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Relatos Ardientes

A aposta no mirante que quase ganhamos

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Faltavam duas horas longas de sol, talvez três se o vento do sul continuasse segurando, mas os dois olharam o telefone quase ao mesmo tempo e souberam que estava acabando. A vida real os esperava do lado de fora daquela enseada, com suas obrigações e suas distâncias e suas desculpas para não se verem.

—Tá na hora de juntar as coisas — disse Lucía enquanto sacudia a areia da toalha com dois golpes secos—. Que raiva.

—É. —Marcos a viu se levantar, esticar os braços por cima da cabeça—. Mas a gente promete voltar, né?

—A essa praia, sim. —Colocou os óculos de sol e o olhou—. Sem conhecidos, sem ninguém pra complicar a tarde. Ela é perfeita.

Os dois tinham chegado separados, cada um no seu carro, seguindo as indicações que ele lhe mandara na noite anterior. Uma enseada pequena ao sul do cabo, sem acesso fácil, conhecida só por moradores locais e por quem tivesse paciência de procurá-la no mapa. Não havia salva-vidas nem quiosque nem famílias com guarda-sol. Só areia branca, água verde e casais que, como eles, preferiam não ser vistos.

Foram juntos até o estacionamento, de mãos dadas, naquele ritmo lento de quem não está com pressa de verdade, mas sabe que o tempo está acabando. Lucía usava uma legging preta por cima do biquíni e uma camiseta regata amarrada na cintura. Marcos caminhava dois passos atrás nos trechos de areia fofa e a observava andar, pensando que quatro horas não eram suficientes. Que provavelmente nunca seriam.

O caminho até o estacionamento subia por uma trilha de tábuas de madeira com degraus irregulares. Ao contornar uma curva, se abria um mirante pequeno: uma plataforma de cimento com grade de ferro, debruçada sobre o penhasco, com vista para toda a enseada. Naquela hora da tarde, o sol transformava o mar em um cobalto escuro.

Lucía parou antes de chegar ao estacionamento.

—Espera. —Deixou a mochila no chão e apoiou os cotovelos na grade—. Um instante.

—O que foi?

—Nada. Eu quero guardar isso na memória. —Olhou o mar e fechou os olhos por um segundo—. A luz, o cheiro, como foi hoje. Quero me lembrar exatamente de como estava.

Marcos ficou em silêncio. Aproximou-se devagar e, sem pensar muito, a envolveu por trás com os braços. Ela não ficou tensa, não disse nada. Só jogou o corpo um pouco para trás, buscando o contato, e deixou que ele encostasse o queixo perto da orelha dela.

O vento trazia sal em rajadas curtas. Lucía respirava mais devagar do que quando caminhava. Marcos também desacelerou, aprendendo o ritmo dela, sentindo como o peso dela cedia aos poucos em direção a ele.

Não demorou muito para notar. Um endurecimento lento, mas inequívoco, contra a parte baixa de suas costas. Lucía percebeu antes de ele admitir: fez um pequeno movimento de quadril, quase imperceptível, para se certificar de que não era imaginação.

Não era.

—Daqui de cima se vê tudo muito melhor — disse Marcos.

—É mesmo — disse ela, e no tom havia um sorriso.

***

Lá embaixo, na beira da água, um casal juntava as coisas. O homem usava uma camiseta verde e a mulher, um chapéu de palha que o vento tentava arrancar. Eles os observaram por um instante sem dizer nada.

—Você acha que eles são um casal ou estão na mesma que a gente? — perguntou Lucía.

—Não sei. Mas ela vem olhando pra cá há um tempo.

—Normal. O mirante dá pra ver direitinho da praia.

Silêncio. O vento moveu uma mecha do cabelo de Lucía e a empurrou contra a bochecha de Marcos. Ele não afastou.

—Você confia em mim? — perguntou Marcos depois de um momento.

—Depende do que você tem em mente.

—Confia e pronto.

—Isso é trapaça.

—Eu sei. Confia mesmo assim.

Ela levou alguns segundos. Olhou o horizonte. Depois disse:

—Tá bom.

Marcos conferiu que a trilha estava vazia e que o casal de baixo ainda estava longe. Então começou. Com as duas mãos nos quadris dela, começou a baixar a legging devagar, só alguns centímetros no começo, sentindo como ela ficava tensa e depois relaxava, se deixando conduzir.

O tecido desceu até os joelhos.

Depois, com mais cuidado, procurou os nós do biquíni em cada quadril. Estavam um pouco apertados. Demorou um instante, mas conseguiu desatar os dois. Tirou o tecido de entre as pernas dela pela frente e Lucía sentiu a brisa diretamente na virilha.

—Meu Deus — murmurou, quase sem voz.

Marcos guardou o tecido no bolso da sunga e tornou a subir a legging devagar, com aquela lentidão deliberada que não tinha nada de prática. Centímetro a centímetro, a lycra foi subindo pelas pernas dela, pelas coxas, até chegar à cintura. Então ele agarrou a parte de cima com as duas mãos e puxou com força, levantando o corpo dela alguns centímetros, e Lucía soltou o ar de uma vez.

—Agora tem que ajustar direito — disse Marcos, com a voz tão baixa que quase o vento a levou.

Passou os dedos pela virilha dela com movimentos lentos e precisos, fingindo que ajustava alguma coisa. A lycra era fina. Fina demais para aquilo ter qualquer chance de ser acidental. Pressionou, deslizou, trabalhou o tecido até conseguir enfiá-lo entre os lábios dela e deixá-lo ali.

Lucía afastou os pés só uns centímetros. As mãos se apertaram na grade.

—Assim — disse ela baixinho, de olhos fechados.

Ele repetiu o movimento, de frente para trás. Devagar. O tecido respondia e Lucía respondia com ele: uma tensão que lhe percorria as costas de baixo para cima, uma respiração que já não era a de antes.

—Pronto. Não está melhor agora?

—Melhor, sim. —Fez uma pausa—. Mas o dedo você pode deixar um tempinho onde está.

Ela procurou a mão dele com a sua para se certificar de que ele não a movia. Marcos obedeceu. Pressão suave e constante, ali, sem se mexer, enquanto os dois olhavam o mar.

***

Cinco minutos, talvez mais. O sol continuou descendo. O casal do chapéu seguia na praia, ainda longe. Ninguém mais apareceu pela trilha.

Marcos observava o perfil de Lucía: a mandíbula levemente tensa, os olhos semicerrados, aquela mecha de cabelo que o vento continuava movendo e que ela não se dava ao trabalho de afastar. Era a primeira vez que ele a tocava assim, a primeira vez de verdade, depois de semanas de mensagens pela metade e olhares que duravam tempo demais e uma desculpa atrás da outra para não chegar até aqui.

E agora estavam ali.

—Tenho uma proposta — disse Lucía de repente.

—Pode falar.

—Aquele casal lá embaixo está juntando as coisas. O do chapéu. Está vendo? Estão dobrando o guarda-sol e guardando tudo.

Marcos olhou para a praia. Era verdade: o homem enrolava o guarda-sol com dificuldade e a mulher colocava coisas dentro de uma bolsa grande.

—Estou vendo.

—Ótimo. —Lucía não se virou—. Você vai tirar o dedo de onde está agora mesmo e vai enfiar de novo, mas por dentro da legging desta vez. E eu vou deixar você me colocar dentro de mim.

Pausa.

—Se você conseguir me fazer gozar antes de aquele casal chegar na nossa altura, a gente para no posto de gasolina da saída, compra camisinhas e vai transar onde você quiser.

Marcos levou alguns segundos para processar o que tinha acabado de ouvir.

—E se eu não conseguir a tempo?

—Amanhã. Mesma praia, mesma hora.

—E se eu quiser as duas opções?

Então ela se virou. Olhou diretamente para ele, com aqueles óculos escuros que cobriam metade do rosto, mas não escondiam nada.

—Primeiro ganha.

***

Não havia tempo para mais conversa. O casal de baixo já tinha começado a subir pela trilha.

Marcos enfiou a mão por dentro do cós. Lucía afastou as pernas um pouco mais e se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na grade, facilitando o acesso sem dizer uma única palavra.

Ele a encontrou molhada desde o primeiro toque. Muito mais do que esperava. Tudo o que veio antes — o biquíni, os ajustes, os minutos de pressão constante — tinha feito seu trabalho. Lucía ficou tensa ao senti-lo diretamente, sem tecido no meio, e depois relaxou por inteiro, como se estivesse esperando por aquele momento desde muito antes de chegar àquela praia.

Ele procurou o ângulo certo. Aprendeu rápido: o que fazia ela apertar os dedos contra o ferro, o que fazia ela soltar o ar sem conseguir controlar. Em menos de um minuto tinha a resposta.

Lucía tinha os nós dos dedos brancos contra a grade. A cabeça inclinada para baixo. Já não olhava o mar.

—Não para — disse em voz muito baixa.

Marcos não parou. Olhava de relance para a trilha, calculando. O casal avançava devagar: a bolsa era grande, os degraus eram irregulares, a mulher do chapéu ia de chinelo. Havia tempo. Talvez.

Lucía começou a respirar de outro jeito. Mais curto, mais rápido, com aquele ritmo quebrado que não se finge. Os quadris dela fizeram um movimento involuntário e ele acompanhou esse movimento, sem soltá-la, sem mudar o ritmo que já sabia que funcionava.

—Marcos — disse ela, e em como disse o nome dele estava tudo o que não precisava ser explicado.

Ela estava perto. Ele percebia em cada milímetro da tensão do corpo dela, em como tinha se esquecido do mar, do mirante e do casal que subia pela trilha. Só estava ali, com os olhos fechados e os cotovelos apoiados na grade e a respiração que já não tentava controlar.

E então os ouviram.

Risos. Primeiro distantes, depois muito próximos, contornando a curva da trilha. A mulher do chapéu e o homem da camiseta verde apareceram na extremidade esquerda do mirante. Viram os dois imediatamente: não tinha como não ver.

Marcos tirou a mão em menos de um segundo.

Lucía soltou o ar de uma vez, entre a frustração e algo que ela não conseguiu evitar que parecesse uma risada. Endireitou o corpo, ajeitou o cabelo com uma mão, voltou a apoiar os cotovelos na grade olhando para a frente, como se tivesse estado assim o tempo todo.

O outro casal passou ao lado deles. O homem assentiu com a cabeça. A mulher sorriu, e naquele sorriso havia algo que dizia claramente que eles não eram bobos.

Quando se afastaram o bastante, Lucía se virou para Marcos.

—Acho que você não conseguiu — disse ela.

—Acho que não. —Ele tinha a cara de quem tinha acabado de perder uma aposta que prometia muito—. Por pouco.

—Por muito pouco.

Os dois ficaram em silêncio por um instante. O sol desceu mais alguns graus. A enseada estava ficando vazia.

—Amanhã — disse Lucía então.

—Amanhã — repetiu ele, como se a palavra merecesse ser guardada.

Ela se aproximou. Passou os braços pelo pescoço dele e colou o corpo ao dele com aquela classe de contato que já não tem nada de inocente. Marcos sentiu o calor que ela ainda emanava, a pressão suave do corpo dela procurando o dele.

—Amanhã eu vou trazer outra legging — disse Lucía contra o ouvido dele—. Ainda mais fina. E vou garantir que aquele casal esteja bem mais longe quando você começar.

—E se vier mais alguém?

—Então a gente continua tentando até não sobrar ninguém.

Ela o beijou. Não rápido, não como quem se despede. Com o tipo de beijo que promete algo concreto para o dia seguinte. Os quadris dela se moveram na direção dele, só um centímetro, mas os dois perceberam perfeitamente.

—Isso é só o começo — disse Lucía quando se afastou.

—De amanhã.

—De amanhã.

Ela pegou a mochila do chão, ajeitou os óculos de sol e começou a andar para o estacionamento sem olhar para trás. Marcos a seguiu alguns passos atrás, observando-a caminhar sobre o cimento do mirante, pensando que a noite seria muito longa e que amanhã não poderia chegar depressa o suficiente.

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