A noite em que paramos de fingir na cozinha
Passamos meses inventando desculpas para não ficar sozinhos. Nessa madrugada, as desculpas acabaram, e a cozinha deixou de ser só uma cozinha.
Passamos meses inventando desculpas para não ficar sozinhos. Nessa madrugada, as desculpas acabaram, e a cozinha deixou de ser só uma cozinha.
Era a última pessoa que eu esperava ver naquela tarde. Abri a porta meio dormindo e, ao vê-lo parado ali com aquele sorriso torto, a boca secou.
Um cano estourado nos obrigou a dormir juntos, os homens no mesmo quarto. Toni de um lado, eu do outro, e entre nós, Sergio... que não dormia tão profundamente quanto pensávamos.
Estávamos sem nos falar havia seis anos quando a mensagem dele apareceu na minha tela. Aquela barraca, aquele cobertor compartilhado, ainda me fazem tremer.
Eu já tinha tentado antes e só sentira dor. Numa noite de hotel com um desconhecido, descobri o quanto eu estava enganada.
Ele me ligou no fim da tarde para avisar que chegaria tarde. Naquela altura, eu já tinha começado a me preparar: a peruca, a maquiagem, o plug. Só faltava ele.
Cruzei olhares com ele na lanchonete da área de serviço. Soube que ele ia me seguir até o banheiro, e soube que dali eu não sairia igual a como entrei.
Quando entrei no táxi rumo aos arredores, ainda podia desistir. Não desisti, e horas depois me arrependeria com os pulsos amarrados à cabeceira da cama dele.
Eles eram um tio e seu sobrinho, dois brutamontes da academia que vinham me olhando havia semanas. Naquele domingo, algo no ar mudou para sempre.
Eu o vi na varanda do porto: alto, barbudo e de costas largas. Marcos me olhou de relance e soube que nós dois pensávamos a mesma coisa.
Morávamos na mesma quadra e fingíamos ter esquecido os jogos de infância — até uma volta de bicicleta no inverno fazer minha mão ir parar onde não devia.
Fazia meia hora que eu o olhava de soslaio quando ele me falou. Atrás das rochas, nenhum dos dois tinha intenção de voltar a se vestir no resto da tarde.
Resolvi uma crise na aduana e o cônsul me convidou para sua residência. Não imaginei o que me esperava no fundo do jardim, nem o que viria depois.
Conversamos por meses no chat antes de nos vermos ao vivo. Quando o vi na entrada do teatro, soube que aquela noite não terminaria como eu planejava.
Naquela tarde de sexta-feira, com a segunda taça de vinho na mão, Valeria me olhou diferente e começou a me contar o que fazia nos fins de semana.
Eu estava ali, com o balde de champanhe nas mãos, ouvindo cada gemido, cada rangido da cama. E não fui capaz de me afastar.
Cheguei ao apartamento deles com vontade de beber cerveja e matar o tempo. Saí com a bunda dolorida, a boca com gosto de porra e um sorriso que não conseguia esconder.
Ela entrou na sala andando devagar, com o rosto pálido e um gesto de dor ao se sentar que não dava para disfarçar. Levei dias para arrancar a verdade.
Éramos dois sócios casados, um utilitário esportivo caro e duzentos quilômetros pela frente. Eles tinham vinte anos e uma atitude que mudou tudo.
Éramos dois na cama, a luz baixa, suas pernas sobre as minhas. Eu disse que vinha pensando havia semanas em algo que não sabia como pedir.