Eu me entreguei ao meu amo, amarrada diante de desconhecidos
O ar da sala de aula de prática estava abafado, carregado daquele cheiro metálico de desinfetante. Eu estava no centro, sentada numa cadeira de plástico, transformada no alvo de todos os olhares. Supostamente, eu era uma atriz, uma voluntária para a oficina de primeiros socorros. A verdade é que eu me sentia como um pedaço de carne exposto numa vitrine.
O top preto com a palavra «Caprichosa» em strass prateados me fazia sentir ridícula e, ao mesmo tempo, perigosamente visível. Eu não estava usando sutiã. Sentia o atrito do tecido sintético contra meus mamilos, duros, doloridos, reagindo não ao frio do ar-condicionado, mas à ideia intrusiva de que você pudesse estar me olhando de algum canto escuro da sala.
—Noelia, fique quieta. Vamos prosseguir com a avaliação —disse um dos instrutores.
A voz dele me chegou como se viesse por um túnel. Sem maquiagem, minhas cicatrizes de acne brilhavam como se um holofote as iluminasse. As unhas roídas me cravavam nas palmas suadas. Eu me sentia largada, vulnerável, e isso, de um jeito torto que só você entenderia, estava me incendiando. Mordi o lábio inferior até o gosto de ferro inundar minha boca. A dor foi uma faísca.
—Relaxe o pescoço —continuou o instrutor.
Senti as mãos dele. Não eram as suas, mas meu corpo, traidor e faminto, as processou como se fossem. Um arrepio percorreu minha coluna e notei aquele calor líquido começando a encharcar minha calcinha fio-dental, enquanto eu imaginava que aquele exame era, na verdade, sua inspeção particular. Me apavorava que alguém percebesse que meu peito subia e descia num ritmo que nada tinha a ver com uma emergência. Eram estranhos, e na minha cabeça todos eram testemunhas de uma humilhação que eu tinha escolhido.
***
O murmúrio virou um zumbido branco quando o instrutor principal pediu a um auxiliar que iniciasse a imobilização cervical. Agora eram dois homens, me ladeando com uma eficiência técnica que, para mim, era uma tortura precisa.
—Vamos colocar o colar cervical. Olhar à frente, Noelia. Não se mexa por nada —ordenou a voz às minhas costas.
Então as mãos de um deles se pousaram sobre meus ouvidos para estabilizar minha cabeça. Ao tamparem meu ouvido, o mundo exterior se apagou. Só restou o eco retumbante do meu próprio coração. Nesse vazio sonoro, a ilusão se completou. Já não eram instrutores. Eram suas mãos me isolando do universo, exigindo entrada na minha mente.
Fechei os olhos com força. Sob as pálpebras, eu me vi nua no meio daquela sala, despida de cada fio de dignidade. Imaginei que aquelas mãos não estavam ali para me proteger, mas para me segurar enquanto você caminhava devagar ao meu redor, inspecionando cada imperfeição que eu tanto me esforço para esconder e que, sob seu olhar, virava troféu da sua posse.
—Ela está muito tensa —comentou o homem atrás de mim, a respiração roçando minha nuca—. Respire fundo.
Não consigo, eu quis dizer, mas só saiu um suspiro arfado. Eu estava tão excitada que doía. Então o contato cessou.
—Perfeito, imobilizada. Pode soltar.
Quando as mãos se afastaram, o ruído do mundo voltou de repente e, com ele, um vazio glacial. Eu não queria ser livre. Queria continuar sendo aquela figura de mármore sob seus dedos.
***
Aproveitei a troca de turno para escapar ao banheiro. Tranquei-me num box, com as pernas pesadas, o aroma da minha própria excitação me seguindo como um rastro. Queria me tocar ali mesmo, mas o rangido da porta me congelou: umas garotas do curso riam e comentavam como eu tinha ido bem. Se soubessem que minha palidez não era doença, e sim o vertigem de me imaginar aberta para você na frente de todos.
Esperei que fossem embora e me encarei no espelho sob aquela luz que não tem piedade de ninguém: o rosto sem maquiagem, os lábios inchados com sua pequena crosta de sangue. Eu me sentia feia e, ao mesmo tempo, me ver tão vulnerável me excitava de um jeito doentio. Você não veria defeitos: veria coordenadas da sua propriedade. Lavei o rosto com água gelada, ajeitei meu pingente de lua e voltei à sala.
***
Mas o instrutor-chefe me olhou de um jeito diferente.
—Noelia, bem na hora. Para a demonstração de curativo compressivo, precisamos que você tire o top. O curativo precisa ser aplicado sobre a pele do tronco para ser eficaz.
Meu coração deu um solavanco. Sem sutiã, eu ia ficar nua da cintura para cima diante de meio centena de pessoas.
—É só para a prática. Precisamos de realismo —insistiu, apontando para a cadeira no centro.
Minhas mãos subiram até a barra do top. Debaixo não havia nada. Cinquenta pares de olhos se cravaram nos meus dedos trêmulos enquanto eu agarrava a bainha. Eu a ergui. O ar gélido contra minha pele úmida foi um chicote. A peça passou pela minha cabeça e meu cabelo caiu desordenado sobre os ombros. Cruzei os braços por instinto, mas ele pediu que eu pusesse as mãos na cintura.
Lá estava eu. Exposta. Eu me sentia pequena, defeituosa, uma mancha de imperfeição numa sala cheia de gente normal. E, no entanto, entre as pernas, o pulso era tão forte que temi que ele pudesse ouvir.
Quando a faixa elástica, fria e áspera, tocou minha pele nua, soltei um gemido que não consegui disfarçar. Na minha cabeça, não era uma faixa: eram suas mãos me envolvendo em couro. O instrutor passou o tecido por baixo da minha axila e sobre o peito, apertando para garantir a compressão. A pressão era deliciosa: me obrigava a oferecer meu corpo de forma mais evidente.
Ele deu mais uma volta, bem acima dos meus mamilos. O atrito do tecido áspero contra a região mais sensível foi demais. Uma descarga percorreu meu corpo até os dedos dos pés.
—Está apertando demais? —perguntou, o rosto a centímetros do meu.
Abri os olhos e não vi o instrutor. Vi um vazio que só você podia preencher.
—Não —sussurrei, com a voz quebrada—. Aperta mais. Por favor.
Ele entendeu aquilo como entrega ao papel, sem suspeitar que cada milímetro de tecido que me tirava o ar me devolvia a vida. Cruzou as faixas em um oito perfeito, prendendo meus braços junto ao corpo.
—Aproximem-se. Quero que confiram a tensão —pediu à turma.
Um arrepio de terror e deleite percorreu meu corpo quando os alunos se levantaram e o círculo se fechou ao meu redor. Senti a primeira mão, dedos hesitantes sobre a curva do meu seio esquerdo. Depois outra nas costas. Fechei os olhos: já não eram alunos, eram seus convidados, e você observava da primeira fila enquanto eu permitia que outros me tocassem sob suas ordens.
—Ela está suando. O estresse é real —comentou uma garota, medindo meu pulso na clavícula.
O toque dela foi outra descarga. A vergonha de alguém notar meu estado era o combustível que mantinha o fogo aceso.
—A imobilização está total —concluiu, com uma palmada que me arrancou um soluço abafado—. Fique assim enquanto explicamos o transporte na maca.
***
Quatro alunos chegaram com uma maca de lona laranja que me lembrou uma mesa de sacrifício. Fui transferida por mãos que me seguravam pelas coxas, pelas axilas e pelos quadris. Então vieram as cintas: tiras de náilon preto, largas e ásperas. Uma cruzou minhas coxas, apertando a legging contra meu sexo. Outra, a cintura. A última, o peito já enfaixado. O clique das fivelas soou como o fechamento de uma cela.
—Ergam no três. Um, dois… três.
O chão desapareceu. O náilon me cavava a pele e eu, com os olhos no teto, me sentia uma oferenda. Quando começaram a balançar a maca para simular terreno irregular, o atrito do curativo contra meus seios me levou ao limite.
Quando o instrutor mandou uma pausa, me deixaram sobre uns cavaletes de metal e, na pressa de sair, esqueceram a cinta do peito. Fiquei sozinha, deitada de costas, os braços colados ao corpo. Fechei os olhos e imaginei você entrando, trancando a porta e caminhando até a maca com aquela calma que me desmonta, sem me soltar, vendo meu peito lutar contra as faixas. Ouvi passos no corredor: qualquer um podia entrar e me ver assim, e a mera possibilidade me deixou tensa até o limite.
***
Quando enfim me liberaram, procurei refúgio num laboratório vazio e, sob uma lâmpada de emergência, voltei a despir o tronco. Tirei o celular com as mãos trêmulas. As marcas do curativo estavam gravadas na minha pele como um mapa de rendição; linhas vermelhas, sulcos profundos. Enquadrei a mais funda, a violácea da cinta de náilon, e tirei a foto. Depois outra do meu rosto, os olhos vidrados, a língua umedecendo a ferida do lábio.
«Fui de todos e de ninguém», escrevi com os dedos desajeitados. «Me tocaram, me amarraram e me olharam como se eu fosse um objeto. Mas só dói porque não era você quem apertava as faixas. Olhe o que deixaram em mim.»
O celular vibrou contra o chão de metal. Sua resposta apareceu cortante, sem um vestígio de piedade: «Saia daí agora mesmo. Não vista o top. Cruze o campus até o estacionamento subterrâneo, nível menos três. Quero que você sinta o ar nas suas marcas enquanto caminha até mim. Se alguém olhar para você, deixe que veja sua vergonha. É o meu troféu.»
Um gemido de terror e excitação escapou da minha garganta. Olhei-me uma última vez no reflexo de uma vitrine: a garota pálida, os estigmas vermelhos do curativo. Parecia uma vítima, uma fugitiva ou uma posse sagrada.
***
Saí. Cada passo era uma agonia de prazer. O ar-condicionado batia nos meus seios nus, endurecendo meus mamilos até doer. Na escada, um grupo descia rindo. Encostei-me à parede, cobrindo-me com os braços. Um deles parou por um segundo e o olhar dele percorreu meu pescoço e meu peito oculto antes de seguir adiante. Morri de humilhação, e a calcinha voltou a ficar encharcada.
O elevador me devolveu a imagem da minha rendição: meio nua num prédio público, obedecendo a uma ordem que desafiava toda lógica. As portas se abriram para o cheiro de gasolina e concreto úmido. Ao fundo, entre as colunas, os faróis do seu carro se acenderam. Meu amo me esperava.
Parei diante do seu vidro. Ele baixou devagar e o seu perfume, aquele aroma de autoridade, me fez fraquejar nos joelhos. Você não me olhou nos olhos: seu olhar desceu direto para as linhas violáceas que os instrutores tinham deixado gravadas no meu peito.
—Te apertaram bem, Noelia —você disse, e sua voz reverberou no meu peito vazio como um trovão—. Você se deixou mover e tocar por estranhos. Se sentiu confortável sendo o brinquedo deles.
—Não… eu só… —minha voz quebrou e voltei a morder o lábio.
—Silêncio. Não te dei permissão para falar.
Você saiu do carro com aquela calma que me apavora e me devora. Me obrigou a soltar os braços que cobriam meu torso, e o frio do nível menos três cravou-se nos meus mamilos irritados.
—Sobe no capô —ordenou—. De joelhos. Olhando para a rampa de entrada.
O capô estava bem sob um foco. Se um carro entrasse, a primeira coisa que veria seria minha silhueta nua da cintura para cima, exposta como um troféu de caça.
—Por favor… —sussurrei, mas seus olhos me lembraram que minha vontade já não me pertencia. Subi. O metal frio contra os joelhos, as costas sulcadas por marcas oferecidas à escuridão.
—Você vai ficar assim até eu decidir que limpou a marca das mãos deles com sua vergonha. Se ouvir um carro, não se mexa.
O eco de um motor rebateu nas paredes. Alguém estava descendo. Dois faróis contornaram a esquina e me banharam por completo; fechei os olhos, mas não abaixei a cabeça. Um SUV freou a poucos metros. O motorista deve ter visto a cena: uma mulher semidesnuda sobre um capô, imobilizada por sua própria submissão, sob a vigilância de uma sombra que a reivindicava. O medo e a vergonha eram um ácido que se convertia em um fluxo ardente entre minhas pernas. O carro voltou a andar e passou devagar ao nosso lado, até sumir no fundo.
—Ainda não terminamos —você disse, e senti o roçar de algo metálico no meu peito—. As marcas dos outros ainda estão aí. Eu só aceito o meu próprio selo.
Era seu isqueiro de prata. O clique da tampa soou como um sino no silêncio.
—Suas mãos, Noelia. Use-as. Passe o calor por onde eles colocaram as deles. Que sua pele lembre quem é o dono do fogo.
Aproximei os dedos da chama e, com um tremor que percorria minha coluna, comecei a acariciar a pele seguindo os sulcos vermelhos do curativo. O calor dos meus dedos contrastava com o frio glacial dos meus mamilos. Cada vez que eu os roçava, uma descarga golpeava minha pélvis.
—Olha para mim —sussurrei, fora de mim—. Sou sua. Não sobrou nada deles.
—Abaixo —ordenou, fechando o isqueiro com um estalo seco.
***
Você me guiou até a porta traseira com um gesto. Me obrigou a sentar sobre os calcanhares, a testa encostada no encosto do banco do motorista, o retrovisor inclinado para que eu não escapasse da minha própria imagem.
—Olhe para você —sua voz era um sussurro denso na minha nuca.
O que vi me partiu: o rosto transtornado, o tronco transformado num mapa de guerra. Suas mãos contornaram minha cintura por trás e puxaram a legging com uma lentidão torturante. Quis fechar as pernas, mas seu joelho se interpôs, obrigando-me a permanecer aberta, oferecida ao espelho.
—Você está encharcada. Desejou isso desde que o primeiro instrutor encostou em você, não foi? Desejou que fosse eu a imobilizar você, a ver você tão quebrada assim.
—Sim… por favor —implorei, com a bochecha colada ao couro.
Seus dedos subiram pela minha coluna até o pescoço, onde pendia minha lua.
—Isso é a única coisa que não combina em você —sussurrou, prendendo a corrente—. O que você prefere, sua pequena lua ou minha marca? Porque hoje você não vai sair daqui com as duas.
—Sua marca… sempre a sua —gemi, os olhos fixos no reflexo.
Você puxou com um movimento seco. O fecho se rompeu e a lua caiu sobre o tapete, perdendo-se na escuridão. Senti-me nua pela primeira vez em todo o dia.
—Agora você é só tela —disse.
Você baixou minha legging de um puxão, deixando as meias de ursinhos como o único vestígio da minha realidade exterior. O couro frio contra meu sexo encharcado arrancou de mim um grito que ficou preso no vidro. Você me obrigou a virar, ficar de frente, aberta, despida da minha joia, da minha roupa e do meu orgulho.
Lá fora, o silêncio se quebrou com um som rítmico: passos pesados e o tinir de um molho de chaves. O vigia começava a ronda.
—Se você soltar um único grito, eu abro a porta e deixo que ele nos encontre assim —você disse, a voz cortante como aço—. Fique em silêncio enquanto eu tomo posse de você.
Você me agarrou pelas coxas, os dedos afundando na minha carne. Quando entrou em mim, o mundo desapareceu. Joguei a cabeça para trás, buscando um ar que não vinha; meus pulmões ardiam sob as marcas do curativo. Enterrei as unhas roídas nos seus ombros. Os passos do vigia pararam junto ao carro e vi o feixe da lanterna varrendo o cimento pela fresta da janela, enquanto o vidro embaçava com o calor dos nossos corpos.
Cada investida era uma ordem de silêncio que meu corpo mal obedecia. O prazer, depois de horas de imobilidade e espera, era tão agudo que o gemido morria na minha garganta. A lanterna bateu em cheio no vidro e a luz branca iluminou o interior de forma espectral. Estávamos a milímetros de sermos descobertos. O medo disparou a adrenalina e fechou meus músculos ao redor de você num espasmo que me fez ver estrelas.
O vigia ficou ali por um segundo eterno; eu ouvia a respiração dele do outro lado do vidro. Por fim, os passos se afastaram e o tinir das chaves se perdeu no fundo do nível menos três. Você soltou minha boca e eu desabei contra seu peito, soluçando sem voz. Eu estava quebrada, marcada e vazia de qualquer vontade que não fosse a sua. O calor que você tinha cultivado o dia inteiro se derramou por fim sobre o couro do carro, numa rendição que não precisava de palavras.
***
—Vista-se —você disse, gelado, me trazendo de volta de golpe ao concreto.
Ao deslizar o top pela cabeça, o atrito dos strass contra os mamilos foi uma tortura, mas eu sabia que aquela dor era a única coleira que você me permitia usar agora que a lua jazia sob o banco.
—Desça —ordenou sem me olhar, ligando o motor.
Saí. O ar do nível menos três me atingiu como uma muralha de gelo. Fiquei de pé no centro da praça, com as meias de ursinhos sobre o cimento sujo, vendo você fechar a porta. Coloquei as mãos nos bolsos, encolhendo-me para que o tecido não roçasse minhas marcas, e comecei a caminhar até a saída, sentindo o peso do seu controle a cada passo. Eu sabia que você me observava pelo retrovisor enquanto se afastava na direção oposta.
Cruciei o campus deserto sob a luz laranja dos postes. Ao longe, outros estudantes saíam da biblioteca rindo. Ninguém podia imaginar que, sob minha roupa descuidada, eu carregava o mapa de uma guerra que você tinha vencido: as marcas do instrutor, o calor das suas mãos e o vazio da minha lua perdida.
Mordi o lábio uma última vez, saboreando o ferro que já fazia parte de mim. Amanhã eu voltaria para a aula, para ser a aluna pálida de unhas roídas. Mas naquela noite, com o vento frio batendo no meu rosto, eu sabia que minha pele já não me pertencia. Era sua. E esse pensamento me deu calor suficiente para chegar em casa.





