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Relatos Ardientes

O dia em que ela transformou a praia em seu palco

A enseada de Punta Liebre tinha fama de discreta, mas Mariela nunca tinha ido até lá para se esconder. Chegou depois do meio-dia, quando o sol batia a pino e a areia queimava sob os pés, e escolheu o centro exato da praia: nem perto das pedras nem junto à trilha, mas no meio de tudo, onde qualquer um que erguesse o olhar a encontraria sem querer.

Estendeu a toalha com calma. Não havia pressa em nenhum de seus gestos. Tirou o vestido de linho por cima da cabeça, dobrou-o em quatro e o deixou de lado, e ficou nua diante do mar como se estivesse usando algo invisível que a fazia se sentir mais vestida do que o resto.

A brisa do mar roçou sua pele com uma intenção que não estava no ar, mas nela. Ela se sentou, abriu o frasco de óleo e deixou cair um fio dourado sobre a coxa.

Começou devagar.

Suas mãos desceram do joelho até a parte interna da coxa, espalhando o óleo em círculos lentos, e a luz do sol se partiu sobre a pele úmida como se o corpo inteiro tivesse se transformado em um espelho. Cada passada deixava um brilho novo. Cada brilho prendia mais um olhar.

Porque àquela hora a enseada estava cheia, e ela sabia disso.

À sua esquerda, um casal que fingia ler havia parado de virar as páginas. À sua direita, um grupo de três amigos conversava em um idioma que não era o dela e, de repente, falava muito menos. Os sussurros deixaram de ser disfarçados. Algumas frases chegavam até ela com clareza, misturadas ao rumor das ondas, e, embora não entendesse cada palavra, entendia o tom.

— “Olha ela” — disse alguém atrás dela, em voz baixa. — “Parece uma escultura.”

— “É inacreditável” — respondeu outro. — “Não olha tão fixo.”

Mariela não se virou. Deixou que as palavras se pousassem sobre ela como o óleo, sem se defender de nenhuma. Longe de a incomodar, aquele coro de vozes fazia parte da cena que ela estava montando, e ela era a única que conhecia o roteiro.

Inclinou-se para um lado, deixando o quadril desenhar uma curva limpa contra o azul do mar, e continuou subindo o óleo pelo ventre, pelas costelas, demorando na base dos seios sem chegar a cobri-los por inteiro. Os bicos já tinham endurecido, e não por causa do frio.

No meio das pessoas, algo começou a se mover.

Um homem de cabelo desgrenhado e olhar aberto demais ergueu-se da toalha. Deu dois passos em direção a ela, quase sem perceber, arrastado por uma força que não sabia nomear. Parou em seco quando uma voz de mulher o chamou de trás com um tom que era metade pergunta, metade ameaça. O homem voltou a se sentar, derrotado, sem tirar os olhos de Mariela nem por um segundo.

Mais adiante, um sujeito magro ajustou o zoom de uma câmera e a apontou como quem aponta para algo que não vai se repetir.

Ela viu tudo. Via sem olhar, aquela habilidade que têm as mulheres que aprenderam a ler uma sala inteira pelo canto do olho. E o que via lhe agradava.

Virou-se sobre os joelhos, dando as costas para o mar e o rosto para o público, e se inclinou para a frente para alcançar o óleo que faltava nos ombros. O gesto ergueu suas nádegas no ar, devagar, sem pudor, oferecendo uma linha do corpo que parecia desenhada para testar a moral de qualquer um.

Que olhem, pensou. Que levem isso para casa hoje à noite.

Sabia que muitos deles estavam travando uma pequena batalha. O da câmera, contra a própria covardia. O do cabelo desgrenhado, contra a mulher que o vigiava. O casal da esquerda, contra o silêncio incômodo que tinha se enfiado entre as toalhas. Nenhuma dessas guerras era problema dela. Seu único território era aquele retângulo de tecido sob o sol, e ali dentro quem mandava era ela.

Quando terminou com as costas, ergueu-se de novo, de frente. Pegou um pouco mais de óleo na ponta de um único dedo e, antes de usá-lo, traçou um círculo lento no ar, como uma assinatura. Depois levou o dedo ao umbigo e o deslizou para baixo em uma linha reta que parou exatamente onde o olhar de todos queria que continuasse.

Aí ela parou.

Ergueu o olhar, procurou o homem do cabelo desgrenhado no meio da multidão e, quando o encontrou, soprou-lhe um beijo. Lento. Deliberado. Uma permissão que ele não soube se tinha direito de aceitar.

O ar ficou denso.

Houve movimento por toda parte. Um par de homens se levantou com a desculpa de ir para a água e escolheu, por acaso, o caminho que passava a um metro de sua toalha. Outro fingiu procurar algo na mochila por muito mais tempo do que o necessário. Ninguém falava mais. A enseada inteira tinha virado uma plateia silenciosa, e ela era o palco, a atriz e a função inteira.

Mariela não incentivou ninguém. Também não impediu ninguém. Sua postura inteira dizia só uma coisa: se você vier, será nos seus termos, mas aqui dentro o ritmo quem marca sou eu.

Foi então que aconteceu o que ela não tinha previsto, e que a fez sorrir de verdade pela primeira vez naquela tarde.

Uma mulher a poucos metros, de cabelos ruivos e maiô meio tirado, vinha se remexendo na toalha havia um bom tempo. Ela a havia visto observar a cena com uma mistura de inveja e fascínio que Mariela conhecia bem. De repente, a ruiva decidiu. Arrancou a parte de cima do maiô com um puxão quase raivoso, deixou os seios — mais fartos que os de Mariela — expostos ao sol, e começou a passar óleo com gestos desajeitadamente copiados dos que acabara de ver.

Mas seus olhos não buscavam o público. Buscavam um único homem: o dela, deitado ao seu lado, que há um bom tempo mantinha o olhar cravado em Mariela e nem sequer tinha percebido que a parceira se despira.

Era uma declaração de guerra. E Mariela entendeu isso no instante.

Poderia ter levado aquilo como um desafio. Poderia ter aumentado a aposta, roubar o homem com um só gesto, deixar a ruiva humilhada diante da enseada inteira. Tinha as armas para isso e sabia. Mas não era esse tipo de jogo que a interessava.

Em vez disso, virou o torso na direção da mulher, olhou-a nos olhos por cima do barulho de corpos e toalhas e sorriu. Não foi um sorriso de triunfo. Foi um convite. Há espaço, dizia. Nessa dança, cabemos as duas.

A ruiva ficou imóvel, com o frasco de óleo na mão e a resposta presa na garganta. Por um momento, pareceu não entender. Depois, bem devagar, seu rosto foi mudando: a raiva se diluiu, a vergonha também, e em seu lugar surgiu algo novo, algo que ela mesma não esperava sentir sob aquele sol.

Deixou o óleo de lado. Levantou-se. E, sob o olhar incrédulo do próprio homem, atravessou os poucos metros de areia que a separavam de Mariela e se sentou na beirada da toalha dela, tão perto que seus joelhos se roçaram.

— Não sei o que estou fazendo — murmurou a ruiva, com a voz mal firme.

— Ninguém sabe nunca — respondeu Mariela. — Vira de costas. Está faltando óleo nas suas costas.

A mulher obedeceu sem pensar, como se tivesse passado a tarde inteira esperando uma ordem que lhe desse permissão. Mariela despejou um pouco de óleo nas mãos, aqueceu-o esfregando as palmas e o pousou sobre os ombros da desconhecida. A pele alheia se arrepiou sob seus dedos. Ela desceu pela coluna com uma lentidão que não tinha nada de prática e tudo de intenção, sentindo a respiração da outra se quebrar a cada centímetro.

A enseada inteira havia deixado de existir para as duas, e, no entanto, nunca tinham tido tanto público.

O homem do cabelo desgrenhado continuava pregado no lugar, com a boca entreaberta. O da câmera havia baixado o aparelho, incapaz de decidir se aquilo merecia uma foto ou apenas ser visto com os próprios olhos. O casal da esquerda já nem fingia. E o marido da ruiva contemplava a mulher convertida em uma mulher que ele não reconhecia, uma que se deixava acariciar as costas por uma desconhecida sob o sol do meio-dia, com a cabeça atirada para trás e os lábios entreabertos.

— Estão te olhando todos — sussurrou Mariela no ouvido da outra, sem parar de deslizar as mãos. — Está gostando?

A ruiva demorou a responder. Quando respondeu, sua voz era um fio.

— Eu não sabia que podia gostar tanto assim.

Mariela sorriu contra o cabelo dela. Sabia exatamente a que ela se referia. Lembrava da primeira vez em que ela mesma tinha sentido aquele vertigem, aquela descoberta de que ser desejada por muitos ao mesmo tempo não a diminuía, a multiplicava. Que o corpo exposto não era uma rendição, mas o centro exato do poder.

Continuou descendo as mãos até a cintura da mulher e ali parou. Não por pudor. Por domínio. Para deixar claro, para ela e para a enseada inteira, que o ritmo ainda era determinado por ela.

— Da próxima vez — disse, afastando-se apenas o suficiente — você vem sozinha. Sem ele. E escolhe você quem deixa olhar.

A ruiva se virou para encará-la, com os olhos brilhando e as bochechas em chamas, e assentiu como quem acaba de assinar um pacto sem volta.

Mariela finalmente se recostou na toalha, satisfeita, e fechou os olhos ao sol. Ao seu redor, a praia inteira ainda prendia a respiração, esperando mais um movimento que ela, desta vez, decidiu não oferecer.

O círculo que ela tinha traçado no ar uma hora antes continuava aberto. Mas já não era só areia. Era um palco, e ela tinha decidido quem entrava.

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