O que meu amante viu enquanto eu estava com outro
Rodrigo sempre dizia que eu tinha algo que o desestabilizava. Um jeito de me mover, de olhá-lo, de parar justo antes de fazer o que nós dois sabíamos que eu ia fazer. Levávamos quatro anos assim, ele com a vida organizada de casado em Rosário e eu com a minha completamente desorganizada em Buenos Aires, nos encontrando sempre que podíamos, o que era menos do que queríamos e mais do que era sensato.
Eu tinha vinte e nove anos. Ele, cinquenta e dois. A diferença nunca foi o problema. O problema, se é que se podia chamar assim, era que eu gostava de empurrar os limites e que ele gostava disso tanto quanto eu, embora demorasse mais para admitir.
Aquela noite de abril estávamos no meu apartamento, os dois na cama, com o ventilador de teto girando devagar e o barulho da rua entrando pela janela entreaberta. Ele tinha um braço sobre a minha cintura. Eu olhava para o teto pensando em algo que havia semanas queria dizer a ele.
— Rodrigo.
— Hum.
— Preciso te dizer uma coisa.
Ele se mexeu. Me conhecia o bastante para distinguir quando o que vinha era importante.
— Quero transar com outro homem — eu disse, sem rodeios —. Não para te deixar. Não tem nada a ver com a gente. Quero sentir outra pica dentro de mim. Um corpo diferente, mãos que eu ainda não conheça. Quero que outro me faça gozar.
O silêncio durou exatamente o tempo suficiente para eu começar a me arrepender de ter dito aquilo.
Então ele falou.
— Quando?
Não era a resposta que eu esperava. Virei a cabeça para ver seu rosto. Os olhos dele tinham algo aceso, uma expressão que eu reconhecia, mas que até aquele momento só tinha visto em outros contextos.
— Não te incomoda? — perguntei.
— Você está fazendo a pergunta errada — disse ele —. A pergunta é se eu quero assistir.
Lá estava.
Fitei-o por vários segundos. Ele não desviou o olhar.
— Quero te ver — continuou, com a voz muito calma —. Quero saber como você reage com uma rola que não é a minha dentro. Quero ver a cara que você faz quando gozar com outro. Quero te ouvir gemer para ele.
Fiquei calada por um momento, sentindo aquelas palavras me molharem entre as pernas antes mesmo de eu terminar de processá-las.
— Tá bom — eu disse.
***
Mateo tinha trinta e sete anos e era conhecido de uma amiga. Eu não o conhecia pessoalmente, mas havíamos falado por telefone uma vez e havia algo no tom dele que me dizia que entenderia do que se tratava aquilo sem necessidade de longas explicações. Ele era direto. Não fazia charme.
Marcamos um almoço numa quinta-feira. Um restaurante sem pretensão em Palermo, mesas pequenas, luz baixa. Ele chegou antes de mim e se levantou quando me viu entrar. Era mais alto do que eu tinha imaginado. Ombros largos, um jeito de ficar de pé que ocupava espaço sem pedir licença a ninguém.
Conversamos durante duas horas. Sobre coisas sem importância: trabalho, viagens, filmes. Mas a conversa real não era aquela. Era a que acontecia por baixo, nas pausas, em como ele olhava minha boca quando eu falava e em como eu cruzava as pernas debaixo da mesa sabendo que ele percebia.
Quando chegaram os cafés, peguei o celular com aparente distração e escrevi para Rodrigo uma mensagem curta: Hoje à noite.
A resposta veio em menos de um minuto: Pronto.
Guardei o telefone de volta na bolsa e olhei para Mateo. Ele sorriu sem perguntar nada. Sabia que algo tinha mudado no ar da mesa.
***
O hotel era simples e anônimo, a três quadras do restaurante. Um quarto no terceiro andar com uma janela voltada para um pátio interno escuro. Mateo entrou primeiro. Eu fui direto ao banheiro, tirei o celular da bolsa e abri a videochamada com Rodrigo.
Vi-o na tela: estava no quarto dele, a luminária de cabeceira acesa, o rosto sério. Ele me olhou sem dizer nada por um segundo.
— Está pronta? — perguntou em voz muito baixa.
— Sim — eu disse.
— Quero ver tudo, Camila. Não desliga nada. E não tampe a boca quando gozar.
Apoiei o celular na base do abajur, inclinado para a cama para que ficasse no ângulo de que ele precisava, e saí do banheiro.
Mateo estava sentado na beira da cama. Ele me olhou entrar sem se mexer. Eu vestia uma saia escura e uma blusa de seda que eu sabia que me caía bem. Aproximei-me devagar, sem pressa. Quando fiquei a um passo dele, ele estendeu a mão e a colocou na minha cintura.
Só isso.
Só a mão na minha cintura.
E, no entanto, senti o xereca começar a molhar.
Deixei-me puxar para perto dele. As mãos dele subiram pelos meus lados, devagar, tomando medida. Virei de costas para ele, deixando-o me envolver por trás, sentindo o peso dos braços em volta da minha cintura. A boca dele desceu ao meu pescoço. Ao mesmo tempo, uma das mãos entrou por baixo da blusa e apertou um seio por cima do sutiã. A outra desceu pelo meu ventre até se enfiar entre as minhas pernas por cima da saia, pressionando forte, sentindo o calor.
Rodrigo está olhando.
O pensamento veio nítido, sem culpa, e em vez de me travar me acelerou. Havia algo estranho e poderoso em ser vista assim, em saber que alguém que me conhecia bem estava observando cada gesto do outro lado de uma tela, sem poder interferir, sem poder me tocar.
Mexi-me para trás, apertando a bunda contra o volume duro que já sentia na calça dele. Um gemido grave escapou de Mateo contra meu ouvido. Os dedos dele se enfiaram dentro do sutiã, beliscaram o mamilo, torceram de leve, e de mim escapou um gemido que eu não tentei disfarçar. Sabia perfeitamente que o microfone do celular estava captando tudo.
Levantei os braços e enrosquei-os na nuca dele, puxando sua cabeça mais para perto enquanto virava a minha para alcançar sua boca. Nos beijamos sem suavidade, com língua desde o primeiro segundo. Ele tomou o controle do beijo enquanto a mão direita subia a minha saia, procurava a calcinha e a puxava para o lado. Seus dedos me encontraram encharcada.
— Você está toda molhada — murmurou contra minha boca —. Faz quanto tempo que está assim?
— Desde o restaurante — eu disse.
Ele enfiou dois dedos de uma vez e eu gritei contra o pescoço dele. Mexeu-os dentro de mim com firmeza, buscando o ponto, enquanto o polegar pressionava o clitóris em círculos apertados. Apoiei-me toda nele para não cair. A saia ficou subida até a cintura e ele estava me abrindo com os dedos na frente do telefone, com as pernas separadas, deixando Rodrigo ver cada movimento da mão de outro homem enfiada em mim.
— Tira tudo — disse Mateo baixinho.
Soltei-me dele e fiquei de pé em frente à cama, me virando para que o ângulo do telefone me pegasse de frente. Desabotoei a blusa botão por botão, sem pressa. O sutiã caiu depois. A saia eu já tinha perdido. Fiquei só com a calcinha ensopada e a desci devagar até os tornozelos, olhando para a tela enquanto fazia isso.
Mateo tirou a própria roupa sem pressa, com o olhar fixo em mim o tempo todo. Quando abaixou a calça, a pica saltou dura, grossa, maior do que eu esperava. Algo se contraiu dentro de mim só de olhar. Ajoelhei-me diante dele sem que ele pedisse.
Peguei-a com a mão, senti o peso, e a enfiei na boca até onde consegui. Mateo soltou o ar de golpe e apoiou a mão na minha nuca. Não apertou, mas a deixou ali, marcando o ritmo. Comecei a chupar devagar, tirando-a inteira para lambê-la da base à ponta, circulando a glande com a língua, cuspindo saliva sobre ela para deslizar melhor a mão.
— Assim — disse ele —. Me olha.
Levantei os olhos e o olhei enquanto a enfiava até o fundo da garganta. Engasguei uma vez e não me importei. Sabia que Rodrigo estava vendo meus olhos se encherem de lágrimas, a baba escorrendo pelo meu queixo, a cabeça indo e vindo com a pica de outro entre os lábios.
Mateo me agarrou pelo cabelo e tirou a rola da minha boca com um som úmido.
— Pra cama — disse ele —. De barriga para cima.
Deixei-me cair de costas sobre o colchão, com as pernas ainda abertas e pendendo para fora da beira. Ele se ajoelhou no chão, me segurou pelas coxas e trouxe meu sexo à boca. Quando a língua dele me tocou, arqueei as costas inteiras e gritei. Meus dedos se fecharam primeiro sobre os ombros dele, depois sobre o cabelo.
Ele comeu com fome. Nada daqueles lambidos tímidos que às vezes a gente é obrigada a aguentar. Chupou meu clitóris inteiro para dentro da boca, apertou-o com os lábios, brincou com a língua por cima e por baixo, enquanto dois dedos entravam e saíam de mim com um som molhado que enchia o quarto. Agarrei a cabeça dele com as duas mãos e o pressionei contra mim, movendo meus quadris contra a cara dele, sem deixá-lo respirar.
— Não para — eu disse —. Não para, não para, não para.
Demorei a lembrar que Rodrigo estava olhando. E quando me lembrei, foi porque senti no estômago, um calor diferente: a consciência de que ele estava ali ouvindo eu implorar para outro homem não parar de me comer. Aquela sensação não era culpa.
Era exatamente o contrário.
O primeiro orgasmo me atingiu ali, com a boca de Mateo colada em mim e os dedos dentro, e eu não o interrompi. Fechei as coxas em volta da cabeça dele e me sacudi inteira, sentindo o xereca se apertar em volta dos dedos dele uma vez após a outra. Ele me levou além do que eu esperava.
***
Virei-me sem dizer nada. Apoiei as palmas no colchão e levantei os quadris, deixando a bunda empinada. Eu sabia exatamente para onde estava apontada a câmera do celular. Sabia que Rodrigo estava vendo a xereca inchada e brilhante, esperando.
Mateo se posicionou atrás de mim, pôs as duas mãos nas minhas ancas e não esperou sinal. A ponta me abriu e ele empurrou de uma vez até o fundo.
O primeiro movimento me cortou o fôlego. Escapou-me um grito rouco que rebateu nas paredes do quarto.
O ritmo começou intenso e assim se manteve desde o início. Meu corpo ia e vinha a cada investida. Eu sentia a pica me golpeando por dentro, contra o fundo, cada estocada um choque seco dos quadris dele contra minhas nádegas. Ele não aliviava.
— Que xereca gostosa você tem — disse entre os dentes —. Toda molhada, assim, pra mim.
Ele pegou meu cabelo. Enrolou-o na mão e puxou para trás com firmeza, forçando-me a levantar a cabeça, curvando ainda mais minhas costas. O ângulo mudou e a pica entrou ainda mais fundo. O som que saiu da minha garganta eu não controlei.
As mãos dele caíram sobre minhas nádegas, firmes, marcando o compasso. A cada vez. Palmadas fortes que deixavam minha pele quente e vermelha. Ele chupou o dedo polegar da outra mão e o apertou contra o meu cu, pressionando o anel, entrando aos poucos, enquanto continuava me fodendo sem parar.
— Ai, meu Deus — gemi —. Ai meu Deus, ai meu Deus.
Meu corpo respondia sozinho, seguindo o ritmo sem que eu precisasse pensar. Os sons saíam sozinhos também, e eu não me preocupei em calá-los. O quarto se encheu deles, e do barulho úmido dos nossos corpos, e do som da mão de Mateo caindo sobre minha bunda, e da respiração pesada dele atrás.
Rodrigo está ouvindo.
Esse pensamento me atravessou como uma descarga elétrica. Imaginei-o do outro lado do telefone, imóvel, os olhos fixos na telinha, com a mão na própria pica, vendo o que nunca tinha visto: minhas costas arqueadas, minhas mãos cravadas no lençol, Mateo atrás de mim me enfiando sem pausa, o polegar dele dentro do meu cu.
— Diz — pedi a Mateo, virando a cabeça só um pouco —. Diz alto para o telefone.
Ele entendeu na hora.
— Estou te fodendo, Camila — disse, alto, claro, enquanto me dava uma palmada —. Estou te fodendo como você tem que ser fodida. Toda molhada você está me pedindo.
Ouvi um som abafado vindo do telefone. Um gemido baixo. Rodrigo estava se tocando.
Tudo ficou ainda mais intenso.
***
Eu o parei com uma mão no peito dele. Ele parou na hora, com a pica ainda dentro. Tirou-a de mim devagar, com um puxão que me fez ranger os dentes, e eu me virei. Sentei-me sobre ele com as costas retas. Peguei a rola com a mão, coloquei-a na entrada do meu sexo e a cravei de uma só vez, afundando até o fundo.
Os dois gememos ao mesmo tempo.
Deitei as palmas abertas sobre o peito dele e comecei a me mover. Devagar no começo, sentindo cada centímetro, me ajustando ao novo ângulo. Subia quase até a ponta e descia de golpe. A pica me tocava por dentro num ponto que me fazia apertar os olhos.
Olhei-o nos olhos enquanto me fodia nele. Ele me devolveu o olhar com uma expressão que não escondia nada. As mãos dele se agarraram às minhas coxas primeiro, depois subiram para os seios, apertando-os, puxando os mamilos. Eu acelerei.
Monte-mei com mais força, rebotando em cima dele com as mãos apoiadas no peito, deixando os seios saltarem livres. Eu sabia que a câmera do telefone me pegava de lado, que Rodrigo estava vendo minha silhueta perfeita, como eu subia e descia sobre outro, como os músculos das minhas pernas se marcavam a cada investida.
— Toca minha bunda — eu disse a Mateo.
A mão dele subiu e desceu outra vez, chupou dois dedos e os apertou contra o meu ânus, entrando aos poucos no ritmo que eu marcava com os quadris. Pressão dupla, na frente e atrás, e eu perdendo a cabeça em cima dele.
O orgasmo chegou sem aviso, como sempre chega quando a gente para de persegui-lo. Uma tensão que começou em algum ponto profundo e foi se espalhando para fora até que todo o corpo se contraiu num segundo e então relaxou de uma vez. Gritei alto, sem tampar a boca, sentindo o xereca pulsar em volta da pica em espasmos longos, sentindo a bunda se contrair em volta dos dedos dele. Fiquei imóvel em cima dele, com as mãos no peito e a boca aberta, sem conseguir me mexer nem falar.
— Camila — ele disse, em voz baixa.
Era a primeira vez que ele usava meu nome a noite inteira.
Deixei-me cair de lado sobre a cama.
***
Mateo se acomodou sobre mim outra vez. Mais rápido agora, mais direto. Abriu minhas pernas com os joelhos e me penetrou de uma só investida. Minhas pernas se abriram sozinhas ainda mais, enrolando-se na cintura dele. Levantei os quadris para encontrá-lo e fechei os olhos.
Ele me comia duro, sem ritmo cuidadoso, indo atrás do dele. Eu cravava as unhas nas costas dele e pedia mais no ouvido. A boca dele chupava meu pescoço, deixando marcas que eu teria de esconder no dia seguinte. Os quadris dele chocavam-se contra os meus com um som surdo, repetido, cada vez mais rápido.
Nesse momento pensei em Rodrigo.
Não como culpa. Como algo acrescentado, como mais um elemento em tudo aquilo que já me tinha completamente fora de mim.
Imaginei-o ali, naquele quarto escuro do outro lado do telefone, com a mão na pica, me vendo assim: completamente entregue a algo que ele mesmo havia pedido. Me vendo sem filtro, sem a encenação que a gente sempre sustenta com a pessoa que nos conhece bem. Me vendo receber a porra de outro homem.
Com Mateo não havia história. Não havia nada a sustentar. Só uma pica dentro e um corpo pesado por cima e a vontade de gozar de novo.
E Rodrigo estava vendo tudo.
Esse pensamento me afundou ainda mais no que eu estava sentindo. Mateo acelerou de repente, rosnou perto do meu ouvido, e senti-o inchar dentro de mim um segundo antes de me preencher. Os jatos quentes de sêmen subiram dentro de mim enquanto ele continuava empurrando com estocadas curtas, esvaziando-se por completo. Gozei de novo com ele dentro, apertando as pernas em volta da cintura dele, sentindo a porra alheia escorrer entre as minhas coxas quando ele finalmente saiu.
Tudo parou.
***
Os corpos relaxaram. O barulho da rua continuava lá fora. O ventilador de teto girava devagar no silêncio.
Fiquei de barriga para cima por um momento, olhando o teto branco do quarto, com a respiração ainda alta e o sêmen ainda saindo de mim devagar. Mateo estava ao meu lado, quieto, sem falar. Não precisava falar.
Virei a cabeça para o abajur.
O telefone ainda estava ali, inclinado para a cama. A tela fraca na penumbra.
Rodrigo do outro lado.
Tendo visto tudo.
Abri o chat e mandei uma mensagem sem palavras: só um ponto, como sinal de que tinha terminado. Trinta segundos depois ele respondeu com uma única imagem: uma chama.
Sorri contra o travesseiro.
Eu sabia exatamente o que isso significava para a próxima vez que nos víssemos.