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Relatos Ardientes

O alfaiate que espiou a senhora quando ninguém olhava

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Rodrigo era alfaiate em Aldoria, uma vila de ruas de paralelepípedos e casas de madeira que cheirava a pão recém-assado e a esterco de cavalo no verão. Tinha quarenta e dois anos, uma esposa chamada Marta, três filhos e as mãos mais habilidosas do grêmio. Era um homem comum em todos os sentidos possíveis. E ainda assim, o que fez naquela tarde de julho o transformaria em algo que ele jamais ousou nomear.

O Conde Mauricio governava Aldoria com mão de ferro e ganância insaciável. Os impostos tinham triplicado em dois anos. Os lavradores pagavam com a colheita antes de reservar um único grão para os filhos. Os artesãos, como Rodrigo, entregavam uma parte de cada contrato ao cobrador antes de ver um só maravedi. A miséria era tão cotidiana que as pessoas tinham deixado de reclamar dela. O silêncio da fome é o mais eloquente de todos.

Dona Alondra era a esposa do Conde. Tinham-na trazido de uma família nobre do norte quando ela tinha dezoito anos, e aos trinta e quatro ela continuava sendo a mulher mais bonita da região. Mas não era só isso. Visitava os enfermos, distribuía pão nos dias de festa e enfrentava o marido com uma firmeza que fazia os criados sorrirem quando pensavam que ninguém os estava vendo. Era a única pessoa que ousava contradizer o Conde na própria sala dele.

Há meses ela lhe pedia que reduzisse os impostos. Meses de negociações que terminavam com portas batendo na cara. E então, num domingo ao entardecer, o Conde Mauricio a olhou por cima da taça de vinho e proferiu as palavras que mudariam a história de Aldoria.

—Se tanto te importam, percorra a vila a cavalo em plena luz do dia. Sem roupa. Da fonte da praça até os portões do castelo. E eu lhe concedo o que pede.

Disse isso com o sorriso de quem faz uma aposta que não pode perder. Dona Alondra o encarou por um longo silêncio, com aqueles olhos verdes que jamais tremiam, e respondeu:

—Aceito.

A notícia correu por Aldoria em questão de horas. Dona Alondra tinha deixado tudo muito claro: ao meio-dia de sábado, todo o povo fecharia portas e janelas. Ninguém olharia. Seu sacrifício seria recebido com o respeito que merecia. Em troca, a redução dos impostos para todos.

O povo fechou as lojas. Baixou as venezianas. Alguns foram à igreja para não se deixarem tentar. Era um pacto silencioso, um ato de gratidão coletiva que definiria o caráter daquela vila por gerações.

Rodrigo também o teria feito. Deveria tê-lo feito.

Mas, na noite de sexta-feira, não dormiu bem.

Deitado na cama, com os olhos abertos enquanto Marta respirava ritmadamente ao seu lado, sua mente girava em torno de algo que se recusava a chamar pelo nome. Não era luxúria, dizia a si mesmo. Era curiosidade. Uma curiosidade quase filosófica. Como podia uma mulher acostumada ao protocolo e à deferência fazer algo assim? De onde vinha aquela coragem? Que expressão teria seu rosto?

Mentira.

Debaixo da manta, o pau estava duro como pedra, pulsando contra o ventre havia horas. Pensava nos peitos de Alondra sacudindo no trote do cavalo, no sexo aberto contra o dorso do animal, nos pelos escuros que surgiriam entre as coxas dela, e o pau respondia com uma batida brutal que o impedia de respirar fundo. Marta dormia de costas para ele. Ele chegou a pensar em enfiá-lo por trás, em descarregar na mulher o que fervia por outra, mas aquilo lhe pareceu uma dupla traição e ficou imóvel, com a mão direita agarrada ao colchão para não levá-la ao sexo.

Levantou-se às três da manhã e desceu para a oficina. Na gaveta onde guardava as ferramentas finas estava a broca pequena, a que usava para fazer as casas dos botões dos casacos. Pegou-a entre os dedos. As mãos não tremiam, e isso lhe pareceu o mais inquietante de tudo: a serenidade com que fazia algo que sabia que não devia fazer.

Encontrou a veneziana de carvalho voltada para a rua principal e a examinou na escuridão, usando apenas a luz que se infiltrava pelas frestas. Escolheu um nó na madeira, um ponto onde a tábua era mais grossa e qualquer buraco pareceria um acidente. Encostou a ponta da broca. Empurrou, lentamente, sem fazer ruído.

O buraco não era maior que uma ervilha. Mas era suficiente.

***

O sábado chegou com um sol de julho que aquecia as pedras da rua até fazê-las brilhar. Aldoria inteira estava fechada a sete chaves. Era o silêncio mais estranho que Rodrigo já vivera: uma vila de seiscentas almas, quieta como um cemitério. Nem um cachorro latia. Nem uma criança corria pelos becos.

Rodrigo estava sentado no banco de trabalho com as mãos sobre os joelhos. Não tinha tocado na veneziana desde que fizera o buraco. Disse a si mesmo que não o faria. Que já tinha cometido o erro de perfurar a madeira, mas podia não cometer o erro de olhar.

Então veio o som.

Um passo pausado, solene. Os cascos de um cavalo sobre o calçamento, um depois do outro, sem pressa. Um ritmo tão regular que parecia medir o tempo em vez de atravessá-lo.

Rodrigo sentiu o pulso acelerar. Ficou imóvel durante três segundos. Quatro. Cinco.

Levantou-se.

Cruzou a oficina em quatro passos e encostou o olho no buraco.

***

A primeira coisa que viu foi o cavalo. Um animal cinza-prateado, enorme, com a crina trançada e os flancos brilhando de suor. Avançava com uma calma que parecia ter sido herdada de quem o montava.

E então viu Dona Alondra.

Não estava preparado. Nenhum homem poderia estar.

Ela estava completamente nua sob o sol do meio-dia, e o sol se derramava sobre ela com a indiferença perfeita de quem não distingue o sagrado do profano. Sua pele era da cor do mel claro, quente e uniforme, sem marcas de roupa nem manchas de sol. Rodrigo prendeu a respiração e sentiu o pau inchar de repente dentro da ceroula, tenso, dolorido, subindo por conta própria até roçar o cós.

Ela cavalgava ereta, com as costas retas e os ombros para trás, numa postura que não tinha nada de vergonhoso. Os braços seguravam as rédeas com uma segurança que não parecia forçada. As mãos, pequenas e de dedos finos, não tremiam. Era a postura de alguém que tomou uma decisão e a leva até o fim sem olhar para trás.

O pescoço era longo e nele se via o pulso, um pequeno movimento rítmico que era a única coisa a denunciar que era carne e não mármore. Os ombros eram suaves, arredondados, com uma elegância natural que não precisava de adornos para se impor. A clavícula desenhava uma linha delicada que descia até os seios com uma geometria que Rodrigo jamais esqueceu pelo resto da vida.

Os seios eram generosos e firmes ao mesmo tempo. Não eram a representação de nenhuma estátua: eram carne viva, com o peso e o calor de algo real. A aréola era escura, quase marrom em contraste com o tom dourado da pele ao redor, larga como uma moeda de prata, e o mamilo, endurecido pelo ar da manhã, apontava para a frente, grosso e arrogante, como se desafiasse quem quer que ousasse olhar. Rodrigo imaginou chupá-lo, prendê-lo entre os dentes, puxá-lo até arrancar um gemido daquela mulher que seguia tão serena a cavalo, e o pau deu um solavanco tão forte que ele gemeu baixinho contra a madeira.

O cavalo deu um passo. Depois outro. E então Rodrigo descobriu algo que nenhum homem de Aldoria veria: o movimento.

A cada passo do animal, o corpo dela absorvia o trote e o transformava. Os seios oscilavam com uma cadência suave, mas impossível de ignorar, balançando levemente de um lado para o outro, roçando um no outro com a intimidade de algo que não foi feito para ser observado de fora. A carne se agitava pesada e viva, subia e descia a cada casco que batia no calçamento, e os mamilos desenhavam no ar dois círculos escuros que pareciam chamá-lo pelo nome. Era uma mecânica tão simples e tão devastadora que Rodrigo precisou se apoiar na veneziana para não perder o equilíbrio. Sem perceber, tinha baixado a ceroula até os joelhos e estava com o pau na mão, encharcado de um líquido claro que escorria da ponta.

O ventre dela era plano, com a leve saliência do umbigo e a linha que descia, clara e deliberada, até os pelos escuros e ralos que marcavam o começo do sexo. Não era denso nem opaco: era fino, quase decorativo, como se a natureza quisesse assinalar sem esconder. Entre as pernas, quando o cavalo fazia uma leve curva ou ela ajustava a postura, Rodrigo conseguia distinguir a fenda de seu sexo, aquela abertura rosada que separava os lábios e que se abria um pouco mais a cada movimento do animal, expondo por um instante o brilho úmido do interior, um rosa mais escuro e mais suculento que parecia respirar contra o dorso quente do cavalo. Rodrigo via a carne comprimida contra a crina, via como os pelos do animal se enfiavam entre aqueles lábios cada vez que ela se acomodava na sela, e a mão começou a tremer no pau de puro desejo. Imaginou-a escancarada sobre o banco de trabalho, com aquele sexo perfeito oferecido e gotejando, e teve de cerrar os dentes para não gozar ali mesmo.

Os quadris eram largos, femininos, a moldura perfeita de pernas longas e tonificadas que se estendiam ao longo do lombo do cavalo. Os músculos da coxa se tensionavam e relaxavam sutilmente a cada passo do animal, uma alternância de força e entrega que também era o próprio ritmo dela. Rodrigo pensou em enfiar a cabeça entre aquelas coxas, em afastar os pelos com a língua e comer seu sexo até fazê-la tremer na sela, em sentir aquelas coxas duras fechando-se ao redor de suas orelhas enquanto ela gemia sem deixar de olhar para a frente. Os pés descalços repousavam nos estribos com naturalidade, e quando o cavalo mudava o passo, os dedos se fechavam sobre o metal com um reflexo que Rodrigo achou, de maneira inexplicável, o gesto mais íntimo de toda a cena, como se aqueles dedos se contraíssem de prazer contido cada vez que a carne do sexo roçava com mais força o lombo do animal.

O cabelo era castanho-escuro e ela o usava solto, caindo pelas costas numa cascata que se movia com o vento. Às vezes cobria a curva das nádegas; às vezes o vento o afastava e as deixava à mostra, dois hemisférios firmes e macios que balançavam no ritmo do cavalo com uma perfeição que não precisava de testemunhas para existir. Rodrigo morria de vontade de enfiar o pau por trás, de agarrá-la por aquela cabeleira castanha e puxar até fazê-la arquear-se enquanto ele a fodia contra o flanco do animal. O rabo se abria um pouco a cada trote, deixando entrever a sombra escura entre as nádegas, e ele imaginou afastar aquela carne com os polegares, enfiar o rosto ali, chupar o ânus dela até ouvi-la implorar. Já se masturbava no ritmo do cavalo, subindo e descendo a mão no mesmo compasso dos seios oscilantes, e o pau estava tão inchado que parecia roxo.

Mas o que acabou paralisando Rodrigo foi o rosto de Alondra.

Ela não olhava para os lados. Não buscava as janelas fechadas nem os olhos que talvez a estivessem observando. Olhava para a frente, com os olhos verdes fixos num ponto que Rodrigo não podia ver do seu buraco, e sua expressão era de uma paz absolutamente inabalável. Não era a paz de quem não sente medo. Era a paz de quem sente medo e decidiu que isso não importa. Os lábios entreabertos deixavam ver o brilho úmido da língua, e Rodrigo imaginou aquela boca de condessa, aquela boca fina e educada, envolvendo o seu pau de alfaiate, chupando-o até o fundo enquanto mantinha a mesma serenidade impossível. A simples ideia lhe apertou os testículos com um espasmo que percorreu sua espinha.

Era a expressão mais erótica que Rodrigo já vira na vida. E também a mais inalcançável.

Ele se masturbava rápido agora, com a testa colada na madeira e o olho direito cravado no buraco, sem querer perder um segundo sequer, sem querer piscar. O punho subia e descia pelo pau com um ritmo brutal, a ponta jorrava e molhava os dedos, e a respiração se entrecortava contra o nó de carvalho. Cada passo do cavalo era um açoite. Cada balanço dos seios de Alondra arrancava-lhe um gemido apertado entre os dentes. Quando ela passou exatamente diante da janela dele, tão perto que Rodrigo pôde ver as pequenas gotas de suor que brilhavam sobre o peito e desciam pelo ventre em direção aos pelos púbicos, a gozada explodiu de seus testículos com uma violência que ele nunca sentira em sua cama. Jatos grossos de sêmen saltaram do pau e sujaram sua mão, as calças, a madeira da veneziana. Mordeu o antebraço para não gritar. O pau continuou pulsando por segundos longuíssimos, expulsando o resto final contra os dedos trêmulos, enquanto Dona Alondra seguia em frente como se nada tivesse acontecido, ereta e serena sob o sol, com os seios ainda dançando no compasso do trote e o sexo aberto contra o lombo do cavalo cinza.

Dona Alondra passou diante da oficina no tempo que um homem leva para soltar o ar dos pulmões. Depois seguiu adiante, sem saber que alguém a tinha visto, sem saber que alguém tinha gozado olhando para ela. O som dos cascos foi ficando mais distante, mais pausado, até desaparecer na extremidade da rua.

***

Rodrigo não se mexeu por um bom tempo. Estava com a testa apoiada na madeira da veneziana e os olhos fechados. Sentia a pulsação do coração nas têmporas, na garganta, nos pulsos, no pau que ainda estava meio duro e pingando entre as coxas. O cheiro do sêmen subiu-lhe ao nariz e lhe deu uma ânsia de vergonha. Limpou a mão com um pano de alfaiate, subiu a ceroula e esfregou a madeira com saliva e poeira até apagar as manchas esbranquiçadas do carvalho. Depois afastou-se da janela e sentou-se no banco de trabalho.

O silêncio de Aldoria continuava absoluto. Ninguém sabia de nada. Ninguém jamais saberia.

E ainda assim, ele sabia.

No fim da tarde, o meirinho do Conde percorreu as ruas com voz de arauto:

—Povo de Aldoria! O Conde Mauricio cumpre sua palavra! Os impostos ficam reduzidos a partir da próxima colheita!

A explosão de alegria que se seguiu foi tão súbita e tão intensa que Rodrigo precisou se agarrar à beirada do banco. As pessoas saíam para a rua gritando, chorando, se abraçando. Alguém começou a tocar alaúde na taverna da esquina. As crianças corriam entre as pernas dos adultos.

—Graças a Dona Alondra! Graças à nossa senhora!

Rodrigo permaneceu sentado na oficina com a porta fechada.

***

Os dias seguintes foram estranhos. As pessoas o cumprimentavam com uma cordialidade especial, como se pressentissem algo virtuoso nele sem saber exatamente o quê. Um vizinho apertou-lhe o ombro na rua e disse:

—Você é um bom homem, Rodrigo. Um homem de palavra. — E foi embora antes que ele pudesse responder.

Ele só entendeu quando, naquela noite, na taverna, ouviu a conversa da mesa ao lado.

—Os artesãos da rua principal são os mais honestos de toda Aldoria — dizia um lavrador corpulento, com a caneca meio vazia —. O alfaiate, o sapateiro Heliodoro, a bordadeira Eugenia. Viviam a dois metros da passagem de nossa senhora e nem abriram uma fresta. São a coluna moral deste povo.

—É verdade — assentiu o taberneiro —. Graças a homens como eles, o sacrifício de Dona Alondra foi puro, sem mancha.

Rodrigo bebeu um longo gole. A cerveja tinha gosto de cinza.

Foi cedo para casa. Passou pelo buraco sem olhar para ele. Deitou-se no escuro olhando o teto, com Marta dormindo ao seu lado. Pensou por muito tempo se deveria confessar aquilo a alguém. A um padre. A um amigo de infância.

Não o fez. E essa foi, talvez, a pior parte.

Nessa noite Marta despertou meio adormecida e procurou sua mão debaixo do lençol. Roçou o pau com a palma aberta, ainda sonolenta, e sussurrou em seu ouvido que fazia semanas que ele não a tocava. Rodrigo se virou, ficou por cima dela e abriu-lhe as pernas em silêncio. Entrou nela com os olhos fechados, com a imagem do sexo de Alondra se abrindo contra o lombo do cavalo colada às pálpebras. Marta gemeu surpresa com a força, arqueou as costas e agarrou-se aos ombros dele. Ele chupou os mamilos com uma avidez que ela não conhecia, mordeu-lhe o pescoço, a pôs de quatro e a fodeu por trás olhando a curva de seu rabo sob a luz da lua, imaginando que era o outro, o proibido, o da condessa. Gozo dentro dela com um rosnado abafado, cerrando os dentes para não gritar o nome errado, e desabou ao lado dela com os olhos úmidos de uma vergonha que Marta, feliz e saciada, jamais suspeitaria.

***

O tempo passou com a indiferença que lhe é própria. Rodrigo continuou cortando tecidos e medindo corpos. Teve bons contratos naquele outono. Seus filhos cresceram. A vida continuou com a exata normalidade de sempre.

Mas a imagem não foi embora.

Ela voltava nos momentos mais inesperados. Enquanto cortava um tecido de linho claro, a cor lhe lembrava a pele de Alondra sob o sol. Quando um cavalo passava trotando pela rua, o ritmo dos cascos o levava de volta à oficina, ao buraco, ao olho colado na madeira, ao pau na mão e ao sêmen escorrendo entre os dedos. Nos sonhos, a imagem retornava com uma clareza brutal: os seios oscilando ao compasso do trote, o sexo aberto e brilhante entre as pernas, a expressão de paz indestrutível no rosto dela enquanto ele a afundava até os testículos e a ouvia gemer pela primeira vez. Acordava com o pau duro e o coração golpeando as costelas, e muitas noites precisava ir para a oficina, tirar o membro ali mesmo sobre o banco de trabalho e se masturbar em silêncio pensando nela até gozar num pano velho. Com a gozada vinha a culpa, uma angústia fria que levava horas para se dissipar.

Tornou-se irritadiço e distante. Marta perguntava se ele estava doente, se tinha preocupações. Ele só conseguia negar com a cabeça, preso em sua prisão particular sem nome.

Muitos anos depois, quando Rodrigo era velho e suas mãos tremiam sobre a agulha, pregou um grosso prego para tapar o buraco. Não foi um gesto simbólico. Fez isso porque por aquele buraco entrava frio no inverno e seus dedos já não aguentavam a corrente de ar. Mas, enquanto martelava a madeira, permitiu-se pensar, pela última vez com certa calma, no que vira naquela tarde de julho.

Não se arrependia de ter visto. Isso seria mentira. Era a lembrança mais nítida de sua vida, mais vívida que o nascimento dos filhos, mais clara que a noite de núpcias. Uma imagem tão perfeita que o tempo não conseguira desgastá-la nem um pouco.

Mas também não podia dizer que aquilo não tivera custo. O prazer daquele instante e a traição que ele implicava tinham crescido juntos, inseparáveis, e ele já não sabia distinguir um do outro.

Dona Alondra morreu muitos anos antes dele, de umas febres de outono, e o povo ergueu para ela uma pequena estátua na praça principal. Rodrigo a via cada vez que atravessava a praça. A figura de bronze a representava vestida, com a mão estendida num gesto de generosidade e os olhos voltados para o horizonte.

Mas ele a via de outra forma.

Via-a erguida sobre o cavalo cinza, com o sol do meio-dia derramando-se sobre seu corpo nu, com os seios balançando no ritmo do trote e o sexo aberto contra o lombo do animal, olhando para a frente com aquela paz que ele nunca encontrou em rosto humano algum. Via-a livre, completamente livre, no único momento em que ele não foi.

E isso, mais do que qualquer castigo divino, foi sua condenação.

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