Nasci Mateo e renasci mulher em uma clínica de Rosário
Nasci em 7 de setembro de 1996, num domingo de chuva, segundo minha mãe me contou tantas vezes que acabei acreditando que me lembrava disso. Me registraram como Mateo. Era um nome curto, firme, de homem, e nunca terminou de se encaixar dentro de mim. Eu o ouvia na boca da professora na chamada e sentia um pequeno tropeço, como quando alguém te chama na rua e, ao virar, você descobre que ela falava com outra pessoa.
Minha mãe tinha uma intuição afiada, às vezes quase incômoda. Viu em mim algo que eu ainda não sabia nomear. Quando eu tinha oito anos, confessei a ela, com a inocência com que se confessa qualquer coisa nessa idade, que eu gostava de uma coleguinha da escola. Ela não se escandalizou. Me olhou por um longo tempo, acariciou meu cabelo e ficou em silêncio. Naquela noite, agora eu sei, tomou uma decisão que acabaria mudando o rumo de toda a minha vida.
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Lembro dos corredores frios das clínicas de Rosário. O cheiro de desinfetante, as cadeiras duras da sala de espera, as revistas velhas com as capas dobradas. Eu tinha apenas dez anos quando tudo começou.
Primeiro foi a psicóloga. Uma mulher de voz calma que me fazia desenhar e me perguntava coisas que pareciam simples, mas cavavam fundo. Como eu me sentia quando me vestiam de menino para as festas? Por que eu preferia brincar com as meninas? O que eu sonhava antes de dormir? Eu respondia sem entender que cada palavra minha ia montando um mapa de quem eu era de verdade.
Depois veio o endocrinologista. Minha mãe estava decidida, e quando ela decidia não havia volta.
—Se o coração dela sente de um jeito — disse ela ao médico, com a voz embargada, mas firme —, o corpo vai ter que aprender a acompanhá-lo.
O médico alertou sobre os prazos, sobre a puberdade que precisava ser freada, sobre os riscos. Minha mãe ouviu tudo, concordou com tudo e assinou tudo. Eu só entendia que algo importante estava prestes a começar.
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Os hormônios chegaram como uma maré lenta e doce. No começo era só uma sensação estranha, um calor novo que entrava nas minhas veias e me mudava por dentro aos poucos, sem que eu pudesse apontar o instante exato da mudança.
Numa manhã senti os seios doloridos. Era uma sensibilidade desconhecida, quase dolorosa, que me fazia cruzar os braços sobre o peito quando alguém chegava perto demais. Meus traços foram se suavizando. A pele ficou fina, diferente ao toque. E as emoções... Deus, as emoções eram uma tempestade sem aviso. Eu chorava por uma música no rádio e ria às gargalhadas um minuto depois.
Já não era o garoto que brincava de luta no pátio. Era uma crisálida se rompendo em silêncio, sem que ninguém lá fora visse ainda o que estava prestes a sair de dentro.
Comecei a usar roupas de mulher em casa, primeiro escondida, depois com a permissão cúmplice da minha mãe. A primeira vez que amarrei uma saia na cintura não senti que estava me fantasiando. Senti que voltava para casa depois de uma viagem longa demais. Olhei-me no espelho do guarda-roupa e, pela primeira vez, quem me devolvia o olhar não era uma estranha.
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Mas eu ainda carregava um corpo pela metade, um corpo que não terminava de obedecer ao que eu era. E nesse território incerto tive minha primeira experiência sexual, quando já tinha vinte anos, mas ainda com o nome de Mateo.
Foi confuso, e prefiro contar sem enfeites. Uma garota do bairro, mais velha que eu, que me procurou numa tarde de verão, quando não havia ninguém em casa. Ela se chamava Julieta e tinha vinte e três. Lembro do calor pegajoso, das persianas meio fechadas, do lençol amassado. Ela se sentou de pernas abertas sobre mim, tirou a camiseta e enfiou os peitos na minha cara sem dizer uma palavra. Eu chupei porque era o que supostamente eu devia fazer, mordi os mamilos duros e os senti enrijecer contra minha língua.
Ela baixou meu short e pegou meu pau com a mão, massageou até deixá-lo duro. Colocou-o na boca e me chupou com fome, olhando-me de baixo, mexendo a cabeça rápido, chupando a ponta com um som úmido que enchia o quarto. Eu a via fazer aquilo e sentia o prazer físico, sim, o sangue se acumulando, a corrente elétrica subindo pela coluna, mas também sentia que aquele pau não era meu, que a boca de Julieta chupava o de outra pessoa, alguém que não era eu.
Depois ela subiu em cima, puxou a calcinha para o lado e se sentou sobre mim num único golpe. Sua xana molhada me engoliu inteiro e ela começou a cavalgar, a quicar em mim com os peitos balançando, gemendo baixinho, agarrando-se ao meu peito. Eu a fodia por baixo, a segurava pelos quadris e a pressionava contra minha pelve enquanto ela jogava a cabeça para trás. Senti-a gozar, apertar meu pau com espasmos quentes, e alguns segundos depois gozei também, dentro da camisinha, com um gemido rouco que soou alheio na minha garganta.
Eu gostava, sim. O corpo respondia. Mas havia uma dissonância, como uma melodia bonita tocada num tom errado. Eu não queria estar daquele lado da cena. Não queria ser quem penetrava; queria ser penetrada. Não queria ter um pau na mão de ninguém; queria ter uma boca de homem entre as pernas, queria que me abrissem, que me preenchessem, que me fizessem gemer sendo o que eu era. Desejava algo mais, algo que naquele momento ainda não tinha nome.
Saí daquela casa com uma certeza nova cravada no peito: meu caminho ainda não estava terminado. Faltava um último passo, o maior de todos.
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A cirurgia foi numa clínica de Buenos Aires, depois de meses de avaliações, laudos e autorizações. Medo e esperança se misturavam na minha garganta quando me colocaram na maca. Lembro da luz branca do centro cirúrgico, das vozes calmas por trás das máscaras, da mão da anestesista procurando minha veia.
—Conte de dez para trás — disse ela.
Cheguei ao sete.
Os detalhes foram crus, não vou maquiar. Ao acordar, a dor era uma fogueira entre minhas pernas, uma ardência surda que latejava a cada respiração. Eu tinha a boca seca e o corpo pesado, como se tivessem me enchido de areia.
A convalescença foi longa e nada romântica. As gazes. Os curativos. As dilatações, dolorosas, mas necessárias, que eu precisava fazer com disciplina enquanto cerrava os dentes e encarava o teto. A sensação constante de ardor enquanto meu corpo aprendia, milímetro por milímetro, sua nova forma.
Houve noites em que chorei de raiva e cansaço, me perguntando se tinha valido a pena. Mas então chegou a manhã em que criei coragem para me olhar de verdade no espelho do banheiro. Baixei o avental devagar. E ali embaixo, finalmente, havia harmonia.
É meu. Essa xana é minha.
A dor, naquele instante, virou sagrada. Era o selo final de algo que começara vinte anos antes, num domingo de chuva, com um nome que nunca me serviu.
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O que veio depois foi uma descoberta que nenhuma cirurgia me havia prometido. Minhas sensações eróticas eram completamente diferentes. Já não eram um impulso vindo de fora, uma urgência mecânica que não me pertencia. Agora o desejo nascia do mais profundo, uma sensibilidade elétrica que percorria minha pele nova e se concentrava num clitóris minúsculo e morno que despertava só de eu pensar nele.
Aprendi a me tocar de novo, como quem aprende uma língua do zero. Na primeira vez que enfiei um dedo dentro da minha xana nova, sozinha na cama, com as pernas abertas e o coração batendo na garganta, eu chorei. Chorei enquanto acariciava o clitóris com a ponta do polegar e me abria com dois dedos, enquanto descobria que ali dentro havia uma umidade que era minha, um calor que era meu, um tremor que subia pela barriga e me retesava as coxas até me fazer gozar em silêncio, mordendo o lábio.
Tardes inteiras diante do espelho, de pernas abertas, me reconhecendo. Aprendi a acariciar meus lábios aos poucos, a afastá-los com dois dedos, a afundar a mão até o pulso e sentir como a xana se apertava ao redor. Aprendi a roçar o clitóris em círculos lentos até o prazer me fazer arquear as costas, a brincar com os mamilos ao mesmo tempo, a gozar uma vez e continuar me tocando até gozar de novo, tremendo, encharcada, com os lençóis feitos um desastre embaixo de mim. Pela primeira vez na vida, prazer e identidade caminhavam juntos, no mesmo tom, na mesma melodia.
Deixei de me chamar Mateo. Escolhi Carla. Carla Belén, na verdade, mas para os meus eu sou só Carla. Mudei-me para Córdoba, arrumei trabalho, fiz amigas que conheci já sendo eu. Caminhava pelas ruas do centro com a cabeça erguida, sentindo o atrito da saia nas pernas, e pela primeira vez a mulher do espelho e a mulher da rua eram a mesma.
***
E então você apareceu, Damián.
Te conheci no aniversário de uma amiga em comum, num terraço com luzes suaves e gente demais. Você me perguntou meu nome e, quando eu disse «Carla», repetiu-o como se estivesse saboreando. Não houve um único segundo de dúvida nos seus olhos. Naquela noite entendi que havia homens capazes de me olhar sem buscar rachaduras, sem me medir contra nenhum passado.
Hoje você é meu marido. O homem que não só aceitou minha história, como a abraçou como se fosse sua.
Nossa vida de casados é o paraíso que eu nunca achei que merecesse. Lembro quando você me beijou pela primeira vez no umbral do meu apartamento, com a chuva caindo lá fora, um beijo lento que era pura aceitação. Você me fez chorar de alívio. Vinte anos de espera escaparam pelos meus olhos naquela noite.
Nessa mesma noite você me levou para a cama e me despiu devagar, peça por peça, me olhando como se fosse me comer inteira. Tirou meu vestido pela cabeça, desabotoou meu sutiã e, quando meus seios ficaram à mostra, se abaixou e chupou um mamilo com a boca aberta, com a língua quente girando ao redor, mordiscando de leve, até que ele endureceu como pedra. Eu gemi com a voz embargada e segurei sua cabeça contra meu peito.
—Damián, por favor — implorei num sussurro.
Você baixou minha calcinha com os dentes. Abriu minhas pernas sobre a cama, olhou minha xana de perto durante um segundo eterno e então levou a boca para baixo. A primeira lambida me fez saltar. Você lambeu da entrada até o clitóris com a língua chata, devagar, me saboreando, e voltou a descer. Me abriu com dois dedos, enfiou a língua dentro de mim e a moveu em círculos; depois chupou meu clitóris entre os lábios, chupando macio, puxando-o de leve, até eu estar molhada até a bunda, me contorcendo, apertando sua cabeça com as coxas.
—Não para, não para, não para — eu dizia, com a voz de outra mulher.
Você enfiou dois dedos enquanto continuava me chupando e os curvou lá dentro, procurando um ponto que nem eu sabia que existia. Encontrou. Gozei como nunca na vida, gritando seu nome contra o travesseiro, com a xana apertando seus dedos em ondas, molhando seu queixo, as pernas tremendo sem controle.
E ainda não tinha me fodido.
Você subiu em cima de mim, com o pau duro, grosso, pulsando. Passou-o pelos lábios da xana de cima a baixo, umedecendo-o com meus fluidos, esfregando a ponta contra o clitóris até me fazer gemer outra vez. Depois foi entrando devagar, olhando nos meus olhos, centímetro por centímetro, e eu senti minha xana te engolir, senti-a se esticar para te receber, se fechar quente ao redor do seu pau como se tivesse te esperado a vida inteira.
—Você é minha mulher — me disse contra a boca, começando a se mover —. Você é toda minha, Carla.
Você me comeu devagar primeiro, fundo, com investidas longas que me tiravam o ar. Depois mais forte, segurando meus quadris, me pregando contra o colchão. Eu montei em você depois, por cima, com os seios quicando, cavalgando enquanto você apertava minha bunda com as duas mãos e guiava o ritmo por baixo. Nós viramos e você me pôs de quatro, me segurou pelo cabelo com uma mão e pela cintura com a outra, e me comeu por trás, com seus ovos batendo no meu clitóris a cada investida, com sua voz rouca me dizendo coisas ao ouvido que me faziam ficar ainda mais molhada.
—Me fode, me fode mais forte — pedi, com o rosto esmagado contra o lençol.
Gozei mais duas vezes antes de sentir você. Quando você gozou, cravou-se até o fundo e gemeu contra minha nuca, e eu senti seu pau pulsar dentro de mim, senti seu sêmen quente enchendo minha xana em jatos grossos, e gozei de novo só com essa sensação, apertando você, ordenhando até a última gota.
Ficamos abraçados, suados, respirando juntos. Você com a pica ainda dentro de mim, eu com a xana ainda latejando ao redor da sua. Nunca na vida eu me senti tão mulher.
Nossa intimidade, desde aquela noite, é um ritual sem pressa. O atrito da nossa pele na penumbra do quarto, o calor das suas mãos percorrendo meus quadris, parando onde eu mais preciso. Você me faz sentir a única dona do seu desejo. Às vezes me acorda de madrugada com a boca entre as minhas pernas, e me faz gozar antes de eu terminar de abrir os olhos. Às vezes sou eu que me ajoelho entre suas coxas e chupo seu pau até o fundo, que o chupo olhando nos seus olhos, que engulo seu leite quente porque adoro sentir você gozar na minha boca.
Há um momento que é só nosso, tão terno quanto sujo, quando você afunda o rosto no meu peito e me procura com a boca, devagar, chupando meus mamilos enquanto sua mão desce e me abre a xana com dois dedos, e eu deixo você fazer porque nessa entrega existe um laço que vai muito além da pele. Você sustenta minha nuca, diz meu nome contra minha garganta, e eu me desfaço inteira enquanto me faz gozar contra seus dedos.
***
Agora sonho com algo novo. Sonho com um filho.
Imagino o caminho que faremos juntos para conseguir isso, os trâmites, as esperas, as portas que teremos de empurrar. E me vejo segurando esse bebê contra o peito, fechando um círculo que começou numa sala de espera fria de Rosário, quando eu mal passava de um metro de altura.
Deixei de ser Mateo para ser Carla. A mulher que caminha orgulhosa pelas ruas de Córdoba. A mulher que te ama, Damián, com uma intensidade que queima e não pede licença.
Sou mulher por decisão, por medicina e, sobretudo, por amor. Levei vinte anos para alcançar meu próprio nome e outros tantos para encontrar uns braços onde enfim me sentisse livre.
E encontrei nos teus.