Naquela manhã, eu lhe ensinei a obedecer debaixo d’água
Mariana e eu amanhecemos enroscados, nus e ainda grudentos da noite anterior. Foi ao me esticar, com a primeira luz entrando pela persiana mal fechada, que me lembrei de que aquela tinha sido diferente. Não por ela, que já conhecia meus manias, mas por mim: depois de tantos anos me cuidando, de sempre pôr uma barreira de látex entre o desejo e o risco, pela primeira vez eu a tinha sentido sem nada no meio. Pele contra pele. Isso deixou em meu corpo um zumbido estranho, como se eu tivesse cruzado uma linha sem volta.
—Você tá com cara de quem não dormiu nada — murmurou ela, sem abrir totalmente os olhos.
—Dormí o suficiente — respondi.
O suficiente para querer mais.
Era sábado e a casa emprestada estava em silêncio. Decidimos sair para caminhar, arejar a cabeça, embora o tesão ainda estivesse ali, latente, por baixo da roupa que vestimos sem vontade. Caminhamos sem rumo até que, perto da estação, vimos o letreiro discreto de um sex shop entre uma farmácia e uma casa de penhores. Mariana apertou minha mão. Não precisou dizer nada.
Entramos como um casal entra em qualquer loja, só que nenhum casal percorre aqueles corredores com o olhar que ela trazia. Lascivo, incandescente, lendo cada prateleira como se fosse um cardápio. Eu escolhi algo pequeno e específico: um plug de silicone, do tamanho certo para que eu o sentisse por horas sem incomodá-la demais. Uma ideia para o dia. Ela, por outro lado, foi limpando metade do balcão antes que eu pudesse ver sequer o que colocava na cesta.
—Vai me contar o que você levou? — perguntei.
—Hoje à noite — disse, e deixou a frase suspensa como uma ameaça doce.
Descemos por uma rua longa até um bar de mesas pegajosas e luz amarela. Pedi dois cafés que ninguém tocou. Por baixo da mesa, passei a pequena caixa do plug para ela. Mariana abriu no colo, olhou por um segundo e, sem perder o sorriso, se levantou e entrou no banheiro do fundo. Demorou o bastante. Quando voltou, caminhava com um cuidado novo, uma rigidez nos quadris que só eu entendia, e me lançou um olhar que dizia já está, já está dentro de mim. O morbo de saber que ela estava assim, marcada por uma ordem minha, num bar qualquer, me deixou duro o caminho inteiro de volta.
***
Na casa, Mariana deixou as sacolas sobre a mesa da cozinha e avisou que ia comprar algo para o almoço. A porta se fechou e a casa voltou a ficar muda. Eu tinha uma urgência mais vulgar que o desejo: precisava mijar, e muito. Fui pelo corredor em direção ao banheiro já afrouxando o cinto, sem pensar em mais nada.
Empurrei a porta entreaberta e congelei.
Carla estava no chuveiro.
O vidro corrido pela metade a enquadrava como um quadro: a água escorrendo por suas costas, o vapor grudando nas paredes, a cabeleira escura achatada contra a nuca. Era a outra que ficava na casa naquele fim de semana, a que mal tinha trocado duas frases comigo, a que tinha aquele jeito de olhar de lado que eu tinha decidido ignorar. Até aquele momento.
Ela não se assustou. Não tampou nada. Virou só um pouco a cabeça, cravou os olhos em mim através do vapor e continuou passando a barra de sabonete pelo corpo, devagar, como se tivesse me esperando. O tempo ficou preso na soleira, comigo de um lado e ela do outro, sem que nenhum dos dois fizesse o gesto de cortar o que estava acontecendo.
—Vai ficar aí só olhando? — disse, e não havia vergonha na voz. Havia desafio.
Fechei a porta atrás de mim. Foi só isso. Fechar foi aceitar.
Ela entendeu o clique da tranca como uma resposta e subiu a aposta. Ensaboou os seios pequenos, fazendo-os escorregar entre os dedos, desceu a espuma pelo ventre e a levou mais abaixo, até a mata molhada que nascia entre as pernas. Se acariciava sem pressa, com os olhos semicerrados, e cada vez que um dedo afundava ela soltava um som baixo, rouco, que batia de volta nos azulejos. Ela sorria entre um gemido e outro. Sabia exatamente o que estava me fazendo.
Eu já não pensava na bexiga. Baixei a calça de uma vez e peguei o pau, duro desde o bar, e comecei a me masturbar contra o vapor enquanto ela se exibía. Não nos tocávamos. Estávamos a um metro de distância e, ainda assim, aquilo era a coisa mais íntima que eu tinha feito em muito tempo: dois desconhecidos se masturbando um diante do outro, se medindo, sem uma única palavra de afeto no meio.
—Mais rápido — ordenei, surpreso com a própria voz—. Quero te ver gozar primeiro.
Ela obedeceu. Encostou as costas nos azulejos, abriu as pernas e se trabalhou com dois dedos enquanto a água lhe caía no rosto. Os gemidos viraram arfadas curtas, e quando suas coxas se tensionaram e ela mordeu o lábio para não gritar, eu soube que ela tinha gozado por mim, porque eu tinha mandado.
Não aguentei mais. Atravessei o metro que nos separava, agarrei a cabeça molhada dela com uma mão e gozei no rosto dela, em jatos que se misturaram com a água do banho. Ela não desviou o rosto. Manteve-o erguido, a boca aberta, recebendo, sorrindo como quem recebe um prêmio.
***
Eu ainda não tinha soltado a última gota quando meu corpo mudou de registro. A urgência que me tinha levado ao banheiro voltou de repente, impossível de conter, e um jato quente saiu de mim e começou a encharcá-la. Por um instante pensei que ela ia se afastar, que aquilo quebraria o encanto.
Ela fez o contrário.
Jogou a cabeça para trás, passou as mãos pelo cabelo como se o penteasse com elas e abriu a boca para provar. O líquido escorreu dos lábios dela, desceu pela garganta e pelos seios até sumir pelo ralo, junto com o sabonete e todo o resto. Ela me olhava enquanto fazia aquilo. Queria que eu visse até onde ela estava disposta a ir, e eu vi, e entendi naquele gesto que aquela mulher não procurava um amante. Procurava um dono.
Quando me esvaziei por completo, levantei-a pelo queixo e a beijei, um beijo sujo e longo que ela devolveu com fome. Depois cuspi em seu rosto, devagar, olhando nos olhos dela para ver o que faria.
—Você é uma vadia — eu disse, com a voz baixa e firme—. Uma menina má que está precisando de alguém que bote limites. Hoje à noite eu vou botar. E agora se lave direito, porca, que eu não quero sentir teu cheiro quando voltar pra te buscar.
Ela não reclamou. Não franziu a testa. Lambera o cuspe no canto da boca com a ponta da língua e baixou os olhos por um segundo, justamente o tempo de me fazer saber que a palavra «dono» era exatamente a que ela vinha esperando ouvir. Assentiu devagar.
—Sim — murmurou—. Hoje à noite.
Essa única sílaba, dita debaixo d’água, valia mais que qualquer promessa. Era um contrato. Eu daria as ordens e ela as cumpriria, e entre nós dois íamos descobrir até onde aquela corda podia ser esticada antes de se romper.
***
Vesti a calça com mãos que ainda tremiam um pouco. O coração me martelava nas costelas, não de medo, mas daquela mistura de poder e vertigem que só aparece quando alguém te entrega o controle do próprio prazer e da própria humilhação ao mesmo tempo. Carla fechou o registro atrás de mim e começou a se secar, tranquila, como se o que acabara de acontecer fosse apenas o prólogo de algo muito maior.
Abri a porta do banheiro e quase dei de cara com Mariana, que voltava com as sacolas do almoço penduradas nos braços e a respiração agitada de ter subido as escadas correndo.
—Esqueci as chaves — disse, rindo de si mesma—. Você tá bem? Tá todo vermelho.
—Água quente — respondi, tirando uma sacola da mão dela para que ela não me visse o rosto—. A Carla tá tomando banho, deixa ela terminar.
Mariana assentiu sem suspeitar de nada e entrou na cozinha para desempacotar. Por um metro, pelo clique de uma tranca e pelas costas frias de uma porta fechada a tempo, eu não tinha sido descoberto. Essa margem tão estreita deveria ter me assustado. Em vez disso, me excitou ainda mais. O segredo era uma camada extra de morbo, uma coleira invisível que agora me prendia às duas mulheres daquela casa de formas distintas.
Do outro lado da parede, a água do chuveiro continuava caindo. Carla cantarolava alguma coisa em voz baixa, satisfeita, enquanto se preparava para um dia de espera. E eu, encostado no batente da cozinha vendo Mariana guardar a comida sem perceber nada, comecei a contar as horas que faltavam para a noite.
Porque naquela noite, eu tinha prometido, ela ia descobrir o que significava pertencer a alguém. E eu pretendia cumprir cada palavra.





