A noite em que minha esposa voltou a ser ela mesma
O que vou contar aconteceu há pouco mais de um ano, e ainda me custa encontrar uma forma de contar sem que pareça algo que não foi. Não foi uma aventura. Não foi uma traição. Foi, de algum modo que ainda tento entender, a noite em que Natalia voltou a ser Natalia.
Estamos juntos há dezesseis anos. Dezesseis anos que incluem uma filha, duas mudanças, três empregos diferentes e uma dor que chegou há três anos e não quis ir embora. Algo relacionado ao nosso filho mais velho que não me cabe detalhar. O que posso dizer é que essa dor a atingiu de um jeito que eu não soube como amortecer. Vi ela se apagar aos poucos. Parou de pintar, que era o que mais amava. Parou de colocar música na cozinha. Ficou séria de uma forma que não tinha a ver com maturidade, mas com o peso de algo que carregava sozinha, mesmo eu estando sempre ali.
O aniversário foi ideia minha. Escolhi um salão pequeno no centro, com toalhas de linho, velas e um músico que se apresentava aos sábados. Me recomendaram como um lugar íntimo e tranquilo. Não me disseram que ia mudar algo entre nós.
Xavier subiu no pequeno palco quando já tínhamos pedido as entradas e eu começava a notar que a conversa não fluía com facilidade. Natalia estava ali, presente, mas pela metade, como tinha virado hábito havia tempo. E então ele começou a cantar.
Tinha uma voz que parecia vir de mais fundo do que o corpo deveria comportar. Grave, quente, com uma leve rouquidão que amaciava cada nota antes de soltá-la. Começou com boleros do Caribe, seguiu com baladas que eu não conhecia, mas que Natalia claramente conhecia, e na segunda música a vi mudar.
Soltou o garfo no prato. Ergueu o rosto. Os lábios se entreabriram levemente, daquele jeito que ela tem quando algo a surpreende, mas também a reconhece, e pela primeira vez em meses eu a vi completamente no lugar em que estava. Não pela metade. Não do outro lado daquele muro de tristeza que nos tinha separado sem que nenhum de nós tivesse decidido isso.
Xavier tinha esse instinto dos cantores experientes: escolhia alguém no salão e cantava diretamente para essa pessoa, com uma intensidade calma que fazia o escolhido sentir que aquela música existia só para ele. Naquela noite ele escolheu Natalia. Cravou os olhos no rosto dela, suavizou o tom e continuou cantando sem desviar o olhar.
Natalia chorou. Não muito, e disfarçou sem alarde, mas eu a vi limpar uma lágrima com o dorso da mão enquanto aplaudia no final. Não era um choro de tristeza. Era o choro de quem passa tempo demais sem que alguma coisa realmente lhe toque.
Quando esgotou seu repertório e o salão o aplaudiu com vontade, Xavier se aproximou da nossa mesa. Convidei-o a sentar sem pensar demais. Ele aceitou com um sorriso largo e aberto, pegou a mão de Natalia e depositou um beijo que durou exatamente dois segundos a mais do que o protocolo permitia. Ela não retirou a mão.
Conversamos por mais de uma hora. Xavier viajava muito, cantava em bares e hotéis de diferentes países, e contava as coisas com aquele ritmo que os homens têm quando já viram o suficiente para saber o que vale a pena contar e o que não vale. Natalia foi descongelando aos poucos: primeiro com um sorriso cauteloso, depois com uma gargalhada de verdade que eu já não ouvia havia tempo. Vi a mim mesmo me sentindo aliviado e, ao mesmo tempo, algo mais que demorei a reconhecer.
Quando ele a convidou para dançar, Natalia me olhou em busca de permissão. Eu assenti com a cabeça. Vi ela se afastar em direção à pequena pista e, da mesa, observei os dois se moverem. Os corpos começaram distantes, com aquela rigidez inicial de duas pessoas que mal se conhecem tentando encontrar o mesmo ritmo. Mas a música foi os aproximando, compasso a compasso, como se cada mudança de nota reduzisse um centímetro da distância entre os dois.
Em certo momento Xavier disse algo ao ouvido dela. Ela sorriu com os olhos fechados e apoiou levemente a cabeça no ombro dele. E eu, sentado sozinho à mesa com minha taça, senti algo no peito que demorei a identificar. Não era ciúme. Era desejo. Desejo de vê-la assim, entregue e presente. Desejo de que aquilo que aquele homem estava devolvendo a ela não parasse. Fiquei duro sob a toalha, sem aviso, olhando a mão de Xavier descer da cintura de Natalia até repousar bem no começo da bunda, e ela não se afastar.
***
Sugeri subirmos para o quarto quando eles voltaram à mesa. Não tinha planejado: me veio e eu falei, e no segundo seguinte já era irreversível. Xavier nos olhou a ambos com uma calma que não tinha nada de surpresa. Natalia apertou minha mão sob a toalha.
A suíte tinha champanhe no gelo, que fazia parte do pacote de aniversário, e frutas numa tigela de cerâmica que ninguém tinha pedido. Escolhemos a música entre os três. Natalia foi ao banheiro e voltou com o mesmo vestido, mas sem os sapatos, com o cabelo solto sobre os ombros. Essa pequena diferença a deixava outra. Mais leve.
Dançamos os três no espaço entre o sofá e a janela, com as taças na mão e a música bem baixa. Em algum momento — não lembro exatamente quando — Xavier e Natalia se beijaram. Não foi um momento dramático. Foi a conclusão lógica de duas horas de tensão acumulada. Eu estava a menos de um metro, vendo tudo, e o que senti não foi o que eu tinha esperado.
Fiquei excitado. Assim, simples e sem nuances. Ver minha mulher enfiar a língua na boca daquele homem, ver como ele agarrava a bunda dela com as duas mãos por cima do vestido e a erguia um pouco contra o corpo, me deixou com a rola dura como eu não sentia havia anos. Aproximei-me devagar, pus uma mão nas costas dela. Ela se virou por um momento para buscar minha boca também, e naquele beijo havia algo que eu não soube nomear na hora, mas que reconheci depois: gratidão.
Xavier baixou o zíper do vestido de Natalia com cuidado, sem pressa. O tecido caiu no chão e ela ficou de lingerie preta, a que tinha colocado por mim naquela noite e que agora estreava diante de outro homem. Ele beijou o pescoço dela, a curva do ombro, a clavícula, enquanto desabotoava o sutiã e libertava os seios. Beliscou os mamilos dela devagar, olhando nos olhos dela, até que ela deixou escapar um gemido baixo. Ela inclinou a cabeça para trás, com os olhos fechados, e soltou um som que era o oposto completo do silêncio em que tinha vivido nos últimos dois anos. Um som genuíno, sem esforço, sem nada a provar.
Xavier se agachou e lambeu um mamilo, depois o outro, sugando-os com fome, mordendo de leve, até Natalia agarrar a cabeça dele com as duas mãos e apertá-lo contra o peito. Ele baixou a calcinha dela pelas pernas e a deixou cair no chão. Enfiou a mão entre as coxas da minha mulher e ela se abriu sem resistência. Vi dois dedos de Xavier se afundarem no pauzinho dela e saírem brilhantes, molhados até os nós dos dedos. Natalia estava encharcada. Havia meses que, na nossa cama, ela não ficava assim.
Sentei-me na beirada do sofá e os observei. Não por desconforto, mas porque eu queria ver. Queria vê-la assim. Xavier a tratava com atenção: olhava nos olhos dela antes de cada movimento, freava quando notava que ela tensionava o corpo, esperava o sinal para seguir. Ela agradecia com as mãos, com a forma de se arquear para ele, com a maneira de se esfregar nos dedos que continuavam a abri-la.
Ele a levou até a beira da cama, fez com que se sentasse e se ajoelhou entre as pernas dela. Abriu as coxas dela com as duas mãos e enfiou o rosto no pauzinho dela sem cerimônia. Eu via de lado: a língua de Xavier trabalhando lá em cima, devagar primeiro, depois com mais pressão, enquanto dois dedos entravam e saíam dela com um barulho úmido que enchia o quarto. Natalia agarrou o cabelo de Xavier com as duas mãos e começou a mover a cabeça dele no ritmo de que precisava. Disse, com a voz mais rouca que eu já ouvira nela em anos:
— Assim, chupa assim, não para.
Ouvi ela usar aquela palavra e percebi que fazia anos que Natalia não falava na cama. Ela estava se soltando diante de mim, e eu tinha a rola na mão dentro da calça, apertando-a sem perceber.
Xavier a lambeu até que ela gozasse pela primeira vez, com as pernas tremendo e os calcanhares cravados nas costas dele. Ouvi ela uivar baixo, quase mordendo o lábio, e depois soltar o ar de uma vez, como quem estava em apneia havia muito tempo.
Ele se levantou. Desabotoou o cinto, baixou a calça e a cueca de uma vez só. O ar me escapou. Xavier tinha uma rola notavelmente grande, grossa, escura, e os olhos de Natalia foram direto para ela, sem disfarçar. Ela lambeu os lábios de um jeito que eu nunca tinha visto nela.
Natalia se ajoelhou diante dele. Pegou-o com as duas mãos, estudou-o por um instante com aquela atenção que ela tem quando algo realmente lhe interessa, e depois o colocou na boca com concentração absoluta. Começou pela ponta, sugando devagar, brincando com a língua ao redor da glande, e aos poucos foi descendo até tê-lo todo dentro. Trabalhou devagar, alternando mãos e boca em ritmos diferentes: uma mão na base, ordenhando-o, a outra nos ovos, e a boca subindo e descendo pelo resto. As lágrimas que lhe se formavam nos olhos eram de esforço e prazer misturados, impossíveis de separar. Ela engasgava, tossia de leve, se afastava para respirar com um fio de saliva pendurado no lábio, e voltava a enfiá-lo na boca.
Me aproximei. Ajoelhei-me ao lado dela. Ela ergueu o olhar para mim e, sem dizer nada, fez um gesto que era um convite. Peguei a rola de Xavier com a mão e a levei até a minha boca. Nunca tinha feito isso. Não tinha planejado. Mas ela estava ali, morna e pulsando entre meus dedos, e ela me olhava com os lábios entreabertos, e o momento tinha uma lógica própria que não pedia explicação. Passei a língua da base até a ponta, meio desajeitado no começo, e senti o gosto salgado do sêmen pressentido na língua.
Os dois compartilhamos aquele momento: nossas bocas se encontravam na rola de Xavier, se buscavam uma na outra, trocavam calor, saliva e o gosto dele. Natalia me chupava os lábios entre uma lambida e outra, com a ponta de Xavier apoiada contra as bochechas dos dois. Quando Natalia o engolia inteiro até a garganta, eu chupava os ovos dele. Quando eu tentava engoli-lo, ela me guiava com a mão na nuca, sem pressa, me ensinando. Xavier nos olhava de cima e falava conosco em voz baixa, dizendo coisas simples e cruas.
— Assim, os dois. Que bom que os dois fazem juntos.
Natalia me procurou diretamente para me beijar e, naquele beijo, havia algo que fazia muito tempo que nós dois não tínhamos. Intimidade sem distância. Proximidade sem a sombra da dor que nos tinha separado.
Quando Xavier chegou ao limite, Natalia o recebeu sem recuar. Enfiou-o todo na boca e ele agarrou a cabeça dela com as duas mãos, vazando a porra na boca dela com um grunhido longo. Vi os jatos. Vi como Natalia engoliu o que pôde e como o resto escorreu pela comissura e caiu nos seios dela. Depois ela procurou a minha boca. Beijamo-nos com tudo aquilo entre as línguas, dividimos aquilo, a porra morna e salgada passando da boca dela para a minha, e foi um dos momentos mais estranhos e mais reais da minha vida. Limpei com os dedos o que restava no peito dela e levei também à boca.
***
Natalia se deitou na cama e chamou Xavier com os braços estendidos. Xavier foi paciente. Deitou-se ao lado dela e trabalhou o pauzinho dela com a mão por um tempo longo, atento e sem pressa, três dedos entrando e saindo enquanto o polegar estimulava o clitóris. Natalia se contorcia, arqueava as costas, e dela escapavam gemidos cada vez mais fortes. Eu já tinha me despido e entrei na cama do outro lado. Ofereci a rola à boca dela e ela aceitou sem parar de se mover contra a mão de Xavier. Ela me chupou de lado, com aquela fome nova, enquanto Xavier continuava a abri-la embaixo com os dedos.
— Chega — disse ela a Xavier, com a voz trincada, me deixando a rola livre por um momento —. Mete logo. Não aguento mais.
Xavier usou lubrificante mesmo assim, por causa do tamanho, e se acomodou entre as pernas dela. Encostou a ponta e começou a empurrar bem devagar. Natalia abriu a boca sem produzir som. Eu via de lado como a rola escura e grossa ia entrando centímetro a centímetro no pauzinho da minha mulher, como os lábios dela se esticavam ao redor, como Xavier parava quando percebia que ela tensionava o corpo, esperava e voltava a empurrar um pouco mais. Era muito. Natalia precisou de um tempo para se adaptar. Agarrou os antebraços dele com as duas mãos, as unhas cravadas, e respirava pela boca.
E quando conseguiu, quando o sentiu todo dentro, soltou um gemido de alívio e já não pedia para ele parar. Pedia mais fundo e sem abaixar a voz.
— Me come — dizia ela —. Me come forte. Me arrebenta.
Xavier começou a se mover. Primeiro com investidas longas, tirando-a quase por inteiro e voltando a afundá-la até o fundo. Depois mais rápido. A cama começou a bater contra a parede. Eu estava ao lado dela, com a rola dura contra o quadril, e ela me buscou com a boca enquanto Xavier continuava a comê-la. Nos beijamos de língua, sem parar de nos olhar, e assim ficamos os três: ela recebendo a rola de Xavier embaixo e minha língua em cima, eu com os olhos fixos no rosto dela para me certificar de que estava bem. A resposta em seu rosto não deixava margem para dúvidas. Tinha as bochechas vermelhas, a boca aberta, o olhar perdido.
Agarrar-lhe um seio com a mão e apertá-lo. Belisquei o mamilo dela. Ela guiou minha mão para baixo, entre as pernas, até onde Xavier continuava a enfiá-la. Esfreguei o clitóris dela no ritmo dele. Sentia a rola de Xavier entrando e saindo sob meus dedos, o pauzinho da minha mulher esticado ao redor, tudo encharcado.
— Vou gozar — disse ela, com os dentes cerrados —. Vou gozar de novo, não parem.
Em certo momento ela abriu os olhos e me procurou. Não para me pedir nada. Só para ter certeza de que eu ainda estava ali. Assenti com a cabeça. Ela fechou os olhos de novo e se entregou por completo. Gozou com Xavier dentro, apertando-o com o pauzinho de tal forma que ele teve de parar por um segundo e respirar fundo para não gozar naquele mesmo instante.
Pediu mais tempo. Pediu que a virassem. Xavier a colocou de quatro e agarrou os quadris dela com as duas mãos. Penetrou-a por trás novamente, ainda mais fundo naquela posição, e deu investidas duras que a faziam avançar sobre a cama. Natalia abaixou o rosto contra o colchão, com a bunda bem alta, e se oferecia a ele sem nenhuma reserva. Eu me pus diante dela e ofereci a rola outra vez. Ela a aceitou na boca sem abrir os olhos, e assim a tivemos: comida pelos dois extremos, dando por diante e por trás, um corpo entre dois homens.
Xavier mudou o ritmo para fazê-la durar. Puxou-a pelo cabelo, ergueu-lhe o rosto do colchão, fez com que ela se olhasse no espelho grande diante da cama.
— Se olha — disse ele —. Se olha como você gosta.
Natalia se olhou. Viu o rosto corado, a boca aberta, minha rola saindo e entrando entre seus lábios, a rola de Xavier atrás desaparecendo dentro dela. Tensionou os dedos nos lençóis, cerrou a mandíbula, e em algum ponto soltou um grito que foi se quebrando sozinho, como algo que transborda e é contido ao mesmo tempo. Gozou outra vez, mais longo, mais fundo, gritando dessa vez sem medo de ser ouvida.
Eu não aguentei. Gozei na boca dela com ela ainda tremendo pelo orgasmo, e ela engoliu tudo sem soltar minha rola, chupando-a até a última gota. Xavier durou alguns segundos a mais. Tirou-a no último instante e acabou nas costas e na bunda dela, longos jatos quentes que escorreram pela pele. Depois enfiou a rola nela de novo, ainda pingando, para deixar dentro as últimas gotas. Eu a sustentei. Xavier a sustentou. Os três ficamos imóveis por alguns segundos, respirando como depois de uma corrida.
***
Quando tudo terminou, nós três ficamos em silêncio na cama grande. Xavier descansou. Natalia e eu permanecemos acordados, olhando o teto, com os dedos entrelaçados no espaço entre nossos corpos.
— Tô com vergonha — disse ela em voz baixa, sem virar a cabeça.
— Por quê? — perguntei.
— Porque eu gozei de verdade. Sem reservas. E sei que você viu tudo.
— Eu sei — falei —. Por isso você não precisa ter vergonha.
Demorou a falar de novo.
— Eu tinha imaginado isso algumas vezes, sem nunca saber se podia te contar. E agora sinto que te devo alguma coisa.
— Você não me deve nada, amor.
— Você também ficou bem?
Apertei a mão dela antes de responder.
— Sim. Fazia muito tempo que eu não te via assim.
Ela ficou em silêncio por um instante. Depois se virou, encostou a cabeça no meu peito, e em algum momento nós dois dormimos sem ter apagado a luz.
***
Xavier foi embora antes do amanhecer. Vestiu-se em silêncio, juntou suas coisas, deu um beijo suave na testa de Natalia adormecida e me apertou a mão na porta.
— Cuida dela — disse ele.
— É o que faço — respondi.
Quando a porta se fechou e voltei para a cama, Natalia se mexeu sem abrir os olhos, me buscou com o braço e se aninhou contra mim. Lá fora começava a clarear.
Já faz quase um ano desde aquela noite. Natalia voltou a pintar. Não de repente: devagar, como quem retoma algo que acreditava perdido e descobre que os músculos ainda lembram como fazer. Ainda há dias difíceis. Mas também há outros dias. Dias em que a vejo cantarolar alguma coisa na cozinha enquanto prepara o café da manhã, ou sorrir sozinha diante de uma tela nova, e sei que o que aquela noite lhe devolveu não foi só prazer.
Devolveu ela a si mesma. E isso foi suficiente para mim.