A doutora que ninguém imagina quando tira o jaleco
Quando olho para trás, me custa reconhecer a garota que fui. Tão inteligente e, ao mesmo tempo, tão cega. Minha adolescência foi um oceano de livros, de fórmulas que dançavam atrás dos meus olhos, de equações e reações químicas que eu entendia melhor do que o meu próprio corpo. Sexo era uma palavra abstrata, algo que minhas colegas sussurravam entre risadinhas nervosas e que na minha cabeça não tinha lugar.
Meu corpo era apenas um recipiente para o meu cérebro. As únicas vezes em que meus dedos deslizavam entre as minhas pernas era por um instinto cego, uma descarga que me deixava sem fôlego e sem explicação. Eu não sabia que aquilo tinha nome. Só sabia que aliviava uma tensão que eu não compreendia, um calor úmido que crescia e que eu apagava com o roçar frenético das pontas dos dedos até que um tremor me sacudia por inteiro.
Entrei em Medicina aos dezoito, com a nota mais alta do país. A nerd, a CDF, a esquisita. Minha vida era uma corrida de obstáculos acadêmicos e minha única fuga era um diário secreto onde eu escrevia paixões que jamais vivia. Eu tinha um corpo que minhas colegas invejavam, mas aquilo não me servia de nada: os caras me viam de longe e a minha inteligência os assustava. Eu era a bonita com quem ninguém se atrevia a dançar.
***
O primeiro contato real com o desejo veio numa daquelas festas bobas da universidade. O jogo da verdade. De roupa? Meus pais não deixam, mas se eu tirar uma peça conto uma verdade. Foi a minha vez.
—Mostra as tetas — gritou alguém entre risadas, e a ordem percorreu minha pele como um choque.
Lembro do silêncio que veio depois, todos os olhares famintos cravados em mim. Com uma mistura de vergonha e uma ousadia que eu não sabia que tinha, levantei a camiseta. Lá estavam meus seios, firmes, com os mamilos rosados e duros, que nunca antes ninguém tinha visto. O ar se carregou de eletricidade, de um cheiro de suor e de desejo cru. De repente a música se apagou e o que encheu a sala não foram risadas, mas suspiros ofegantes. Casais que se conheciam havia tempo se devoravam nos sofás, no chão, em qualquer canto.
Eu fiquei paralisada, olhando. Senti um calor subir do ventre, uma umidade que encharcava minha calcinha sem que eu entendesse por quê. Eu estava excitada, mas era como ter febre sem diagnóstico. Um dos garotos se aproximou.
—Quer que a gente faça? —sussurrou no meu ouvido, com hálito de cerveja.
Assenti, sem saber direito o que estava fazendo, impelida por um impulso. Nos deitamos num sofá. Abri as pernas, obediente e confusa, e ele se atirou sobre mim. Em menos de cinco segundos senti algo quente e pegajoso na minha coxa. Ele tinha terminado sem sequer me tocar. A humilhação queimou meu rosto. Arrumei a roupa e fui para casa chorar no travesseiro, odiar meu corpo por não funcionar como o das outras.
***
Continuei sendo uma máquina de estudar, decidida a terminar o curso em tempo recorde. Aos vinte e um, ainda intacta, conheci Esteban. Um estudante de arquitetura que jurava estar apaixonado por mim, embora os olhos dele só pousassem no meu decote. A noite em que ele tirou a minha virgindade foi uma comédia triste. Foi desajeitada, rápida e dolorida. Não senti prazer, nem uma faísca. Ele se mexeu sobre mim como um animal no cio, gozou dentro da camisinha, saiu de lado e caiu no sono.
Durante meses eu fui um recipiente, um buraco quente onde ele despejava a própria frustração. Nunca se preocupou em me excitar, em me preparar, em me beijar sequer. Terminei esse relacionamento me sentindo usada, como um móvel velho que alguém gostou de quebrar.
Depois veio Tomás, um colega tão cerebral quanto eu. Viramos inseparáveis, estudando até o amanhecer, compartilhando café e nervosismo. Numa noite, com o álcool dissolvendo minhas inibições, eu o seduzi. Levei-o para a minha cama e, pela primeira vez, um homem me fez sexo oral. A língua dele explorou, lambeu, sugou até me deixar sem fôlego. O mundo explodiu. Um orgasmo violento, quase doloroso, arqueou minhas costas e me fez gritar o nome dele. Eu tinha vinte e três anos e acabara de descobrir o paraíso.
O relacionamento durou menos de um ano. Numa noite, chorando, ele me confessou que era gay, que tinha se apaixonado por um colega. Minha vida amorosa era, oficialmente, um fracasso retumbante.
***
Me formei médica cirurgiã aos vinte e quatro, com máxima distinção, o diploma na mão e o coração em pedaços. Comecei a trabalhar numa clínica particular e lá conheci Carolina, minha irmã de alma. Ao me ver tão perdida, ela armou um encontro às cegas com um primo do marido, recém-chegado da Espanha. Fui contrariada, convencida de que seria mais uma perda de tempo.
E então eu o vi.
Damián. Alto, moreno, com uns olhos verdes que pareciam olhar direto para dentro de mim e um sorriso que era uma promessa de pecado. Senti a umidade me invadir, os mamilos tão duros que doíam contra o vestido. Jantamos, mas eu não provei a comida. Só conseguia sentir o perfume dele, essa aura de confiança que o envolvia.
De repente, com uma franqueza brutal, ele me disse:
—Eu quero você esta noite.
Minha cabeça de médica protestou.
—Não podemos, é o primeiro encontro.
Mas o meu corpo, enfim, despertou e gritou que sim. Eu cedi. Fomos para um hotel. Mal consegui fechar a porta quando ele se atirou sobre mim. Me beijou como se quisesse me devorar, as mãos dele percorriam cada centímetro da minha pele, os lábios se fechavam sobre meus mamilos, enviando descargas diretas até o centro do meu desejo. Ele se ajoelhou, abriu minhas pernas e a língua dele me levou ao êxtase em segundos. Um orgasmo tão brutal que minhas pernas tremiam sem controle.
Naquela noite descobri que era multiorgástica. Perdi a conta. Ele me possuiu devagar no começo, me fazendo sentir cada milímetro, e depois com uma fúria que pensei que me partiria ao meio. Era isso o que me tinham roubado todos esses anos, pensei entre tremores.
—Você é minha —rosnou no meu ouvido, a voz dele um bálsamo e uma ameaça ao mesmo tempo—. Entendeu? Toda minha.
Passamos a noite inteira entregues um ao outro, aprendendo, descobrindo. Damián não só me ensinou a desfrutar: me ensinou a gozar sem vergonha, a pedir o que eu queria, a parar de pedir permissão para sentir.
***
E o melhor é que minha educação não terminou naquela noite. Com o tempo, ele me ensinou que o prazer não entende de rótulos. Numa tarde, entrou no quarto uma mulher ruiva, de sorriso maroto. Se apresentou como Romina. Não houve desajeito nem rodeios. Damián simplesmente me olhou.
—Beija ela.
E eu beijei. Descobri o sabor de outra mulher, a maciez da pele dela, uma doçura que eu não conhecia. Descobri que podia gozar olhando para ele com ela, que em vez de ciúme eu sentia uma excitação multiplicada. Me tornei uma exploradora do meu próprio corpo e do corpo dos outros, com Damián como cúmplice e guia. Ele não me ensinou só a desfrutar do sexo: me ensinou a viver com uma intensidade que eu não acreditava ser possível.
Já se passaram mais de quinze anos desde aquela noite no hotel. Agora tenho quarenta, sou uma ginecologista reconhecida, uma profissional que todos respeitam. Mas na intimidade, no refúgio do nosso quarto, continuo sendo a mesma mulher que se descobriu naquela madrugada. Nosso relacionamento é um pacto de liberdade, uma união aberta baseada numa confiança tão absoluta que só o amor verdadeiro permite.
Damián, com seus quarenta e quatro anos, continua sendo meu centro de gravidade. O controle dele é lendário: pode me manter à beira durante horas, me fazendo implorar.
—Por favor, me deixa gozar... eu te imploro —sussurrei numa noite, as lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas, o corpo tremendo de necessidade.
—Ainda não, meu amor —respondeu, se movendo dentro de mim com uma lentidão torturante—. Quero sentir você se desesperando.
E quando finalmente me concedia, o orgasmo era devastador, uma explosão que me roubava a visão.
***
Nosso sexo já não é só sexo: é um ritual. Às vezes é selvagem, como quando ele chega de viagem e, sem dizer palavra, me empurra contra a parede e me toma com uma fúria que me deixa tremendo. Outras vezes é lento e reverente, horas nos explorando, a língua dele percorrendo cada dobra, uma calma que me enlouquece e constrói o prazer camada por camada até me fazer explodir.
E depois estão as outras. Minhas amigas, atraídas pelo magnetismo dele, por esse sorriso que ainda me deixa toda molhada. Não há ciúme, só cumplicidade. Me excita vê-lo seduzi-las, ver o espanto nos rostos delas quando descobrem o que ele sabe fazer. Às vezes me limito a observar de uma poltrona, me acariciando devagar enquanto ele as aproveita. Outras vezes eu me junto, e um ménage vira uma sinfonia de corpos em que nós conduzimos a orquestra.
—Olha pra mim —sussurrei uma noite para uma garota chamada Julieta, enquanto Damián a abraçava por trás—. Tá sentindo isso? Sente como ele te preenche.
Não há nada que não tenhamos experimentado. Fizemos amor em praias, em aviões, no carro, em banheiros de restaurantes, em elevadores. Brinquedos, amarras, jogos de papéis. Me tornei especialista na arte da sedução, em provocar só pelo prazer de sentir o desejo alheio na minha pele. Sei que meu corpo é uma arma e gosto de usá-la.
Às vezes, no consultório, atendendo uma paciente, lembro daquela garota tímida que não sabia o que era um orgasmo. E sorrio por dentro. Acham que a doutora é séria, impecável, previsível. Não fazem ideia de que, quando penduro o jaleco branco e guardo o estetoscópio, me transformo em outra. De que em casa me espera um homem disposto a me fazer gritar até a voz se cansar.
Esteban, que me tirou a virgindade sem me ensinar nada. Tomás, que me deu uma lição de humildade. Foram degraus desajeitados que me levaram até Damián, até essa vida de paixão transbordante. Não houve fracasso no meu passado, só o caminho que me conduziu de volta para casa. Um paraíso que se renova toda noite, cada vez que olho nos olhos verdes dele enquanto me desfaço entre as mãos dele.
Somos dois hedonistas, duas almas unidas pelo sexo mais livre que eu conheço. E cada dia eu tenho vontade de mais. Sempre mais.





