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Relatos Ardientes

A valentona do colégio terminou na minha mesa de autópsias

Os que trabalhamos cercados de mortos arrastamos uma reputação sinistra, ou a arrastaríamos se a nossa sociedade, ocupada com suas distrações luminosas de cada dia, se dignasse a pensar em nós. É o velho estigma do carrasco, do coveiro, de quem carrega nos ombros o peso da morte para que os outros possam continuar vivendo na sua ignorância confortável.

Devo admitir que é uma fama injusta. Os legistas, os funcionários de funerária e os embalsamadores que conheci ao longo da minha carreira são pessoas tão amáveis e discretas quanto quaisquer outras, e até um pouco mais. Gente de um estoicismo suave, de modos cuidadosos, de um tato que não é fachada, mas reflexo de algo limpo que trazem dentro de si.

Eu, claro, sou a exceção que confirma a regra.

Talvez a culpa seja minha, talvez não. Não sei se minhas inclinações nasceram de alguma experiência torta ou de um simples erro da natureza, e a verdade é que eu gostaria de saber. Quem sabe um dia aprendamos a extirpar o mal cortando uma área do cérebro e, de quebra, apagamos também as ideias perniciosas dos artistas que tanto incomodam quem prefere um mundo arrumado.

A única coisa que tenho clara é que, desde criança, eu fui um menino difícil. Custava-me entender as regras invisíveis que o resto dos meus colegas parecia dominar sem esforço. Resolvia tudo na porrada, algo que no começo me deu certo respeito e que depois se voltou contra mim, quando os cochichos substituíram as surras e eu percebi que sozinho não dava conta de todo mundo.

No colégio mudei de tática, com resultados igualmente desastrosos. Apavorado com a ideia de ficar sozinho para sempre, virei alguém complacente, disposto a se deixar pisar por qualquer um. Mas minha torpeza social me transformou no alvo perfeito para quem gosta de humilhar os outros. E, entre todos esses miseráveis, ninguém foi pior do que ela.

Lorena era gostosa e sabia disso. Tinha metade da turma comendo na sua mão e alguns alunos mais velhos comendo em outros lugares. Era uma morena que se enfiava em leggings impossíveis para marcar as coxas e escolhia decotes que os professores criticavam depois de olhá-los com atenção. Sempre tinha uma resposta afiada, palavras que cravava com aquela voz estridente que fazia questão de usar. Ninguém me feriu tanto quanto ela.

Começou a implicar comigo no dia em que respondi certo a uma pergunta que ela tinha errado. Não lembro a matéria, tanto faz. O que lembro são os boatos: que meus pais me batiam todo dia, que eu tinha sido expulso de outro colégio por apalpar uma colega, que levantava saias e passava a mão em bundas nos corredores. Toda vez que eu abria a boca, ela fazia questão de acrescentar uma coda humilhante. Talvez por isso eu tenha ido falando cada vez menos.

Do primeiro ano até terminar o ensino médio, nenhum grupo me quis entre os seus, nenhuma menina me olhou duas vezes, e toda vez que alguém me mencionava era entre risadas, com desprezo ou com pena. Eu me refugiei nos meus livros e nos meus filmes B, em fóruns da internet onde discutia romance gótico e cenas truculentas. Virei um especialista em Poe, em Cortázar, no cinema mais doente de Cronenberg, em tudo o que me permitisse escapar da tortura medíocre em que eu vivia.

A solidão teve, ao menos, uma consequência útil. Desenvolvi um senso crítico feroz — é fácil criticar o mundo quando você não faz parte dele — e, sobretudo, virei um aluno brilhante. Consegui uma bolsa para estudar Medicina longe da minha cidade, para alívio de uma família que preferia ter sua ovelha negra à distância. Lorena, já numa idade em que quase todos os valentões tinham amadurecido, me presenteou com um último boato: o de que eu tinha escolhido aquela carreira só pela minha obsessão com cadáveres.

Quem diria o quão perto da verdade ela chegaria sem nem mesmo querer.

***

Eu, juro, decidi ser médico pela possibilidade de ajudar as pessoas, de conquistar o aplauso que as circunstâncias me haviam negado. Mas também sentia curiosidade para saber se, depois de tanta carniça ficcional, eu seria capaz de encarar a morte de verdade. Na noite anterior à nossa primeira prática com corpos reais, eu não preguei o olho.

Diante de um cadáver cabem várias reações. A maioria, sobretudo as meninas, mostrava respeito, reverência e uma repulsa mal disfarçada. Outros faziam piada numa tentativa patética de não pensar na própria mortalidade, mas o faziam tremendo. Em todos os meus anos de faculdade, só conheci três pessoas capazes de uma indiferença autêntica diante dos mortos. Eram psicopatas? Não sei.

E depois havia eu.

Não senti nervosismo ao me aproximar daqueles semelhantes inertes — semelhantes, sim, porque todos acabaremos parecidos com eles quando a carne nos abandonar —, mas o contrário. Ao contrário dos vivos, eles não implicavam comigo, não me davam inveja com suas viagens nem com seus namorados, meus pais não me comparavam a eles para me rebaixar. Lá estavam eles, lá estava eu. E, quietos como estavam, eu podia imaginar o que quisesse.

Lembro do primeiro corpo que despertou algo em mim. Quase todos eram idosos ou estavam em mau estado, mas ela não. Teria uns trinta anos e era uma mulher esplêndida, de quadris largos, peitos grandes com mamilos escuros e uma boceta peluda que ficava à vista sob as luzes frias do anfiteatro. Meu pau endureceu sem querer, ali mesmo, na frente de todo mundo, e eu tive que apertar as coxas contra a mesa para que o volume não aparecesse na calça. Imaginei lambendo aqueles lábios carnudos de baixo, afastando-os com a língua, enfiando os dedos numa mulher que não me daria um tapa nem riria de mim depois. Fiquei embasbacado olhando para ela, e as gozações não tardaram. Não quero ser o estranho, eu me repetia. Não quero ser esse tipo solitário de quem todo mundo foge. Eu queria me revestir de uma película de normalidade respeitável.

Nem isso deu certo. Na universidade tentei me aproximar de um grupo atrás do outro, tentei seduzir alguma garota, experimentei álcool, confessei segredos impossíveis quando estava bêbado. Fracassei em tudo. Só os mortos me aceitavam sem pedir nada em troca. E assim, enquanto eu olhava nas redes a vida alheia dos meus antigos colegas, fui me especializando em medicina legal.

Acabei no Serviço de Anatomia Forense de uma cidade que não vou nomear, onde me tornei um trabalhador incansável e, para surpresa de todos, um bom colega. Meu desempenho durante a pandemia, quando adaptamos o depósito para resguardar os falecidos, me rendeu uma menção do governo regional. O melhor dessa profissão é que ela é solitária e tranquila, e que minha permanência depende do meu rendimento, e não da simpatia que eu desperte em algum chefe.

Passaram-se vários anos de relativa calma. Eu continuava sem agradar as mulheres, continuava carregando os mesmos traumas. Tentei a prostituição e não me satisfez: as putas se mexiam demais, fingiam gemidos com voz de disco riscado, olhavam o relógio enquanto eu tentava deixar meu pau duro. Uma me chupou com tanto desânimo que meu pau amoleceu na boca dela, e eu saí de lá querendo que a terra me engolisse. Outra me disse, enquanto subia a calcinha, que não tinha sentido nada, que se eu quisesse uma próxima vez levasse comprimidos. No fim, me limitei à abstinência e a olhar os corpos de longe, encantado e covarde. Para passar o tempo, me dediquei a hobbies insossos como fotografia e pesca.

Até que ela chegou.

***

Foi num sábado à noite. Uma rotina qualquer: entrou um cadáver. Naquele turno estávamos no limite mínimo, mas meus superiores sabiam que eu sozinho dava conta da carga habitual. Tomei aquilo como mais um trâmite, um dia como outro qualquer: uma mulher, bastante bonita, morta por overdose de remédios. Uma pena. Então li a etiqueta com o nome dela.

Lorena Mansilla Vega. Era ela.

Contive a emoção, uma emoção culpada, mas verdadeira. Fiquei contente porque aquela mulher que tinha me feito a vida impossível, que tinha sabido truncar meu desenvolvimento como pessoa, estivesse estendida diante de mim. Sem ter conquistado nada, fulminada como uma pobre viciada, lá estava a valentona insuportável, com os mesmos peitos fartos de sempre, o cabelo sedoso e o rosto perfeito, agora com a pele morena apagada pela palidez da morte. Lorena sempre tinha sido gostosa e sabia disso, mas nunca tinha estado tão gostosa.

Levei-a para a câmara depois dos trâmites de praxe e percorri o prédio inteiro com o olhar de pedra, mentindo para mim mesmo, dizendo que estava apenas lidando com um golpe do passado. Mentira. O que eu fazia era remexer na ferida: pensava na vida plena que certamente aquela mulher tivera, nos amigos, nas festas, nos paus que tinha montado, nos caras a quem teria chupado numa festa em que nunca me deixariam entrar. Vi que não restava ninguém acordado, com uma ideia macabra já instalada na cabeça e com o pau começando a inchar dentro da calça.

De volta ao depósito, fechei com minha chave. Sabia que aquilo podia levantar suspeitas, que eu estava arriscando o emprego se alguém viesse reclamar o corpo. Mas estávamos longe da cidade dela, e se os amigos tivessem compartilhado a droga que a matou, deixariam que os pais a recolhessem. Além disso, eu já não pensava com a cabeça. Pensava com a rola.

Tirei-a da câmara como quem tira roupa de uma gaveta. Não fazia muito tempo e o corpo ainda estava firme, apetecível, com aquele toque inquietante que me fez sorrir como um idiota. Despi-a por completo, cortando com a tesoura o lençol que a cobria, e fiquei olhando-a de cima a baixo, com a boca seca. Os peitos grandes caiam só um pouco para os lados, com os mamilos morenos e largos apontando para o teto. A barriga plana, as coxas largas, a boceta depilada com uma faixinha escura em cima, as coxas grossas que se abriam um pouco por causa da posição. Era a imagem da puta que eu tinha perseguido na cabeça durante anos.

Não sei por quanto tempo fiquei olhando. O que seus pais diriam se vissem você. Você está arriscando seu trabalho. Você é desprezível. Mas dentro de mim pulsava uma vontade que eu jamais tinha aprendido a reconhecer até aquela noite. Olhei aqueles olhos vazios e estendi a mão para o peito dela. Aproximei os dedos com uma lentidão que quase me fez desmaiar.

Agarrar aquele seio frio me surpreendeu por nenhum raio ter caído do céu. Depois, de boca aberta, passei minutos inteiros amassando um mamilo e depois o outro, pesando-os nas palmas, apertando até que os bicos ficassem duros entre meus dedos. Pela primeira vez não havia ninguém dizendo que o tempo tinha acabado, que eu não apertasse tão forte, que eu não beliscasse o mamilo. Torci um deles com maldade e soltei um suspiro ofegante de adolescente, fora de mim pelo toque macio e gelado daqueles dois monumentos à luxúria.

—Não me espanta que você fosse tão popular — sussurrei para ela —. Com esses peitos, qualquer um. Mas isso acabou. A morte nos iguala a todos, Lorena. E alguns mais do que outros.

Me abaixei e enfiei um mamilo inteiro na boca. Chupei com fome, com anos de fome acumulada, mordendo até a carne ceder entre os dentes. Passei para o outro, lambi toda a aréola, cuspi sobre ele e voltei a chupar. Desci a língua pelo esterno, pelas costelas marcadas, pelo umbigo. Apoiei o rosto na barriga dela e beijei cada centímetro daquela pele fria. Eu sabia os riscos de tocar um corpo assim e queria ter cuidado, mas de vez em quando escapava uma mordida na anca, na coxa, no púbis. Voltei aos mamilos e os enfiei outra vez na boca. Depois cuspi nos olhos dela, que receberam meu desprezo sem se alterar, assim como eu havia recebido as humilhações dela anos atrás.

—Você é a coisa mais patética que eu conheci — disse eu ao ouvido dela, num tom quase carinhoso que me arrepinhava a própria pele —. E agora você não é nada. Sempre implicou comigo. Olha quem ainda respira. Olha quem está com o pau duro e quem está com a boceta escancarada numa maca.

Coloquei as luvas com cuidado. Tinha cometido a temeridade de tocá-la com a pele descoberta, mas o que vinha depois trazia mais perigo. E, bêbado daquela sensação de poder, eu já sabia que repetiria a jogada se não fosse descoberto.

***

Abri as pernas dela por completo. Passei as coxas por cima dos braços da maca e a boceta ficou oferecida como uma fruta partida. Com dois dedos, separei os lábios, olhando o interior rosado, pálido, sem brilho. Ali dentro sabe-se lá quantos caras tinham gozado, pensei. Ali dentro os populares do colégio tinham se divertido enquanto eu me punhetava no meu quarto imaginando aquela mesma cena. Agora era eu quem estava na primeira fila.

Enfiei os dedos nela sem a delicadeza que se costuma ter com um corpo vivo. Empurrei dois, depois três, até os nós dos dedos, sentindo aquelas paredes apertadas que não se contraíam nem relaxavam, que estavam ali quietas, esperando. Procurei o ponto onde eu tinha lido mil vezes que estava o clitóris e esfreguei com o polegar, com aquela violência rancorosa de quem nunca mais vai saber se está fazendo certo. O rosto inerte parecia me dar uma silenciosa boa-vinda, e eu aproveitei. Com a outra mão acariciei as pernas dela, um belo par de pernas que me fizeram lembrar todas as vezes que aquela mulher me fizera sentir culpado por desejá-la. Dei um tapa na boceta com a palma, um estalo seco que ecoou nas paredes de azulejo. Agora eu tinha o controle. Agora eu era o dominante, e o prazer que se gestava dentro de mim não seria humilhante, mas glorioso.

Perdi a paciência depressa. Tirei as luvas, lavei as mãos e me acariciei por cima da calça. O pau já pulsava, tenso, preso contra o tecido. Arranquei a calça e a cueca de uma vez e o libertei, gozando daquela rigidez de além-túmulo que tomara conta dele. Já pingava um fio transparente da ponta. Tirei da carteira um preservativo que não tivera ocasião de estrear com nenhuma mulher e o coloquei com desajeito, sem parar de contemplar aqueles dois peitos.

Antes de meter nela, subi na maca e coloquei o pau enluvado na frente do rosto dela. Abri a boca com os dedos, empurrando a mandíbula para baixo, e encaixei a rola entre os lábios arroxeados. Agarrei a cabeça com as duas mãos e empurrei, fodendo aquela boca morta com uma torpeza brutal, ouvindo o barulhinho úmido do látex batendo nos dentes dela. A língua fria me lambia a glande sem lambê-la, a garganta se abria sozinha sob o peso. Olhei o rosto dela enquanto eu a enfiava até o fundo e imaginei todos os anos do colégio condensados naquela cena: a rainha da turma engasgando com meu pau, sem conseguir dizer uma só de suas respostas afiadas.

—Chupa meu pau, vaca — rosnei —. Chupa como você chupava os dos outros. Como não se dignou a me olhar naquela época.

Tirei-a cheia de baba e desci, deslizando a maca, acariciando-lhe o cabelo, puxando-o, e me coloquei sobre ela como um conquistador. Passei a ponta pela boceta, de cima a baixo, encharcando o látex com a umidade morta que ainda restava. E a enfiei.

Doeu ao entrar.

Claro, pensei, envergonhado da minha própria estupidez. Não havia lubrificação. Cuspi sem sair, duas, três vezes, lambuzando a entrada apertada com a minha saliva. Tomado por um entusiasmo que me fez ignorar a dor, empurrei até o fundo. A veia do meu pescoço saltou, eu me tornei uma besta. Penetrei nela levantando as pernas, surpreso com o esforço que custa sustentar um corpo assim, jogando os tornozelos dela sobre meus ombros. Mas valeu a pena. Quando senti aquelas paredes apertadas se fechando ao meu redor, esqueci tudo: moral, lei, sanidade. Naquele instante só existíamos ela e eu, e todas as humilhações que eu estava cobrando com juros.

Comecei a fodê-la com investidas longas, tirando o pau quase inteiro e voltando a enterrá-lo de uma só vez, vendo os peitos grandes se sacudirem a cada pancada. O corpo escorregava alguns centímetros sobre a maca a cada estocada, e eu tinha que agarrá-la pelos quadris para retê-la. A pele fria das coxas dela contra a minha pele quente fazia um contraste que me deixava ainda mais excitado. Inclinei-me para a frente, sem parar de bombear, e mordi um mamilo, puxando-o com os dentes até esticá-lo. Lambi o pescoço, os lábios entreabertos, o queixo.

—Pensa nos seus pais — sussurrei olhando para o rosto dela, e juro que algo na expressão mudou —. Pensa em quanto vão chorar por uma filha drogada. Imagina o quanto sofreriam se vissem o que eu estou fazendo com você. Se vissem a princesinha deles de pernas abertas e meu pau até a garganta.

Tirei-a de repente, virei-a com esforço até deixá-la de bruços, com os peitos esmagados contra o metal frio, e ergui os quadris para deixar o cu à mostra. Separei as nádegas com os polegares e fiquei olhando aquela entrada apertada, esse lugar que em vida certamente ninguém, ou quase ninguém, tinha tocado. Cuspi em cima. Enfiei um dedo, depois dois, sentindo como cedia sem resistência. E encaixei o pau ali, no cu, cerrando os dentes diante da estreiteza brutal que se fechou em torno da glande.

—Aqui também, Lorena — ofeguei, empurrando devagarinho —. Aqui também eu vou meter. Tudo o que você me negou eu vou cobrar esta noite.

Fodi-a de quatro, com as mãos cravadas nos quadris dela, deixando marcas roxas que ninguém veria mais. Cada golpe produzia um som surdo, obsceno, de carne contra carne. Puxei o cabelo dela para trás, arqueando-lhe o pescoço, fodendo aquele cu apertado com uma fúria que eu não reconhecia em mim. Passei a mão por baixo e apertei um seio até fazê-lo desbordar entre meus dedos.

Sem sair, virei-a outra vez. Agora eu queria olhar para aqueles olhos vazios enquanto gozava. Enterrei-a de novo na boceta, continuei investindo com um vigor inversamente proporcional à vitalidade da minha parceira, os olhos fixos nos dela como um caçador. Passei a mão da coxa ao pescoço e apertei, fingindo estrangulá-la, marcando os dedos na pele pálida. Quem dera tivesse sido eu, pensei, com a rola dura como pedra. Dei nela com uma brutalidade que quase derrubou a maca, batendo a pelve dela contra a minha, sentindo os peitos dela quicarem contra o peito a cada golpe.

Senti o orgasmo subir dos ovos, avisar na base do pau, e ainda tive tempo de tirá-lo da boceta, arrancar o preservativo de um tranco e colocá-lo justo sobre o rosto dela. Comecei a punhetá-lo com as duas mãos, apontando para o rosto perfeito, para os lábios entreabertos, para os olhos que anos antes tinham me olhado com desprezo em cada corredor do colégio.

O orgasmo veio abundante e violento, tanto que precisei morder os lábios para que o gemido não fosse ouvido em todo o prédio. Gozei sobre ela jato após jato, grossos fios brancos que caíram na testa, nas pálpebras, na boca, no queixo, pendendo depois até o pescoço. Esvaziei até a última gota apertando o pau com o punho, e ainda saiu mais uma gotinha que deixei cair sobre a língua dela. Desabei sobre aqueles peitos que jamais alimentariam ninguém e estiquei a língua para provar o sabor gelado deles, misturado com meu próprio sêmen que escorria do rosto dela.

—Você fracassou como mulher e como pessoa — murmurei, enquanto passava a glande ainda pingando pelos lábios pintados pela minha porra —. E, pela primeira vez na sua maldita vida, você me fez feliz.

***

Depois daquela cópula animal, tirei o preservativo, que nem sequer tinha cumprido sua função até o fim, e, como o bêbado que acorda de ressaca, senti um calafrio ao compreender a dimensão do que eu tinha feito. Olhei o corpo, com o sêmen ainda brilhando no rosto, com a boceta aberta e avermelhada, com a marca dos meus dedos no pescoço, e já não vi mais a ela, mas um conjunto de órgãos e tecidos. Quase vomitei. Jurei a mim mesmo que não voltaria a fazer aquilo.

Mentiroso.

No banheiro, percebi que, ao sair, eu não tinha trancado o depósito. Fiquei de pé, lívido, e senti o desejo voltar a se erguer. O pau, que deveria estar exausto depois de horas, começava outra vez a inchar contra o tecido da calça. Eram os nervos do boxeador, aquela adrenalina que empurra a reincidir. O tesão de poder ser descoberto me fez caminhar devagar pelos corredores. Fui ao meu gabinete buscar a mochila, sem cruzar com ninguém, e voltei a passo rápido, convencido de que encontraria a metade da equipe me esperando, algemas prontas.

Ao entrar, tudo continuava como eu havia deixado. Ela também.

Aproximei-me do cadáver com a câmera na mão. Visto assim, com a porra secando na pele, com as pernas ainda abertas e as marcas roxas nos quadris, despojada de toda a dignidade que o rito da morte concede — os ternos pretos, as madeiras caras, os silêncios solenes —, ela estava retratada como o que para mim sempre foi: uma puta, uma vaca gostosíssima que finalmente tinha pago pelo que me fez. E foi assim que eu quis imortalizá-la. Fotografei-a de todos os ângulos com uma velha câmera analógica que cuspia as imagens na hora. Abri-lhe as pernas para fotografar a boceta de perto, ainda dilatada. Separei os lábios com os dedos e disparei. Ergui um peito e disparei. Abri-lhe a boca, enfiei dois dedos até a garganta e disparei. Fiz um autorretrato enfiando meu pau outra vez entre os lábios dela, com a mão livre agarrando-lhe o cabelo. Olhei-as como quem olha a lembrança de uma namorada. Com a virilha outra vez tensa, pesei a hipótese de começar de novo.

E comecei de novo. Punhei sobre ela olhando para o rosto dela, meneando-o com a mão esquerda enquanto com a direita amassava um seio. Não durou muito: em quatro ou cinco puxadas já estava gozando sobre ela outra vez, desta vez sobre os peitos, vendo meu sêmen escorrer entre as tetas apertadas e formar poça no vão do esterno.

Agora sim. Não se arrisque mais. Depois você poderá repetir, e tem as fotos de lembrança.

Contra a vontade, arrumei-a como pude. Limpei os restos do rosto, do pescoço, do peito, da boceta e do cu com panos umedecidos, penteei o cabelo, fechei as pernas, cruzei os braços. Devolvi-a à câmara frigorífica com um sorriso de açougueiro, imaginando que a condenava ao último círculo do Inferno, aquele lago de gelo onde o anjo caído paga pelos séculos dos séculos. Revisei a sala mil vezes, deixando tudo como estava, e esperei o turno da noite terminar.

Os pais dela chegaram algumas horas depois. Eles me reconheceram, mas estavam devastados demais para reparar na coincidência. Falei com eles com profissionalismo exemplar, cumprindo os trâmites como se nada tivesse acontecido. No bolso eu levava as fotografias da filha deles com as pernas abertas e meu sêmen no rosto. É a primeira vez na vida que agradeci por ter um sexo de tamanho modesto: graças a isso, ninguém percebeu nada quando meu pau voltou a ficar meio duro enquanto a mãe me agradecia pelo trato.

Quando terminei o plantão e cheguei em casa, em vez de descansar, me tranquei no banheiro com as fotos espalhadas sobre a pia. Pensei nas lágrimas daquela mãe que teria de enterrar a filha, na justiça silenciosa que a Morte havia distribuído por mim, em como aquele corpo havia aceitado tudo sem protestar. Voltei a me masturbar olhando as fotos, uma por uma, me detendo nas da boceta dilatada e nas do sêmen escorrendo pelo queixo. Gozei na pia com um rosnado longo. Quem ri por último ri melhor. E naquele dia eu ri como um louco, tanto que quase os vizinhos chamaram a polícia.

E agora, o que acontece? Pois nada, continuo sendo o de sempre, mergulhado nos meus vícios e consumido pelos meus apetites. Aceitei isso. Sei que jamais serei como os outros, e não trocaria por nada a liberdade que senti ao descobrir isso. De vez em quando, em noites preguiçosas, passo um tempo com algum corpo especialmente bonito, chupo uns peitos frios, enterro o pau numa boceta que não protesta, gozo no rosto de uma mulher que não me julga. Sempre levo a câmera caso a ocasião apareça, e devo confessar que guardo uma coleção preciosa em um dos meus quartos. Sim, será minha ruína no dia em que me descobrirem. Mas é preciso viver. E, como bem sei por causa do meu ofício, eu vou acabar morto do mesmo jeito.

Às vezes, quando me toco com o olhar fixo em todas essas amantes que nem sequer sabem que o são, procuro ela entre as fotos. A da boceta aberta, a do meu pau na boca dela, a da porra escorrendo pela testa. Então volto a rir, e volto a gozar como se tivesse quinze anos, ensopando minha mão de sêmen espesso enquanto sussurro o nome dela. As primeiras vezes, meus amigos, as primeiras vezes sempre são especiais.

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