Me deixaram amarrada e ninguém soube o quanto eu desejava isso
A sala de aula cheirava a desinfetante e a café requentado, esse aroma estéril de lugares onde se pratica com a vida alheia. Sentei na cadeira de plástico que tinham colocado no centro, sob os fluorescentes, e notei como todos os olhares se acomodavam sobre mim. Meu papel era simples: fazer de paciente, de corpo inerte sobre o qual o resto da turma aprenderia a agir. Ninguém suspeitava que, assim que minhas coxas tocaram o assento, eu parei de fingir.
Eu vestia a roupa mais confortável do meu armário e, ao mesmo tempo, a que mais me denunciava. O top preto colava na minha pele como uma segunda camada, e por baixo não havia nada. Eu tinha decidido naquela manhã, diante do espelho, com o coração batendo na garganta. Com o ar-condicionado, meus mamilos tinham endurecido até doer, dois bicos roçando o tecido sintético em busca de uma pressão que não vinha.
Eu não tinha me maquiado. Sem aquela máscara, minhas inseguranças ficavam à mostra: a palidez, as pequenas marcas de acne nas bochechas, as olheiras de várias noites sem dormir. Os instrutores comentavam como minha cara de paciente em choque parecia «crível», e eu mordia a língua para não rir. Não era o trauma que tinha esvaziado meu rosto de sangue. Esse sangue estava mais embaixo, espesso e quente, acumulando-se onde ninguém podia ver.
— Carla, relaxa os ombros — pediu um deles.
Sua voz chegou até mim como se viesse do fundo de um poço. Fechei os olhos por um segundo e a sala de aula se dissolveu. Eu já não estava num curso; estava ajoelhada na escuridão, oferecida ao seu olhar. A vergonha de alguém ver meu rosto sem maquiagem, minha pele imperfeita, transformou-se de repente em combustível. Eu queria que você me visse assim, despida de todas as minhas defesas.
Apoiei as mãos nas coxas, sobre o tecido da legging. Olhei para os meus dedos: as unhas roídas até a carne, irritadas pelo estresse daqueles dias. Senti nojo e, ao mesmo tempo, uma pontada de prazer. Eu me sentia suja, exposta na minha própria falta de controle, e era exatamente isso que eu precisava sentir.
O instrutor se aproximou e meu espaço pessoal se reduziu a nada. O cheiro de café e antisséptico ficou denso. Tentei respirar, mas o ar travou na minha garganta, porque na minha cabeça aquele homem tinha deixado de ser um técnico.
— Vamos avaliar a resposta pupilar e o pulso — anunciou à turma.
Senti as pontas dos seus dedos, frias e profissionais, pressionando a base do meu pescoço em busca da artéria. Imaginei que era você, medindo o quanto meu sangue acelerava quando me tocava sem pedir permissão. O contraste do frio da mão dele contra o fogo da minha nuca arrancou de mim um suspiro trêmulo que disfarcei como cansaço.
— Está bem acelerada. Vejam a coloração do pescoço — murmurou.
O calor subiu pelo meu peito, uma maré vermelha sobre a palidez. A humilhação de ser analisada como um espécime era justamente o que me mantinha molhada. A calcinha tipo tanga já era uma rédea úmida; cada mínimo movimento na cadeira me lembrava o peso da minha própria traição, uma mancha que eu tinha certeza de que todos podiam sentir o cheiro.
As mãos dele desceram até meus ombros para me reposicionar. A pressão atravessou o tecido fino do top e, sem sutiã, o pano roçou meus mamilos com uma crueldade deliciosa. Eu quis afastá-lo. Quis, ao mesmo tempo, que ele apertasse mais, que cravasse os dedos em mim até deixar marcas.
— Carla, olha para mim — ordenou, aproximando uma lanterna dos meus olhos.
Fui obrigada a abrir as pálpebras. A luz me cegou, mas o que realmente me deslumbrava era a proximidade dele. Ele estava tão perto que eu distinguia seus poros, e me senti nua com minhas marcas a centímetros dele. Mordi o lábio inferior com força, buscando dor para não perder a cabeça, e senti o gosto metálico e morno do meu próprio sangue.
— Agora a imobilização cervical. Mantenham o eixo, não deixem a paciente girar — disse, posicionando-se atrás de mim.
Eu não podia vê-lo. Não sabia quando ele ia me tocar, e essa incerteza foi um dedo percorrendo minha coluna. Então senti a pressão. As mãos dele, muito maiores que as minhas, se fecharam dos lados da minha cabeça, envolvendo minhas orelhas e meu maxilar com uma firmeza que não admitia resistência.
O mundo se apagou. As palmas contra meus ouvidos apagaram todos os sons da sala. Só restaram as batidas do meu coração ecoando nas têmporas e o calor da pele dele contra a minha. Eu estava presa, incapaz de mexer a cabeça um milímetro, e a asfixia dessa quietude foi deliciosa.
Amo, olha para mim, gritei por dentro, porque naquele silêncio absoluto você era a única coisa que existia. Imaginei que aquelas mãos não me protegiam, mas me reivindicavam; que o resto da turma contemplava minha rendição sem entendê-la. Quando ele finalmente me soltou, o barulho voltou de uma vez, como um tapa, e senti o vazio frio do lugar onde tinha estado o contato dele.
***
Deram-nos um intervalo. Levantei com as pernas trêmulas, uma fraqueza que nascia no centro da minha pelve e se espalhava como um veneno doce. Fui até o banheiro sentindo o atrito das coxas a cada passo e me tranquei no cubículo, com a trava acionada.
Cheguei perto do espelho. Olhe para você, disse a mim mesma. Uma mulher pálida, com o cabelo mal preso e as bochechas queimando por um fogo que não tinha nada de saudável. Mas o que mais me doeu, e o que mais me excitou, foram meus lábios: inchados, de um vermelho violento, com uma crosta de sangue seco no canto. Pareciam a boca de alguém que tinha acabado de ser usada.
Enfiei a mão por baixo do elástico da legging, desesperada para comprovar a dimensão do meu próprio desastre. Meus dedos afundaram no tecido encharcado da tanga. Levei-os ao nariz e fechei os olhos: o aroma era denso, metálico por causa do sangue, carregado de desejo reprimido. Era o cheiro da rendição, e tive vontade de cair de joelhos ali mesmo.
Imaginei você atrás de mim, observando no espelho como sua garota brilhante se desfazia num banheiro público. Eu queria me esfregar, acabar com aquilo, mas ouvi vozes de outras mulheres entrando, risadas, conversas banais. O contraste me fez sentir um animal enjaulado. Lavei o rosto com água gelada. Não apagou nada.
***
Voltei para a cadeira. O instrutor segurava um rolo de faixa elástica que, em suas mãos, parecia uma corrente à espera de ser desenrolada.
— Vamos praticar um curativo compressivo de tórax — anunciou —. Carla, levanta os braços.
Ao obedecer, o top subiu e deixou à mostra uma faixa de ventre pálido. A exposição foi um choque. Ali estava eu, com os braços erguidos, os mamilos endurecidos apontando para o vazio.
— Respira fundo e solta o ar — ordenou.
Senti a faixa fria logo abaixo dos seios. Ela começou a me envolver, volta após volta, e a cada uma a compressão aumentava. O tecido elástico achatava meus seios contra as costelas, negando-lhes movimento, e a gaze roçava meus mamilos nus num tormento rítmico que me fazia cerrar os dentes.
Estavam me embalando. Respirar se tornou difícil, bocanadas curtas e desesperadas. Na minha cabeça não era um curativo: eram suas mãos me envolvendo, apertando até que eu só pudesse respirar com sua permissão.
— Muito apertado? — perguntou, com os dedos perigosamente perto da curva do meu seio.
Quis dizer que não, mas só saiu um gemido abafado. Fechei os olhos, vermelha, suada, as mãos fechadas em punhos sobre o colo. Imaginei que ele estava me enrolando para me entregar, que eu era um pacote pronto para ser usado.
— Perfeito. Fique assim, queremos observar a restrição respiratória — disse, dando um passo para trás.
Ele me deixou ali, comprimida, sufocada de desejo. Eu me sentia mais nua com a faixa do que sem roupa. Estava pronta para que aquela pressão se tornasse outra coisa, mas a indiferença profissional dele doeu mais que a própria faixa.
***
O instrutor fez um sinal para quatro alunos. O murmúrio cessou e o som metálico de uma maca de lona laranja sendo aberta cortou o ar. Dois rapazes e duas moças me cercaram como se eu fosse um objeto delicado prestes a ser desmontado.
— O corpo da Carla é uma carga inerte. Não pode ajudar vocês, não controla os próprios movimentos — explicou a eles.
Aquelas palavras afundaram no meu estômago como uma pedra. Carga inerte. Sem controle. Era exatamente o convite que minha mente esperava. Deixei os músculos relaxarem, os braços caírem ao lado do tronco enfaixado, e me transformei numa boneca de carne entregue à força de desconhecidos.
Algumas mãos deslizaram sob minhas axilas, outras envolveram minhas coxas, outras seguraram meus quadris. Eles me ergueram. Perder o contato com o chão me cortou a respiração. Enquanto me passavam para a maca, meu corpo balançou, pesado e vulnerável, e temi que a mancha que eu deixava na cadeira fosse uma confissão brilhante diante de toda a turma.
Me depositaram sobre a lona, fria e rígida, obrigando-me a olhar para o teto. E então vieram as tiras. Clique. Uma faixa de náilon cruzou minhas coxas, apertando a legging contra meu sexo inflamado. Clique. Outra rodeou minha cintura. Clique. A última passou sobre meu peito, por cima da faixa. Eu estava amarrada. Não podia me cobrir, não podia esconder o rosto, não podia frear o tremor das pernas.
— Levantem-na no três. Um, dois… três.
O chão desapareceu. Suspensa no ar, sustentada apenas pelo esforço de quatro estranhos, cada passo que davam me deslocava contra as correias. O atrito era áspero, abrasador. A tira do peito pressionava meus pulmões já restritos e me obrigava a ofegar. Imaginei que eram seus seguranças, me levando até você para que verificasse o quão bem me tinham embalado.
— Mantenham-na erguida, vamos simular um transporte em terreno irregular — disse a voz.
Começaram a me balançar de propósito. O mundo se inclinava. O atrito das correias, o gosto de sangue, a asfixia da faixa: eu estava no limite, desejando que o simulado nunca terminasse e, ao mesmo tempo, implorando por uma mão que rompesse as tiras e me reivindicasse de verdade.
***
O exercício acabou com a mesma frieza com que tinha começado. A maca desceu de uma vez até o chão e o impacto me arrancou um gemido que ninguém ouviu.
— Bom trabalho. Dez minutos de descanso antes da avaliação final — anunciou ele, e os alunos se dispersaram entre risadas e planos para a tarde.
Um a um, soltaram as correias das minhas pernas e da minha cintura. Mas, na pressa de sair para fumar ou olhar o celular, alguém esqueceu a última. A fita que cruzava meu peito continuou fechada. Fiquei deitada na lona laranja, no meio da sala vazia.
Imobilizada dos ombros para cima, tentei me sentar, mas o náilon se cravou na borda superior dos meus seios, lembrando-me de que eu ainda estava sob custódia. O top encharcado colava na minha pele. Minhas mãos estavam livres e, ainda assim, eu não podia usá-las para me soltar: o medo de que alguém entrasse e me surpreendesse no meio da minha própria degradação me mantinha petrificada.
Imaginei você entrando na sala deserta e encontrando uma mulher amarrada a uma maca, com o lábio ferido e o peito lutando para arrancar ar da faixa.
— Amo? — sussurrei para o vazio, e o som da minha própria voz me deu um arrepio.
Não havia ninguém para me salvar, mas também não havia ninguém para me usar. Era a forma mais pura de desespero. Mordi o lábio outra vez; a ferida se abriu e o ferro voltou a inundar minha boca. Eu estava tão molhada que sentia o frio da evaporação nas coxas.
Ouvi passos. O coração bateu contra o náilon. A porta se abriu e, por um instante, contive a respiração esperando o veredito. Não era Ele. Era o instrutor, com uma pasta na mão e uma indiferença absoluta.
— Ah, Carla, ainda aqui — disse sem me olhar, como se eu fosse um manequim esquecido —. Desculpe, a última correia ficou presa.
Clac. A pressão sumiu do meu peito e o alívio físico foi quase doloroso. O sangue voltou a circular, mas minha mente continuava algemada naquela lona. Sentei devagar, tonta por uma liberdade que eu não tinha pedido.
— Você pode ir. Terminamos com as demonstrações — acrescentou, riscando algo na lista.
***
Saí para o estacionamento com a umidade pesada e fria da tanga marcando cada passo. Fechei os olhos e tentei evocar de novo a sensação das suas mãos sobre meus ouvidos, a pressão da faixa, o peso das correias. Quis imaginar que você me esperava no escuro do meu carro para dar sentido a todo aquele calvário de exposição e vergonha.
Mas o estacionamento estava vazio. Todo aquele fogo, toda a umidade acumulada, toda a humilhação de mostrar minha pele e meus defeitos diante de desconhecidos se dissolvia sob a luz mortiça dos postes. Eu tinha estado pronta para a entrega total, e ninguém tinha vindo selá-la.
Em casa, tirei a roupa, que já parecia uma pele morta. Diante do espelho, as marcas vermelhas da faixa e das correias ainda cortavam meu tronco pálido, cicatrizes de uma guerra na qual ninguém tinha me reclamado. Toquei-me procurando o rastro de um calor que já esfriava, com a tristeza profunda de quem não foi possuída. Eu tinha me imaginado nua diante de todos, tinha saboreado meu próprio sangue e encharcado a roupa esperando ser tomada. A realidade era uma sala vazia e um homem que nem sequer se lembrava do meu nome. Encolhi-me na cama, abraçando o vazio, enquanto o eco do meu desejo frustrado ressoava na minha cabeça como uma sentença.





