A aposta que me deu uma noite de ménage
A aposta tinha sido ideia de Marcos, numa sexta-feira chuvosa com uma garrafa de vinho quase vazia e a televisão desligada porque nenhum dos dois estava com vontade de olhar para nada. Havíamos passado uma hora jogando cartas, inventando regras na hora, e quando o jogo começou a me entediar, propus algo diferente.
— Vamos escrever cada um num papel a fantasia que nunca contou ao outro — eu disse —. Quem perder a próxima mão vai ter que torná-la realidade.
Marcos me olhou por cima da taça. Aquele olhar dele que significava que estava calculando alguma coisa.
— Qualquer fantasia? — ele perguntou.
— Qualquer fantasia.
Escrevemos os dois em silêncio. Ele dobrou o papel duas vezes antes de deixá-lo virado para baixo sobre a mesa. Eu dobrei o meu só uma vez.
Marcos perdeu a mão.
Ele pegou meu papel, leu devagar, leu de novo. Não disse nada por vários segundos. Depois ergueu os olhos e me olhou de um jeito que eu não soube decifrar por completo: havia surpresa, sim, mas também outra coisa.
— De acordo — disse.
E guardou o papel no bolso da camisa.
Nas semanas seguintes, eu o observei organizar tudo sem me dizer nada. Ligações que ele fazia do quarto de hóspedes com a porta fechada. Mensagens que interrompia quando eu passava por trás. Numa tarde, vi uma notificação de reserva de hotel no celular dele antes que ele conseguisse escondê-la: uma suíte, uma noite, um hotel no centro da cidade.
— Na sexta-feira temos um jantar especial — ele me disse na terça —. Vista-se como eu gosto.
Não perguntei nada. Passei três dias com uma expectativa no estômago que às vezes custava distinguir dos nervos.
***
Na sexta-feira à tarde, Marcos preparou o banho. Óleo na água, velas nas bordas da banheira, música no celular apoiado na pia. Sentou-se na beira enquanto eu me banhava e disse que estava tudo pronto.
— O que devo vestir? — perguntei.
— O que você já sabe.
O conjunto de renda cor de vinho que eu tinha comprado meses antes e que nunca tínhamos estreado. Sutiã de taça aberta, tanga fina, cinta-liga preta com meias até a coxa. Olhei-me no espelho grande do quarto e senti aquela mistura particular de exposição e poder que vem de estar quase nua de salto alto.
Vesti um vestido preto por cima, os lábios de vermelho intenso, o cabelo preso com algumas mechas soltas.
Marcos entrou no quarto, me viu no espelho antes que eu percebesse e ficou parado no umbral. Quando me virei para olhá-lo, cruzou os braços e assentiu bem devagar.
— Perfeita — ele disse.
Antes de sairmos do apartamento, ele me colocou uma venda de seda preta sobre os olhos. Explicou que fazia parte do jogo, só para aumentar a expectativa. Pegou minha mão e me guiou até o elevador, depois a um táxi, depois por um lobby que cheirava a madeira nobre e flores frescas. Quando tirou a venda, estávamos diante da porta de uma suíte numerada em bronze.
— Pronta? — perguntou.
Assenti.
***
O quarto era amplo e escuro no melhor sentido: iluminação baixa e quente, velas de diferentes alturas sobre as mesas laterais e o peitoril da janela. O sofá de veludo escuro estava posicionado diante de uma poltrona individual de couro, perfeitamente orientada para ver sem perder nenhum detalhe.
Sobre a mesinha central havia uma garrafa de prosecco em gelo e três taças já dispostas.
O homem que esperava na suíte se levantou quando entramos.
Chamava-se Ignacio. Devia ter uns quarenta anos: alto, atlético, pele morena, um jeito de se manter que transmitia calma e confiança em igual medida. Usava camisa cinza-escura e calça preta. Estendeu a mão com uma segurança tranquila e me olhou diretamente, sem disfarçar que estava avaliando cada parte de mim. Marcos o havia escolhido com cuidado.
Brindamos os três. A conversa foi curta.
— Minha mulher ganhou a aposta — disse Marcos, sentando-se na poltrona de couro e cruzando os tornozelos com uma calma estudada —. Ignacio, você já sabe o que se espera.
Ignacio assentiu. Me olhou.
— Começamos?
***
As mãos dele em meus ombros foram firmes desde o primeiro instante. Ele tirou meu vestido com uma facilidade que falava de prática, deixou-o cair no chão e deu um passo atrás para me olhar. O que havia por baixo agradou a ele: ele não disse nada, mas não era preciso. Meus mamilos já estavam duros sob a renda aberta, a pele eriçada pela mistura de vergonha e excitação.
Ele me virou devagar até que eu ficasse de frente para a poltrona, onde Marcos observava com a taça na mão e os olhos fixos em cada movimento. O olhar do meu marido me despia tanto quanto as mãos de Ignacio.
Ignacio desceu a boca até meu pescoço e me mordeu de leve, o suficiente para deixar uma marca quente. Depois seguiu com a língua, traçando uma linha úmida até a clavícula enquanto seus dedos percorriam minhas costelas, se metiam sob a borda do sutiã e apertavam meus mamilos um a um. Gemido sem querer, num sobressalto que me fez arquear as costas.
— Assim — ele murmurou —. Quero te ouvir.
Ele me levou até o sofá. Fez-me sentar de costas contra o peito dele, completamente exposta ao olhar do meu marido. Senti o veludo sob as coxas, a respiração de Ignacio na nuca, a atenção fixa de Marcos cravada em mim como mais uma mão. Ignacio puxou a tanga para o lado, enfiou dois dedos entre minhas pregas e os deslizou para cima e para baixo, devagar no começo, procurando minha umidade, me abrindo com paciência. Quando encontrou o ponto exato, pressionou o polegar sobre o clitóris e eu soltei um arquejo brusco.
— Você está encharcada — disse Ignacio, com um sorriso mal visível.
Ele me preparou com os dedos até que o ar tremesse em meus pulmões. Um dedo, depois dois, entrando e saindo com uma cadência lenta que me fazia me contorcer contra ele. Tomou meu seio com uma mão, apertando o mamilo entre dois dedos, enquanto a outra continuava me abrindo e afundando mais fundo. Eu já estava perdida, reclinada contra o torso dele, respirando em puxões.
— Quero que você me foda logo — eu disse, com a voz quebrada pela necessidade.
Ignacio soltou uma risada curta e me ergueu a cintura.
Quando entrou em mim, foi de uma só vez, fundo e sem hesitação. Senti o pau grosso me abrindo com um empurrão seco, me preenchendo de golpe até arrancar um gemido abafado que eu não consegui conter. Ele me manteve imóvel por alguns segundos, deixando-me notar cada pulsação do corpo dele, cada batida dura dentro de mim, antes de começar a se mover.
Era mais largo do que eu esperava. Levei um momento para me acostumar antes de começar a me mover. Os quadris subiam e desciam num ritmo que encontrei sozinha, e ele empurrava para cima para se encontrar comigo, as mãos apertando minha cintura com uma força suficiente para deixar marcas. O som úmido dos nossos corpos se misturava à minha respiração rápida e ao leve ranger do sofá sob o vai e vem.
— Me olha — disse Marcos da poltrona.
Eu olhei. Não descansei os olhos dele durante o que se seguiu.
O orgasmo veio antes do que eu esperava. Semanas de antecipação haviam acumulado uma tensão que não precisava de muito para se romper. Contraí-me em torno de Ignacio em uma série de espasmos enquanto Marcos me observava sem piscar, a respiração visivelmente mais rápida.
***
Ele me virou sobre o sofá. De quatro, suas mãos ajustaram o ângulo dos meus quadris antes de começar. Abriu mais a tanga, deixou-a de lado e voltou a entrar, desta vez por trás, com uma investida seca que me fez me agarrar às almofadas com as duas mãos. O pau batia fundo, preciso, e cada impacto me sacudia da nuca ao cóccix. O que se seguiu foi um ritmo constante e exigente, o som do choque de pele contra pele enchendo toda a suíte.
Marcos se levantou da poltrona. Aproximou-se e ficou de pé ao meu lado, inclinado ligeiramente na minha direção, muito perto do meu rosto. Não me tocou. Apenas estava ali, com os olhos nos meus, enquanto Ignacio me abria por trás com investidas cada vez mais firmes.
— Me diz o que sente — murmurou.
— Que você está olhando — respondi entre arquejos —. E que eu adoro isso.
Ele encostou os lábios na minha testa por um segundo. Nada mais.
Ignacio me segurou pelo cabelo com cuidado, não para me machucar, mas para me obrigar a arquear as costas um pouco mais, e essa nova posição o fez entrar ainda mais fundo. Senti a ponta do pau roçando aquele ponto exato que me fazia perder o controle. Abri-me sobre o sofá, tremendo, os dedos afundados no tecido, e o segundo orgasmo explodiu com mais violência que o primeiro: um espasmo longo, apertado, que me deixou sem ar e com a voz se quebrando num gemido sujo. Marcos sustentou meu olhar o tempo todo.
***
Descansamos. Marcos serviu mais prosecco e os três nos sentamos na cama com as costas apoiadas na cabeceira. A conversa foi tranquila, quase comum, como se a situação não tivesse nada de extraordinário. Ignacio falava pouco, mas bem. Marcos tinha aquela habilidade dele de preencher os silêncios sem que ficassem incômodos.
Quando Ignacio foi ao banheiro, meu marido se virou para mim.
— Como você está? — perguntou em voz baixa.
— Muito bem — respondi —. E você?
— Melhor do que eu pensava — admitiu.
Ele me beijou na têmpora.
— Segunda rodada — disse —. Desta vez quero te ver contra a janela de vidro.
***
A janela da suíte dava para um pátio interno com luzes de jardim baixas. Ignacio me colocou de frente para o vidro, minhas palmas abertas contra a superfície fria. A diferença entre o vidro gelado e o calor do meu corpo me fez estremecer. Ele afastou mais minhas pernas com uma mão no quadril e entrou devagar desta vez, deixando-me sentir cada centímetro antes de começar a se mover. Pressionei a testa contra o vidro e soltei um gemido quando ele se enterrou por completo.
As investidas começaram lentas e profundas. O frio do vidro contra meus seios contrastava com o calor do corpo dele atrás de mim, e essa diferença de temperatura se convertia em algo difícil de separar do prazer. Minhas mãos deixavam marcas de vapor no vidro. Ignacio movia a pélvis com precisão brutal, saindo só o bastante para voltar a se cravar em mim com uma pancada de quadril que me arrancava arquejos curtos e úmidos.
Marcos estava sentado na poltrona, a poucos metros.
— Mais forte — disse.
Ignacio ajustou o ritmo. Os golpes ficaram mais firmes, o som ecoando nas paredes da suíte. Eu pressionava a testa contra o vidro e deixava a sensação apagar qualquer pensamento que não fosse imediato. Marcos se levantou ao fundo do quarto e ficou me olhando de pé, com a taça abandonada na mão. Me ver assim, aberta, entregue, diante dele, fazia o ar pesar entre meus pulmões.
Gozei com um tremor que durou mais do que o habitual, espalhado em ondas que continuavam chegando quando o pico já havia passado. Ignacio não parou; continuou empurrando até que meu corpo voltou a se tencionar e então relaxou, me levando novamente à beira com mais alguns golpes profundos.
***
Sobre a mesa baixa no centro da sala, Ignacio me colocou de barriga para cima. Minhas pernas sobre os ombros dele, o ângulo diferente e mais profundo. A madeira rangia com um ritmo regular sob o peso dele. Ele segurou minhas coxas abertas com uma mão e com a outra acariciou meu ventre antes de descer os dedos até meu sexo, me esfregando devagar enquanto continuava a entrar e sair com uma cadência suja e pesada. Notei como o pau roçava de um jeito quase insuportável aquele ponto exato que me fazia chorar de prazer.
Marcos sentou-se na beirada da mesa ao meu lado. Pegou minha mão. Não falou. Só me olhava o rosto com uma atenção total que às vezes me parecia a forma mais nua de intimidade que conhecíamos. Agarrei-me aos dedos dele enquanto Ignacio me fodía com uma constância que me deixava aberta, brilhando de suor e completamente à mercê dos dois.
— Assim, linda — disse Marcos, bem baixo —. Assim que eu te quero ver.
Gozei olhando nos olhos dele. Foi estranhamente emotivo e completamente erótico ao mesmo tempo, sem que uma coisa contradissesse a outra.
***
A última posição foi na poltrona. Ignacio sentado, eu por cima dele de frente, me movendo com um ritmo que encontrei sozinha. Marcos se ajoelhou ao lado, muito perto, e roçou minha bochecha com os lábios.
— Fecha os olhos — ele me disse —. Só sente.
Fiz isso. Sem a distração visual, cada sensação se multiplicou: o peso do pau de Ignacio afundando dentro de mim de novo e de novo, o calor de Marcos ao meu lado, o cheiro de vela e pele quente misturados no ar da suíte. O ritmo dos meus quadris ficou mais profundo sem que eu decidisse conscientemente. Eu mesma me agarrei ao encosto para empurrar com mais força, para recebê-lo até o fundo, até que o atrito incendiou meu corpo inteiro.
O orgasmo final foi o mais longo da noite. Uma acumulação que foi se construindo devagar até se romper de repente, me fazendo me curvar para a frente até que minha testa encontrasse o ombro de Marcos. A onda me atravessou por inteiro, me deixou tremendo, com as coxas se fechando involuntariamente ao redor de Ignacio enquanto eu ainda sentia o pulso do corpo dele dentro do meu.
Ignacio gozou pouco depois, com um rosnado contido que senti no mais fundo.
Fiquei imóvel por vários segundos, ainda incapaz de me mexer.
***
Ele se vestiu em silêncio enquanto Marcos me enrolava em um dos roupões do hotel. Antes de ir embora, Ignacio nos agradeceu aos dois com a mesma calma tranquila com que havia chegado desde o começo. Uma inclinação breve, um olhar para cada um.
— Foi um prazer — disse.
A porta se fechou com um clique suave.
Marcos e eu nos olhamos. Ele sorriu primeiro.
Ele me levou ao banheiro e abriu o chuveiro. Entrou comigo e lavou meu cabelo com uma paciência que não era o jeito dele de sempre, mas que aparecia sempre nos momentos que importavam. Ele me beijou no pescoço. Me envolveu com os braços por trás e apoiou o queixo na minha cabeça enquanto a água caía.
Ficamos assim um bom tempo sem falar.
— Você perdeu a aposta — eu disse, finalmente.
— Eu sei.
— Mas?
— Mas eu ganhei te vendo assim.
Nos secamos devagar. Ele me enrolou na toalha e me levou para a cama, onde as velas já estavam quase consumidas. Me ajeitei contra ele com a cabeça em seu peito e ouvi a respiração dele ir se acalmando.
— O que você colocou no papel? — perguntei.
— Isso você vai descobrir quando eu ganhar.
— Quando você pretende ganhar?
— Muito em breve — disse.
E havia algo na voz dele que soava como promessa.
No escuro, enquanto o ruído abafado da cidade entrava pela janela entreaberta, comecei a imaginar a próxima aposta. As cartas sobre a mesa, nossos papéis dobrados, e a expectativa de saber que qualquer um dos dois poderia perder. Ou ganhar, o que neste caso era exatamente a mesma coisa.
A ideia me manteve acordada por mais tempo do que deveria.
Quando Marcos adormeceu, sussurrei no escuro:
— Da próxima vez eu ganho.
Ele sorriu no sono, ou pelo menos foi o que me pareceu.
E eu fechei os olhos pensando em tudo o que ainda poderíamos apostar.