Meu marido nunca soube o que acontecia todas as manhãs
Não escrevo isto para me gabar nem para me justificar. Escrevo porque preciso tirar isso de dentro de mim, e porque sei que existem outras mulheres que estão onde eu estive e que entenderão cada palavra sem que eu precise explicá-la. Fui casada durante nove anos. Durante quase um deles tive um amante, e meu marido nunca soube. Esta é a minha confissão.
Meu nome é Carla, embora esse não seja meu nome verdadeiro, assim como nenhum dos nomes que aparecerem aqui será. Quando conheci Damián, eu não estava procurando nada. Essa é a primeira coisa que quero deixar clara, porque parece uma desculpa, mas é a verdade. Eu não estava em nenhum daqueles aplicativos, não tinha prometido a mim mesma uma aventura, não passava meses fantasiando em trair Rodrigo. Simplesmente, numa terça-feira qualquer, entrei numa cafeteria perto do meu trabalho e ele estava ali, lendo, com aquela calma de homem que não tem medo do silêncio.
Começamos a conversar por uma bobagem, um comentário sobre o livro que ele tinha aberto. Conversamos durante vinte minutos. Quando me levantei para ir embora, já sabia que voltaria no dia seguinte, e que ele também sabia. Não houve nada físico naquela primeira vez. Apenas uma corrente, aquela coisa que não se pode fingir nem provocar à vontade. Eu a reconheci porque fazia anos que não a sentia.
***
Levamos três semanas para transar. Três semanas de cafés no meio da manhã, de mensagens que eu apagava assim que lia, de reuniões que eu inventava e não existiam. Eu trabalhava por conta própria, controlava meus horários, tinha meu próprio carro e minha própria conta bancária. Olhando friamente, eu era a pessoa mais fácil do mundo para esconder alguma coisa. Uma mulher independente pode desaparecer por duas horas sem que ninguém lhe peça explicações, e eu aprendi a usar essa liberdade como uma arma.
A primeira vez foi no apartamento dele, numa segunda-feira, às onze da manhã. Lembro-me de tudo com uma nitidez que quase dói. A luz entrava de lado por uma janela sem cortinas. Ele não tinha pressa, e isso me desarmou mais do que qualquer coisa. Beijou-me devagar, primeiro o pescoço, depois a boca, como se tivéssemos o dia inteiro, como se lá fora não me esperasse uma vida com outro homem.
—Você não precisa fazer nada que não queira —disse ele contra o meu ouvido.
Eu queria tudo. Esse era exatamente o problema.
Ele tirou minha roupa com uma paciência que eu não conhecia. Rodrigo e eu, nos últimos anos, tínhamos reduzido o sexo a uma rotina de domingo à noite, eficiente e silenciosa, três minutos de fricção e cama. Damián me olhava como se descobrir meu corpo fosse uma tarefa que pretendia levar a sério. Desabotoou minha blusa botão por botão, sem parar de me olhar nos olhos, e, quando a abriu, segurou-me por um segundo daquele jeito, exposta, para me ver bem. Baixou meu sutiã e chupou meus mamilos um depois do outro, demoradamente, mordendo de leve, até que ficaram tão duros que doíam. Deixava-os molhados e soprava sobre eles, e eu sentia cada sopro descer pela coluna e cravar-se entre minhas pernas.
—Você está tremendo —disse ele, rindo baixinho contra o meu peito.
—Faz muito tempo que ninguém me toca assim.
Ele me ajoelhou junto à beirada da cama e terminou de me despir, a saia, a calcinha, tudo jogado no chão sem cerimônia. Abriu minhas pernas com as duas mãos e ficou olhando minha boceta por um longo tempo, sem me tocar, e aquele simples olhar fez com que eu me contraísse sozinha. Depois baixou o rosto e começou a me lamber devagar, de baixo para cima, esmagando a língua inteira contra mim, procurando meu clitóris com a ponta e ficando ali, chupando-o suavemente, depois com mais força, enquanto enfiava dois dedos em mim e os curvava lá dentro contra um ponto que eu nem sabia que existia. Agarrei a colcha com as duas mãos, arqueei as costas e gozei na boca dele sem avisar, apertando-lhe a cabeça entre as coxas, mordendo meu antebraço para não gritar. Ele não parou. Lambeu-me até eu deixar de tremer e ainda continuou mais um pouco, com a barba molhada, até que precisei empurrá-lo pela testa porque não aguentava mais.
—Vem aqui —eu disse, puxando-o pelo braço.
Eu mesma desabotoei o cinto dele, com as mãos desajeitadas, e baixei sua calça e sua cueca de uma só vez. O pau dele se ergueu diante do meu rosto, duro, grosso, com uma gota transparente na ponta que limpei com a língua. Segurei-o com a mão e coloquei-o na boca aos poucos, primeiro a cabeça, chupando-a com os lábios apertados, depois mais para dentro, tudo o que cabia, sentindo-o pesar sobre minha língua. Chupei-o olhando para ele de baixo, tirando-o para lamber suas bolas, encostando-o no rosto, cuspindo nele para deixá-lo bem brilhante, voltando a chupá-lo. Damián segurou meu cabelo, não para me forçar, mas para me acompanhar, e começou a se mover também, enfiando-o mais fundo, até meus olhos se encherem de lágrimas e ele o tirasse, deixando-o descansar contra minha bochecha.
—Vou te comer —disse ele, rouco.
—Me come.
Ele me subiu na cama de costas e se acomodou por cima. Abriu minhas pernas e enfiou o pau inteiro de uma só vez, até o fundo, e senti que ele se acomodava dentro de mim como se aquele buraco estivesse esperando por ele desde sempre. Fiquei imóvel por um segundo, de olhos fechados, assimilando o tamanho, a maneira como me preenchia. Depois ele começou a se mexer, primeiro devagar, cada investida longa, tirando-o quase inteiro e voltando a enfiá-lo até o fundo, e eu o sentia bater num lugar dentro de mim que Rodrigo nunca tinha tocado. Prendi as pernas nas costas dele para tê-lo ainda mais fundo.
—Assim —eu disse—, assim, não para.
Ele acelerou. Agora me penetrava com força, a cama batendo contra a parede, meus peitos balançando a cada estocada. Chupava meu pescoço, mordia meu ombro, sussurrava coisas que eu jamais tinha ouvido alguém me dizer.
—Como você é apertada, porra, que boceta gostosa você tem.
—Mais forte —pedi, surpresa com a própria voz.
Ele me virou. Colocou-me de bruços, levantou minha bunda com as duas mãos e voltou a enfiá-lo por trás, segurando-me pela cintura, fodendo-me num ritmo animal que me sacudia inteira. Eu enterrava o rosto no travesseiro e gemia sem me controlar, esquecida de tudo, de Rodrigo, da hora, da janela sem cortinas pela qual qualquer pessoa poderia me ver. Ele enfiou o polegar na minha boca e eu o chupei, depois o deslizou pelas minhas costas e o encostou no outro buraco, pressionando de leve, sem enfiá-lo, e aquela pressão a mais me fez gozar pela segunda vez, apertando-o dentro de mim com espasmos que arrancaram um gemido dele também.
—Vou gozar —avisou-me.
—Dentro, não.
Ele o tirou a tempo, virou-me outra vez e gozou sobre mim, jatos grossos e quentes caindo na minha barriga, entre meus peitos; um deles chegou até minha boca, e eu estendi a língua sem pensar. Ele ficou sobre mim, ofegante, com a testa contra a minha, e permanecemos assim por um longo tempo, em silêncio, até minha respiração normalizar. Quando finalmente o senti sair de dentro de mim, mordi o lábio para não dizer algo de que depois me arrependeria.
Não me arrependi de nada naquelas duas horas. O arrependimento, se vinha, sempre vinha depois, enquanto eu dirigia de volta para casa com o cheiro dele ainda na minha pele.
***
E é justamente aí que está a parte que ninguém conta. A aventura não é só prazer. É a logística do prazer, a engenharia minuciosa de não deixar rastros. Tornei-me especialista em coisas que jamais imaginei que teria de aprender.
Aprendi que o corpo guarda memória do que fez. Depois de ficar com Damián, eu sempre tomava banho antes de voltar, lavava minha boceta duas vezes com sabonete para tirar o cheiro de sêmen e saliva alheios, passava meu perfume de sempre, aquele que Rodrigo tinha me dado, para que o aroma que ele associava a mim fosse o único que encontrasse. Aprendi a examinar meu pescoço e meus peitos diante do espelho do banheiro do hotel, procurando marcas que teria de explicar, chupões, hematomas de dedos apertados. Aprendi a evitar meu marido na cama nos dias em que vinha de ver meu amante, porque uma mulher que acabou de ser fodida de outra maneira se denuncia sem querer, no jeito como se mexe, no que pede e no que já não precisa.
Eu tinha dois telefones. O meu, o de sempre, e um pré-pago barato que guardava num compartimento do carro que Rodrigo nunca abria. Com Damián, eu falava apenas por aquele. Uma conta de e-mail em nome de uma mulher que não existia. Nunca, jamais, mandei uma mensagem do meu número verdadeiro. Nunca paguei um café ou um hotel com cartão. Sacava dinheiro do caixa eletrônico nas manhãs de segunda-feira, uma quantia fixa, o suficiente para não chamar atenção e também para não deixar rastros.
Assim escrito, parece frio, como um manual. Mas a verdade é que aquela disciplina fazia parte do jogo. Cada precaução me lembrava o que eu estava arriscando, e aquilo que eu arriscava dava preço ao prazer. Nunca na vida me senti tão desperta quanto naqueles meses. Eu vivia em alerta, e o alerta me fazia sentir viva de uma maneira que a segurança do meu casamento havia roubado de mim sem que eu percebesse.
***
As regras que impus a mim mesma eram simples, e nunca as quebrei. Encontros de manhã, jamais à noite; as noites eram de Rodrigo, e à noite um marido tem tempo de notar uma ausência, de ligar, de perguntar. Nunca na minha casa, nunca na dele se ele morasse com alguém, nunca num lugar onde um conhecido pudesse cruzar comigo. O hotel nos arredores tornou-se nosso território, anônimo e perfeito, com um estacionamento coberto onde o carro desaparecia da rua.
—Você é a pessoa mais organizada que conheci para algo tão desorganizado —Damián me disse certa vez, rindo, enquanto eu me vestia de costas para ele junto à janela.
—É a única maneira de fazer isto durar —respondi.
E ele ficou calado, porque nós dois sabíamos que “fazer isto durar” era uma contradição. Uma aventura não é feita para durar. É feita para arder depressa e deixar uma marca, e a minha ardia mais a cada semana.
O que mais me custou administrar não foi a culpa, embora ela existisse. Foi a dupla contabilidade emocional. Eu voltava para casa e Rodrigo perguntava como tinha sido meu dia, e eu respondia com um sorriso que era verdadeiro, porque meu dia tinha sido extraordinário, só que por razões que ele jamais poderia imaginar. Eu o abraçava no sofá diante da televisão e o amava de verdade, com uma ternura antiga e confortável, enquanto pensava em outras mãos, outro pau, outra boca que talvez, naquela mesma hora, estivesse pensando em mim. Aprendi que o coração não funciona em turnos nem respeita a lógica que exigimos dele. Cabe mais coisa nele do que imaginamos, e é isso que o torna perigoso.
***
Houve uma manhã em que quase me descobriram, e até hoje meu estômago se fecha quando me lembro dela. Rodrigo tinha esquecido a carteira e voltou para casa no meio da manhã, num dia em que deveria estar acreditando que eu estava numa reunião. Ele me ligou no telefone verdadeiro. Eu estava no carro, no estacionamento do hotel, com Damián ainda despenteando meu cabelo do banco do passageiro e o sêmen dele escorrendo entre minhas coxas, mal contido pela calcinha que eu havia vestido às pressas.
Fiz um gesto para que ele ficasse quieto. Respirei fundo. Atendi com a voz mais tranquila que consegui fabricar.
—Oi, amor. Aconteceu alguma coisa?
Ele perguntou onde eu estava. Eu disse o nome de um café no centro, um que ele conhecia bem, com detalhes, descrevendo um barulho que não existia. Falei por dois minutos. Disse que o amava e desliguei. Quando baixei o telefone, minhas mãos tremiam, e Damián me olhava sério, sem o sorriso de sempre.
—Vale a pena? —perguntou.
Não respondi. Mas naquela tarde, dirigindo para casa, soube que a resposta continuava sendo sim, e foi isso que realmente me assustou. Não o risco de ser pega. O que me assustou foi perceber até onde eu estava disposta a ir para não perder o que sentia com ele.
***
Fui eu que terminei, quase um ano depois. Não porque tivesse deixado de desejá-lo, mas justamente pelo contrário. Damián começou a pedir mais. Uma ligação a mais à noite, uma tarde inteira, um fim de semana, o que era impossível. A aventura havia cumprido sua função e começava a querer se transformar em outra coisa, e essa outra coisa teria destruído minha vida inteira.
O último encontro foi como o primeiro: numa segunda-feira, às onze, com a luz entrando de lado. Dessa vez não havia pressa alguma, nem vontade de conversar. Nós nos despimos devagar, olhando um para o outro, sabendo ambos o que aquilo significava. Ele me deitou de costas e beijou meu corpo inteiro, da boca aos pés, sem pular um centímetro, demorando-se em cada lugar como se o estivesse guardando. Chupou meus peitos demoradamente, mordendo de leve, depois lambeu meu umbigo, depois desceu e me abriu com a língua outra vez, aquela língua de que eu sentiria mais saudade do que de qualquer coisa. Fez-me gozar assim, com a boca, segurando minhas mãos acima da cabeça como se tivesse medo de que eu escapasse.
Quando finalmente subiu e enfiou o pau em mim, fez isso olhando nos meus olhos, sem fechá-los nem por um segundo. Movia-se dentro de mim devagar, muito devagar, percorrendo todo o comprimento, parando no fundo, saindo só um pouco. Segurei o rosto dele com as duas mãos. Passei os polegares pelas maçãs do rosto. Ficamos transando assim, sem pressa, talvez durante meia hora, com as respirações entrelaçadas, sem dizer nada, até eu sentir que outro orgasmo vinha de muito longe, um orgasmo lento, profundo, diferente de todos os anteriores. Gozei chorando, sem soluçar, com as lágrimas escorrendo de lado até o travesseiro, e ele gozou dentro de mim pela primeira e última vez, porque nós dois sabíamos que já não importava, que não haveria um depois para proteger.
Depois fiquei um tempo com a cabeça no peito dele, ouvindo seu coração, memorizando-o para os anos em que só me restaria a lembrança.
—Cuide-se —eu disse na porta.
—Você também, Carla.
Nunca mais conversamos. Apaguei o telefone pré-pago, fechei a conta de e-mail da mulher que não existia e voltei a ser apenas a esposa de Rodrigo. Ele nunca soube de nada. Continua sem saber.
***
Não sei se o que fiz foi certo. Sei que não recomendo, assim como não se recomenda saltar de um avião: o problema não é a queda, que é o mais parecido com voar que você vai sentir na vida, mas o chão que espera lá embaixo. Eu tive a sorte de abrir o paraquedas a tempo.
Mas estaria mentindo se dissesse que me arrependo completamente. Durante um ano fui duas mulheres, e a segunda, aquela que esperava a segunda-feira com o coração batendo forte no peito e a boceta já molhada antes de chegar, ensinou-me coisas sobre mim mesma que a primeira jamais teria se atrevido a descobrir. Essa mulher ainda vive em algum lugar, calada, esperando. Em algumas manhãs de segunda-feira, quando passo perto daquela cafeteria, juro que a sinto despertar.
E é por isso que escrevo isto. Não para que me julguem. Apenas para que ela exista em algum lugar além da minha memória, ainda que seja nestas linhas que ninguém saberá que são minhas.



