A deusa transexual que sacudiu Valência naquela noite
Liria cruzou o umbral e a luz se apagou de repente. O brilho do plano de onde vinha, saturado de puro prazer, se dissolveu numa claridade tênue e ordinária. O ar, que momentos antes vibrava de êxtase, tornou-se mundano. Cheirava a terra molhada, a pedra velha, a vida comum. Sua pele, acostumada ao brilho constante, sentiu pela primeira vez o contato áspero de um vento terrestre.
Por baixo da roupa, seu corpo continuava intacto. Sua rola em repouso se contraiu de leve, disfarçada contra a coxa. Sua xoxota, oculta sob os absorventes, se umedeceu com uma mistura de excitação e novidade. Seus peitos, comprimidos, agradeceram a brisa deste novo mundo. E o plug que ela levava dentro lhe lembrava, com sua doce pressão, que sua essência não tinha ficado para trás.
Não era o êxtase transbordante do plano que a cercava agora, mas outra coisa. Um desejo contido, subterrâneo, o pulsar do desejo humano em todas as suas formas. A luxúria reprimida de milhões de pessoas que chamavam aquilo de «mundo normal» batia contra ela, e seu próprio corpo respondia sem permissão. Um calor lento lhe subiu pelo ventre. Seu clitóris pulsou. A rola começou a endurecer, alimentada pela energia da cidade.
Ela não trazia bagagem para carregar. Quem a enviara providenciara tudo com antecedência. Um carro discreto a levou por avenidas barulhentas até Ruzafa, um bairro de Valência que fervia de desejos à flor da pele, e a deixou diante de um prédio de fachada ocre com varandas de ferro forjado.
O apartamento ficava no terceiro andar, ao fim de um elevador antigo que chacoalhava em cada piso. Era pequeno, mal quarenta metros quadrados: uma sala com um sofá de veludo verde, uma mesa de pinho, estantes carregadas de poesia erótica e gravuras surrealistas escolhidas para mantê-la conectada ao que era. Cortinas de linho filtravam a luz. A cozinha cheirava ao pão da padaria lá embaixo. Um corredor curto levava ao quarto, com paredes de um branco quente e um piso de parquet que rangia sob seus passos. Sobre a cama pendia uma tapeçaria carmesim, como se alguém tivesse adivinhado que aquele quarto precisaria de abrigo.
Liria se permitiu um momento para absorver seu novo santuário. Tudo nela vibrava, já contido e reprimido pelo tecido. Desempacotou as roupas terrenas — calças folgadas, camisetas largas, um moletom com capuz, calcinhas de algodão preto — e, ao apalpar o forro da mala, encontrou um compartimento oculto. Dentro, envoltos em veludo, estavam os brinquedos que suas mães lhe haviam legado.
Havia um dildo de obsidiana polida, sulcado por veias talhadas que aqueciam ao toque. Um plug de cristal com uma base de gemas que faiscavam com luz própria. Um anel de silicone ajustável, capaz de fazer sua rola inteira vibrar. Uma peça estreita e prateada, fina como uma pena, que liberava rajadas concentradas feitas para pulverizar seu clitóris. E duas esferas de cerâmica branca unidas por um fio discreto, desenhadas para massagear seu ponto G a cada movimento.
Com a respiração entrecortada, roçou o clitóris com um dedo e o sentiu inchar. A rola empurrou contra o tecido; a xoxota e o cu se contraíram contra os plugs que ela já levava colocados. Não conseguiu resistir. Deslizou a peça prateada sobre o clitóris e gemeu ao sentir a vibração subir até o ventre, um fio denso e luminoso salpicando o parquet sob seus pés.
***
Mais tranquila à sua maneira, e impelida pela curiosidade de sua missão, decidiu sair. Vestiu-se para passar despercebida: calcinhas de cintura alta com absorventes, plugs já colocados e vibrando de leve, jeans escuros, uma camiseta cinza grande demais, o moletom com capuz, botas pretas. No bolso, guardou um frasco de lubrificante. O cabelo, preso num coque e escondido sob o capuz, exalava um aroma que os mortais percebiam apenas como uma doce tentação sem nome.
As ruas de paralelepípedo de Ruzafa vibravam com a energia da noite. Cheirava a cerveja artesanal, perfume barato, asfalto ainda quente depois de um dia de sol. Os néons piscavam, a música indie escapava pelas portas dos bares, e os olhares se cruzavam: homens com a camisa aberta, mulheres com saias deixando as coxas à mostra, casais se beijando nos portais. Tudo aquilo despertou seu clitóris sob o absorvente, endureceu a rola contra o tecido, fez a xoxota derramar um suco quente que os absorventes iam sugando sem parar.
O volume entre suas pernas era uma presença que ela ainda não sabia esconder direito. Sentia-o roçar no jeans a cada passo, um farol do que era. Alguns a olhavam com fascínio; outros, com um rubor que não sabiam explicar; alguns poucos, com uma mistura de pavor e um desejo que jamais confessariam. Era evidente demais para um mundo que ainda não estava pronto para ela.
Passou pela praça do mercado, onde um grupo de jovens fumava e bebia. Seus desejos reprimidos batiam na aura de Liria como ondas; cada risada, cada roçar casual, era um convite. Meteu a mão no bolso e esfregou o tecido da calcinha contra o clitóris, apenas de leve, com o cu e a xoxota se contraindo em espasmos internos. Um gemido baixo lhe escapou, abafado pelo burburinho. À sua passagem, desconhecidos coravam ou se tocavam sem perceber, atravessados por uma onda de calor na virilha. A urgência de procurar um canto se tornou insuportável.
***
Entrou em «La Hoguera», um bar da rua de Cuba com paredes de tijolo aparente, luz baixa e mesas tão próximas que os corpos se roçavam sem querer. Pediu um café expresso, a voz trêmula de tensão, a mão já se esfregando sob a mesa com uma urgência que mal disfarçava. Assim que o garçom serviu, levantou-se e correu ao banheiro: um cubículo estreito de azulejos verdes e espelho embaçado. Fechou com um clique que soou como libertação.
Baixou o jeans e a calcinha com mãos ansiosas. A rola saltou livre, dura, pingando. Tirou os plugs e gemeu quando a pressão cedeu, os orifícios abrindo e fechando com avidez. Então sacou os brinquedos. Lubrificou o dildo de obsidiana com o próprio suco, que brotava em abundância, e o introduziu devagar; as veias talhadas massagearam as paredes internas até fazê-la ofegar. Colocou o plug de cristal, cuja vibração profunda ressoou com o dildo. Ajustou o anel na base da rola, e cada microvibração fez a glande pulsar. Deslizou a peça prateada sobre o clitóris. Inseriu as esferas junto ao dildo, e sentiu como lhe pressionavam o ponto G a cada contração.
Masturbou-se com uma fúria que não era deste mundo. Os quadris giravam em círculos desenfreados, apertando-se contra o dildo e os plugs. Uma mão bombeava a rola sem trégua; a outra manejava a peça sobre o clitóris. Os peitos pingavam, encharcando-lhe a pele enquanto ela se arqueava. O ar ficou denso. Cada músculo se tensionou à beira de algo enorme.
O clímax foi cataclísmico. A rola disparou um jato que salpicou o espelho em filetes luminosos. A xoxota, apertando o dildo e as esferas com uma força impossível, esguichou um líquido que cobriu suas coxas e formou uma poça pulsante no chão. O cu pulsou contra o plug numa rajada. Os peitos liberaram uma cascata que se misturou a tudo o mais. E o grito, abafado contra a própria mão, foi a faísca.
***
O orgasmo desencadeou um clímax coletivo num raio de duzentos metros. Ruzafa inteira se tornou um epicentro de êxtase fora de controle.
No bar, o garçom largou o pano que tinha na mão e gozou de repente por cima das xícaras, gemendo com uma convulsão que não conseguiu conter. Um casal que discutia aos gritos numa mesa se interrompeu de súbito: ele a agarrou pelo pescoço e a beijou com uma voracidade selvagem enquanto lhe levantava a saia; ela, que um segundo antes lhe atirava um guardanapo no rosto, se arqueou com a calcinha encharcada, e acabaram fodendo sobre a madeira, os corpos chocando ao ritmo dos suspiros. Duas amigas no balcão se sacudiram ao mesmo tempo, agarradas ao tampo. Um estudante absorto no laptop ejaculou sobre os apontamentos sem entender o que lhe acontecia. Uma mulher mais velha, sozinha com a bebida, se arqueou na cadeira enquanto o orgasmo lhe encharcava a saia. Um turista que conferia um mapa se sobressaltou ao notar o tecido de repente molhado.
Na rua, um ciclista gozou dentro da calça e caiu da bicicleta no meio da calçada, as coxas tremendo sem controle. Num beco, dois desconhecidos se encontraram de frente e se uniram contra a parede, ele desabotoando-se com pressa febril, ela levantando a saia com a mesma urgência, os dois fodendo com uma paixão súbita. Numa varanda do segundo andar, uma mulher que regava as plantas largou a mangueira e levou a mão à virilha, o suco caindo sobre as flores lá embaixo. Um entregador freou a moto em seco e se convulsionou sobre o banco. Um homem de patinete parou com um grito de prazer enquanto o tecido encharcava.
Nos prédios próximos aconteceu o mesmo. Em um escritório, os funcionários desabaram sobre os teclados, os corpos se retorcendo, os gemidos abafados no silêncio do trabalho. Em um salão de beleza, as clientes se estremeceram nas poltronas, as coxas apertadas em espasmos. Numa loja de roupas, atendentes e clientes caíram entre os cabides buscando a própria virilha, e alguns se trancaram para copular nos provadores. Em um quinto andar, uma mulher que preparava o jantar teve um orgasmo tão brutal que desmaiou sobre a bancada. Em uma academia da esquina, vários atletas desabaram no meio das rotinas, usando os aparelhos para um prazer improvisado.
***
Apoiada contra a parede do banheiro, Liria tremia. A respiração entrecortada, cada poro vibrando com o eco de mil orgasmos alheios. As reverberações de todos aqueles clímax — a luxúria que o próprio êxtase dela tinha desencadeado — ressoaram no fundo mais íntimo de seu ser. Era avassalador, quase aterrador em sua magnitude, e ao mesmo tempo o prazer mais puro que ela jamais conhecera. A confirmação era inegável: ela era o que era, e Valência tinha sido sua primeira tela no mundo dos mortais. Tinha absorvido o desejo reprimido da cidade, amplificado aquilo e devolvido multiplicado por mil.
Olhou os azulejos cobertos por seu rastro, as pérolas secando sobre a pele. Não podia deixar provas do que era. Procurou o rolo de papel e, com movimentos firmes e metódicos, limpou cada gota, cada marca pegajosa, cada fio seco, até o cubículo ficar impecável. Seu disfarce não era só a roupa: era a ilusão de normalidade, a negação de todo o resto.
Voltou à mesa, tomou um gole do café já frio e saiu com uma máscara de indiferença no rosto. O ar da rua era diferente. A eletricidade se dissipara, mas restavam os ecos da luxúria satisfeita pairando como um véu invisível. Os carros seguiam seu curso, os pedestres retomavam a caminhada com um leve torpor, os olhos brilhando de um desejo recém-desperto. Alguns se olhavam com curiosidade; outros, com desconfiança, tentando entender a onda de prazer que os arrasara sem aviso.
Ela voltou para seu pequeno apartamento com as coxas se roçando a cada passo, os plugs vibrando com a lembrança. Ao fechar a porta, a quietude mundana a envolveu, um contraste agudo com a voragem que acabara de provocar. Deixou-se cair no sofá, fechou os olhos e respirou fundo, medindo a dimensão do que fizera. Isso é só o começo. Sua missão em Valência tinha acabado de começar, e a cidade não voltaria a ser a mesma.





