A travesti que me transformou em sua boneca
Apertei a campainha com os dedos trêmulos. Sabia que do outro lado daquela porta me esperava alguém capaz de me transformar no que eu sempre sonhei ser.
Apertei a campainha com os dedos trêmulos. Sabia que do outro lado daquela porta me esperava alguém capaz de me transformar no que eu sempre sonhei ser.
Sempre acreditei ser um homem como os outros. Até descobrir a lingerie, os dildos e a certeza de que algo em mim esperava para despertar.
Quando a tesoura terminou o trabalho, o espelho lhe devolveu um olhar que não era totalmente seu. E a voz que ele ouviu naquele salão não o deixou em paz.
Fiquei na soleira com a taça de vinho na mão e o olhei de longe. Ele ergueu a vista. Eu sorri. Não foi preciso dizer mais nada.
Tinha vinte e um anos e nunca tinha ficado com uma mulher trans. Valentina mudou isso numa só noite com seu corpo, sua calma e seu jeito de me guiar sem me julgar.
Eu usava a lingerie mais ousada e queria que alguém me notasse. Quando ele apareceu entre os jardins e me viu de pernas cruzadas, soube que a semana seria diferente.
Entrei na água à noite com lingerie e um brinquedo apertado, certa de que estaria sozinha. Alguém me observava da escuridão do bar.
Sozinho em casa, com uma tanga vestida e os lábios pintados de vermelho, me olhei no espelho e não senti vergonha. Senti algo muito mais interessante.
Eu tinha esperado meses por aquele sábado. Saltos altos, lingerie de renda, a chácara só para mim. Ninguém devia me ver. Então Roberto apareceu da chácara da frente.
Cheguei de renda e saltos altos esperando Héctor. Diego abriu a porta com um sorriso irônico e eu não conseguia articular uma única palavra. Mas os saltos mudaram tudo.
Estava prestes a fechar o app quando veio o tap. Trezentos metros. Perto. Perto demais para ignorar num domingo sem planos.
Há semanas nos cruzávamos no corredor sem passar de um cumprimento. Naquela noite no bar, o que Valéria me revelou mudou tudo.
Três dias sem conseguir ir ao banheiro, um consultório de luxo e uma médica trans que me cobrou a consulta do seu jeito. O que aconteceu ali não se esquece.
Três colegas a convidaram para ficar quando o prédio estava vazio. Sofia topou, mas com condições.
A doutora fechou a porta do consultório com uma calma que não era profissional. Eu estava na maca com um avental de papel, e já sabia que não sairia dali igual.
Os saltos me matavam e a peruca me coçava, mas quando aquele homem me olhou do outro lado do salão, entendi que a noite estava só começando.
Quando don Alberto me olhou daquela forma pela primeira vez, soube que havia algo em mim que não era o que os outros pensavam. Aquela tarde confirmou.
A peruca, o vestido e os saltos estavam na gaveta da minha mesa. Meu chefe sabia havia meses. E isso mudava tudo entre nós.
Quando tirei o frasco de vidro da gaveta da minha mãe, eu já sabia que aquela tarde cruzaria uma linha da qual eu não pensava em voltar.
O sol queimava nossa pele nua enquanto Damián me abria sem clemência, e na água, a poucos metros, minha mãe descobria que também tinha fome.