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Relatos Ardientes

O que minha amiga levou meses para me confiar

Demorei muito antes de escrever isto. Não é uma história divertida nem quente como as que costumo contar. Não termina com alguém satisfeita e sorrindo. Mas faz parte do que vivemos, do que a Valeria viveu, e acho que pode servir para alguém que esteja numa situação parecida. Por isso estou contando.

A Valeria sempre foi a mais bonita do grupo. Desde menina tinha aquele rosto que parava o trânsito: olhos verdes enormes, nariz pequeno, um sorriso que te desmontava mesmo se você estivesse brava com ela. Mas no último ano do ensino médio ela pesava bem mais do que o resto, e isso a esmagava por dentro. Se olhava no espelho e não via o que nós víamos. Via uma versão distorcida, diminuída, de si mesma.

Foi por isso que terminou com o Marcos.

Marcos tinha vinte e quatro anos quando ela tinha dezoito recém-completados. Trabalhava em não sei que empresa de logística, dirigia um carro velho e dizia que ela era “diferente das outras”. Eu nunca engoli aquilo. A forma como ele a olhava quando achava que ninguém estava vendo, aquela mistura de desejo e desprezo, me embrulhava o estômago. Mas para a Valeria bastava ele desejá-la. Naquele momento da vida dela, ser desejada era suficiente.

No meio de setembro, Valeria faltou quatro dias seguidos à escola. Isso era raríssimo nela. Era daquelas meninas que vinham doentes antes de perder alguma coisa. A desculpa oficial que deu à professora responsável foi uma gripe forte. Eu não achei que aquilo colava nem um pouco.

Quando ela apareceu no quinto dia, notei que tinha algo errado desde que cruzou a porta da sala. Andava diferente. Devagar. Com cuidado, como se o chão fosse quebrar sob os pés dela. Sentou no banco de sempre, a duas fileiras de mim, e no instante exato em que apoiou o corpo na cadeira, o rosto dela ficou branco. Um gesto de dor breve, quase imperceptível, mas estava lá.

—Você está bem? —sussurrei do meu lugar.

—Estou bem —disse, sem me olhar.

Ninguém que está bem diz isso assim, com essa voz plana e os olhos presos no caderno.

No intervalo, intercepto-a antes que pudesse escapar para o banheiro. Peguei-a pelo braço com delicadeza e a levei até o fundo do corredor do térreo, onde há um trecho que dá para os vestiários antigos e por onde nunca passa ninguém.

—Valeria, me diz o que aconteceu. Sério.

Ela olhou para os lados, apertou a mochila contra o peito e respirou devagar. Demorou um segundo eterno para falar.

—Tive um... acidente. Com o Marcos. Mas por favor, Lucía, não conta para ninguém.

Não perguntei mais nada. Só disse que nos encontrávamos depois do almoço, na aula de educação física, que a gente nunca ia mesmo.

***

Havia um salão de atos no térreo que usavam uma vez por ano nas solenidades patrióticas. No resto do tempo ficava fechado com uma daquelas trancas velhas que cediam quando se empurrava. Entramos, trancamos por dentro e nos sentamos nas cadeiras do fundo, aquelas de plástico laranja que tinham sobrado do ano anterior.

Valeria se sentou com cuidado, com os lábios apertados quando apoiou o peso. Doeu vê-la assim.

—Agora sim —eu disse—. Aqui ninguém escuta a gente.

Ela demorou um pouco para começar. Olhou para as próprias mãos, cruzou os dedos, descruzou. Quando falou, a voz saiu baixa e estável, como se tivesse ensaiado o tom para não desmoronar.

—Foi na sexta da semana passada. O Marcos me convidou para o apartamento. Fazia dias que ele mandava mensagens dizendo que sentia minha falta, que queria passar a noite inteira me comendo. Eu coloquei a roupa íntima mais bonita que tinha, um conjunto preto de renda que eu tinha comprado justamente para ele. Passei perfume no corpo inteiro, até entre os seios. Eu estava tão animada, Lucía. Tão ridiculamente animada.

Fez uma pausa. Engoliu em seco.

—Mas ele marcou depois da meia-noite. Meus pais nunca iam deixar, então inventei que ia dormir na sua casa. Saí cedo, disse que estava indo para lá e depois fiquei tipo duas horas sentada na praça em frente ao prédio dele, esperando dar a hora. Fiquei olhando o celular, andando de um lado para o outro, sentei num banco. Eu estava tão feliz. Me sentia adulta, entende? Me sentia especial.

—Entendo —eu disse, embora o que eu sentia fosse outra coisa.

—Cheguei na casa dele perto de uma da manhã. Assim que abriu a porta, ele me agarrou pelo braço e me beijou sem dizer oi. Enfiou a língua até minha garganta e apertou um seio por cima do moletom, com força, como se já fosse dele. Me levou direto para o quarto. Não teve nada de nada: nem água, nem música, nem sentar um instante. Direto para a cama. Arrancou meu moletom, o jeans, tudo. Me deixou de calcinha e sutiã e ficou me olhando como se eu fosse um prato de comida. “Como você está gostosa”, ele me disse. No começo eu gostei de ele me querer tanto. De ele tirar minha roupa assim, com tanta vontade. Enfiou a mão dentro da minha calcinha e disse que eu já estava molhada, que eu estava uma puta para ele. Eu estava nas nuvens.

Valeria fez outra pausa. Mordeu o lábio.

—Ele tirou tudo de mim. Abriu minhas pernas e me chupou um tempo a boceta. Bem devagar, com a língua inteira, até eu estar tremendo. Depois ficou em pé ao lado da cama e baixou a calça. Pegou o pau na frente do meu rosto e colocou nos meus lábios. Eu chupei o máximo que consegui, Lucía. Chupei como ele tinha me ensinado, com as duas mãos, engolindo até o fundo. Ele me puxava pelo cabelo e enfiava mais fundo. Disse que tinha sido a melhor chupada da vida dele. Eu acreditei. Eu acreditava em tudo.

Baixou a voz um pouco mais.

—Depois me deitou de costas e entrou em mim de uma vez. Eu estava tão molhada que ele entrou todo de uma vez. Começou a me comer forte, me olhando nos olhos, dizendo coisas no meu ouvido. Que amava minha xoxota, que ela era pequena e apertada, que ia me encher inteira. Eu me agarrava nele e cravava as unhas nas costas dele. Pedi que ele me montasse. Subi e comecei a mexer os quadris enquanto ele apertava meus peitos e chupava meus mamilos. Tudo ia bem. Eu me sentia uma deusa, Lucía. Me sentia a mulher mais desejada do mundo.

—E aí o que aconteceu? —perguntei com um nó na garganta.

—Depois ele me virou. Me pôs de quatro e me segurou pelos quadris. Disse que assim era como ele mais gostava, que assim ele conseguia gozar. Começou a me comer por trás, na boceta, batendo na minha bunda. Me dava palmadas. Puxava meu cabelo. Eu não disse nada. Fiquei quieta e deixei, porque era o que ele queria e eu queria que ele ficasse bem.

A voz dela mudou ali. Ficou mais seca, mais controlada, como se estivesse lendo alguma coisa em vez de lembrando.

—Ele ficou um tempão assim, me fodendo com força. Eu sentia a respiração dele cada vez mais ofegante. E de repente ele tirou tudo. Completamente. Senti o ar frio na boceta molhada. Pensei que ia acabar, que ele ia gozar nas minhas costas ou algo assim. E quando ele enfiou de novo... não era o mesmo lugar. Ele me penetrou pelo cu, Lucía. Sem me avisar. Sem lubrificante. Sem nada. Seco. Num golpe só. Enfiou o pau inteiro no meu cu com uma única metida.

Meu sangue gelou.

—A dor foi... não sei como te descrever. Como se tivessem enfiado algo de metal em brasa em mim. Como se estivessem me quebrando por dentro. Eu gritei, gritei tão alto que depois minha garganta doeu. Tentei me afastar, jogar o corpo para frente, mas ele estava me segurando pelos quadris e não me soltava. Deu mais duas, três investidas dentro do cu antes de tirar. Senti algo ardendo, algo queimando dentro de mim. Me joguei de lado, encolhida, e chorei. Chorei sem parar durante não sei quanto tempo, com as pernas apertadas, tremendo.

—E ele? —perguntei, com a voz mais calma do que eu me sentia por dentro.

—Depois de um rato ele se aproximou. Deitou atrás de mim e me abraçou. Eu senti o pau ainda duro contra meu cu, Lucía. Ainda duro. E ele me pedindo desculpa no ouvido mil vezes. “Foi sem querer, amor, juro que escorregou, me perdoa, foi sem querer.” Eu continuava chorando e ele repetia a mesma coisa, enquanto me acariciava o cabelo com uma mão e com a outra acomodava o pau contra meu corpo. Depois acendeu a luz e viu os lençóis. Tinha sangue, Lucía. Não muito, mas tinha. Uma mancha escura, feia, ali onde eu tinha ficado de quatro.

—Meu Deus.

—Eu entrei em pânico. Pedi que ele me levasse ao pronto-socorro. Ele disse que não podia, que já era muito tarde, que os pais dele iam ouvir se ele tirasse o carro da garagem. Encheu a banheira, me ajudou a me lavar, me fez um chá. Me colocou na água quente e passou a esponja por todo lado, até ali, onde ardia. Isso foi me acalmando aos poucos. Mas a dor não passou. Toda vez que eu apertava, era como se enfiasssem uma faca.

***

Valeria voltou para casa na manhã seguinte. Disse aos pais que estava com dor de barriga, que ia ficar de cama. Não mentiu totalmente.

—Fui ao banheiro naquela tarde e doeu tanto que chorei de novo. Saiu um pouco de sangue. Fiquei com mais medo ainda.

Quando os pais foram trabalhar, Valeria se vestiu e pegou sozinha o ônibus até o Hospital Fernández. Foi atendida por uma médica de plantão que a tratou com cuidado, sem julgá-la. Ela perguntou, com muito tato, se alguém a havia machucado. Valeria explicou o que tinha acontecido. A médica chamou um proctologista de plantão.

O diagnóstico foi uma fissura anal. Recebeu uma pomada para passar duas vezes ao dia e repouso. Disseram que a cicatrização levaria entre duas e três semanas, desde que não houvesse mais irritação, e que nada de sexo, de nenhum tipo, até nova ordem.

Valeria me contou tudo isso com aquela voz plana, sem chorar, olhando o chão do salão de atos. Quando terminou, fiquei um momento em silêncio. Não porque eu não soubesse o que dizer, mas porque havia muitas coisas a dizer e nenhuma era a certa para aquele momento.

Eu a abracei. Foi só isso que fiz.

—Obrigada por me contar —eu disse no fim.

—Eu precisava contar para alguém. Não podia continuar carregando isso sozinha.

O que eu não disse naquele momento, o que eu não pude dizer porque ainda não éramos próximas o bastante, era o que eu enxergava com clareza de fora: que Marcos não tinha errado de buraco. Que homens que enfiam o pau seco no cu de uma menina que confia neles não se enganam. Que alguém que te quer não te manda ao garagemo carro para não acordar os pais quando você está chorando sangue nos lençóis.

Isso eu só pude dizer meses depois, quando a amizade entre nós já tinha virado outra coisa. Quando já podíamos falar de verdade.

***

Valeria levou quase um mês para se recuperar por completo. A fissura cicatrizou, mas o dano invisível demorou muito mais. Ela continuou com Marcos por quase mais um ano. Não tentaram sexo anal de novo, ao menos foi o que ela me disse, mas a dinâmica entre eles não mudou muito. Ele continuava sendo o mesmo tipo que a fazia se sentir especial só quando lhe convinha e a ignorava no resto do tempo. Que a comia quando queria, como queria, e depois a mandava para casa de táxi.

Quando finalmente o largou, foi ela quem tomou a decisão. Não houve gatilho dramático. Um dia simplesmente se cansou de não ser tratada bem e terminou por mensagem. Me avisou naquela mesma noite: “Terminei com o Marcos”. Sem mais explicações. Eu não precisava delas.

O que veio depois foi diferente. Valeria começou a se conhecer de outro jeito, a entender o que queria e o que não tolerava. Encontrou um parceiro que a tratou bem, com paciência, que perguntava antes de fazer qualquer coisa. Contou-me uma noite, rindo com uma garrafa de vinho entre nós duas, que tinha voltado a explorar o sexo anal. Dessa vez devagar, com confiança, com alguém que se importava com o que ela sentia.

—É completamente diferente —me disse, com aquele sorriso dela que iluminava o quarto—. Na primeira vez ele passou lubrificante em tudo, Lu. Me abriu com um dedo, depois com dois, enquanto me chupava a boceta. Levou tipo meia hora antes de enfiar o pau. E quando ele entrou, fez isso tão devagar que eu quase nem senti entrar. Ele me perguntava de dois em dois minutos se eu estava bem. Se mexia como se tivesse medo de me quebrar. E quando eu gozei com ele dentro do cu, eu não conseguia acreditar. Quando você está com alguém que cuida de você, é outro mundo.

Olhei para ela e pensei que ela tinha razão. Que quase tudo na intimidade é diferente quando a outra pessoa realmente cuida de você. Que o que a Valeria viveu com Marcos naquela noite não foi sexo anal. Foi simplesmente alguém que a arrebentou sem se importar com nada.

Estou contando isso porque sei que há meninas em situações parecidas. Que aguentam coisas que não deveriam aguentar porque o desejo de ser desejadas pesa mais do que a dor. E porque às vezes tudo o que é preciso é alguém nomear aquilo: o que fizeram com você não esteve certo. Não importa se depois pediu desculpas. Não importa se disse que foi sem querer.

O corpo da Valeria levou três semanas para sarar. O resto demorou mais. Mas sarou.

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