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Relatos Ardientes

Me entreguei a um desconhecido e deixei de me reconhecer

Durante anos, acreditei que conhecia o meu próprio desejo. Eu gostava de homens seguros, daqueles que entram numa sala e a ocupam inteira sem levantar a voz. Não era o físico que me prendia, embora isso importasse; era a certeza com que se moviam, como se o mundo lhes devesse algo e eles tivessem decidido cobrárselo com calma. O que eu nunca admiti, nem mesmo para mim, é que essa segurança me fazia querer me render. Até que apareceu Mateo e deixou de ser fantasia.

Não foi um encontro romântico nem planejado. Trabalhávamos no mesmo prédio, em empresas diferentes e andares distintos, unidos apenas pelo elevador e pela cafeteria do saguão. Eu o vi pela primeira vez numa terça-feira qualquer, esperando com as mãos nos bolsos, olhando para o painel de números como se tivesse todo o tempo do mundo. Eu entrei atrasada, ofegante, e ele se afastou um passo para me dar espaço sem deixar de me olhar. Não disse nada. Não precisou.

Durante semanas foi isso: roçaduras, olhares que duravam um segundo a mais do que deviam, um sorriso que ele guardava para quando coincidíamos a sós. Eu chegava em casa inquieta, irritada comigo mesma por pensar num homem cujo sobrenome eu nem conhecia. Dizia a mim mesma que era bobagem, que eu tinha coisas mais importantes na cabeça. E no dia seguinte voltava a calcular a hora exata para esbarrar com ele no saguão.

O ponto de virada chegou numa quinta-feira de inverno. Uma reunião interminável me deixara vazia, com dor nas costas e vontade de não falar com ninguém. Encontrei-o na cafeteria, recolhendo o casaco. Ele me olhou, olhou o relógio e disse, sem preâmbulos:

— Você tem cara de quem precisa de alguma coisa que não seja café. Eu te pago uma bebida.

Não era uma pergunta. E talvez por isso eu tenha aceitado.

O bar ficava a duas quadras, pequeno e mal iluminado, daqueles que parecem feitos para conversas que não deveriam acontecer. Pedimos vinho. Ele falava pouco e escutava muito, com uma atenção que me desmontava mais do que qualquer elogio. Perguntou sobre meu trabalho, sobre as coisas que me cansavam, sobre o que eu fazia quando ninguém me via. E toda vez que eu tentava devolver a pergunta, ele sorria e escapava, como se a única coisa que lhe interessasse naquele momento fosse me entender.

Em algum momento, aproximou a cadeira até que nossos joelhos se roçassem sob a mesa, e deixou a mão perto da minha sem chegar a tocar. Eu sentia o calor da pele dele a um centímetro da minha e não ousava encurtar essa distância. Esperava, sem saber muito bem o quê, com o coração martelando na garganta.

— Você sempre olha assim para os homens — disse ele em voz baixa — ou esta noite eu tenho sorte?

Eu ri para esconder o calor subindo pelo meu pescoço. Não soube o que responder. Ele também não esperava resposta.

***

O primeiro beijo foi no estacionamento, sob a luz trêmula de um poste. Eu me lembro de tudo: a firmeza da boca dele, uma mão grande apoiada na minha cintura para me virar contra a parede fria, a outra segurando minha nuca como se temesse que eu fosse escapar. Ele não me deixou tomar a iniciativa nem uma única vez. Quando tentei puxar o casaco dele, ele segurou meus pulsos com suavidade e os baixou.

— Calma — murmurou contra meu ouvido —. Hoje à noite você não precisa fazer nada. Só se deixar levar.

Algo em mim, aquela parte que sempre assume as rédeas, que organiza, que decide, que não se permite fraquejar, afrouxou de repente. E o alívio foi tão grande que quase me assustou.

Subimos ao apartamento dele sem falar. Era organizado, sóbrio, com uma janela grande dando para uma avenida iluminada. Ele me despiu devagar, tirando meu casaco, a echarpe, o suéter, como se cada peça fosse só mais uma desculpa para me fazer esperar. Quando me deixou apenas de lingerie, percorreu-me com o olhar da garganta até as coxas e abriu um sorriso mínimo, de pura satisfação. Eu sentia o pulso na virilha, a umidade começando a empurrar meu centro, e me envergonhava do quanto pouco me importava que ele percebesse.

— Olha para mim — disse quando eu fechei os olhos —. Quero você aqui, comigo. Não na sua cabeça.

Obedeci. E descobri que obedecer, com ele, não me diminuía. Me libertava.

Ele se aproximou de novo, sem pressa, e me beijou com mais fome do que antes. A língua dele empurrou entre meus lábios, lenta no começo, depois mais funda, enquanto uma mão sustentava meu rosto e a outra descia pelas minhas costas até a beirada da bunda. Ele me apertou ali, firme, e soltou um som grave quando eu me arqueei contra ele. Senti a dureza do pau dele roçando em mim por baixo da roupa, grande, tenso, impossível de ignorar. Quis tocá-lo e ele me impediu outra vez, não com brusquidão, mas com aquela calma que me desmontava.

— Ainda não — disse, e a ordem me sacudiu o estômago.

Ele me levou até o quarto com a mão na nuca, guiando-me como se soubesse exatamente o quanto podia me dar sem me quebrar. A cama estava desfeita, a luz da rua entrando em faixas pela janela. Ele me empurrou suavemente para que eu me sentasse na beirada e ficou de pé à minha frente, desabotoando a camisa com uma paciência insuportável. Quando finalmente a deixou cair no chão, vi o peito dele, a linha do abdômen, o volume contido na calça, e fiquei mais molhada do que gostaria de admitir.

Ele se ajoelhou entre as minhas pernas e me abriu com as mãos, afastando meus joelhos com uma segurança que me fez tremer. Beijou primeiro minhas coxas, devagar, depois a parte interna, subindo centímetro por centímetro, até que o hálito dele tocou minha boceta por cima do tecido. Um gemido tão desesperado me escapou que me deu vergonha.

— Isso — murmurou —. Quero ouvir você assim.

Ele puxou minha calcinha num gesto curto e me deixou exposta. Senti o frio do ar na pele úmida, o coração batendo na garganta, e então a boca dele. A primeira lambida foi lenta, larga, de baixo para cima, e me fez arquear contra o rosto dele. Com os dedos, abriu os lábios da minha boceta e continuou lambendo com precisão, enfiando a língua onde eu já estava queimando, sugando o clitóris até meu corpo inteiro começar a tremer. Eu agarrei o cabelo dele, mas não para guiá-lo: para não sair flutuando.

— Não — disse ele, segurando meu pulso com a mesma calma de antes —. Deixa eu fazer.

E fez. Ele me comeu a boceta com uma paciência brutal, alternando lambidas longas com pequenos golpes de língua no ponto exato que me fazia perder o fôlego. Toda vez que eu tentava mover o quadril para buscar mais, ele me travava com as mãos nas coxas, me abrindo mais, me pregando ao colchão com aquela autoridade que me deixava louca. Quando ele enfiou dois dedos dentro de mim, grossos, firmes, encontrando logo aquele lugar profundo e macio, eu quase gritei. Ele os moveu devagar no começo, depois mais rápido, enquanto a boca continuava castigando meu clitóris, e o prazer subiu por mim como uma onda suja, inevitável.

— Olha para mim quando você gozar — ordenou.

Eu obedeci. Olhei para ele entre minhas pernas, com a boca brilhando de mim, e gozei com um tremor violento, gemendo o nome dele como se ele estivesse sendo arrancado de mim. Ele não se afastou até meu corpo parar de se contrair. Depois limpou a boca com o polegar e subiu para me beijar, fazendo eu provar a mim mesma, salgada e quente.

***

A submissão nunca tinha feito parte de mim. No trabalho, eu dava ordens, resolvia crises, não deixava ninguém me ver duvidar. Por isso o que aconteceu com Mateo me deixou tão desconcertada. Bastava ele dizer «vem» num tom decidido para que algo no meu peito se rendesse antes mesmo que minha cabeça pudesse protestar. Não era fraqueza. Era confiança, um descanso de ter que sustentar tudo o tempo todo.

As instruções dele eram simples e precisas. Onde pôr as mãos. Quando olhá-lo. Quando parar de pensar. E entre uma e outra, uma paciência que me deixava maluca: a pressão dos polegares nas minhas ancas, o ritmo medido com que me preparava, o jeito como abria meu corpo sem pressa, me esticando com os dedos até eu estar encharcada e tremendo, pronta para ele. «Você é minha», ele dizia sem levantar a voz, e nesses instantes eu não queria discutir isso.

Quando ele se livrou da calça, o pau saltou duro e pesado contra o ventre. Era maior do que eu tinha imaginado, largo na base, rosado na ponta, brilhando de tesão. Ele segurou meu rosto com uma mão enquanto se posicionava entre minhas pernas, e me penetrou devagar, empurrando com uma pressão tão firme que me deixou sem ar. Entrou centímetro por centímetro, me abrindo, me preenchendo, até eu sentir que ele me atravessava por inteiro. Fiquei imóvel, arfando, com os dedos enterrados nos lençóis.

— Olha para mim — repetiu —. Quero ver você quando me sentir dentro.

Obedeci. E quando ele começou a se mover, entendi por que me tinha levado tão longe antes: porque a pancada do pau dele dentro de mim merecia aquela fome. No começo ele deslizou devagar, saindo quase por completo e voltando a entrar com um empurrão profundo que me fazia ver manchas de luz. Depois encontrou um ritmo mais duro, mais escuro, o som molhado dos nossos corpos enchendo o quarto. Cada estocada arrancava um gemido diferente de mim. Os quadris dele batiam contra os meus, as mãos me seguravam por baixo dos joelhos para me abrir melhor, e eu sentia como ele me desmontava aos poucos, como me deixava vazia e cheia ao mesmo tempo.

— Mais forte — eu pedi, com a voz quebrada, surpresa por me ouvir assim.

Ele sorriu de leve, como se fosse exatamente isso que esperava ouvir. Mudou o ângulo, levantou um pouco minhas ancas com as mãos e começou a me foder mais fundo, mais seco, acertando aquele ponto que me fazia chorar de prazer. O colchão rangia sob nós. A janela devolvia a silhueta das costas dele, a tensão dos braços, o jeito como ele me olhava sempre que parava um segundo para me ver perder a compostura. Ele nunca ultrapassava uma linha sem antes conferir que eu estava do lado dele. Até mesmo dentro dessa brutalidade controlada havia uma atenção constante que me mantinha segura.

Ele me virou sem se afastar por completo e me pôs de joelhos, obrigando-me a me sustentar nos antebraços enquanto me penetrava por trás. Senti o pau entrando ainda mais fundo daquele ângulo, mais áspero, mais animal. Ele agarrou minha cintura e me fodeu com golpes curtos, exatos, até minha bunda bater nele com um som molhado e repetido. Eu estava completamente perdida, o cabelo grudado no rosto, a boceta pulsando em volta dele, e ainda assim sentia que cada ordem dele organizava o mundo inteiro.

— Assim, caralho — disse, apertando minha cintura —. Assim que eu gosto de você.

Eu não conseguia falar. Só respirar entrecortado, gemer, pedir mais com o corpo. E ele me deu. Me levou até a beira de novo, apoiando dois dedos no meu clitóris enquanto continuava entrando e saindo com aquele pau que parecia feito para me encontrar por dentro. Quando gozei, foi mais forte que antes: uma contração quente, úmida, que me dobrou os braços e me deixou chorando contra os lençóis. Senti tudo se desfazendo na pelve, no ventre, na garganta.

Ele não parou. Manteve o ritmo até a própria respiração se quebrar. Então saiu só um pouco, se agarrou com força e gozou sobre minhas costas com um rosnado baixo, quente, despejando fios espessos de sêmen sobre minha pele. Ficou imóvel por um instante, tremendo, apoiado em mim, e depois beijou meu ombro com uma ternura que me deixou sem defesa.

***

O difícil nunca foi o que acontecia no apartamento dele. Foi tudo o resto. Minhas amigas, que o conheceram num jantar e acharam ele «intenso demais». Minha irmã, que me perguntou se eu tinha certeza num tom que já continha a resposta. As pessoas que opinam sobre relações que não entendem, que confundem entrega com perda, que acham que ceder é sempre perder.

— O problema é deles, não nosso — dizia Mateo quando eu voltava para casa carregada de comentários alheios. E me envolvia nos braços como quem ergue um muro ao redor de algo frágil.

Na intimidade, nossos costumes se tornaram uma língua própria. Ele mordia meu ombro, de leve, para me lembrar de que aquilo era real e não um sonho do qual eu acordaria sozinha. Eu cravava as unhas nas costas dele para deixar uma marca, uma prova de que ele também era meu, ainda que as regras dentro daquele quarto fossem ditadas por ele. Havia uma justiça secreta nessa divisão que ninguém de fora compreenderia.

Não quero pintar um conto perfeito, porque não foi. Houve discussões que deixam ecos por dias. Houve noites em que minhas próprias inseguranças me faziam arrumar briga só para confirmar que ele continuava ali. Houve o peso de ser «esse casal» sobre o qual todo mundo tem uma opinião. As cicatrizes existem, e eu não as escondo.

Mas houve, acima de tudo, uma verdade que demorei a nomear. Com Mateo, entendi que o desejo não é só o que o corpo pede. É o que a gente se atreve a soltar. Passei a vida controlando tudo, convencida de que afrouxar seria me expor. Ele me ensinou, sem sermões, que se render à pessoa certa não é desaparecer: é aparecer, enfim, inteira.

***

Já se passaram alguns anos. Continuamos juntos, com menos vinho em bares escuros e mais rotina compartilhada, mas a corrente não se apagou. Às vezes, no meio da noite, as mãos dele me encontram no escuro e tudo volta: a mesma certeza, a mesma ordem sussurrada, o mesmo descanso de não precisar decidir nada por um tempo.

Quando ele me pede em voz baixa que eu me deixe levar, que confie, que não pense, eu já não resisto. Não é obediência cega; é escolha, uma que eu repito cada vez com mais vontade. Ele deixou de ser o desconhecido do elevador há muito tempo. E eu deixei de ser aquela mulher que confundia dureza com força.

Talvez por isso eu esteja contando isso agora. Porque, durante anos, achei que me conhecer profundamente significava nunca perder o controle. E acabou sendo justamente o contrário: a única maneira de saber de verdade quem eu era foi deixar, numa única noite, que outro fizesse isso por mim.

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