Saber que ele me olhava tornava tudo mais intenso
Valeria, 31 anos. Rodrigo, 48, e casado havia muito mais tempo do que eu o conhecia. Era isso que nós éramos, sem rótulos nem explicações: duas pessoas que se encontravam quando podiam e se entendiam naquele território específico onde as palavras são dispensáveis.
Estávamos assim havia quase três anos.
Às vezes, ele me dizia que eu o desestabilizava. Que, com um único olhar, eu podia levá-lo ao limite sem que ele pudesse fazer nada a respeito. Eu não o contradizia porque era verdade, e nós dois sabíamos disso. Aquilo fazia parte do que funcionava entre nós: esse equilíbrio instável em que nenhum dos dois tinha controle total.
Numa tarde de quarta-feira, deitada na cama de um hotel que conhecíamos bem, eu lhe disse algo que não tinha planejado dizer. Não calculei nem preparei. Simplesmente saiu.
— Quero transar com outro homem — eu disse a ele —. Alguém diferente. Sentir algo que com você eu não sinto, não porque me falte algo, mas porque quero saber como é.
Rodrigo não respondeu de imediato. Ficou me olhando com aquela expressão que eu nunca terminava de decifrar por completo, a que ele usava quando pensava em várias coisas ao mesmo tempo.
Então sorriu. Devagar.
— Faz isso — ele me disse —. Mas quero ver. Tudo.
Eu não esperava por aquilo. E, no entanto, quando ele falou, algo se mexeu dentro de mim. Não foi surpresa nem rejeição. Foi outra coisa. Algo mais parecido com antecipação.
Aí começou.
***
Mateo apareceu duas semanas depois, encontrado por meio de um aplicativo, dessa forma sem romantismo que as coisas têm hoje em dia. Trinta e sete anos, trabalhava na construção, ombros largos, mãos grandes. Não era o tipo de homem com quem eu costumava me envolver. Era mais direto, mais concreto, sem as camadas de ambiguidade que às vezes eu gostava e outras vezes me esgotavam.
Marcamos de jantar numa terça-feira, num restaurante no centro, sem pretensão nenhuma, só para nos vermos pessoalmente e quebrar o gelo.
Desde a primeira taça havia algo no ar que não era uma conversa normal. Os olhares duravam um segundo a mais. Quando ele se aproximou para me mostrar algo no cardápio, a mão dele quase roçou a minha sobre a mesa e nenhum dos dois se mexeu. Falamos de trabalho, de música, de nada importante. Mas tudo o que dizíamos tinha outra camada por baixo.
— O que você está procurando exatamente? — ele me perguntou, em certo momento, direto ao ponto.
— Uma noite — eu disse —. Só isso.
Ele assentiu. Sem perguntas adicionais. Isso também me agradou.
***
Do restaurante, fomos a pé até o hotel. Eu tinha reservado um quarto simples, sem qualquer luxo. Não era preciso mais do que uma cama e um pouco de privacidade.
Antes de sair do banheiro, ajeitei o celular com cuidado sobre o móvel em frente à cama, apoiado no espelho num ângulo que cobrisse bem. Iniciei a videochamada com Rodrigo. Vi ele aparecer na tela: estava em algum lugar escuro, com a luz do telefone iluminando só metade do rosto. Ele não disse nada. Eu também não. Desliguei a tela do meu para que de fora não se visse o brilho, e saí do banheiro.
Mateo estava sentado na beira da cama. Me viu entrar. Baixou o olhar devagar, de cima a baixo, sem disfarce.
— Vem aqui — disse ele.
Me aproximei.
Quando cheguei perto, ele pôs as mãos nos meus quadris e me virou com suavidade, até que eu ficasse de costas para ele. Me puxou para o corpo dele com firmeza, com as palmas abertas sobre meus quadris. Senti o calor dele contra minhas costas, o peso das mãos, a forma como ele segurava sem apertar ainda, como quem mede antes de decidir.
Rodrigo está vendo isso.
O pensamento me cruzou a cabeça e me fez fechar os olhos por um segundo. Não me tirou do momento. Pelo contrário, me ancorou ainda mais nele.
Mateo inclinou a cabeça e começou a beijar meu pescoço. Primeiro devagar, roçando de leve com os lábios. Depois com mais pressão, buscando, marcando. Minhas mãos subiram sozinhas e se agarraram ao antebraço dele.
Eu me virei para ele.
Beijei-o.
Não foi um beijo suave nem cuidadoso. Foi um daqueles beijos que começam num lugar e terminam em outro, em que a respiração muda sem que você decida e as mãos não sabem muito bem o que fazer primeiro. O dele era diferente do de Rodrigo. Mais direto, sem a paciência que vem do tempo de conhecer alguém. Mateo beijava como quem já sabe aonde vai e não tem nenhum motivo para contornar o caminho.
Eu tirei o vestido.
Ele tirou a camisa.
Quando vi o torso dele, entendi o que o trabalho físico faz num corpo. Não era o tipo de musculatura calculada de academia. Era mais denso, mais concreto, com aquela solidez que os homens que realmente usam o corpo todos os dias têm.
Ele me empurrou suavemente para trás até que a cama tocasse minhas pernas, e eu me deixei cair.
Ele se inclinou sobre mim.
O peso dele desceu com intenção, não com violência. Ele desceu até meu peito e tomou o tempo que quis, sem pressa, me fazendo arquear as costas sem que eu decidisse. Minhas mãos se fecharam em seu cabelo. Minha respiração já tinha mudado.
Os dedos dele percorreram a linha da minha cintura, depois a curva das minhas coxas, e seguiram até encontrar a lingerie que eu ainda usava. Ele a afastou com cuidado primeiro, como se quisesse saborear o momento, e depois com mais fome, como se qualquer barreira entre a boca dele e a minha pele o irritasse. Quando enterrou o rosto entre minhas pernas, eu me tencionei na hora.
O primeiro contato foi a língua, quente e lenta, lambendo-me de baixo para cima com uma precisão que me arrancou um gemido curto. Ele abriu mais minhas pernas com as mãos e me manteve ali, exposta, enquanto voltava a lamber, mais acima, mais molhado, mais insistente. A língua dele entrou entre as dobras da minha boceta, me percorrendo inteira, e o atrito áspero da barba na parte interna da coxa me fez tremer.
— Assim — murmurei sem querer, com a voz quebrada.
Ele não levantou a cabeça. Continuou me chupando com uma paciência suja, alternando lambidas longas com investidas mais curtas da língua, diretas no clitóris. Às vezes me abria com os dedos para entrar mais fundo, para me provar de verdade, e eu sentia como me molhava cada vez mais, como o calor se concentrava no centro até me deixar sem ar.
Rodrigo está vendo como eu me desfaço.
Esse pensamento, em vez de me tirar do momento, me afundou ainda mais nele. Senti algo se abrir em mim, uma desinibição que não vinha só de Mateo, mas de saber que havia outro olhar ali, invisível, atento a cada detalhe. Me senti mais livre do que em qualquer outro encontro de que me lembrasse.
Mateo continuou me chupando com mais intensidade, a boca trabalhando sem descanso, e quando enfiou dois dedos dentro de mim ao mesmo tempo, dobrando a mão para me tocar por dentro, eu quase gritei. Ele entrava e saía com um ritmo firme, enquanto a língua não parava de castigar exatamente o ponto onde eu já não conseguia pensar direito.
Eu pedi mais antes mesmo de perceber que estava pedindo. Só notei que precisava sentir tudo dele, que o que havia não bastava.
— Já — eu disse.
***
Ele entrou devagar no começo, me deixando me ajustar. Era maior que Rodrigo e eu percebi isso na hora, aquela diferença concreta e sem enfeite que o corpo registra antes da mente. Fiquei quieta por um momento, respirando, sentindo como ele me preenchia aos poucos, como a pressão me abria por dentro até me tornar mais sensível, mais alerta, mais viva.
Depois ele começou a se mover.
O ritmo foi crescendo aos poucos. Primeiro lento, medindo. Depois mais constante, mais decidido. Minhas mãos procuraram os braços dele, os ombros, qualquer coisa onde eu pudesse me segurar enquanto meu corpo processava cada movimento.
Em algum momento ele me virou.
Fez isso com uma facilidade que me surpreendeu, quase sem esforço aparente, até eu ficar de barriga para baixo com as mãos apoiadas no colchão. As mãos dele encontraram meus quadris e me ajustaram ao ângulo que ele queria. Entrou de novo, mais fundo por trás, e a primeira estocada me arrancou um som bruto, sem nenhuma elegância.
Ele continuou.
O ritmo era constante, firme, sem pausas desnecessárias. Eu sentia cada investida em todo o corpo, não só no ponto em que estávamos nos tocando. Minha testa foi caindo para frente. Meus dedos se fecharam nos lençóis e eu puxei sem perceber.
Em certo momento ele pegou meu cabelo — não com brutalidade, mas com a decisão de quem sabe o que faz — e segurou, fazendo com que eu erguesse a cabeça. Isso mudou o ângulo de tudo, fez minhas costas se curvarem de outro jeito, fez cada movimento chegar de um lugar diferente.
Saiu de mim um som mais longo, sem filtro.
Depois ele soltou meu cabelo e me pegou pela cintura, me empurrando com uma cadência mais dura, mais profunda. Eu sentia a carne das minhas coxas batendo contra a dele, o som úmido dos nossos corpos se misturando, o cheiro de suor e pele quente enchendo o quarto. Mateo respirava pesado, entrecortado, e a cada investida ele arrancava outro tremor das minhas pernas.
Rodrigo está ouvindo isso. Está vendo como eu me perco.
Esse pensamento não me deteve nem me incomodou. Fez com que eu me perdesse ainda mais. Meus sons saíam sem que eu os escolhesse, meu corpo respondia por conta própria, seguindo o ritmo de Mateo sem que eu precisasse decidir nada. Era uma espécie de rendição que não tinha nada de submissão: era exatamente o que eu queria.
— Me olha — disse Mateo, com a voz baixa e áspera.
Levantei o rosto o suficiente para vê-lo. A mandíbula dele estava tensa, os olhos cravados em mim, como se quisesse devorar meu rosto enquanto continuava me fodendo sem afrouxar um centímetro. Aquilo me acendeu ainda mais. Agarrei a borda do colchão, arqueei as costas e deixei que ele me desse mais forte, mais fundo, até cada golpe me arrancar o ar pela boca.
Cheguei lá.
Foi um daqueles orgasmos que agarram você antes de estar pronta para recebê-los, que tensionam o corpo da cabeça aos pés e cortam a respiração por um segundo. Fiquei imóvel, com o corpo ainda tremendo, respirando com a testa contra o colchão, enquanto outra onda me atravessava as pernas e o ventre.
Mateo parou. Esperou.
Quando me recuperei o suficiente, me virei e o olhei.
— Senta — eu disse.
***
Subi nele.
O posicionei onde queria e desci devagar, sentindo como ele entrava de novo por esse ângulo completamente diferente. Apoiei as mãos no peito dele e comecei a me mexer. Por cima, tudo muda: eu tinha o controle do ritmo, do ângulo, de até onde ir. Podia ver o rosto dele, ver como ele fechava os olhos, como apertava a mandíbula toda vez que eu mudava o movimento ou acelerava de repente.
Isso me agradou mais do que eu esperava.
Meus quadris começaram a trabalhar sozinhos, marcando um vaivém úmido e profundo. Eu o apertei com as pernas, senti como ele me preenchia outra vez e movi a pelve em pequenos círculos para roçá-lo exatamente onde eu mais precisava. As mãos dele se fecharam nas minhas coxas, não para me guiar, mas para se apoiar, para ter em que se segurar enquanto eu fazia o que queria. Acelerei. O ar me quebrou na garganta e o segundo orgasmo veio quase sem aviso, mais intenso que o primeiro, e me fez me dobrar para a frente sobre o peito dele com um som nada discreto.
Fiquei assim por alguns segundos, respirando contra o ombro dele, com o corpo ainda no meio das últimas sacudidas.
Depois ele me deitou de novo e retomou o controle.
***
A parte final foi mais longa.
Minhas pernas estavam abertas, minhas mãos nas costas dele, e em algum ponto do fim eu parei de processar qualquer pensamento que não fosse o que estava sentindo. O quarto, o telefone, tudo desapareceu. Só restaram o corpo dele e o meu e o ritmo entre os dois. Ele segurou meus quadris com força, me afundou contra o colchão e continuou me enfiando a rola com uma cadência cada vez mais desesperada, mais suja, até os dois estarmos suados e trêmulos.
Mas justamente no final, quando senti a tensão nos braços dele e a mudança na respiração que anunciava o desfecho, pensei em Rodrigo.
Não foi um pensamento de culpa nem de distância.
Foi algo completamente diferente.
Ele está vendo como isso termina. Está vendo como eu me rendo.
Esse pensamento me percorreu como uma corrente enquanto o corpo de Mateo se enrijecia sobre o meu e depois desabava devagar.
Senti a gozada dele dentro de mim, quente, espessa, me preenchendo enquanto ele continuava colado ao meu quadril. Ele soltou um gemido grave, quase um rosnado, e eu fiquei imóvel, sentindo o pulsar do corpo dele sobre o meu e o sêmen escorrendo por dentro quando ele se afastou só um pouco, lento, real, impossível de ignorar.
***
Depois ficamos em silêncio por alguns minutos.
O quarto estava em penumbra. A respiração dos dois voltava aos poucos ao normal. Mateo tinha o braço sobre o travesseiro, olhando para o teto. Eu olhava para o móvel onde estava o telefone.
Quando Mateo se levantou para ir ao banheiro, me aproximei.
A chamada continuava ativa.
Rodrigo estava ali na pequena tela, com aquela cara dele que eu nunca terminava de ler. Ele me olhava. Não disse nada durante um momento que pareceu longo.
Depois, com aquela voz que eu reconheceria em qualquer lugar:
— Você vai ter que me contar tudo — disse ele —. Quando eu te vir.
Eu sorri na penumbra do quarto.
— Aí veremos — respondi.
E encerrei a chamada.
