Minha confissão: nunca pedi desculpas por desejar assim
Meu nome é Mariela e vou contar tudo isso sem pedir permissão nem desculpas. Tenho quase quarenta anos, pele clara, olhos verdes e um corpo que cuido com a disciplina de quem sabe exatamente o que tem. Ando pela rua e sinto os olhares grudando em mim como mãos. Eu gosto. Sempre gostei. Visto-me para que olhem para mim, para que desejem o que não vão ter e, às vezes, para que tenham, sim.
Não sei quantos homens passaram pela minha cama. Cheguei a contar, anos atrás, e parei quando entendi que o número não significava nada. Eram tantos que muitos não têm nome na minha memória, nem rosto. Cruzo com eles na rua e não os reconheço. Algum se aproxima, sorri, diz que numa noite de anos atrás terminamos juntos, e eu aceno com cortesia enquanto tento identificá-lo sem sucesso. Não é desprezo. É que foram homens demais, e cada um foi uma noite, não uma história.
Só amei um de verdade. Andrés. Amei-o tanto que, por algum tempo, achei que poderia ser outro tipo de mulher, uma dessas que se contentam com uma única boca. Durou até ele encontrar um vídeo no meu celular em que eu não estava com ele. Não houve gritos. Ele apenas me olhou como se eu o tivesse partido por dentro, deixou as chaves sobre a mesa e foi embora. Desde então, não quis voltar a dar a ninguém o poder de me olhar daquele jeito. Tenho amantes, não namorados. É mais limpo. Ninguém espera de mim algo que não pretendo dar.
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Minha mãe foi a primeira a me ensinar quanto eu valia. Não com discursos: pelo exemplo. Lembro-me dela diante do espelho, pintando os lábios devagar, explicando que uma mulher bonita que sabe o que quer não precisa prestar contas a ninguém. Levou-me ao médico quando eu tinha idade suficiente, garantiu que eu estivesse protegida, ensinou-me a me maquiar, a escolher roupas que insinuam sem gritar. No começo, foi difícil para ela me ver assim. Uma coisa era ela, outra era a filha repetindo o padrão.
Ela aceitou na manhã em que desceu cedo e me encontrou na cozinha com um homem que não conhecia, os dois meio vestidos, rindo como cúmplices. Ficou um segundo parada na soleira, suspirou e pôs a cafeteira para funcionar. Essa foi toda a conversa. A partir dali, paramos de fingir.
Minha mãe teve mais amantes do que qualquer pessoa poderia imaginar e ainda tem, embora já tenha passado dos sessenta. Conheci alguns porque passaram primeiro pela vida dela e depois pela minha. Nunca houve nada estranho entre nós: ela vivia o desejo dela, eu vivia o meu e, às vezes, esses desejos coincidiam no mesmo homem, em noites diferentes. Minha prima Renata completou minha educação. Com ela, aprendi a ler os homens em trinta segundos, a saber quais serviam e quais não valiam o esforço de tirar a roupa.
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Na adolescência, eu guardava revistas que não devia ter, escondidas onde ninguém procurava. Folheava-as sozinha e me imaginava no lugar das mulheres das fotos, não observando-as: sendo elas. Essa foi a semente. Muito antes de tocar em alguém, eu já sabia que meu corpo era uma pergunta que queria que muitos respondessem.
Lembro-me de uma das minhas primeiras conquistas adultas com uma nitidez que me surpreende, porque esqueci tantas outras. Foi num casamento a que cheguei sozinha, usando um vestido vermelho que minha mãe teria aprovado. Vi-o do outro lado do salão, um homem alto que segurava uma taça sem beber, olhando para mim com aquela mistura de fome e medo que conheço tão bem. Não fiz nada. Apenas deixei a noite avançar, que ele criasse coragem, que a música e o vinho fizessem o trabalho por mim.
Ele me tirou para dançar depois da meia-noite. Dançamos colados, a mão dele subindo pelas minhas costas centímetro a centímetro, verificando até onde podia chegar. Deixei-o chegar. A palma apertou minha cintura com firmeza, e percebi como a respiração dele ficava pesada, como a taça tremia na outra mão antes de ele deixá-la sobre uma mesa. Roçou o quadril na minha virilha enquanto a música nos empurrava, e sorri para ele sem me afastar, sentindo meu próprio calor crescer entre as pernas. Quando sussurrou no meu ouvido que tinha reservado um quarto, respondi que esperasse cinco minutos para subir, para que ninguém nos visse saindo juntos. Não por vergonha: pelo prazer do segredo, pela eletricidade de atravessar o saguão sabendo o que aconteceria lá em cima enquanto os outros continuavam brindando lá embaixo.
Naquela noite, aprendi algo que sempre me acompanhou: o desejo mais intenso não está no corpo, está na espera. Nos minutos entre a decisão e o ato. No elevador subindo sozinho, no corredor na penumbra, no segundo antes de a porta se abrir. Depois, tudo é consequência. O que é bom, o que realmente me excita, é o fio da antecipação.
Quando entrei no quarto, ele já estava com a camisa desabotoada e os olhos cravados em mim, como se tivesse medo de se desmontar. Trancou a porta e ficou parado, respirando fundo. Tirei o vestido devagar, sem pressa, deixando que ele olhasse. Seu corpo estava duro, jovem, com o volume marcando o tecido da calça. Pedi que se aproximasse, e ele veio como um animal domado à força. Beijou primeiro meu pescoço, depois minha boca, com uma fome desajeitada e mãos inseguras que logo deixaram de sê-lo. Uma das mãos subiu pelas minhas costas até o fecho do sutiã; a outra apertou um dos meus seios com tanta ansiedade que um gemido lhe escapou quando enfiei os dedos no cabelo dele.
Baixei a calça dele até os joelhos, e a ereção saltou livre, grossa, quente, pulsando por mim. Segurei-a com a mão e bati uma punheta lenta, sentindo a pele tensa, o prepúcio úmido, a cabeça dura roçando na minha palma. As pernas dele amoleceram. “Você gosta?”, perguntei, e ele disse que sim, com a voz quebrada, enquanto eu fazia com que chupasse um dos meus mamilos e levava dois dedos à boca para umedecê-los. Depois, ele me acomodou na cama com uma urgência quase desesperada, abriu minhas pernas e enfiou o rosto entre minhas coxas. Lambendo minha boceta com uma precisão voraz, com a língua longa, firme, direta, até que arqueei o corpo e segurei a cabeça dele para que não se afastasse. Chupou meu clitóris até me deixar tremendo e, quando enfiou um, depois dois dedos dentro de mim, senti como me abria devagar, como me preenchia com movimentos que me arrancavam pequenos espasmos da barriga.
Eu já estava encharcada quando afastei o rosto dele e o fiz subir. Mordi sua boca, puxei o cinto e enfiei o pau dentro de mim com a mão, guiando-o até a ponta da pica me abrir por completo. Entrou devagar no começo, quente, duro, roçando cada dobra, e depois mais fundo, até que o tive enterrado em mim e ficamos imóveis por um segundo, os dois ofegantes, ele me olhando como se não soubesse se eu ia devorá-lo ou rir dele. Apertei a bunda dele com as pernas e comecei a me mexer em cima, ditando o ritmo, minha pélvis subindo e descendo sobre aquela carne pulsante, sentindo o choque úmido e profundo, cada estocada batendo no fundo da minha boceta e fazendo-me ver luzes.
Depois, virei-o. Coloquei-o de costas e sentei em cima dele, com o cabelo caindo sobre o rosto. Pedi que me olhasse e dei-lhe aquilo devagar, fazendo o pau entrar e sair num vaivém perfeito, cravando as unhas no peito dele, obrigando-o a ficar quieto enquanto eu mandava. Ele segurava meus quadris com as duas mãos, cada vez com mais força, e gozava por cima de mim com aquelas ancas tensas de garoto que quer aguentar, mas não consegue. Chupei o pescoço dele até deixar marcas e depois sussurrei que me comesse direito, que não fosse delicado, que quebrasse meu ritmo. Então começou a meter de verdade: seco, profundo, sem piedade. O colchão rangia, a cabeceira batia na parede e eu me sentia aberta, cheia, usada da melhor maneira possível.
Ele me virou outra vez, colocou-me de bruços, levantou meus quadris e entrou por trás sem perder tempo. O ar ficou preso na minha garganta quando a ponta do pau me abriu o cu e começou a entrar e sair com uma força que me fazia ranger os dentes. Segurava minha cintura, enterrando os dedos na minha pele, e cada estocada sacudia meu corpo inteiro, fazendo-me quicar sobre o colchão. Enfiou uma mão entre minhas pernas para esfregar meu clitóris enquanto me comia por trás, e aquilo foi demais: gozei com um grito abafado, convulsionando ao redor dele, molhando tudo, sentindo as pernas bambas e a cabeça vazia. Ele continuou, ainda mais forte, até que o ouvi gemer como se estivesse se partindo.
Pedi que tirasse a camisinha só no final, quando já estava perto do limite. Ele me olhou como se não pudesse acreditar no que eu dizia, e repeti que não me fizesse perder tempo. Afastou-se o suficiente, terminou com a mão e vi o rosto dele mudar pouco antes de gozar: a mandíbula tensa, o peito subindo e descendo, a porra saindo quente dentro do preservativo que ele deixara sobre a mesa. Ficou acabado, suado, sorrindo como um idiota satisfeito. Fiquei olhando para ele por um segundo, ainda tremendo por dentro, e depois fui ao banheiro me limpar com água morna, sabendo que lá embaixo continuavam brindando e que ninguém imaginava a deliciosa bagunça que tínhamos feito entre aquelas paredes.
Sonhei em me dedicar àquilo profissionalmente. Hoje penso nisso e digo a mim mesma que, se tivesse dez anos a menos, não hesitaria: câmera, perfil, tudo. Cheguei tarde àquela festa, mas não à outra, à verdadeira, a de carne, suor e madrugadas.
Tenho regras, isso sim. As pessoas acham que uma mulher como eu não tem limites, e estão enganadas. Exijo proteção sempre, sem exceções, não importa quanto insistam nem o quanto me agradem. Faço exames com uma regularidade que surpreenderia mais de uma santa. Meu prazer não está em conflito com a minha saúde. Pelo contrário: cuidar de mim faz parte de poder continuar.
Gosto de homens grandes, dos que ocupam espaço quando entram numa sala. Quando era jovem, sentia atração pelos mais velhos, pela segurança que os anos proporcionam. Agora me inclino pelos mais jovens, pela energia que não se cansa. Gosto de me ajoelhar, gosto do peso de um corpo sobre o meu, gosto do calor quando termina. Quase nunca repito com o mesmo homem. Há algo na primeira vez com um desconhecido, em não saber o que vou encontrar, que nenhuma segunda vez iguala. Cada corpo novo é um território sem mapa, e eu sou do tipo que prefere se perder.
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Quando gosto de alguém, não disfarço. Sustento o olhar por um segundo a mais do que seria correto, pisso, deixo que o sorriso diga o que as palavras calam. Desde muito jovem, aprendi essa linguagem silenciosa: uma mão que demora na minha cintura numa pista de dança, um roçar que não é acidental, e eu já sei que naquela noite não volto sozinha. Gosto de me sentir desejada. Não é vaidade. É combustível.
Com minha mãe, em outra época, saíamos juntas para caçar. Nós duas nos arrumávamos, olhávamos uma para a outra no espelho, aprovando-nos, e íamos a algum bar escolher. Perguntavam se éramos irmãs, e achávamos divertido ver a cara que faziam quando esclarecíamos o parentesco. Caçávamos como uma equipe: ela distraía, eu finalizava, ou vice-versa. Voltávamos cada uma por seu lado, ao amanhecer, e no dia seguinte contávamos uma à outra apenas o necessário, entre risadas e café.
Pelo caminho, conheci muitas mulheres iguais a mim, mulheres que desfrutam sem pedir desculpas. Em certos lugares, vi casais que compartilham, homens que ficam excitados vendo a mulher com outro, gente que transformou o desejo num jogo aberto em vez de um segredo vergonhoso. Aprendi que somos mais numerosas do que o mundo admite. Só que a maioria se cala, e há muito tempo decidi que não me calaria.
Quantas vezes me chamaram de tudo por fazer exatamente a mesma coisa que é celebrada num homem?
Perdi a conta dos insultos assim como perdi a conta dos amantes. Vadia, fácil, perdida. Foram mulheres invejosas e homens que não conseguiram acompanhar meu ritmo que me chamaram assim. Aprendi a carregá-los como quem usa um perfume forte: que incomode quem tiver de incomodar. Porque a verdade incômoda é esta: não estou quebrada, não estou procurando alguém que me conserte, não escondo um trauma debaixo dos lençóis. Simplesmente gosto. Gosto tanto que organizei minha vida inteira em torno desse prazer e dormi todas as noites em paz.
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Não vou fingir que tudo foi perfeito. Perder Andrés doeu de verdade, e houve madrugadas em que uma cama cheia pareceu mais vazia do que qualquer solidão. Mas, toda vez que pensei em mudar, em me domesticar, em ser a mulher comportada que os outros queriam, algo dentro de mim se rebelava. Não nasci para uma única boca, nem para fingir um recato que não sinto. Tentei uma vez. Não funcionou. E escolhi não me trair novamente.
Hoje me olho no espelho, com os anos marcando meu rosto apenas de leve, e vejo uma mulher que sabe quem é. Sei o que quero antes de atravessar a porta de um bar. Sei que olhar procurar, que homem seguir, que noite me espera. Não devo explicações a ninguém e isso, depois de tanto tempo, é a verdadeira liberdade.
Sei que um dia o corpo me pedirá calma. Que chegará a noite em que vou preferir ficar em casa. Quando esse dia chegar, não vou chorar pelo que deixei para trás, porque não deixei nada sem experimentar. Enquanto isso, continuo desejando, continuo escolhendo, continuo saindo em busca do que me faz sentir viva.
Esta é a minha confissão, sem maquiagem e sem arrependimento. Fui assim, sou assim e serei assim até o corpo aguentar. Se alguém ler isto em busca de um escândalo, sinto muito. A única coisa escandalosa aqui é uma mulher se atrever a dizer, em voz alta e sem tremer, que o desejo lhe pertence.