A noite em que meu namorado descobriu minha infidelidade
Há coisas que uma nunca conta em voz alta, e esta é uma delas. Escrevo porque preciso tirá-la de dentro, porque há meses a repasso na cabeça antes de dormir e ainda não sei se me arrependo. O que sei é que, naquela noite, deixei de ser a mulher que todos acreditavam que eu era.
Eu estava com Tomás havia quase três anos. Um homem bom, daqueles que dizem sim para tudo, que planejam férias com seis meses de antecedência e que jamais levantam a voz. No começo, isso me pareceu segurança. Com o tempo, entendi que era outra coisa: uma forma elegante de não estar presente. Tomás me amava como se ama um hábito, sem sobressaltos, sem fome. Na cama, tudo era igual: dois beijos, a mão morna na teta por cima da camisola, um dedo desajeitado entre as minhas pernas sem saber muito bem o que procurava, e depois ele por cima, se movendo devagar, gozando em silêncio, me dando um beijo na testa e se virando para dormir. Eu ficava olhando para o teto com o cu latejando de puro abandono, mordendo os lábios para não chorar de raiva.
E eu tinha fome.
Conheci Damián na academia do bairro, um daqueles lugares que não são exatamente elegantes, mas têm sua própria lei. Ele treinava no mesmo horário que eu, sempre com a mesma camiseta cinza e aquele jeito de olhar que não pedia licença. A primeira vez que falou comigo não foi para me elogiar. Corrigiu minha postura num agachamento, apoiou a mão na parte baixa das minhas costas e disse:
— Assim. Não se encolha. Ocupá o espaço que é seu.
Fiquei com essa frase por dias. Ocupá o espaço que é seu. Ninguém nunca tinha falado comigo daquele jeito, como se soubesse algo sobre mim que eu ainda não me atrevia a saber.
***
As primeiras semanas foram só isso: olhares, conversas cada vez mais longas na máquina de café, um roçar que durava um segundo a mais. Eu dizia a mim mesma que não estava fazendo nada de errado. Mentira. O que eu estava fazendo era acender um pavio lento e observá-lo queimar com um sorriso. Voltava para casa com a calcinha encharcada só de tê-lo por perto, me trancava no banheiro e enfiava dois dedos até o fundo pensando na boca dele, nas mãos grandes, no volume que se desenhava por baixo do short quando ele fazia levantamento terra. Gozei rápido, em silêncio, mordendo a toalha, e saí para fazer o jantar de Tomás como se nada tivesse acontecido.
No dia em que cruzamos a linha não houve decisão, houve rendição. Combinamos de tomar algo depois do treino e, de algum modo, acabamos no carro de Damián, no estacionamento subterrâneo, com as luzes apagadas e meu corpo inteiro pedindo que aquilo acontecesse logo. Ele me beijou como ninguém nunca tinha me beijado: com calma, segurando minha nuca, a língua entrando na minha boca com uma tranquilidade insultuosa, sem pressa e sem dúvidas.
— Não vou fazer nada que você não queira — disse contra minha boca. — Mas vai ter que me pedir.
E eu pedi. Deus, claro que pedi.
— Me toca — eu disse no ouvido dele, com a voz quebrada. — Me toca agora, por favor.
Ele levantou meu vestido de uma vez até a cintura. Arrancou minha calcinha e jogou no banco de trás sem nem olhar onde caía. Quando passou dois dedos pela minha fenda, de baixo para cima, e percebeu o quanto eu estava molhada, deu uma risadinha baixa contra meu pescoço.
— Olha como você está, meu amor. Está encharcada. Faz quanto tempo que não te comem direito, hein?
Não consegui responder. Ele enfiou os dois dedos de uma vez e um gemido me escapou, retumbando no carro. Movia os dedos dentro de mim com uma segurança que eu nunca tinha sentido em ninguém, dobrando-os, procurando aquele ponto que Tomás não encontrara em três anos, enquanto o polegar apertava meu clitóris com uma pressão perfeita. Eu me agarrei ao encosto do banco dele com as duas mãos e comecei a mover meu quadril contra o punho dele, sem vergonha, como uma cadela no cio.
— Assim, vai — sussurrou ele. — Fode a minha mão. Me mostra como você quer.
Gozei em menos de dois minutos, mordendo o ombro dele para não gritar, apertando os dedos dele com o meu cu em contrações que eu nem conhecia. E ele não parou. Quando minhas coxas ainda tremiam, abriu o cinto, baixou a calça até os joelhos e tirou a rola. Era grossa, longa, com uma veia marcada correndo por baixo e a ponta já brilhando. A minha boca encheu d’água.
— Vem — disse, puxando minha cintura para perto.
Subi em cima dele. Não houve camisinha, não houve pergunta, não houve pudor. Me apoiei no teto do carro com uma mão, agarrei o pau dele com a outra e fui encaixando devagar, sentindo como ele me abria aos poucos, como me preenchia de um jeito que fazia anos que nada me preenchia. Quando o tive inteiro dentro, encostei a testa na dele e fiquei quieta por um segundo, de boca aberta, sem acreditar no que estava acontecendo.
— Mexe — ordenou, apertando minhas nádegas com as duas mãos. — Fode-me forte.
E eu fodi. Montei nele naquele estacionamento escuro como nunca tinha montado em ninguém na vida, subindo e descendo sobre a rola dele, com os peitos saltando contra o rosto dele, com os dentes dele cravados nos meus mamilos por cima do sutiã aberto pela metade. Ele apertava meu cu, me abria, passava um dedo pelo outro buraco e me olhava nos olhos para ver como eu reagia. Eu estava fora de mim. Dizia coisas que nunca tinha dito a ninguém:
— Arrebenta, vai, mais forte, filho da puta, mais forte.
Ele me agarrou pelo cabelo, puxou minha cabeça para trás e começou a me socar por baixo, com a rola entrando e saindo com um som úmido que enchia o carro. Gozei uma segunda vez, me engasgando, e ele aguentou mais algumas estocadas até rosnar contra meu pescoço e eu sentir ele gozar dentro de mim, em jatos quentes, grossos, sem sair, sem se retirar, deixando toda a porra lá dentro.
Ficamos abraçados por alguns minutos, ofegantes, com a rola dele ainda dura pulsando dentro de mim. Depois ele me limpou devagar com a própria camiseta, me deu um beijo longo na boca e me olhou com um sorriso torto.
— Agora você já sabe o que estava faltando.
Saí daquele estacionamento com as pernas tremendo, com o sêmen escorrendo pela parte interna da coxa por baixo do vestido e uma certeza incômoda: não havia mais volta.
***
Durante semanas, vivi duas vidas. A da mulher que preparava o jantar para Tomás e via séries no sofá com a cabeça apoiada no ombro dele, e a da mulher que mentia sobre aulas de ioga para se perder na cama de Damián. Aprendi a sustentar as duas sem que uma tocasse a outra, e isso, confesso, também me dava um prazer obscuro.
Na cama de Damián eu era outra. Ele me fazia coisas que eu nem sequer tinha ousado imaginar. Eu me ajoelhava entre as pernas dele e chupava a rola por horas, sem pressa, olhando nos olhos dele, levando-a até o fundo até meus olhos se encherem de lágrimas e a baba escorrer pelo queixo. Ele me agarrava pelas duas tranças e enfiava ele mesmo, fodendo minha boca, e quando o pau inchava e eu sabia que ele estava prestes a gozar, ele o tirava, me fazia abrir a boca e mostrar a língua, e gozava em jatos grossos sobre meu rosto, sobre meus peitos, sobre minha língua esticada.
— Engole tudo — ele dizia. — Boa garota.
E eu engolia, gota por gota, com o cu me molhando as coxas de pura vontade.
Ele me comia de todas as formas possíveis. De joelhos contra a cabeceira, com o cu bem empinado no ar e uma mão na nuca me esmagando o rosto no travesseiro. De pé contra a parede do banheiro, com uma perna erguida sobre o quadril dele, enquanto ele me via gozar no reflexo do espelho. Deitada de costas, com as pernas abertas e os tornozelos apoiados nos ombros dele, entrando em mim tão fundo que batia no fundo a cada investida. Numa tarde, ele me pediu o cu pela primeira vez e eu dei, com paciência, com saliva e lubrificante, com dois dedos primeiro por um longo tempo até me abrir, e depois com a rola devagar, centímetro por centímetro, enquanto eu choramingava contra o travesseiro numa mistura de dor e prazer que eu nunca tinha conhecido. Quando terminou, meu cu estava cheio da gozada dele e uma sensação de pertencimento que durou três dias.
Damián nunca me pressionou para deixar Tomás. Essa era parte do poder dele. Não implorava, não cobrava. Fazia eu me sentir como se fosse à casa dele porque eu queria, não porque ele pedia, e essa liberdade acabou me prendendo mais do que qualquer promessa.
— Você sabe o que quer — me dizia, passando um dedo pela minha coluna enquanto eu recuperava o fôlego com o sêmen dele escorrendo entre as minhas pernas. — Só lhe falta coragem de admitir em voz alta.
Ele tinha razão. E a coragem chegou, embora não do modo como eu tinha imaginado.
***
Foi numa quinta-feira. Tomás tinha viajado a trabalho, dois dias em outra cidade, e eu tinha convidado Damián para ir à minha casa pela primeira vez. À minha casa. Na cama que eu dividia com meu namorado. Sei que foi errado, sei que foi uma provocação até comigo mesma, mas eu queria vê-lo ali, no meu território, queria apagar com o corpo dele cada noite morna e sem desejo que eu tinha passado naquele lençol.
E, nossa, como ele apagou.
Mal atravessou a porta, eu o levei pela mão até o quarto. Tirei a roupa dele sem dizer uma palavra. Ajoelhei e chupe-lhe a rola ali mesmo, aos pés da cama de casal, olhando para a foto nossa na mesa de cabeceira enquanto a engolia inteira. Ele me levantou, me jogou no colchão, arrancou minha roupa e afundou o rosto entre as minhas pernas. Comeu meu cu por o que pareceram horas, chupando meu clitóris, enfiando a língua, me fazendo gozar duas vezes antes de subir em cima de mim. Quando me penetrou, com uma estocada seca que me fez gritar, senti uma descarga elétrica de puro prazer e de puro ressentimento. Eu estava fodendo com outro homem na cama do meu namorado, e não me sentia má. Me sentia livre.
Já estávamos perdidos um no outro havia um bom tempo. Eu estava montada nele, com as mãos firmes dele na minha cintura marcando o ritmo, as costas arqueadas e a respiração despedaçada, com a rola dele entrando e saindo do meu cu encharcado num borbulhar obsceno que enchia o quarto, quando ouvi a chave na fechadura. O som me atravessou como um balde de água gelada. Tomás não voltava até sábado. Tomás estava a trezentos quilômetros dali. Tomás abria a porta do quarto naquele exato instante.
Ele ficou parado no umbral com a bolsa de viagem ainda pendurada no ombro. A viagem tinha sido cancelada. Ele ia me fazer uma surpresa.
O silêncio foi absoluto. Eu continuava sobre Damián, com a rola dele cravada até o fundo, paralisada, com o coração batendo contra as costelas e os peitos ainda marcados pelas mãos dele. Esperei gritos, lágrimas, algum objeto voando contra a parede. Conhecia Tomás: eu esperava vê-lo pequeno, desfeito, implorando.
O que eu não esperava era Damián.
***
Ele não se abalou. Não se afastou de repente nem balbuciou um pedido de desculpas. Com uma calma que me arrepiou a pele, segurou meu quadril para que eu não caísse, me ajudou a sentar ao seu lado na beira da cama — com a rola saindo de mim lentamente, brilhando de meus fluidos, ainda meio ereta à vista de todos — e só então olhou nos olhos de Tomás.
— Você chegou tarde — disse. Só isso.
Tomás abriu a boca e não saiu nada. Deixou a bolsa cair no chão. Tinha os olhos brilhantes, a mandíbula tremendo, aquela mistura de fúria e dor de quem acabou de entender que o seu mundo se desfez em três segundos.
— Quem... quem é esse? — conseguiu dizer, e a voz lhe falhou na última palavra.
Olhei para ele. Olhei para o homem com quem eu havia construído uma vida confortável e vazia, e pela primeira vez em anos o vi como ele realmente era. Não o odiava. Não queria que sofresse. Mas também não me nascia consolá-lo, e essa minha indiferença me assustou mais do que qualquer outra coisa.
— Tomás — eu disse, e me surpreendi com a firmeza da minha voz, com as pernas ainda abertas e o cu pulsando por outro —, sinto muito. Sério. Mas isso não começou hoje.
— Se veste — cuspiu, sem me olhar. — Se veste e expulsa esse cara da minha casa.
Damián se levantou sem pressa. Vestiu a calça com uma tranquilidade quase insultante, guardando a rola ainda meio dura dentro da cueca sem parar de observá-lo, e quando falou o fez num tom baixo, quase amável, que era mil vezes mais intimidador do que qualquer grito.
— Eu vou embora — disse —. Mas ela decide se fica ou se vem comigo. Não você.
***
Tomás deu um passo à frente, com os punhos cerrados, e por um segundo pensei que tudo iria para o inferno. Damián não recuou nem um milímetro. Apenas o encarou, sereno, como quem vê se aproximar uma tempestade que sabe que não vai tocá-lo. E Tomás parou. Parou porque, no fundo, já conhecia a resposta, porque a tinha lido no meu rosto antes mesmo de eu dizer uma única palavra.
— Me diz que não é verdade — pediu-me, e agora sim, agora ele me olhou de frente. — Me diz que isso é um erro, que você vai ficar, que a gente vai consertar isso.
E aí estava. O momento que Damián me anunciara semanas antes. Só lhe falta coragem de admitir em voz alta.
Levantei. Recolhi minha roupa do chão, devagar, sentindo os dois olhares cravados em mim, sentindo a gozada de Damián escorrer lentamente pela parte interna da minha coxa enquanto eu me abaixava. Me vesti sem me esconder, porque me esconder teria sido continuar mentindo, e eu estava cansada de mentir. Quando terminei, respirei fundo.
— Não vou consertar isso, Tomás — eu disse. — Faz muito tempo que deixei de querer consertar. O que acontece é que só esta noite tive coragem de te dizer isso.
***
Não houve cena de filme. Tomás não chorou na nossa frente; dava para ver que ele estava fazendo um esforço enorme para não desmoronar, e eu agradeci em silêncio. Ele se sentou numa cadeira do corredor, com a cabeça entre as mãos, enquanto eu colocava numa mala o essencial: roupa, documentos, a fotografia da minha mãe, as poucas coisas que realmente eram minhas e não daquela vida emprestada.
Damián me esperou perto da porta, sem se meter, sem me apressar. Quando passei por ele com a mala, ele colocou uma mão na minha lombar, no mesmo ponto exato onde tinha me tocado pela primeira vez na academia, e sussurrou:
— Ocupá o espaço que é seu.
Saí daquela casa sem olhar para trás. Não porque não doesse, mas porque sabia que, se eu olhasse, uma parte de mim inventaria uma razão para ficar, e essa parte já não mandava mais.
***
Nessa mesma noite, dormi na cama dele, na de Damián. Antes de dormir, ele me comeu de novo, longo e devagar, de bruços com o peso de todo o corpo sobre o meu, mordendo minha nuca, sussurrando coisas sujas no meu ouvido enquanto me enfiava até o fundo. Gozei chorando, não de tristeza, mas daquela espécie de alívio que a gente não sabe que precisa até ele chegar. Ele acabou dentro outra vez, sem tirar, deixando-se cair sobre minhas costas até os dois pegarmos no sono assim, colados, com a rola dele ainda dentro do meu cu. Pela primeira vez em anos, dormi de verdade, sem aquela angústia surda que me acompanhava havia tanto tempo. Em algum momento da madrugada, acordei e ele me abraçou por trás, perguntando se eu me arrependia. Eu disse a verdade: que não sabia, que provavelmente me arrependeria às vezes durante muito tempo, mas que faria tudo de novo.
Já se passaram meses. Não vou mentir e dizer que tudo foi perfeito. Houve culpa, houve noites em que pensei em Tomás e no dano que causei, houve amigos que deixaram de falar comigo e uma família que ainda não entende minha decisão. O que tenho com Damián também não é conto de fadas: é intenso, é livre, às vezes desconfortável de tão honesto. Mas é real. Finalmente há algo na minha vida que é real. E finalmente, todas as noites, quando me deito, me deito com fome e durmo saciada.
Confesso sem orgulho e sem vergonha: naquela noite, não escolhi o correto, escolhi o verdadeiro. Escolhi o desejo acima do conforto, o risco acima do hábito. E se alguém que ler isto reconhecer na minha história a própria cama morna e silenciosa, talvez entenda o que eu demorei três anos para entender.
Que uma pode passar a vida inteira sendo amada e morrer de fome do mesmo jeito.


