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Relatos Ardientes

O que encontrei na lavanderia do prédio

Marina vinha de um lugar onde o silêncio era uma forma de educação e a neblina dos vales parecia se enfiar até debaixo da pele. Tinha crescido num povoado de montanha, entre prados úmidos e missas de domingo, com uma família tão fechada quanto as venezianas de madeira da sua casa. Para ela, sexo era um conceito nebuloso, algo turvo que acontecia com os outros. Na escola, enquanto as colegas cochichavam sobre beijos e mãos por baixo da saia, ela se escondia atrás dos livros de Biologia, sufocando às pressas um calor estranho que às vezes subia entre as pernas e que confundia com culpa.

Tudo saiu dos trilhos no dia em que se mudou para Valência para estudar. A cidade cheirava diferente: a asfalto quente, a flor de laranjeira e a uma liberdade que lhe dava vertigem. Foi numa tarde de março, numa varanda no bairro do Carmen, que o véu se rasgou. Sua nova amiga Sofía falava dos orgasmos dela, da pele dos rapazes, das noites longas e úmidas da cidade, com uma naturalidade que deixou Marina sem saber onde enfiar as mãos.

—Você nunca fez nada sozinha? — perguntou Sofía, mexendo o gelo no copo—. Sério? Nenhuma vez?

Marina balançou a cabeça, vermelha até as orelhas. Sofía riu, mas não com deboche, e sim com uma espécie de ternura cúmplice, e continuou falando: do que se sentia ao perder o controle, da forma como o corpo acelera quando alguém se atreve a tocar onde nunca tocou. Cada palavra caía sobre Marina como uma faísca sobre palha seca.

Naquela noite, ela voltou para o apartamento compartilhado com uma ideia fixa cravada no centro do peito. Não conseguia parar de pensar na frieza da infância, em todos aqueles anos de venezianas fechadas, na quantidade de coisas que tinha se proibido sem sequer saber o que estava recusando.

***

Trancou-se no quarto. O coração batia com uma força que ela não reconhecia. Despiu-se diante do espelho do guarda-roupa e, pela primeira vez, olhou para si de verdade: os seios firmes, os quadris largos, os pelos castanhos. Não os viu como uma lâmina de anatomia, mas como algo que servia para alguma coisa. Seus dedos desceram trêmulos. Foi quase um acidente, um roçar um pouco mais insistente, uma pressão em círculos sobre aquele ponto que nunca se atrevera a explorar a fundo.

Quando chegou o primeiro orgasmo, não foi um suspiro. Foi um tremor que a dobrou sobre o colchão, sufocando um grito contra o travesseiro enquanto uma corrente percorria seu corpo dos pés à nuca. Sentiu-se enganada. Como pude viver vinte anos sem isso? Naquela noite, sem testemunhas, algo se quebrou nela para sempre.

Desde então viveu dividida em duas. Na faculdade continuava sendo a aluna aplicada, calada, de olhar baixo. Mas uma noite por semana se transformava em outra mulher. Vestia saias curtas sem nada por baixo e se enfiava nas sombras dos jardins do antigo leito do rio, buscando aquela adrenalina perigosa de saber-se observada, de cruzar com um desconhecido que a encarasse como se pudesse devorá-la. Nunca passava dos olhares. Bastava-lhe o risco, a possibilidade.

***

Aquele sábado, no entanto, tinha sido uma decepção. Caminhou pelos caminhos sob a umidade pegajosa da cidade e só cruzou com dois homens mais velhos que a observaram de um banco sem despertar nela mais do que uma curiosidade fria, quase científica. Voltou ao prédio com a pele em chamas e um nó de necessidade que não sabia como desfazer.

Desceu à lavanderia, aquele cubículo pequeno e escuro no térreo do bloco, para pegar a roupa que havia deixado pela manhã. O zumbido de uma máquina de lavar era o único som. A lâmpada piscava. Ao entrar, viu, sobre o banco de azulejo, um cesto que não era o seu. Reconheceu de imediato o moletom cinza, enorme, tamanho XXL: era de Bruno, o rapaz do segundo andar.

Sempre o tinha visto como um garoto. Educado, tímido, daquele tipo que cumprimenta num fiapo de voz no elevador e baixa os olhos. Alguns meses antes ele tinha começado a ir à academia e isso já dava para notar: os ombros mais largos, a camiseta mais justa. Mas continuava sendo, para ela, um menino.

E então, ao se aproximar do cesto, algo mudou.

O cheiro a atingiu antes que pudesse pensar. Não era o odor rançoso de desconhecidos do parque. Era um aroma de suor limpo, de pele jovem, de algodão quente e de algo mais profundo que entrou direto em seu baixo-ventre. Marina ficou imóvel, prendendo a respiração.

Olhou para a porta. Ninguém. Só o zumbido e a luz trêmula. Por um instante pensou em ir embora, subir para o quarto e esquecer tudo aquilo. Mas o corpo já tinha tomado a decisão por ela, assim como naquela primeira noite diante do espelho.

Enfiou a mão nas roupas de Bruno com uma urgência que a assustou. Seus dedos encontraram uma cueca boxer cinza de algodão, ainda úmida pelo esforço do treino. Tirou-a devagar, como se pudesse se queimar. Sabia que estava errado. Sabia que, se alguém descesse naquele instante, não haveria desculpa possível. E justamente por isso não conseguiu parar.

Levou-a ao rosto e fechou os olhos. Inspirou fundo. Cheirava a ele, à pele dele, àquele aroma doce e salgado que um corpo jovem exala depois do exercício. Uma fisgada atravessou seu corpo de repente.

—Meu Deus... — sussurrou contra o tecido.

A peça ainda conservava a forma, o calor de ter estado colada ao corpo dele durante horas. Marina o imaginou correndo na esteira, levantando peso, suando, sem a menor ideia do que aquele tecido iria provocar. Não conseguiu evitar. Encostou as costas na parede fria da lavanderia e, com a mão livre, ergueu a saia. Como em toda noite em que saía, não estava usando nada por baixo.

Seus dedos encontraram uma umidade que surpreendeu até a ela mesma. Estava tão quente que o primeiro contato lhe arrancou um gemido. Começou a se esfregar, primeiro devagar, medindo o silêncio do cômodo, depois com uma fúria que ela não conhecia em si. Apertou a cueca contra o sexo, esfregando o algodão sobre o ponto exato, imaginando que não era o tecido que a roçava, mas ele. O contraste entre a trama áspera da peça e a própria maciez a enlouqueceu.

Enfiou dois dedos enquanto pressionava o tecido contra os lábios com a outra mão. Visualizou Bruno entrando pela porta, encontrando-a assim, com a saia levantada e a respiração quebrada. Imaginou-o largando a mochila, encurralando-a contra a máquina que vibrava, perdendo de uma vez toda aquela timidez de menino bonzinho. Imaginou o peso dele, a boca dele, a forma desajeitada e faminta de reivindicá-la.

—Vem aqui... —gemeu baixinho, sem conseguir se calar totalmente—. Vem...

O cheiro da peça misturado ao do próprio corpo formou algo espesso, quase narcótico, que a empurrava cada vez mais longe. Seus dedos se moviam num ritmo frenético, entrando e saindo, enquanto com o quadril buscava mais pressão contra a própria mão. As pernas começaram a tremer. Sentia o azulejo gelado nas costas e o coração batendo nas costelas.

Estava prestes. Cerrou os dentes, atirou a cabeça para trás contra a parede e deixou que a corrente a arrasasse. O orgasmo a sacudiu numa série de espasmos que a deixaram pregada no lugar, mordendo o lábio para não gritar, com a cueca ainda apertada contra a boca. Levou vários segundos para voltar a ouvir o zumbido da máquina de lavar.

***

Quando o prazer começou a ceder, abriu os olhos devagar. A realidade voltou como um balde de água fria: estava na lavanderia comum, desgrenhada, com a roupa íntima de um vizinho nas mãos e os joelhos tremendo. Uma vergonha ardente subiu pelo seu pescoço. Deixou a cueca cair dentro do cesto e tentou arrumá-la como estava, com um cuidado absurdo, como se isso pudesse apagar o que acabara de fazer.

E então, ao baixar o olhar, viu.

No chão, junto ao banco, estavam suas próprias calcinhas brancas com o lacinho rosa, as que tinham caído do monte quando entrou apressada. Pegou-as. Apertou-as no punho. Olhou para elas, ainda respirando com dificuldade.

Lhe ocorreu uma ideia perversa, daquelas que em outra vida ela nem teria coragem de pensar. Bruno desceria para pegar a roupa em algum momento da noite. Encontraria o cesto exatamente onde ela o deixara. E, se entre suas camisetas e cuecas aparecesse uma peça que não era dele, com um lacinho rosa e um aroma que ele não conseguiria identificar de todo... o que pensaria? Devolveria perguntando pelo prédio? Ou a ficaria, intrigado, sem saber a quem pertencia?

Marina sorriu na penumbra. Um sorriso que a mulher do povoado de montanha jamais teria reconhecido como seu.

Dobrou as calcinhas com cuidado e as enfiou entre a roupa limpa de Bruno, bem no fundo, onde ele demoraria a encontrá-las. Depois pegou sua própria lavagem, alisou a saia e subiu as escadas de dois em dois degraus, com o coração disparado e uma risada nervosa presa na garganta.

Naquela noite não dormiu. Toda vez que um ruído percorria os canos do prédio, imaginava Bruno abrindo o cesto, encontrando o lacinho rosa, franzindo a testa. E toda vez que o imaginava, voltava a sentir aquela corrente entre as pernas, aquela mistura de medo e desejo que tinha se tornado a única coisa que a fazia se sentir verdadeiramente desperta.

Na manhã seguinte, no elevador, cruzou com ele. Bruno a cumprimentou com seu fiapo de voz de sempre, baixando os olhos, as bochechas um pouco coradas. Mas desta vez, antes de as portas se fecharem, ele ergueu os olhos por um segundo e a encarou. Só um segundo. O bastante para Marina entender que o jogo, fosse o que fosse aquilo, acabara de começar.

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