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Relatos Ardientes

A travesti de vinil preto o humilhou na frente de todos

Maximiliano era a versão mais insuportável do guru das criptomoedas. Trinta e quatro anos de ego inflado, barba desenhada no milímetro, uma camisa justa que esticava sobre um abdômen trabalhado com obsessão e um relógio dourado brilhante demais para ser legítimo. Ele se levantava antes do amanhecer para se gravar fazendo abdominais e soltar frases vazias de manual: «quem acorda cedo domina o mundo». Vendia cursos de trading para garotos desesperados, alimentando a ilusão de fortuna instantânea enquanto repetia que quem não ganhava dinheiro dormindo era um escravo.

Se gabava de voos de primeira classe que, na verdade, pagava em parcelas, de reuniões secretas em cafeterias onde gravava vídeos sobre disciplina e mentalidade vencedora. Nas redes dele, carros alugados e citações mal traduzidas sustentavam a fachada de um homem intocável. Arrogante e desdenhoso, falava de «mulheres de alto valor» como se fossem ativos da sua carteira. Sua voz se impunha, não por respeito, mas pela insistência exaustiva de quem não sabe ouvir e exige ser admirado.

Renata, ao lado dele, parecia não existir. Usava o cabelo castanho preso num rabo de cavalo frouxo, sem graça, e vestia um jeans qualquer com uma blusa sem forma. Andava encolhida, os ombros para a frente, o olhar no chão, como se pedisse desculpas por ocupar espaço. Tinha aprendido a calar quando ele falava, a concordar quando ele se gabava, a sorrir de leve quando ele a corrigia em público. Tudo nela era apagado. E, ainda assim, por baixo daquele silêncio dormia uma brasa esperando alguém soprar.

O que havia entre eles não era um relacionamento: era um monólogo disfarçado. Maximiliano não a via como companheira nem como troféu, mas como uma extensão cinzenta de si mesmo, útil só para confirmar que podia manter alguém sob controle. Ele a segurava pelo braço com descuido, como quem marca uma propriedade. Humilhava-a sem pudor: apontava na frente de todos que ela não sabia se vestir, imitava sua forma de falar com deboche, lembrava que ela estava com ele por pena. «Sem o meu sucesso, você não seria ninguém», ele dizia, e ela engolia as lágrimas e obedecia.

Nessa noite, o encontro era em um salão privado de copos altos, música morna e conversas de papelão. Relógios ostentosos, ternos sob medida, sorrisos ensaiados. Homens que falavam de investimentos como gladiadores e mulheres que fingiam interesse para não ficar de fora do jogo. O ar cheirava a perfume caro, embora nos cantos pairasse uma nota barata de colônia de farmácia. Maximiliano se movia como se fosse dono do lugar, interrompendo conversas para falar de si mesmo, distribuindo tapinhas condescendentes e rindo alto demais para que todos o ouvissem.

Arrastando Renata, ele parou ao lado de um jovem investidor e falou com tom de mestre.

—Olha, irmão, se você seguir meu curso, em três meses larga o emprego e vive como eu: viajando, investindo, gerando dinheiro enquanto dorme. — Pegou o celular e mostrou capturas de ganhos impossíveis, salpicando palavras em inglês para dar peso ao discurso.

O rapaz sorriu, desconfortável, preso entre a curiosidade e a rejeição, enquanto Maximiliano se exibia como o exemplo a ser imitado.

Então a porta se abriu e o ar mudou de densidade.

Madame Ônix entrou. Vinil preto que captava cada brilho de luz, luvas longas como uma segunda pele, saltos impossíveis que marcavam um ritmo solene sobre o mármore. Era alta, de ombros firmes e curvas esculpidas com uma elegância que não pedia licença. Seus lábios vermelhos eram sentença e promessa ao mesmo tempo. Não se olhava para ela: respirava-se ela. E seu perfume não era uma fragrância, era fogo líquido: uma trilha de baunilha escura e madeira defumada cruzada por um acorde que evocava látex recém-esticado, um cheiro carnal que se agarrava à garganta.

Quem é?, pensaram todos ao mesmo tempo, sem coragem de perguntar.

Vários dos gurus da sala se aproximaram com frases ensaiadas. Um falou de sua carteira milionária, outro dos carros que dizia ter, um terceiro ofereceu ensinar seu método infalível. Todos bateram contra o mesmo muro: a indiferença absoluta de Madame Ônix. Seus olhares morriam naqueles lábios vermelhos sem receber nada, e voltavam aos seus grupos com a vergonha estampada no rosto.

Maximiliano estufou o peito e se virou para os amigos.

—Olhem bem, senhores. Vou fazer minha mágica. Isso só eu consigo. — Apontou para Madame Ônix com o gesto do caçador certo de sua presa—. O que esses perdedores não conseguiram, eu consigo.

Quando chegou até ela, abriu seu repertório com um sorriso de catálogo.

—Boa noite, criatura do destino. Você não sabe a sorte que tem de cruzar com um visionário como eu. Dizem que construo impérios enquanto os outros dormem. Fica ao meu lado e nunca vai te faltar nada. Sou o lobo dessas finanças, o alfa da matilha. Comigo você seria a rainha dos mercados: jatos, jantares em Mônaco, acesso ao meu curso premium. Ninguém entende o jogo como eu.

Madame Ônix o observou sem piscar. Seu olhar era frio, polido, impossível de decifrar. Ele lançou outra frase, e outra, cada uma mais presunçosa, mas nenhuma arrancava a reação que ele esperava. Não havia sorriso, não havia flerte: só uma calma que ia desmontando-o.

E então, num acesso de crueldade, Maximiliano se virou para Renata e ergueu a voz para que todos ouvissem.

—Olhem, até essa aqui está aqui graças a mim. Sem mim, seria invisível. Ninguém repararia nessa cara apagada.

A sala se tensionou. Um murmúrio desconfortável percorreu o salão. Alguns olhares se desviaram com vergonha alheia; outros se cravaram nele com um desprezo mal disfarçado. Alguém estalou a língua. Renata encolheu os ombros, tentando desaparecer entre as dobras da própria roupa.

Madame Ônix baixou os olhos para a moça e, pela primeira vez na noite, algo mudou em seu rosto. Deu um passo. O perfume ficou mais espesso, como um véu. Inclinou-se até que seus lábios roçassem a orelha de Renata, e sussurrou com uma voz aveludada que só ela pôde ouvir.

—Você não é invisível, querida. Estava dormindo, só isso. Respira. Deixa o barulho dele se apagar. O seu silêncio não é obediência: é poder guardado. Sente como ele acende, como o peito se abre, como a pele arde. Esse calor é seu. Acorda.

Renata sentiu o sopro morno no pescoço, o roçar do tecido brilhante contra o braço, e algo se soltou dentro dela, como um nó cedendo. O coração bateu com força. Pela primeira vez em muito tempo, ela levantou o olhar.

Madame Ônix virou o rosto para Maximiliano, aproximando-se o suficiente para que só ele a ouvisse. O mesmo perfume o envolveu, o deixou tonto, afrouxou seus joelhos. E a sentença caiu como uma lâmina.

—Você fala de impérios, mas o que eu vejo é só um garoto apavorado, nu sem sua máscara de fumaça, agarrado a palavras vazias para não afundar. Esta noite sua voz quebra. Esta noite você não é dono de nada. Você obedece. E vai obedecer até que seu orgulho se arraste pelo chão.

—Quem... quem você acha que é? —ele gaguejou, mas a voz saiu fina, sem corte.

—Sou o que o seu mundo de homens perfeitos não suporta — respondeu ela, e por um instante deixou a luz marcar a linha forte do maxilar, da garganta, essa mistura exata do que ele não sabia nomear—. Sou mulher, e sou mais homem do que você jamais vai ser. Ajoelha.

O salão inteiro prendeu a respiração.

Maximiliano olhou ao redor buscando a cumplicidade de sempre, aquela risada serviçal que o sustentava. Não encontrou. Encontrou olhos divertidos, olhos famintos para vê-lo cair. O perfume pesava nos seus pulmões como chumbo doce. As pernas tremeram e, antes de entender o que fazia, um de seus joelhos tocou o mármore frio.

Um suspiro percorreu a sala. Alguns riram baixinho, outros apenas observavam, incapazes de desviar os olhos. Maximiliano, o alfa, o lobo das finanças, estava ajoelhado no meio da festa, a cabeça baixa e a respiração entrecortada. Toda a sua arquitetura de fumaça tinha desabado com três frases e uma fragrância.

Mas Madame Ônix já não olhava para ele. Tinha se virado para Renata.

—Vem —disse, estendendo uma mão enluvada.

Renata hesitou por apenas um segundo. Depois caminhou até ela, deixando para trás o homem que a havia diminuído por anos. Quando seus dedos tocaram o couro morno da luva, sentiu uma corrente subir pelo braço. Madame Ônix a puxou com suavidade, apoiou a mão livre em sua cintura e a girou para que todo o salão as visse.

—Olha o que ele nunca soube ver —murmurou contra a têmpora dela—. Olha o que você é quando para de pedir permissão.

***

O resto do salão pareceu se dissolver. Madame Ônix a conduziu até uma salinha contígua, longe do burburinho, onde a única luz vinha de uma luminária baixa com cúpula âmbar. Fechou a porta com o salto. No silêncio, o perfume era ainda mais denso, quase um corpo em si mesmo.

—A noite toda te olharam como um móvel —disse, tirando uma luva dedo por dedo—. Eu te olho como um incêndio.

Renata tremeu quando a mão nua lhe roçou a mandíbula e ergueu seu rosto. Os lábios vermelhos se aproximaram dos seus e pararam a um milímetro, deixando-a sentir o calor sem tocá-la. Era uma ordem silenciosa: você vai me procurar. E Renata, pela primeira vez na vida, procurou.

O beijo foi lento no começo, uma exploração cautelosa, e depois se tornou faminto. Madame Ônix foi empurrando-a com o corpo até que as costas de Renata tocaram a parede. Segurou seus pulsos acima da cabeça com uma só mão, sem esforço, e com a outra percorreu a linha do pescoço, a clavícula, o primeiro botão da blusa.

—Quer que eu pare? — perguntou.

—Não —disse Renata, e a palavra saiu clara, firme, alheia à voz apagada de antes.

Os botões cederam um a um. A boca de Madame Ônix desceu pelo pescoço de Renata, pelo ombro, mordendo de leve a pele que ninguém olhava havia anos. Renata arqueou as costas. Sentia o vinil frio da outra mulher contra o ventre e, por baixo, um calor inconfundível, uma presença firme que a apertava contra a parede e lhe fazia entender com o corpo o que Madame Ônix tinha dito com palavras. Não lhe deu medo. Deu vertigem, e a vertigem lhe agradou.

—Isso que você sente —sussurrou Madame Ônix contra seu ouvido, movendo os quadris com uma lentidão deliberada— é o que você é capaz de desejar quando ninguém te diz o que você deve querer.

Renata fechou os olhos. As mãos, uma enluvada e a outra nua, percorreram-na inteira, encontraram a barra do jeans, demoraram-se no quadril, desceram. O primeiro toque certeiro a fez gemer contra o ombro de vinil. Não foi um gemido de manual: foi um som quebrado, real, arrancado de um lugar que passara anos fechado.

Madame Ônix marcou o ritmo. Cada carícia era uma pergunta e uma resposta ao mesmo tempo; cada beijo, uma maneira de lembrá-la de que o prazer também podia ser uma forma de poder. Renata deixou de pensar em Maximiliano, no salão, nos anos de silêncio. Só existiam aquela mão experiente, essa voz que a guiava mais fundo e aquele perfume que a envolvia como um véu ardente. Quando o prazer a atravessou, veio em ondas, e ela se agarrou aos ombros da outra mulher como quem se agarra à única coisa firme em meio ao desabamento.

Depois ficaram assim por um momento, testa com testa, a respiração entrecortada de Renata se misturando com a calma de Madame Ônix.

—Da próxima vez que entrar num salão —disse ela, colocando a luva de novo—, que seja ele quem baixe o olhar.

***

Quando saíram, Maximiliano ainda estava num canto, já em pé, mas encolhido, evitando os olhos de todos. Seus amigos tinham se dispersado. Ninguém pedia mais conselhos de investimento. Ninguém repetia suas frases. O homem que entrava nos salões como dono agora procurava a saída como um intruso.

Renata passou por ele sem parar. Já não caminhava encolhida: levava os ombros para trás e o queixo erguido, e o rastro daquele perfume escuro a seguia como uma assinatura. Pela primeira vez foi ele quem baixou o olhar.

No umbral, Renata se virou para procurar Madame Ônix, mas a mulher de vinil preto já não estava lá. Restava apenas, flutuando no ar do salão, aquela trilha de baunilha e látex que nenhum dos presentes esqueceria. Alguns jurariam depois que ela nunca existiu. Renata sabia que sim. Sabia porque, finalmente, se sentia acordada.

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