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Relatos Ardientes

O que minha avó e eu fizemos para continuar vivos

Nota: este é um relato de ficção ambientado no êxodo de civis pela estrada da costa durante a Guerra Civil espanhola. Os personagens são inventados; o pano de fundo histórico serve unicamente como ambientação.

Como chegamos até aqui? pensou Remedios enquanto puxava a calcinha para cima e esticava a saia sobre as coxas. Uma anestesia amarga lhe corria nas veias. Não sentia dor, nem sequer nojo: só a umidade incômoda do miliciano esfriando entre as pernas e a raiva de não ter um pingo de água limpa para apagar aquela marca. Tinha sido tão rápido que nem sequer chegara a senti-lo.

Tinha quarenta e quatro anos, e os últimos quatro dias a haviam envelhecido dez. Passou de leve pela lembrança do marido morto em seus braços, com a cabeça estourada, já fazia quase duas noites. Passou com igual pressa pelas ameaças daquele general que cuspia pela rádio entre uma estática que devorava tudo. Aquilo não tinha sido prostituição, disse a si mesma: tinha sido uma troca. Um punhado de batatas em troca de um momento com um miliciano que mal levantava um palmo do chão da adolescência.

Refugiou-se nas lembranças de menos de um ano atrás, quando tudo aquilo ainda parecia impossível. A casa dos Amendoeiros, os lanches de chocolate, o cheiro de cera de igreja aos domingos. Então os vizinhos começaram a desaparecer de um dia para o outro, e ninguém perguntava, e ninguém falava. Casas inteiras foram confiscadas pelos comitês e pelos sindicatos, o mesmo sindicato em que militava Eduardo, o Lalo dela, o químico da fundição que agora apodrecia numa valeta.

Sob o peso do abrigo improvisado com cobertores cheirando a umidade e medo, Remedios abraçou Pilar. A menina tremia. Não pense no que farão se descobrirem uma vermelhinha e a filha dela, ordenou a si mesma. Tomás, o mais velho, de dezenove anos, tinha saído ao meio-dia escondendo-se entre as pedras, como tantas outras vezes, e ainda não tinha voltado. Mas sempre voltava.

Dolores, sua sogra, tinha vivido quase toda a vida nos Amendoeiros, mas carregava um passado que lhe escurecia a pele. Nas festas murmurava-se que era calé, uma cigana de algum dos bairros de barracos que cercavam a cidade, ou no mínimo uma mestiça sem linhagem. Ninguém sabia ao certo e ninguém ousava perguntar. Remedios só sabia uma coisa: que podia contar com ela até no pior dos infernos.

A velha preparava em silêncio as batatas que a nora havia trazido. Não chorara a morte do filho; guardara a dor sob aquela pele morena e se dedicara a manter vivos os que restavam. De vez em quando olhava as costas largas de Rafael, o outro neto, montando guarda numa sombra profunda. Esse já não é um menino, pensava. Pressentia de onde tinham saído as batatas, mas Deus a perdoaria, porque, se não perdoasse, quem merecia a condenação era Ele.

A Rafael deram o nome do avô falecido, e ele se parecia tanto com ele que Dolores, aos sessenta e quatro anos, às vezes ficava olhando para o neto como embasbacada. Tinha vinte anos, era mais alto que Tomás e forte como um touro de lide. Gostava de nadar; assim que podia fugia para o mar, até mesmo no auge do inverno. Naquela tarde não pensava em nada: apenas vigiava a caravana de refugiados que se arrastava para o leste, a cem metros dele, sob a sombra vertical de uma alfarrobeira.

Longe dali, refazendo o caminho da caravana, avançava Tomás. Movia-se rápido, agachando-se entre as pedras, mais desajeitado do que imaginava. Um grupo de soldados passou a poucos metros sem vê-lo, e ele riu por dentro daquelas feras. A duzentos passos distinguiu alguns uniformes familiares: uma dezena de homens caminhando em formação caótica, rindo e humilhando os refugiados com quem cruzavam.

—¡Arriba España! —gritou ao reconhecer o rosto do chefe da Falange—. Não vai saudar um camarada, Ezequiel?

Os camisas-azuis apontaram os fuzis para a voz com uma lentidão que teria feito qualquer soldado de verdade rir. Tomás ergueu as mãos por cima das pedras antes de se levantar.

—Não atirem! —ordenou Ezequiel, e depois sorriu—. Esse filho da puta é dos nossos.

Tomás se aproximou sem baixar totalmente as mãos. Tinham compartilhado reuniões clandestinas na cidade, mas mal sabiam alguma coisa um do outro: era mais seguro assim, caso chegassem as torturas. Ezequiel sabia que Tomás vinha de boa família e tinha ideias firmes; Tomás sabia que Ezequiel dirigia a Falange local, embora fosse de um povoado do sul. Nada mais.

—Fico feliz em te ver, chefe —disse Tomás, abraçando-o e reconhecendo entre os demais mais alguns rostos conhecidos—. E vocês também.

—Você está uma merda, camarada —respondeu um deles.

—Coisas da guerra —retrucou ele, lembrando-se do cadáver despedaçado do pai como quem lembra um dano colateral—. Coisas da guerra.

A coluna seguiu avançando e Tomás os guiou de volta, agora sem se esconder, embriagado por aquele novo poder. Cruzaram com alguns retardatários dos quais zombaram antes de Ezequiel acabar com eles com um tiro. Cadáveres por toda parte.

—Olhem! —disse Cosme, um veterano, apontando para a costa.

Tão perto que quase se podia ler seu nome, um cruzador avançava ruidoso seguindo a mesma linha que eles.

—Volta a seguir matando vermelhos —riu Cosme—. Vamos ver se não deixa algum para nós.

***

Faltava pouco para o entardecer quando, depois de dividirem a ração, chegaram ao ponto em que a família de Tomás deveria continuar escondida, protegida por aquele sentinela de costas largas. Ele ardia de vontade de apresentá-los aos camaradas; assim sua mãe acabaria perdoando o que consideraria uma traição.

Mas, ao se aproximar do abrigo, o que viu derrubou sua mente de uma vez só. Um mercenário bigodudo se afastava rindo em direção a outros três, terminando de abotoar as calças, deixando para trás um embrulho de roupas no chão. As roupas se mexiam sozinhas. Havia alguém dentro.

Era Rafael. Coberto de sangue, com uma ferida profunda de baioneta no ventre. Seu irmão — não, seu irmão mais forte — tentou lhe dedicar um sorriso que não passou de uma careta vermelha. E, quando Tomás achava que aquilo já não podia se quebrar mais, um disparo seco voltou a deixá-lo de mente em branco. Rafael ficou imóvel aos seus pés.

—Enfim pesquei um vermelho! —gritou Cosme, e todos riram.

Tomás também riu. Foi um reflexo que passou por cima da consciência dele, porque sua mente estava em outro lugar, vasculhando os arbustos em busca do resto dos seus. Entre algumas moitas descobriu um brilho escuro. Um rosto. Não havia dúvida: era Dolores, sua avó. Engoliu em seco e conteve o arrepio.

De repente voltou à infância, às histórias que ela lhe contava: o avô na guerra de Cuba, as caravanas de carroças, as fugas noturnas, os sortilégios ciganos. Aquele olhar negro lhe falava sem palavras, recompunha sua mente de uma forma estranha. Acima das ideias, acima da guerra, você tem que proteger os seus. Rafael já estava morto; chorariam depois, vingariam depois. Tudo isso lhe veio claro dos olhos da avó.

O contato durou apenas alguns segundos. Dolores sentiu que a mensagem havia sido recebida, que o neto se calaria, que os esconderia como, quando criança, escondia as velhas crenças que ela lhe ensinava. “O sangue que não corre apodrece”, dizia sua própria avó. Lançou um olhar rápido para o outro neto, carne já apodrecendo ao sol, e afastou o pensamento.

Remedios e Pilar se escondiam atrás dela, com os rostos desfeitos de pânico, fora do alcance da vista. Mas os mercenários não eram fáceis de enganar.

—Mnin kayn hna? —gritou o bigodudo, alertando os outros dois.

Os três ergueram os fuzis para o rosto antes que qualquer falangista entendesse o que estava acontecendo. Antes que apertassem o gatilho, Dolores saiu do esconderijo com os braços erguidos, apenas acima da cabeça. O cabelo grisalho preso num coque desfeito, as roupas sujas ocultando sua antiga condição: parecia uma mendiga. Parecia outra coisa.

Os marroquinos contiveram o dedo. A risada lhes sumiu do rosto. Já tinham encontrado ciganas na serra e sabiam o que se contava nos acampamentos: adivinhas, feiticeiras, maldições que te perseguiam além da morte. Aquela mulher era a imagem viva de uma bruxa, e com sua mera presença os fez recuar um passo sem deixar de apontá-la.

Cosme afastou as moitas com a baioneta calada, procurando de onde tinha saído aquela aparição, enquanto a velha, sem mover os olhos, suplicava às Sombras que protegessem os seus.

—Aqui não há mais ninguém —disse por fim.

Os falangistas, o neto dela entre eles, se aproximaram apontando-lhe as armas. Antes que Ezequiel falasse, foi Tomás quem o fez.

—Quem é você e o que faz aqui? —disse, sustentando o olhar da própria avó.

—Dolores. Dolores Amaya —respondeu ela, e aquele tom fez um arrepio percorrer a dúzia de homens—. Vou para o leste. Com os demais.

—Cuidado, Tomás! —saltou Ezequiel—. Esses nunca andam sozinhos.

—Onde está a sua gente, cigana? —perguntou Tomás, e falangistas e mercenários olharam para todos os lados, apontando nervosos para as sombras.

Isso, menino: confunda-os. Dolores permaneceu em silêncio.

—Estou perguntando onde está a sua gente! —gritou Ezequiel, se aproximando com a pistola na mão.

Ela nem sequer olhou para a arma. Se tivesse de morrer, morreria sustentando o olhar daquele chefete. Com as mãos erguidas, começou a mexer os polegares, colocando-os devagar entre os dedos.

—Tire as mãos daí ou eu corto! —encostou a pistola em sua têmpora, sem conseguir apagar o olhar dela.

—Calma —interveio Tomás, com um medo que não era fingido, olhando para o matagal baixo que quase os cercava—. Quer morrer hoje aqui?

—Essa gente não vale nada! —cuspiu Ezequiel.

—Sim, não vale… mas até merda pode te matar —contradisse-se ele, recuando—. Temos de ir embora, estamos expostos. Vamos levá-la, pode nos servir.

***

Ninguém baixou a arma até Dolores estar amarrada, e os nervos não afrouxaram até acreditarem ter deixado a armadilha para trás. Mas a armadilha ia com eles. Quando o ruído dos homens quase se apagou, Remedios e Pilar saíram rastejando do esconderijo, ajoelharam-se junto ao corpo de Rafael e rezaram por ele entre lágrimas. E então algo se quebrou dentro de Remedios. A raiva a devorou por inteiro. Ela não resistiu: deixou que aquela sensação comandasse tudo, que lhe acalmasse a dor. Se tivermos de morrer, morreremos. E se tiver de descer ao inferno, desceremos rindo, depois de uma vingança brutal.

Falangistas e mercenários caminharam até o ocaso. Tiveram de acampar; pareciam ter ficado isolados. Nem sequer acenderam fogo: os ciganos poderiam localizá-los ou, pior ainda, o cruzador poderia confundí-los com vermelhos. Arrastavam a prisioneira, útil apenas como escudo, nisso concordavam uns e outros.

Ezequiel estava numa posição difícil com seus homens e com seus superiores. Tinha ordenado aquele avanço sem permissão, para que os camaradas se sentissem valentes; voltar com uma prisioneira não lhe garantia medalhas. Seus falangistas estavam à beira do colapso, exaustos, carregando uma mulher que lhes causava uma inquietação desnecessária. Os mercenários também não estavam nada seguros.

—Tenho que acabar com isso —murmurou Ezequiel, só para Tomás, sentado ao seu lado.

Tomás adivinhou de imediato suas intenções: sob a pouca luz da lua minguante, viu-o sacar a pistola. Aquilo cortou de vez seus pensamentos sobre a agonia do irmão.

Dolores viu levantar-se a sombra do chefete e soube que lhe restavam minutos se ninguém fizesse algo extremo. Deixara o rosto, quase apagado pela noite, relaxado numa tristeza que ninguém veria.

—Espera… —disse Tomás, ganhando tempo—. Não… não antes de eu me divertir um pouco com ela.

Ezequiel parou, acreditando não ter ouvido direito.

—Como…? —a confusão em sua voz quase arrancou um sorriso de Tomás.

—Você ouviu o general, não ouviu? —disse, fingindo uma careta sádica que o outro mal percebeu na escuridão—. Todas acabam agradecendo que alguém as toque com firmeza.

A cento e cinquenta metros, Remedios escondia a filha a sotavento. O pai dela, sargento em Cuba, havia lhe contado como os mambises detectavam o inimigo pelo menor cheiro estranho; as roupas de Pilar, encharcadas de medo, seriam um farol para os mercenários. Ao se apoiar no chão, percebeu a lama preta e úmida entre as moitas. Aquilo podia servir. Tirou o casaco puído e começou a se despir: embora rasgada e suja, sua blusa ainda era branca, branca demais. Tinha de chegar muito perto. Tinha de se tornar invisível.

Dolores dominou o arrepio que as palavras do neto lhe provocaram e recompôs a máscara. Sabia que o rapaz tentava ganhar tempo, mas ia ser violentada de verdade ou de mentira, e de mentira isso não deixava de ser um trauma. E havia mil maneiras de tudo dar errado: que sem querer machucasse o rapaz, que ele não conseguisse o que precisava para aquilo. Voltou às lições da avó, àquela atração animal que qualquer mulher podia despertar em qualquer homem só por querer.

Remedios já estava perto, em umas pedras a cerca de dez metros, seminua, o corpo lambuzado de lama. Pilar, como hipnotizada, tinha esfregado as costas dela com aquela sujeira e depois se escondera sem olhar. Remedios viu o filho mais velho entre os falangistas. Mata-o, gritou a mente, embora soubesse que não era o momento.

—Não… não sei… —Ezequiel demorou a superar o espanto—. Como pode gostar de uma mulher assim?

—Shhh —silvou Tomás—. A tropa, chefe! Isso vai levantar o moral deles.

E Ezequiel entendeu: aquilo seria o catalisador. Seus homens deixariam de ser presa de um sortilégio inexistente, subjugariam a bruxa, a avó, e voltariam a ser os valentes a que ele estava acostumado.

—Ei, soldados! —chamou Ezequiel, esquecendo toda prudência, urgido a recuperar os seus—. Parece que tem alguém querendo se divertir!

Uma risadinha rouca saiu da garganta de Dolores, o bastante para não soar ofensiva.

—O que foi, payo? —disse, dominando o medo, voltando às suas raízes ciganas—. Sou mulher demais para você?

—Não, cigana —respondeu Ezequiel—. É que você caiu nas graças do meu camarada.

Tomás esqueceu suas dúvidas e a colocou de pé puxando-a pelo cabelo.

—Calma, moleque —disse ela com o sorriso mais turvo que conseguiu, segurando a mão que a agarrava—. Não precisa se violentar. Eu não desdenho um docinho… como você.

Aquelas duas últimas palavras ecoaram dentro de Tomás, unindo corpo e cabeça de um tranco. Sentiu uma fisgada na virilha. Sua avó o estava atiçando, e ele não entendia como. Vai ser ela a primeira. A virgindade dele ia ficar nas mãos da avó idosa, e ele ia gostar. Se aquilo continuasse assim, tinham uma remota possibilidade de sair vivos.

—Tira a roupa —ordenou, aproximando a boca do ouvido dela—. Dá um espetáculo para nós.

Enquanto Dolores começava a se livrar da roupa, os homens de Ezequiel foram se aproximando, agachados apenas. Quando só lhe restava a roupa de baixo, a velha distinguiu dois pontos de luz na escuridão quase absoluta, atrás dos mercenários. Olhos. Perto demais dos homens para serem de um animal. Pediu às Sombras que lhe dissessem de quem eram, e logo soube: da nora.

Remedios só se permitiu olhar por um instante a nudez quase invisível da sogra. O movimento dos soldados, a três metros, obrigou-a a se concentrar no importante: dois deles se levantavam para se aproximar do espetáculo e apenas um levava o fuzil. À esquerda, apoiadas em suportes, havia uma dezena de armas. Estão quase desarmados, disse a si mesma. O mercenário mais jovem continuava meio deitado ao lado dela, com o fuzil de lado.

Tomás não conseguiu conter a excitação. Não entendia como aquele corpo gasto, agora nu a centímetros dele, lhe provocara uma ereção tão evidente. A mesma pergunta faziam os demais falangistas, em estado idêntico, incluindo Ezequiel, embora nele o que mais acendesse fosse o poder, e não a luxúria.

Totalmente nua, Dolores logo perdeu a vergonha. Tinha de continuar.

—Vamos ver o que eu vou comer… —disse, agachando-se com as pernas bem abertas, ao mesmo tempo baixando as calças e a roupa íntima dele.

Ao adivinhar na penumbra o sexo do neto, agarrou-o com firmeza. Era tão grosso que não cabia no seu polegar e no dedo médio. Um suspiro lhe subiu à garganta e arrancou risadas ao redor. Deixou a mente se partir em duas: a consciente, que buscava a sobrevivência, e a animal, que lhe dizia que aquilo podia ser um paraíso para uma mulher da sua idade. Decidiu que as duas trabalhariam juntas.

—Que peça, hein… —murmurou antes de levá-lo à boca.

Remedios não perdeu tempo. O jovem mercenário vigiava, mas de costas para ela. Pegou uma pedra que teve de levantar com as duas mãos e a deixou cair com toda a força do seu ódio sobre aquele crânio. Mal olhou para ele. Recolheu as duas armas ao alcance e se esgueirou, deixando-o estendido em seu último leito com a pedra ainda sobre as pernas.

Dolores se endireitou acariciando a nuca e o sexo enorme do neto, e procurou na noite o brilho dos olhos de Remedios. Encontrou-os já um pouco adiante do lugar que os dois homens haviam ocupado, movendo-se rápido e em silêncio.

—Você vai meter aqui, moleque… —sussurrou, audível para todos, empurrando os quadris para a frente.

—Depois eu te enfio o cacete, sua vagabunda! —saltou Cosme, se esfregando com raiva.

A velha percebeu algo estranho na linguagem corporal dos dois mercenários restantes. Chamou aquilo de pressentimento.

—Você? —disse, exibindo as nádegas e as abrindo na penumbra—. Você é mais de outra coisa…

Todos riram, menos os marroquinos, que semicerravam os olhos tentando ver na escuridão aquela oferta, babando como animais no cio, esquecidos das dúvidas que pouco antes os corroíam.

Remedios já havia levado as únicas armas carregadas para junto de Pilar. Agora retirava, de três em três, os fuzis apoiados em suportes. Parou agachada junto ao penúltimo, exausta. Isso, senhora Dolores, isso, mostre o rabo para essas feras. Recolheu em silêncio aquelas armas e as levou para onde não pudessem ser encontradas.

Tomás, arrastado pelo lado animal, empurrou Dolores contra uma rocha inclinada, afastando-a dos suportes, exatamente como lhe aconselhava a parte lógica. Deitou-se sobre ela, a testa no ombro dela, guiando o membro em direção ao sexo da idosa. Ela suspirou ao sentir o atrito e, agarrando-o com uma mão, mostrou-lhe o caminho.

—Porra! —arquejou a cigana—. Que pedaço você tem, minha alma! Mete forte, payo!

O neto empurrou algumas vezes, tenso, com as duas mentes em igualdade no comando do corpo. Depois cedeu o controle àquele animal que exigia poder, sem antes deixar a pistola de lado, ao alcance da velha.

Com a noite e o silêncio como aliados, Remedios foi buscar o último suporte. Ele está fodendo ela, pensou, assombrada, distinguindo entre as sombras a silhueta do casal. Meu filho está fodendo a senhora Dolores. Sentiu o calor subir ao rosto e uma umidade inesperada entre as pernas. Sentiu inveja da sogra e a negou… por enquanto.

—Mete forte, querido… —pediu Dolores ao ouvido dele—. Me parte ao meio.

Ezequiel aproveitava o momento, vendo seus homens caírem naquele poço de luxúria. Já não pensavam nos ciganos, nem na falta de reforços; a coragem tinha voltado. Até os marroquinos estavam absortos. Um momento… não eram três? Só via duas silhuetas. Voltou-se para a esquerda, para onde o mais jovem continuava deitado, olhando para eles. Algo ia mal.

Tomás já estava quase entregue ao animal, vendo nos olhos da avó o fogo de uma deusa tão velha quanto o tempo, um rosto ao mesmo tempo mais jovem e mais antigo do que a noite podia lhe mostrar. Sentiu seu próprio gozo subir devagar, incendiando-o por dentro. Soltou um gemido abafado e se derramou dentro dela, que já não era sua avó, nem a senhora Dolores, nem uma idosa: era a terra inteira.

Dolores, transformada em algo maior do que si mesma, sentiu aquela descarga ardente como lava forjando nas entranhas uma sensação selvagem e esquecida: um orgasmo terrível. Soltou um uivo longo para a noite, agradecendo aquele sentimento antigo de plenitude, descarregando anos de dor, devolvendo a si mesma a mente limpa. O uivo arrepiou os dois marroquinos.

Ezequiel compreendeu seu erro quando sentiu o frio do aço afundando em suas entranhas. Viu aquela mulher seminua, lambuzada de lama, empunhando o fuzil cuja baioneta acabara de cravar-lhe acima do ventre. Sentiu a vida ser arrancada por uns olhos que refletiam todo o ódio do mundo, enquanto o uivo daquele lobo levava sua alma embora.

Remedios não se sentia assim havia meses. O general da rádio, o assassino de seu Eduardo e de Rafael, todos aqueles falangistas, todos eram aquele homem que a olhava de olhos arregalados e braços caídos como os de um boneco de marionete. Não é um orgasmo, mas é tudo o que eu quero agora. Aproveitou a sensação por apenas alguns segundos, arrancou a arma de um puxão e saiu correndo em direção às sombras. Ezequiel cambaleou, segurando o ventre, e caiu.

O impacto do corpo contra o chão soou como um trovão. Primeiro gritaram os mercenários em sua língua, depois os falangistas reagiram. Tudo se tornou um tumulto: homens correndo em direção aos dois cadáveres.

Tomás, ainda com a roupa pela metade, rolou sobre a pedra. Dolores não ficou nem um segundo onde ele a deixara: deslizou para longe, pegou a pistola ao passar e se fundiu às suas Sombras. O neto a seguiu com o olhar, com um sorriso absurdo e uma alegria imensa. Corre, avó, corre.

—As armas! —gritou Cosme—. Onde estão as nossas armas!?

—Eu tenho a minha —disse o único que ainda estava armado.

—Mas quem…? —começou o mais jovem, e depois quase gritou—. Ciganos!!

Todos se agacharam, procurando se esconder de um inimigo invisível que não era mais que uma mulher carregada de um ódio vindo do inferno. Levariam uns dois minutos para notar que Dolores tinha sumido, e quase meia hora para perceber que Tomás também tinha desaparecido.

***

Tomás parou a menos de cem metros, retido por uma mão que pareceu brotar do nada. Não sentiu medo: aquela mão firme e áspera só podia ser a da avó. Por gestos, ela o levou até um pequeno barranco onde Remedios, quase tão nua quanto eles e coberta de lama, com Pilar ao lado, ajustava a mira do fuzil sobre as silhuetas confusas daqueles homens desesperados.

Uma mão segurou o cano. Remedios, assustada, só viu o olhar de fogo escuro da sogra. Dolores negou devagar com a cabeça. Se você atirar, eles vão nos ver. A mãe sacudiu a arma com raiva, mas a velha não soltou e voltou a negar. Então Remedios olhou para o filho, vivo, e algo mudou: ela tinha uma família. Ferida, quebrada, mas sua.

Baixou a arma. O peso do aço foi substituído pelo peso morto do próprio esgotamento. Dolores assentiu uma única vez e, com um gesto imperceptível, apontou para o interior da terra, para o mais fundo da serra. Ficavam para trás o horror, os fuzis vazios e o sangue. À frente, só o frio da montanha e a promessa silenciosa de continuar vivos.

—Os ciganos estamos por perto —sussurrou a velha, como tantos anos atrás—. Sempre estamos por perto.

Encontraria sua gente. Daria refúgio aos seus. A vingança esperaria, mas não para sempre.

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