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Relatos Ardientes

Aquela ordem sussurrada que a fez perder o controle

Há um instante, depois da tempestade, em que o corpo se torna transparente. A pele ainda arde, os nervos seguem em disparada e qualquer toque parece dez vezes mais forte do que o normal. Nesse estado de rendição absoluta, quando já não restam defesas, é quando uma mulher está mais perto de descobrir algo que ignorava sobre si mesma. Mateo sabia disso. Por isso, enquanto Carla jazia sobre o peito dele com a respiração ainda entrecortada, ele não pensava em dormir.

O quarto cheirava a suor e pele quente. O lençol estava amontoado aos pés da cama e a única luz vinha da rua, uma faixa amarelada que entrava pela fresta da persiana. Carla tinha quarenta e dois anos e achava que já tinha sentido de tudo. Estava prestes a aprender que estava enganada.

O que havia entre eles começara da forma menos esperada. Carla era a mãe de Diego, o melhor amigo de Mateo desde a universidade. Durante anos, ele a vira apenas como “a mãe do Diego”, uma mulher bonita e distante que servia café na cozinha enquanto eles jogavam videogame. Até deixar de ser um garoto e começar a olhá-la de outra maneira. E até ela, viúva havia três anos, começar a devolver-lhe o olhar.

O que tinham não podia ser contado em voz alta. Toda vez que se encontravam às escondidas, naquele apartamento que Mateo alugava do outro lado da cidade, os dois sabiam que estavam cruzando uma linha que não deviam. E justamente por isso ardia tanto. O proibido tinha um sabor que nenhum dos dois ousava confessar, mas que os empurrava a se buscar de novo e de novo.

Mateo acariciava as costas dela com dedos lentos, medindo os últimos estremecimentos que a percorriam. Era um homem paciente. Gostava de observar antes de agir, de ler o corpo do outro como quem estuda um mapa. E o que o corpo de Carla lhe dizia naquela noite era que ela ainda estava com fome, embora ainda não soubesse disso.

Ele aproximou a boca do ouvido dela. Quando falou, sua voz saiu baixa, carregada de uma calma que não admitia discussão.

— Esse último orgasmo foi lindo — murmurou—. Mas foi só a chave. Agora vamos abrir a porta.

Carla se remexeu. Soltou um gemido preguiçoso, meio protesto, meio riso cansado, e ele o silenciou com uma mordida suave no lóbulo da orelha.

— Shhh. Não precisa dizer nada. Só escuta — continuou. Sua mão, que antes desenhava círculos nas costas dela, desceu com uma lentidão deliberada pela curva da coluna até repousar no quadril—. Vou fazer você sentir uma coisa que nunca sentiu.

— E o que seria isso? — perguntou ela, ainda de olhos fechados, com a voz arrastada.

— Você vai gozar de outro jeito. Vai perder o controle de verdade.

Carla abriu um olho. Conhecia aquela expressão, a que ele fazia quando estava decidido a algo. Ele não está brincando, pensou, e um arrepio que não tinha nada a ver com frio lhe subiu pelas costas.

— Eu… acho que não consigo — disse, e sua própria insegurança a surpreendeu. Naquela idade, já não lhe restavam muitas coisas para experimentar. Ou era o que pensara até trinta segundos antes.

— Você não precisa acreditar em nada — corrigiu ele, com uma firmeza suave, quase terna—. Essa é a parte fácil. Eu acredito pelos dois. Seu único trabalho é se render. Relaxar e deixar seu corpo fazer o que eu mandar. Ficou claro?

Ele não esperou resposta. Virou-a com cuidado, mas sem hesitar, deitando-a de costas sobre o colchão. Acomodou-se entre as pernas dela e as abriu devagar, com as palmas achatadas na parte interna das coxas. Na penumbra, os olhos dele brilhavam com uma concentração que Carla achou quase intimidante.

— Vou te avisar uma coisa — disse ele, e agora a voz era ao mesmo tempo clínica e ardente—. Em algum momento você vai sentir que está fazendo xixi. Não é isso. É o sinal. Não lute contra ele. Se lutar, não acontece nada. Se se soltar, você vai ver estrelas.

Ela engoliu em seco. O aviso, longe de tranquilizá-la, acendeu nela uma mistura de pudor e curiosidade. E se eu ficar com vergonha? E se eu estragar tudo?

Como se tivesse lido seu pensamento, Mateo pousou uma mão no ventre dela, firme, ancorando-a na cama.

— Pare de pensar — ordenou—. Pensar é a única coisa que pode dar errado esta noite.

***

Seus dedos encontraram o clitóris, ainda inchado e tão sensível que o primeiro contato a fez sobressaltar. Carla quis fechar as pernas por puro instinto, mas a mão no ventre e a presença dele entre suas coxas impediram. Mateo começou com carícias circulares, lentas, precisas, sem tirar os olhos do rosto dela. Lia cada reação. Cada vez que ela franzia a testa, ele afrouxava; cada vez que ela relaxava, ele insistia um pouco mais.

— Demais — ofegou Carla—. É cedo demais.

— Não é demais — respondeu ele, sem alterar o ritmo—. É exatamente o que você precisa. Respira fundo. Sente meu dedo. Só isso. Mais nada existe.

E ela obedeceu. Curioso como uma voz calma podia conseguir o que nenhum carinho sozinho alcançava. Carla inspirou pelo nariz, soltou o ar pela boca e, pouco a pouco, seu corpo deixou de resistir. A tensão dos ombros se dissolveu. Os quadris, que no começo se afastavam, começaram a buscar a mão dele quase por conta própria.

Havia algo profundamente libertador em deixar de decidir. A vida inteira fora ela quem sustentara as coisas: a casa, o filho, o luto, as aparências diante do bairro. A que nunca podia se permitir perder a compostura. E ali, naquela cama clandestina, com um homem muito mais jovem lhe dando ordens em voz baixa, ela finalmente podia soltar as rédeas que segurara por metade da vida. Não precisar fingir. Não precisar controlar. Só sentir.

— Boa menina — disse Mateo ao notar a mudança, e embora a frase devesse ter soado ridícula, um golpe de prazer percorreu a espinha de Carla—. Isso. Você já está quase onde eu quero que esteja.

Mateo percebeu de imediato. Aquela entrega, aquela rendição física, era exatamente o que ele estava esperando.

— Isso mesmo — murmurou—. É aí. Agora não vá para lugar nenhum.

Os minutos passaram. A respiração de Carla se tornou mais profunda, mais rouca, marcada pelo ritmo que ele impunha com cada palavra. Quando sentiu a maré voltar a subir dentro dela, contra todas as expectativas, contra o cansaço que ainda pesava em seus ossos, Mateo introduziu dois dedos. Encontrou-a úmida de novo, mais do que ela mesma teria imaginado possível tão pouco tempo depois.

Procurou com a ponta um ponto específico na parede interna, aquela área esponjosa que responde diferente quando trabalhada com a pressão e o ritmo certos. Quando a tocou, Carla arqueou as costas e soltou um gemido que não se parecia com nenhum dos anteriores.

— Aí — disse ele, quase para si mesmo, friccionando com insistência—. Esse não vai ser como os outros. Os outros eram só contração. Este vai ser outra coisa. Vai ser parar de se conter.

Sua técnica era implacável e, ao mesmo tempo, generosa. Pressão firme e constante com os dedos por dentro, enquanto o polegar mantinha um ritmo rápido e preciso sobre o clitóris. Carla começou a gemer de um jeito novo, não de prazer puro, mas com uma urgência estranha, mistura de necessidade e algo parecido com medo.

— Mateo, para… espera, acho que eu vou… — sua voz se partiu num fiapo de pânico.

— Não — cortou ele, e pela primeira vez a voz subiu de tom naquela noite—. É exatamente isso que tem que acontecer. Não para. Não segure. Solta, Carla. Deixa sair. Agora.

Foi como se dentro dela se rompesse uma barragem que aguentara quarenta anos. O orgasmo a sacudiu de uma vez, mas não ficou nas contrações de sempre. Uma onda de calor, incontrolável, encharcou sua coxa, a mão dele, o lençol sob os quadris. Da garganta dela saiu um grito longo, libertador, um som que ela jamais tinha se ouvido fazer: uma mistura de espanto, vergonha e um êxtase tão puro que a deixou tremendo dos pés à cabeça, com a visão embaçada e o coração golpeando as costelas.

Mateo não parou até o último espasmo percorrer tudo nela. Só então retirou os dedos, devagar, e ficou olhando para ela: ofegante, brilhando de suor e do próprio fluido, com uma expressão de incredulidade absoluta cravada no teto.

— O que… o que foi isso? — ela conseguiu articular, entre risadas nervosas e tremores.

Ele se inclinou e a beijou nos lábios com uma ternura que contrastava com a firmeza de um instante antes.

— Isso — sussurrou— foi o seu corpo me dando razão.

Carla fechou os olhos. Queria protestar pelo lençol encharcado, pelo pudor que lhe queimava as faces, pela exposição em que se sentia. Mas nenhuma dessas coisas pesava o suficiente diante do que acabara de descobrir. Passara metade da vida acreditando que já sabia tudo o que o próprio corpo podia lhe dar, e um homem paciente, com uma ordem sussurrada ao ouvido, acabara de provar em uma única noite o quanto ela estava errada.

— Olha você — murmurou Mateo, deitando-se ao lado dela, percorrendo-lhe a lateral do corpo com a ponta dos dedos—. Você é ainda mais do que eu imaginava.

Ela virou a cabeça para encará-lo. A vergonha ainda estava ali, sim, mas por trás dela surgia algo mais forte: uma curiosidade nova, uma fome que ela não sabia que tinha.

— E agora? — perguntou, quase temendo a resposta.

Ele sorriu na penumbra, sem pressa, como quem acabara de abrir a primeira de muitas portas.

— Agora — disse— você descansa. Porque isso foi só o começo, e você vai precisar de forças.

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