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Relatos Ardientes

A fantasia que sussurrei ao ouvido da minha parceira

Tudo começou com uma confissão em voz baixa, daquelas que só se fazem quando o corpo ainda está quente e a guarda, baixa. Tínhamos passado a noite entre risadas, vinho tinto e segredos que nunca havíamos compartilhado. E então, quase sem pensar, eu contei a Damián ao ouvido: havia uma fantasia que rondava minha cabeça havia anos e que eu nunca tinha me atrevido a pronunciar em voz alta.

Ele ficou em silêncio por um instante. Depois sorriu de um jeito que eu não conhecia.

—Tem certeza? —me perguntou, apoiando a testa na minha têmpora.

—Não —respondi com honestidade—. Mas quero tentar.

Expliquei os detalhes entre beijos, com o rosto escondido em seu pescoço para não precisar encará-lo enquanto falava. Um quarto escuro. Uma parede com uma abertura. Mãos que eu não poderia ver nem reconhecer. O prazer reduzido à sua forma mais pura: a do toque sem nomes, sem rostos, sem a pressão de agradar ou de representar um papel. Só eu, entregue, e o desejo de outras pessoas vindo do outro lado de um muro.

—E eu onde estaria? —ele perguntou, e notei que a ideia, longe de incomodá-lo, o atiçava.

—Perto —eu disse—. Sempre perto. Preciso saber que você está aí, mesmo sem te ver.

Nessa mesma semana ele organizou tudo. Não me contou quase nada, só o necessário. Para eu confiar nele. Para me deixar levar. Para aquela noite ser diferente de qualquer outra. E eu, que havia passado anos imaginando aquele momento sem coragem de lhe dar forma, aceitei com o coração martelando no peito como um tambor.

***

O clube não tinha placa nem nome visível da rua. Uma porta discreta, uma campainha, uma mulher de olhar gentil que nos pediu os casacos e nos explicou as regras em voz baixa. Tudo era consentimento, tudo era respeito, e ninguém cruzava um limite que não tivesse sido oferecido antes. Essa clareza, longe de me esfriar, me acendeu ainda mais.

Nunca imaginei que a escuridão pudesse ter textura. Que o silêncio, apenas rompido por uma respiração contida ao fundo do corredor, pudesse roçar minha pele como uma corrente invisível. Avançávamos devagar por um corredor tenuemente iluminado, uma linha dourada no chão que mal sugeria as silhuetas que passavam ao nosso lado.

Meu pulso estava desencontrado. Damián segurava minha mão e, de vez em quando, apertava meus dedos para me lembrar que ainda estava ali, que não me soltaria, mesmo que logo eu deixasse de vê-lo.

—Quando você quiser parar, diga uma palavra e acaba tudo —ele sussurrou—. Você se lembra de qual é?

—Lembro —eu disse.

Eu havia confiado nele muitas vezes, mas isso era novo. Perigosamente novo. E, ainda assim, eu não queria voltar atrás.

***

Entrei sozinha no pequeno quarto. O ar estava carregado de um perfume denso, uma mistura de pele morna, desejo e algo que eu não soube nomear. Uma parede dividia o espaço em duas metades. Um muro liso, com uma abertura larga na altura da minha cintura. Não era preciso perguntar mais nada. Minha fantasia tinha, enfim, uma forma física diante de mim.

Eu tirei a roupa devagar, peça por peça, sentindo o ar fresco arrepiar minhas costas. Depois apoiei as mãos na superfície fria do muro. Cada poro da minha pele virou um ouvido atento, esperando. Do outro lado da parede havia vozes abafadas, movimentos que eu não podia ver, o roçar de alguém se acomodando. Senti um leve tremor nos dedos. Não era medo. Era pura antecipação.

O tempo ficou elástico. Segundos que pareciam minutos. Minha respiração, um fio tenso entre a curiosidade e o vertigem. Naquele instante entendi que não se tratava só do ato, mas do abandono. De permitir que o desejo falasse uma língua sem nomes nem rostos. De perder o controle para encontrar, do outro lado, outra versão de mim mesma.

Estou aqui. Isso é real. E eu quero.

A primeira carícia me surpreendeu. Foi suave, delicada, uma mão que percorreu minhas costas de cima a baixo como quem reconhece um terreno antes de tomá-lo para si. Prendi o ar. A mão subiu de novo, mais segura, e demorou na curva da minha cintura.

Então apareceu outra. Curiosa, decidida, saiu para explorar meus seios pela abertura do muro, dando atenção especial ao mamilo, que endureceu sob dedos que eu não conhecia. Foi diferente de tudo a que eu estava acostumada, e eu gostei mais do que esperava. Era o prazer em sua forma mais crua e real: privada da visão, sem saber quem ou quantas pessoas me tocavam, me apertavam, me cheiravam.

Mais duas mãos começaram a percorrer minhas pernas desde os joelhos. Eu, instintivamente, as separei um pouco mais, me oferecendo sem pudor. Eu ouvia suspiros através da parede que nos separava, e eu mesma arfava devagar, satisfeita com a maneira como aquelas pessoas sem rosto do outro lado me faziam sentir.

O mais estranho era a liberdade. Sem ninguém observando meu rosto, sem a necessidade de compor expressão alguma, eu podia simplesmente sentir. Não pensava em como eu parecia, em se a barriga estava tensa ou se o cabelo estava desgrenhado. Só importava o percurso de cada carícia, a temperatura diferente de cada palma, a maneira como alguns dedos eram tímidos e outros, descaradamente seguros. Era como se tivessem tirado de mim um peso que eu carregava desde sempre sem saber.

***

Não saberia dizer quanto tempo se passou. O relógio deixara de existir. Uma voz forte e grave chegou até mim do outro lado do muro, rouca de desejo.

—Vira de costas —pediu.

Obedeci sem hesitar. Me virei e voltei a me apoiar, agora com as costas contra a parede e o corpo entregue para a frente. Umas mãos acariciaram meu ventre em uma descida lenta até meu púbis, enquanto outras percorriam a curva das minhas nádegas. Minha respiração se agitava cada vez mais, e eu sentia a umidade crescer entre minhas pernas, traidora e deliciosa.

Eu me sentia terrivelmente exposta, e essa exposição —longe de me envergonhar— fazia minha excitação só crescer. Levei uma mão curiosa até meu próprio sexo, incapaz de ficar quieta, e descobri o quanto eu estava acesa. Estava molhada, aberta, disposta a tudo.

Duas mãos seguravam e amassavam meus seios. Uns lábios desconhecidos —mornos, famintos— fecharam-se sobre um mamilo através da abertura, e um arrepio percorreu minha nuca até os calcanhares. Ao mesmo tempo, dedos hábeis começaram a explorar entre minhas pernas sem trégua, entrando e saindo do meu sexo num ritmo que me roubava o ar.

—Assim —gemia, sem reconhecer minha própria voz—. Não para.

Ninguém parou. As mãos se multiplicavam, se revezavam, encontravam cada canto do meu corpo como se o conhecessem havia a vida inteira. Eu tinha deixado de pensar. Só existiam o toque, o calor e a respiração cortada que ricocheteava contra o muro.

Por um segundo pensei em Damián, do outro lado daquele labirinto de corredores. Imaginei que talvez ele me ouvisse, que reconhecesse meus gemidos entre todos os outros, e a ideia de que ele soubesse o que estavam fazendo comigo sem poder ver me levou a um lugar ainda mais alto. Não era uma traição. Era um presente que nós dois dávamos um ao outro, uma confiança tão grande que não precisava de palavras nem de testemunhas.

***

O orgasmo me atingiu como uma onda que vinha se formando havia tempo. Começou bem no fundo, em um ponto exato que dedos desconhecidos tinham aprendido a encontrar, e se espalhou por todo o meu corpo em ondas brutais. Eu me arqueei contra a parede, mordendo o lábio para não gritar, e então parei de me conter e gritei mesmo assim.

Todas aquelas mãos me sustentaram enquanto o prazer me arrastava. Não me deixaram cair. Me seguraram pela cintura, pelas coxas, pelos ombros, como se todas tivessem decidido cuidar de mim justamente no momento em que eu estava mais vulnerável. E essa contradição —o abandono total e, ao mesmo tempo, o amparo— foi a coisa mais linda de toda a noite.

Fiquei tremendo, apoiada no muro, recuperando o fôlego em goles. As mãos foram se retirando uma a uma, com uma delicadeza que eu não esperava. Um último roçar na minha face, quase terno, e depois o silêncio.

***

Vesti-me devagar, ainda com as pernas bambas e a pele hipersensível. Quando saí do quarto, a noite ainda cheirava a eletricidade. Damián me esperava do lado de fora, encostado na parede do corredor, com aquele olhar que dizia muito mais do que qualquer palavra.

—Você está bem? —me perguntou, e na voz dele havia desejo, sim, mas sobretudo cuidado.

—Estou melhor do que bem —respondi, e o beijei com uma intensidade nova.

Caminhamos até a saída sem falar. Não era necessário. Ele passou o braço pelos meus ombros e eu me deixei levar, exausta e plena, sentindo ainda o fantasma de todas aquelas carícias na pele.

O muro ficou para trás. O quarto escuro, as vozes sem rosto, as mãos que eu nunca voltaria a reconhecer no meio da multidão. Mas a sensação permaneceu comigo, como uma marca invisível que só eu sabia ler.

Uma fronteira cruzada. Uma fantasia que deixou de morar na minha cabeça para virar carne e memória. E um segredo compartilhado com a escuridão, que naquela noite eu aprendi a não temer.

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