O ritual na selva que transformou meu corpo
Acordei com a pele pintada de urucum e lábios desconhecidos no pescoço, sem saber que a selva me daria um corpo que jamais imaginei possível.
Acordei com a pele pintada de urucum e lábios desconhecidos no pescoço, sem saber que a selva me daria um corpo que jamais imaginei possível.
Ouvi seus passos firmes na cozinha e baixei os olhos, sem ousar sustentá-los. Eu já não era o homem que havia sido: era aquilo que ela decidira que eu seria.
Quando a porta violeta se fechou sob meus pés, soube que já não estava na minha cidade: aqui, os homens mandavam e elas só esperavam uma ordem.
Não dormi a noite inteira. Ao amanhecer, ela me vestiria, me maquiaria e me levaria ao lugar onde decidiriam que tipo de homem eu continuaria sendo... se é que continuaria sendo um.
Ele passava anos entregando rapazes ao templo sonhando em possuir a sumo sacerdotisa. Numa noite de lua cheia, seu desejo se cumpre da pior forma.
Nessa noite eu não era o anfitrião, mas o adorno. Minha esposa escolheu meu vestido, me calçou os saltos e mandou eu sorrir enquanto as chefes dela me avaliavam.
Eram 18h53 quando o interfone tocou. Depois de três semanas esperando, ela estava ali, séria e elegante, disposta a cumprir cada uma de suas condições.
Naquela noite deixei de ser a senhora correta de sempre. Escrevi o que eu realmente queria, cliquei em enviar e esperei que três desconhecidos viessem me buscar.
Os três meses viraram nove, e entre cachoeiras e orquídeas descobri que meu corpo diferente não era condenação, mas o centro do desejo que a aldeia celebrava.
Todas as noites ela se tocava às escondidas e chorava de culpa. Naquela madrugada, caminhou rumo às dunas sem saber que o deserto guardava um templo e, dentro dele, uma figura que mudaria tudo.
Encontrei uma taça de vinho, uma máscara preta e um texto incendiário na tela. Li devagar e entendi que naquela noite meu marido tinha decidido realizar seu maior desejo.
Ela caminhava pelo corredor acarpetado com o coração disparado: do outro lado daquela porta a esperava o homem que passara metade da vida imaginando.
Apenas espreitei por uma fresta da porta por um segundo. Foi o tempo de aquilo se gravar para sempre e arruinar todas as noites depois.
Nunca contei a ninguém, mas assim que ele fecha a porta para viajar, há um nome e um corpo que ocupam toda a minha imaginação.
Eu sabia que era perigoso ficar a sós com ela no quarto da caldeira, mas quando ela amarrou meus pulsos na parede e roçou minha pele com seus caninos, eu já não queria que parasse.
Quando a coleira vermelha apertou meu pescoço, entendi que era a única coisa que me separava de todas as presas que me observavam da penumbra daquele galpão.
Cada vez que fico sozinho em casa, repito o mesmo ritual. E cada vez fica mais difícil distinguir o jogo do que eu realmente desejo ser.
Quando trocaram minha coleira vermelha pela verde, eu soube que não havia mais ninguém para impedir aqueles caninos de afundarem no que havia de mais sensível em meu corpo.
Rodeada de vampiros naquele velho matadouro, com a coleira verde apertando meu pescoço, entendi que meu corpo já não me pertencia. Só podia implorar por mais alguns dias.
Cuspiu na feiticeira enquanto dois escravos o seguravam. Ela sorriu, lambeu o desprezo de sua face e prometeu transformá-lo em sua próxima obra-prima.