Aos quarenta, Marina voltou a se sentir desejada
Diante do espelho do quarto, ela descobriu que seu corpo ainda sabia pedir. O que não esperava era que alguém estivesse disposto a ouvi-lo naquela mesma noite.
Diante do espelho do quarto, ela descobriu que seu corpo ainda sabia pedir. O que não esperava era que alguém estivesse disposto a ouvi-lo naquela mesma noite.
Na primeira tarde, ela saiu para a terraça com a toalha dependurada por apenas dois dedos. Lá embaixo havia gente. Em cima, varandas vizinhas. E ela acendeu um cigarro sem pressa.
Tenho cara de tarada e todos percebem. No último vagão, apertada contra corpos desconhecidos, deixo minhas mãos fazerem o que minha cabeça já decidiu.
Quando a prima dela voltou bêbada naquela noite e começou a me contar detalhes, entendi que a história que minha esposa me dera era só metade da verdade.
Só me visto quando tenho um encontro, sempre num quarto de hotel, e naquela noite o desconhecido que me esperava não fazia ideia do que encontraria sob meu vestido.
Achei que tinha a situação sob controle. Achei que um velho sem forças não podia me fazer nada. Esse foi meu primeiro erro da manhã.
Quando todos adormeceram, Diego ficou ao meu lado na cama. Dizia que não sabia se gostava de homens. O que aconteceu depois nenhum dos dois tinha planejado.
Marina voltou da universidade feita mulher, e entre risadas e brincadeiras na água entendi que já não éramos as crianças que se banhavam todo verão naquele povoado.
Eu já tinha tentado antes e só sentira dor. Numa noite de hotel com um desconhecido, descobri o quanto eu estava enganada.
Ele sussurrou no meu ouvido quando eu ainda tremia: “E se, da próxima vez, forem dois só para você?”. Eu não soube dizer não, e também não quis.
Deixei meu país, vendi meus móveis e comprei uma passagem sem volta. A única coisa que eu sabia com certeza era que Helena estaria me esperando do outro lado do vidro, em Antuérpia.
Abri a porta só com um robe no corpo. Quando o vi no hall, soube que aquele sábado de fevereiro seria lembrado por um motivo bem diferente do calor.
Desci ao bar para pedir dois drinks e a voz que me disse «oi» era a última que eu esperava ouvir em um hotel para adultos num sábado à noite.
Só queria sol e silêncio. Não procurava ninguém, muito menos um homem que me esperou na beira do mar só para dizer que não pretendia me deixar ir.
Ninguém ao meu redor desconfia, mas o dia inteiro eu obedeço ordens que só existem na minha cabeça… e cada vez desejo mais que se tornem reais.
Fiquei sozinha com ele fingindo um mal-estar que não tinha. Eu sabia o que aconteceria assim que minha irmã passasse pela porteira e me deixasse a sós com o marido dela.
Subi para pegar ar porque não aguentava o calor. Ouvi os passos dele na escada e soube, antes de me virar, que aquela noite eu não ia conseguir dormir.
Ela saiu do banheiro, me viu meio vestido, com o uniforme, e soltou: “você tem umas pernas fortes”. Foi aí que eu soube que aquela tarde não terminaria como as outras.
Quando o aquecimento da cabana apagou, meu marido me lembrou que as regras dele não se quebram só porque faz frio. Naquela noite entendi o que significava pertencer a ele de verdade.
Não houve gritos nem acusações. Só o calor pegajoso da cidade e dois corpos que sabiam estar se tocando pela última vez, embora ninguém dissesse isso em voz alta.