Minha confissão: o que aconteceu na fileira de trás
Há coisas que uma nunca conta em voz alta, nem mesmo para as amigas mais próximas. Esta é uma delas, e eu a escrevo agora porque acho que já passou tempo suficiente para confessá-la sem morrer de vergonha. Meu nome é Camila, e aquilo aconteceu quando eu ainda estava na universidade, naquela fase em que eu descobria o desejo de verdade, os jogos, a urgência de um corpo que mal começava a conhecer o seu.
Eu estava saindo com Mateo havia uns meses. Era aquela fase do namoro em que tudo pega fogo: nos beijávamos em qualquer canto, buscávamos as mãos um do outro por baixo das mesas, contávamos as horas que faltavam para ficar sozinhos. Qualquer desculpa servia para nos tocarmos, e nós dois sabíamos disso.
Aquela tarde decidimos ir ao cinema. Não lembro qual filme fomos assistir, e por um bom motivo: não vi nem um único minuto dele. Era uma terça-feira de calor sufocante, daquelas em que a roupa gruda no corpo, e por isso eu tinha colocado um short. Normalmente eu não uso nem saias nem shorts, prefiro calças, mas naquele dia o ar pedia outra coisa.
Compramos os ingressos para uma sessão da tarde, quase vazia. Subimos até a última fileira, aquele lugar que todo mundo escolhe pela mesma razão sem nunca admitir. Contei as pessoas por costume: no máximo dez espalhadas pela sala, cada uma concentrada no seu próprio mundo, no seu pacote de pipoca ou no celular desligando justamente quando as luzes se apagaram.
— Ainda bem que está vazio — Mateo me disse ao ouvido, e notei que sua voz já tinha aquele tom grave que eu conhecia bem.
— Se comporta — respondi, embora já soubesse que nenhum dos dois pensava em fazer isso.
Começaram os trailers e nós começamos a nos beijar. No começo foi suave, quase terno, a mão dele apoiada no meu joelho enquanto a tela tremeluzia sobre nossos rostos. Mas, assim que o filme de verdade começou, aquela mão deixou de ficar quieta. Subiu devagar pela minha coxa, desenhando círculos lentos, medindo minha reação.
Eu não a afastei.
Não tinham passado nem cinco minutos quando os dedos dele já roçavam a barra do short. Senti o coração batendo na garganta. Isso é uma loucura, pensei, olhando de relance para as fileiras de baixo. Mas ninguém virava. Ninguém olhava para nós. E essa certeza, em vez de me acalmar, me incendiou ainda mais.
— E se alguém nos vir? — sussurrei, mais como um jogo do que como um aviso de verdade.
— Então não faz barulho — ele respondeu, e os dedos dele se enfiaram por baixo do tecido.
Foi como se o ar da sala desaparecesse. A mão dele se movia com uma paciência que me deixava louca, primeiro por cima da roupa íntima, apenas pressionando, até sentir o quanto eu estava molhada. Eu não disse nada. Não conseguia. Cerrei os lábios e cravei os olhos na tela sem entender uma única imagem do que acontecia ali.
O medo de sermos descobertos e o prazer do proibido se misturavam numa mesma corrente que me atravessava inteira. Cada vez que uma silhueta se mexia embaixo, eu prendia a respiração. E cada vez que confirmava que ninguém se virava, me deixava levar um pouco mais.
Os dedos dele encontraram o ritmo exato. Não sei quanto tempo ele ficou assim, talvez dez minutos que pareceram uma eternidade e, ao mesmo tempo, um suspiro. Quando cheguei lá, foi mordendo o ombro dele por cima da camiseta para não gemer, com o corpo todo tenso, as unhas enterradas no braço dele. Tive que me lembrar de respirar.
***
Quando recuperei um pouco da noção, a primeira coisa que fiz foi olhar outra vez ao redor. A cabeça estava girando. Revirei fileira por fileira, esperando encontrar olhos acusadores, alguém que se levantasse indignado. Mas não. As mesmas dez silhuetas continuavam absortas, completamente alheias ao que acabara de acontecer a três metros delas.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Senti-me poderosa, sem vergonha, viva de uma forma que nunca tinha sentido. E então pensei que não era justo ficar só eu com tudo aquilo.
Olhei para Mateo. Ele respirava com dificuldade e mantinha os olhos fixos em mim, esperando. Levei a mão até o colo dele e senti o quanto estava duro, esticando o tecido da calça. Sustentei seu olhar enquanto baixava o zíper devagar, curtindo a forma como ele engoliu seco.
— Camila... — ele começou a dizer, mas eu pus um dedo nos seus lábios.
— Você disse para eu não fazer barulho — lembrei—. Agora é a sua vez.
Desabotoei o botão e o libertei. Minha primeira ideia foi usar só a mão, terminar o que ele tinha começado, retribuir o favor em silêncio. Mas, assim que o toquei, um impulso muito mais forte do que a prudência me venceu.
Me inclinei sobre ele, agradecendo a escuridão e a altura do encosto da fileira da frente, que nos escondia como uma cortina. A posição era desconfortável, o apoio de braço cravando nas minhas costelas, mas eu não liguei. Comecei devagar, com a língua, percorrendo a ponta, beijando-o como se eu tivesse todo o tempo do mundo.
Senti a mão dele se enroscar no meu cabelo, não para me empurrar, só para acompanhar. Levei-o à boca até onde a posição permitia, e ouvi ele segurar um gemido que escapou entre os dentes. Aquela reação me deu ainda mais vontade. Eu alternava: o engolia inteiro e depois o deixava ir para lamber de novo, porque sei muito bem do que ele gosta, sei o ritmo que o enlouquece.
De vez em quando eu levantava o olhar para encará-lo de baixo. A luz azulada da tela iluminava o rosto dele, os olhos fechados, a mandíbula cerrada pelo esforço de permanecer calado. A outra mão dele acariciava minhas costas, depois a nuca, descendo às vezes pelo meu corpo em carícias desajeitadas e desesperadas.
— Não vou aguentar muito — ele murmurou, quase sem voz.
Eu não parei. Senti o corpo dele inteiro se tencionar um segundo antes, e quando ele gozou tentei engolir tudo, embora na escuridão e com aquela posição impossível eu não tenha conseguido completamente. Senti algumas gotas mornas na bochecha. Não disse nada. Me ergui com cuidado, ajeitei a roupa dele com uma mão e, enquanto ele recuperava o fôlego, largado na poltrona, sussurrei que já voltava.
***
Saí da sala com as pernas ainda tremendo, certa de que estava vermelha como um farol. O corredor do cinema estava deserto, com aquela luz amarelada e triste de lugares vazios, e o ruído distante de outro filme escapando pelas portas. Caminhei até o banheiro rezando para não encontrar ninguém conhecido.
Entrei direto nos lavatórios e me olhei no espelho. E ali estava a prova de tudo: uma mancha brilhante na minha bochecha, o cabelo desgrenhado, os lábios inchados. Levei as mãos ao rosto, meio morrendo de rir, meio morrendo de vergonha.
— Está se divertindo? — disse uma voz atrás de mim.
Quase morri de susto. Era uma mulher da limpeza, com seu carrinho de produtos e um pano na mão, me olhando com um meio sorriso que não tinha nada de reprovação. Fiquei congelada, sem saber o que dizer, sentindo o calor subir do pescoço para o rosto.
— Eu... estávamos... — gaguejei, abrindo a torneira às pressas para me limpar.
Quando me virei para inventar alguma desculpa, para me desculpar, para o que fosse, ela já tinha saído. A porta se fechava devagar atrás do carrinho dela. Não me deu tempo nem de terminar a frase.
Lavei o rosto com água fria, ajeitei o cabelo como pude e respirei fundo várias vezes diante do espelho. A garota do espelho me devolvia um olhar que eu não reconhecia totalmente: o de alguém capaz de coisas que jamais teria ousado imaginar um mês antes.
***
Quando voltei à sala, os créditos já estavam passando. Mateo tinha se recomposto por completo, com aquela cara de inocência absoluta que ele faz quando acabou de fazer alguma coisa que não devia. Pegamos nossas coisas e saímos para o saguão iluminado, piscando como dois toupeiras.
— Foi ótimo, né? — ele comentou, se espreguiçando —. Adorei o final.
Olhei para ele sem entender, e então me dei conta: ele estava falando do filme. Daquele filme que nenhum dos dois viu, do qual até hoje eu não lembro nem o título nem um único personagem. Escapou de mim uma gargalhada que precisei cobrir com a mão.
E então eu a vi. A mulher da limpeza atravessava o saguão empurrando o carrinho para outra sala. Ao passar ao nosso lado, ela me procurou com o olhar e piscou para mim, rápido, cúmplice, antes de seguir o caminho como se nada tivesse acontecido.
Meu rosto pegou fogo outra vez. Mateo percebeu.
— O quê? O que foi? — perguntou, curioso.
Contei a ele do banheiro em voz baixa, da mancha, da mulher aparecendo justo naquele momento. Eu esperava que ele morresse de vergonha comigo, que entendesse o vexame. Mas Mateo só ficou pensando por um segundo, com aquele sorriso torto que me fazia perder a cabeça, e me fez a única pergunta possível.
— E quando a gente repete?
Não respondi. Não era necessário. Apertei a mão dele enquanto saíamos para a rua, para o calor da tarde, e soube que aquilo não ia ficar em uma única vez. Ele tinha razão, claro. Mas essa já é outra confissão.