós já não existia.

***

O eco dos nossos suspiros ainda flutuava entre as vigas quando a ergui da mesa. Marina estava mole, com o olhar perdido, como se a realidade tivesse sido drenada dos ossos dela. O conjunto vermelho jazia no chão, um trapo de tecido que parecia uma ferida aberta sobre o tapete.

—Ainda não terminamos —sussurrei, carregando-a nos braços.

Subi até o banheiro principal, um santuário de mármore preto e espelhos. Sentei-a na beira da banheira e abri a torneira. A água quente encheu o espaço de vapor, embaçando o vidro, nos isolando ainda mais.

Marina me observava com uma fascinação nova. A autoridade que sempre a envolvera havia se transformado numa submissão curiosa sob o olhar do irmão mais novo.

—O que você vai fazer agora? —perguntou, recuperando um pouco do tom de comando, embora agora parecesse cristal quebrado—. Já tirou tudo de mim, Adrián. Meu orgulho, meu segredo... até o meu lugar naquela mesa.

—Vou te limpar da culpa —respondi, pegando uma esponja com sabonete de sândalo—. E depois vou te mostrar que um corpo como o seu não foi feito para castigo, e sim para adoração constante.

Entrei na banheira com ela. Comecei a passar a esponja pelos ombros dela, pela curva das costas, com uma lentidão torturante. O vapor fazia a pele dela brilhar. Marina fechou os olhos e apoiou a cabeça no meu ombro, mas a água não apagava o fogo: só o deixava mais denso.

Ao chegar aos seios, meu toque se tornou possessivo. O sabonete fazia minhas mãos deslizarem com uma facilidade obscena. Ela soltou um suspiro longo quando meus polegares encontraram os mamilos endurecidos.

—Olha para o espelho, Marina —ordenei, segurando-a pela nuca para obrigá-la a ver o reflexo embaçado—. O mesmo rosto, os mesmos olhos... e a mesma fome.

Ela abriu os olhos e se viu: eu, jovem, envolvendo o corpo de mulher madura dela num abraço que desafiava todas as leis. Aquela mistura da pureza da água contra a sujeira do nosso segredo disparou a adrenalina dela de novo.

—É um pecado tão lindo... —murmurou, virando-se para ficar montada nas minhas coxas—. Se vamos arder, Adrián, que seja a combustão mais longa da nossa vida. Não para. Não até eu esquecer o meu próprio sobrenome.

***

O vapor se dissipou e a umidade fria nos empurrou para o quarto principal. O quarto de Marina era um templo à sofisticação dela: lençóis de seda preta, móveis minimalistas e aquele silêncio que só dinheiro e solidão compram. Até aquela noite.

Deixei-a no centro da cama. O contraste da pele úmida dela contra a seda preta era uma visão que faria qualquer um se ajoelhar. Ela ficou estendida, com o cabelo castanho espalhado pelo travesseiro, me olhando com uma mistura de cansaço e expectativa.

—Você é insaciável —sussurrou, embora as mãos dela buscassem de novo meus pulsos, como se temesse que eu me afastasse.

—Você ainda não viu nada. O Dia dos Namorados não acabou.

Fui até a penteadeira e voltei com um frasco de óleo de jasmim. Fiz com que ela se deitasse de bruços, pressionando minhas mãos contra as escápulas dela. O óleo frio caiu na base da coluna, deslizando pela curva das ancas. Comecei a massageá-la com uma lentidão quase clínica, mas carregada de intenção.

—Relaxa para mim —ordenei, a boca colada à nuca dela—. Se você confia no meu sangue para te amar, confie na minha mão para reivindicar você por inteiro.

Senti a resistência dela ceder centímetro por centímetro. Marina enterrou o rosto no travesseiro, soltando um gemido que era metade protesto e metade rendição. Não era só sexo; era uma reivindicação. Eu estava entrando no lugar mais íntimo da mulher que me vira crescer.

—Deus não está aqui esta noite, Marina. Só estamos nós e essa fome que vai nos consumir.

Ela já não lutava: cooperava, empurrando para trás, buscando o prazer e o limite misturados. Na escuridão do sótão cercado de neve, Marina deixou de ser minha protetora para se tornar minha cúmplice carnal.

***

O ar cheirava a suor e jasmim quando um som agudo rasgou a atmosfera: o celular vibrando sobre a mesinha de cabeceira.

Ela se tensionou. Lançou um olhar de soslaio para a tela.

—É ele... —sussurrou com a voz partida. Era o ex-marido dela, um homem controlador que ainda acreditava ter direitos sobre ela—. Adrián, para... eu tenho que...

—Não —interrompi, segurando as coxas dela com uma força que não admitia réplica—. Você vai atender. Mas não vai sair daqui.

—Você enlouqueceu? Se ele ouvir alguma coisa...

—Se ele ouvir alguma coisa, vai saber que finalmente você pertence ao único homem que compartilha seu sangue. Atende.

Pus o telefone na mão dela justo antes de retomar o movimento atrás dela, lento, profundo. Marina conteve um grito e deslizou o dedo pela tela com dedos trêmulos.

—Alô? —conseguiu dizer, tentando soar profissional, embora a falha na respiração fosse evidente.

—Marina, por que você demora tanto? Já te liguei três vezes —a voz do outro lado soava fria—. A tempestade cortou a estrada, mas amanhã vou falar dos documentos.

Eu não parei. Pelo contrário. Minhas investidas faziam o corpo dela bater no meu com um som úmido que ecoava no silêncio. Ela apertou os dentes para não se denunciar.

—Sim... amanhã está bom —disse, com um suspiro ofegante que disfarçou como cansaço—. Estou um pouco cansada por causa da neve.

—Você está estranha. Está sozinha?

Nesse momento enfiei a mão nos cabelos dela e a obriguei a se arquear mais, invadindo-a com uma estocada tão profunda que ela perdeu o controle.

—Ah...! —soltou, e no meio do caminho transformou isso numa tosse forçada—. Sim, sozinha. Adrián está dormindo no outro quarto.

Ouvir o nome da nossa família sair dos lábios dela enquanto eu a possuía sob o olhar invisível do ex-marido foi o afrodisíaco mais potente que eu jamais havia sentido.

—Então dorme. Amanhã nos vemos —ele desligou.

Marina deixou o telefone cair no tapete e se virou com uma fúria renovada, enlaçando meu pescoço e me beijando com uma desesperação quase violenta. O risco de ser descoberta a tinha incendiado de uma forma desumana.

—Você é um demônio, Adrián... meu pequeno demônio —ofegou contra meus lábios—. Você me humilhou na frente dele sem que ele soubesse.

—Eu não te humilhei. Eu te libertei. Agora você sabe que não deve nada a ninguém, exceto ao sangue que nos une.

***

O silêncio que se seguiu à ligação foi mais ensurdecedor que a própria campainha. Marina tremia, uma mistura de terror residual e desejo que a deixava desarmada.

—Você me fez pecar do jeito mais rasteiro —sussurrou, embora as pernas dela se enroscassem nas minhas—. Você quebrou todas as minhas defesas.

—Ainda falta uma. A última.

Saí da cama e peguei no chão os trapos do conjunto vermelho que eu tinha rasgado na sala. A renda, embora destruída, ainda era resistente. Voltei para o lado dela e, sem dizer uma palavra, peguei seus pulsos. Ela não ofereceu resistência. Com movimentos lentos, usei o tecido vermelho para amarrar as mãos dela à cabeceira entalhada da cama.

A imagem era requintada: a mulher mais centrada que eu conhecia, imobilizada pelos restos de um presente pecaminoso, à mercê do próprio irmão. O vermelho da renda contra a brancura dos pulsos dela era o símbolo do nosso pacto.

—Aqui não há nomes, nem títulos, nem passado —disse, me colocando sobre ela—. Só este momento.

Amarrada, o corpo dela se oferecia por inteiro, arqueando-se na minha direção. Beijei-a de novo, desta vez com uma lentidão torturante, percorrendo o ventre, os seios pesados. Saber que ela não podia se mexer, que dependia da minha vontade para alcançar o alívio, a levou a um estado que roçava o delírio.

Eu a possuí com uma profundidade que buscava a alma por trás da carne. A cama rangia, rítmica, implacável. Marina puxava as amarras vermelhas, os músculos dela se retesando numa luta inútil que só aumentava o prazer. Os gemidos dela eram crus, despidos de toda elegância.

—Não para! Adrián, por favor, não para! —gritava, com o rosto encharcado de suor.

Levei-a à beira várias vezes, parando justamente antes de ela explodir, obrigando-a a implorar, a reconhecer que eu era seu dono, seu irmão e seu amante. Quando enfim permiti que o êxtase nos tomasse, ela gritou meu nome com uma força que fez os espelhos vibrarem.

***

O primeiro raio de sol se filtrou pelas frestas das persianas. Bilbao amanhecia sob um manto de neve branca e silenciosa, uma ironia visual diante do cenário de devastação carnal que era o quarto.

Me sentei devagar. Marina ainda estava ali, com os pulsos presos pelos trapos vermelhos. Tinha os olhos abertos, fixos no teto, com uma serenidade absoluta que me gelou o sangue. Já não havia medo, nem culpa, nem a autoridade de irmã mais velha. Só a mulher que tinha sido reivindicada até a medula.

Desfiz os nós com cuidado. As mãos dela caíram sobre os lençóis, dormentes. Beijei seus dedos um a um.

—Parou de nevar —sussurrei.

Ela se virou para mim e, pela primeira vez na minha vida, me viu de verdade. Não como o menino que precisava ser protegido, nem como o erro que precisava ser escondido. Me viu como seu igual.

—O mundo vai acordar agora, Adrián —disse, recuperando uma firmeza nova—. O telefone vai voltar a tocar, os advogados vão ligar, e amanhã vou ter que voltar a ser a arquiteta séria diante de todos.

—Eu sei. E eu vou voltar a ser o irmão que te acompanha aos jantares de família e te olha do outro lado da mesa —respondi, acariciando o rosto dela—. Mas nós dois vamos saber o que existe por baixo do seu traje. Vamos saber que o vermelho deste Dia dos Namorados nunca vai sair.

Marina sorriu, um sorriso lento e perigoso que me prometia mil noites como aquela. Ela se aproximou do meu ouvido.

—Lá fora, somos os irmãos perfeitos. Aqui dentro, somos o pecado que ninguém ousaria imaginar. Todo quatorze de fevereiro, e toda noite em que a fome nos consumir, voltaremos a este altar. Porque agora eu sei que ninguém pode me amar como o homem que carrega meu próprio nome nas veias.

Ela se ergueu com uma graça majestosa, recolheu os restos do conjunto vermelho e caminhou até a lareira. Acendeu um fósforo e deixou a renda queimar, observando as chamas consumirem a última prova da nossa transgressão.

—Se vista, Adrián —sentenciou, virando-se para mim com aquele olhar de comando que agora me pertencia—. Temos uma vida para fingir e um segredo para aproveitar para sempre.

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