O couro preto me revelou quem eu queria ser
—Deus, olha pra você —sussurrou Adrián, com a voz tremendo apenas acima do silêncio do quarto.
O espelho lhe devolvia uma imagem que durante anos só havia existido dentro da cabeça dele. O corpete de couro se ajustava ao torso esguio, a superfície esticada pressionando a pele de um jeito que o fazia estremecer. Na frente, um zíper prateado descia reto pelo centro, frio e preciso, em contraste com a textura fosca do material. Atrás, um trançado de tiras cruzadas permitia ajustá-lo milímetro a milímetro, marcando a cintura como se mãos invisíveis esculpissem o corpo ao bel-prazer.
Passou as palmas pela curva das ancas, agora acentuada pela saia preta que lhe abraçava as coxas. Ela também trazia um zíper metálico descendo por toda a frente, e o corte acima do joelho, brilhante e combinando com o corpete, transformava o conjunto em algo que ele jamais ousaria comprar numa loja de luz acesa durante o dia. Tinha encomendado pela internet, para um endereço que não era o dele, pagando com um cartão que guardava para despesas que não queria explicar.
As meias arrastão roçavam suas pernas com uma suavidade quase insuportável. Os saltos agulha, por sua vez, o faziam se sentir alto, firme, poderoso, embora os joelhos tremessem a cada movimento. Girou o corpo alguns graus e observou como a luz morna da lâmpada deslizava pelo couro, como parecia acender contra a pele pálida. Baixou os olhos e viu que, por baixo da saia justa, seu pau já começava a marcar contra o encaixe de renda da tanga preta que havia vestido antes de tudo o mais. Um volume tenso, úmido na ponta, entregando-o.
É isso. É para isso que fui feito.
Respirou fundo, entrecortado, e deslizou um dedo pelo zíper do corpete, sentindo o metal gelado na polpa. Levava semanas montando aquele momento peça por peça, escondendo cada roupa no fundo de uma gaveta de fundo falso, esperando o apartamento ficar vazio, esperando que ninguém pudesse tocar a campainha, esperando o mundo lhe conceder uma hora inteira de verdade.
De dia era outra pessoa. De dia tinha o nome que constava no documento, assinava e-mails com dois sobrenomes sóbrios e assentia em reuniões intermináveis sobre orçamentos que não lhe importavam. Ninguém naquela empresa de vidro e ar-condicionado imaginaria que o homem calado do cubículo do fundo guardava, debaixo do terno cinza, um segredo que pesava mais do que qualquer relatório.
Somente aqui, com a porta trancada e as persianas abaixadas, é que ele largava o peso. Aqui não havia documento nem sobrenomes nem reuniões. Aqui havia apenas o couro, o espelho e a verdade que demorava uma semana inteira para conseguir encarar.
***
O coração disparou quando estendeu a mão para a cômoda e pegou o batom. Era de um vermelho intenso, profundo, quase insolente. Tinha comprado numa farmácia longe do bairro, olhando por cima do ombro como se estivesse roubando alguma coisa. Em certo sentido estava: roubava de si mesmo a permissão para existir.
Vacilou por apenas um instante. Depois se aproximou do espelho, entreabriu os lábios e o aplicou com uma firmeza surpreendente para a corrente elétrica que lhe percorria as veias. A cor o transformou. Não era disfarce; era revelação. Fechou os lábios, soltou-os, inclinou a cabeça. Mostrou a ponta da língua e passou-a pelo lábio inferior, imaginando como seria ter um pau ali mesmo, empurrando sua boca, manchando o batom nos dentes.
Perfeito.
Observou-se por um longo tempo, sem pressa. Era estranho se reconhecer e, ao mesmo tempo, se descobrir. A forma da boca, agora acesa, parecia mais sua do que nunca; as maçãs do rosto captavam a luz de um jeito que, durante o dia, ele insistia em disfarçar. Pensou em todas as vezes que havia passado direto por uma vitrine sem ousar entrar, em todas as noites em que dormira fingindo que aquilo era uma fase, um capricho que passaria. Não passou. Crescia a cada mês, paciente e teimoso, como uma planta forçando passagem entre as pedras do calçamento.
Seus olhos buscaram então a fita repousada sobre a madeira, uma tira fina de cetim preto que ele comprara com um único propósito. Levantou-a devagar, os dedos vibrando de antecipação. Sentiu-a fria e escorregadia ao enrolá-la ao redor dos punhos, uma volta, duas, três.
Primeiro amarrou frouxo, quase uma brincadeira. Depois mais apertado, até que os nós lhe entrassem na carne e a pressão lhe arrancasse um suspiro. Não era muita coisa, apenas uma sugestão do que ele realmente desejava, mas bastou para que uma onda de calor subisse por seu ventre e se instalasse entre as pernas, tensionando o pau até fazê-lo vibrar contra a renda encharcada.
Fechou os olhos. Imaginou que aquelas voltas de cetim não eram obra de suas próprias mãos, mas de outras. Mãos alheias, decididas, que o seguravam e lhe diziam, sem pedir permissão, o que iria acontecer naquela noite.
***
E se alguém entrasse agora mesmo?, pensou, e suas bochechas incendiaram no mesmo ritmo do pulso. E se me visse assim, amarrado e pintado e tremendo? E se me abrisse as pernas contra o espelho e me comesse sem me perguntar nada?
O próprio gemido o surpreendeu, baixo e rouco, enquanto a mão livre abria caminho entre as coxas. A saia de couro já tinha subido, e ele arquejou ao sentir o calor da excitação através do tecido fino. Afastou a renda da tanga com dois dedos e agarrou o pau de repente, com a palma inteira, sentindo-o duro e queimando, a ponta viscosa de líquido pré-seminal. Apertou-o devagar, da base à glande, e o polegar se manchou daquela gota espessa pendurada no prepúcio. Levou o dedo à boca e chupou sem desviar os olhos do próprio reflexo, deixando uma marca de batom vermelho na própria pele.
—Puta —disse baixinho, a palavra saindo estranha e deliciosa ao mesmo tempo—. Olha que puta você virou.
Com a outra mão tornou a puxar a fita, apertando-a um pouco mais em volta dos punhos enquanto começava a rebolar os quadris no ritmo do próprio toque. Cuspiu na palma e voltou a envolver o pau com a saliva misturada ao próprio gozo antecipado, se masturbando já sem disfarce, com o punho girando na glande cada vez que subia. Os saltos tremiam e a saia se amarrotava na cintura. Virou um pouco o corpo para o espelho para ver o perfil: o couro comprimindo os mamilos eretos contra o corpete, o pau duro escapando entre a renda aberta, os dedos vermelhos de batom trabalhando-o com desespero.
Respirava de boca aberta, imaginando que alguém o observava da penumbra do corredor, alguém que o desejava com a mesma urgência com que ele se desejava naquele espelho. Alguém que já havia aberto a própria calça e segurava uma rola grossa enquanto o via se tocar, esperando o momento de entrar.
—Por favor —sussurrou, a voz mal audível sob o tamborilar do coração—. Por favor, me amarra. Me come. Me usa. Mete na boca, no cu, onde quiser, mas me usa.
As palavras o escandalizaram e o acenderam em partes iguais. Nunca as dissera a ninguém. Estavam engasgadas na garganta havia anos, debaixo da gravata que ele punha toda manhã, debaixo do nome com que todos o chamavam no escritório, debaixo da vida cuidadosamente sem relevo que construíra para que ninguém suspeitasse de nada.
Soltou o pau por um instante e levou os dedos à boca. Chupou-os um a um, lambuzando-os de saliva até brilharem, e então esticou o braço por trás, por baixo da saia arregaçada, e levou a mão ao cu. Encontrou o próprio buraco apertado e quente e enfiou um dedo dentro sem pausa, até o nó do dedo. Escapou-lhe um arquejo agudo, quase feminino, ao se sentir abrir. Começou a movê-lo, primeiro um, depois dois, com um ritmo desajeitado e ansioso que logo se harmonizou com o da outra mão no pau. Comia a si mesmo diante do espelho, com os punhos meio amarrados e o batom borrado, sentindo-se pela primeira vez completo.
***
Os movimentos ficaram mais urgentes à medida que a fantasia o devorava. Imaginou mãos fortes imobilizando-o contra a cômoda, segurando-o no lugar enquanto tiravam dele exatamente o que queriam. Uma mão fechando-se na nuca, empurrando-lhe a cara contra a madeira. A outra puxando a tanga até a curva dos joelhos num só gesto. Uma rola dura, grossa, pressionando-se entre suas nádegas, buscando a entrada sem pedir licença, cuspida e pronta. Quase podia sentir um peso real apoiado em suas costas, um hálito quente roçando a nuca, uma voz grave sussurrando obscenidades em seu ouvido, chamando-o por um nome que ele ainda não ousava pronunciar em voz alta, mas que conhecia de cor.
—Abre —dizia aquela voz imaginária, mordendo-lhe o lóbulo—. Abre o buraquinho, puta, que eu vou te partir.
E ele, na fantasia, se abria. Erguia a bunda embutida no couro, agarrava a beirada da cômoda com os punhos ainda amarrados e sentia aquela rola grossa forçar o anel aos poucos, queimando-o, alargando-o até fazê-lo gemer. Sentia-se afundar até o fundo, sentia quadris alheios chocando-se contra suas nádegas com um som úmido, sentia dedos puxando seu cabelo para trás e obrigando-o a se olhar no espelho enquanto o comiam.
Empurrou um terceiro dedo dentro de si, e a ardência arrancou um gemido que quase o fez gozar ali mesmo. Apertou o pau na base para adiar o fim, arquejando, com a testa salpicada de suor e o batom já espalhado pela barba.
Nessa fantasia não precisava explicar nada. Não precisava se desculpar, nem esconder a gaveta, nem apagar o batom às pressas. Nessa fantasia alguém o via inteiro, o couro e a fita e a boca pintada e o cu aberto pingando, e em vez de desviar o olhar, se aproximava, baixava o zíper e o montava.
E esse alguém não lhe pedia para ser outra coisa. Não dizia para ele tirar os saltos nem limpar a boca nem voltar a ser o homem prudente do cubículo do fundo. Ao contrário: ordenava que permanecesse exatamente assim, amarrado e entregue, com o pau para fora e o cu cheio, e nessa ordem Adrián encontrava uma paz que nunca sentira quando lhe cabia decidir por si mesmo. Render-se era, paradoxalmente, a primeira vez em que se sentia dono de alguma coisa.
Inclinou a cabeça para trás e imaginou aquela voz colada ao seu ouvido, marcando o ritmo, dizendo quando podia gozar e quando não. “Se aguenta, puta. Se aguenta até eu te encher.” A simples ideia de não estar no comando, de obedecer, de pertencer a outro por uma noite inteira, o fez apertar as coxas com um gemido novo, mais fundo. Imaginou terminar com a boca aberta, a língua de fora, recebendo um jato quente de porra no rosto, no lábio pintado, no corpete de couro, marcado como aquilo que sentia ser.
Arqueou as costas ao sentir que se aproximava do limite, os dedos trabalhando dentro e fora de si com uma precisão quase cruel, enquanto a outra mão disparava para cima e para baixo no pau gotejante. A tensão crescia por dentro, apertando-se como um anel prestes a ceder. Tornou a puxar o cetim, e a dor leve nos punhos se misturou ao prazer até virar uma única coisa.
—Sim —arquejou, desta vez mais alto, sem medo das paredes—. Sim, me come, goza dentro, por favor…
E então aconteceu. O prazer o atravessou de golpe, absoluto, avassalador. Cada músculo se contraiu enquanto ele se desfazia, o cu apertando-se em torno dos próprios dedos, o pau pulsando na mão. Um primeiro jato grosso de porra saltou e atingiu o espelho, deixando um fio branco escorrendo na altura do peito refletido. O segundo caiu no corpete, viscoso e quente, e o terceiro encharcou seus dedos e o ventre. Continuou a se masturbar entre gemidos abafados até a última gota, espremendo a glande hipersensível. Um grito sufocado ecoou no quarto vazio. Desabou para a frente, apoiando a testa na borda da cômoda, o peito subindo e descendo enquanto lutava para recuperar o ar, com os dedos ainda dentro do cu e a porra escorrendo pelo punho amarrado.
***
Quando enfim abriu os olhos, voltou a se encontrar no espelho. Tinha o cabelo revolto, o batom borrado além do contorno dos lábios, uma mancha vermelha no dorso da mão e outra branca, espessa, sobre o couro preto do corpete. Um desastre. E, ainda assim, havia algo novo em seu olhar, algo que antes não estava ali: uma centelha de certeza, a convicção tranquila de saber, pela primeira vez, quem era quando deixava de fingir.
Retirou o dedo de dentro de si com cuidado, sentindo o vazio repentino, e o levou aos lábios pintados. Chupou-o devagar, olhando-se. Curioso, quase terno com essa parte sua que acabara de reconhecer.
Ergueu-se lentamente. As pernas ainda tremiam sobre os saltos, mas ele não as apoiou por inteiro no chão de imediato. Ficou mais um instante se olhando, memorizando a imagem — a porra brilhando no corpete, o pau ainda meio duro pendendo para fora da renda —, como se quisesse levá-la por baixo da roupa da segunda-feira, dobrada e secreta, para sustentá-la durante a semana inteira.
Pensou, enquanto a respiração voltava ao lugar, que o prazer tinha sido apenas metade do que acabara de acontecer. A outra metade, a que realmente importava, era aquele instante de reconciliação diante do vidro: deixar de brigar consigo mesmo, deixar de pedir perdão a si próprio. Durante anos havia confundido desejo com vergonha, como se fossem a mesma coisa amarrada no mesmo nó. Naquela noite, pela primeira vez, sentiu-os separados.
Perguntou-se por quanto tempo mais conseguiria continuar vivendo no escuro, uma hora roubada por semana, escondendo a pessoa que o espelho lhe devolvia com tanta clareza. Cedo ou tarde, ele sabia, uma hora não bastaria. Cedo ou tarde ele iria querer sair, deixar que alguém o olhasse à luz do dia, abrisse suas pernas e ficasse mesmo assim.
Enquanto desfazia a fita de cetim, os dedos marcados com duas linhas rosadas onde o tecido havia mordido a pele, Adrián não pôde evitar sorrir para o próprio reflexo, ainda manchado do seu gozo.
Isso é só o começo.
Soltou o último nó e deixou a fita sobre a cômoda, ao lado do batom, sem escondê-la ainda. Da próxima vez iria um pouco mais longe. Da próxima vez talvez não apagasse a luz do corredor. Da próxima vez, talvez, a porta não estivesse trancada. E talvez, alguma noite que ele já intuía próxima, não estivesse sozinho diante do espelho, e a voz grave que imaginava havia anos deixasse de ser fantasia para se tornar, enfim, uma mão de verdade apoiada em sua cintura de couro, uma rola real afundando até o fundo enquanto ele se olhava gozar pela segunda vez naquela noite.




