O pacote que Lucía abriu quando não havia ninguém em casa
A campainha tocou justamente quando Lucía começava a se perder na leitura. Ela marcou a página com o dedo, suspirou e se levantou do sofá com a preguiça de quem não quer largar o que estava fazendo. Do outro lado da porta, o entregador segurava uma caixa pequena, anônima, sem nada escrito além do seu nome e do endereço do apartamento.
— Obrigada — disse ela, assinando com um rabisco rápido.
Fechou a porta, trancou por hábito e voltou à sala com o pacote nas mãos. Sabia perfeitamente o que tinha pedido: um brinquedo pequeno, discreto, apenas um primeiro passo para algo que vinha rondando sua cabeça havia semanas. Até então, sua única experiência com aquela parte do corpo tinha sido a ponta de uma caneta numa noite de tédio, uma carícia desajeitada que a deixara mais intrigada do que satisfeita.
Os pais dela estavam fora durante todo o fim de semana. O apartamento era dela, o silêncio era dela, e a tarde se estendia à sua frente sem nenhuma interrupção possível.
Sentou-se no sofá e rasgou o papelão com impaciência, sem cuidado, querendo ver o que tinha comprado antes que qualquer desculpa a freasse. E então ficou olhando o conteúdo com a boca entreaberta.
Não havia um único brinquedo. Havia vários. Uma coleção completa, organizada por tamanhos, desde um apenas um pouco mais grosso que um dedo até outro de vinte centímetros e uma espessura que a fez engolir em seco. Alguém tinha se enganado, ou o vendedor havia sido generoso, mas o envelope com seu nome não deixava dúvidas: aquilo era para ela.
Bom — pensou, com um sorriso nervoso —. Surpresa.
Pegou o menor e o girou entre os dedos, avaliando o peso, o toque liso e um pouco frio. Não tinha pressa. Essa era a vantagem de estar sozinha: podia ir devagar, ouvir o próprio corpo, parar quando quisesse e recomeçar.
Desabotoou a calça do pijama e a deixou cair no chão. A primeira carícia foi tímida, apenas a ponta do brinquedo roçando o clitóris por fora, desenhando círculos lentos. O toque lhe agradou mais do que esperava. Repetiu o movimento, pressionou um pouco, e sentiu os mamilos enrijecerem sob a camiseta sem que precisasse tocá-los.
Ergueu os olhos para o resto da coleção, ainda organizada dentro da caixa. Cada brinquedo parecia uma promessa, uma pergunta que teria de responder mais cedo ou mais tarde. A ideia de tê-los todos à disposição, sem ninguém para julgá-la, lhe provocou um arrepio que percorreu sua coluna.
Fechou os olhos. Respirou fundo. A tarde tinha acabado de começar.
***
Primeiro, ela testou com a boceta, deslizando o brinquedo pequeno até o fundo, brincando com um ritmo que ela mesma marcava. Mas aquilo lhe soube a pouco. Tirou-o, pegou um de tamanho considerável e começou de novo, desta vez sem tanta paciência, movendo-o com força, buscando aquela tensão que subia do ventre e a deixava sem fôlego.
Abriu as pernas no sofá, apoiou os pés na mesa de centro e se deixou levar. Os primeiros espasmos a surpreenderam pela intensidade, uma onda que a fez arquear as costas e morder o lábio para não gritar num apartamento vazio que, de qualquer modo, ninguém ouviria. Estava encharcada, quente, completamente entregue ao que o corpo lhe pedia.
E foi então que se lembrou de por que tinha comprado tudo aquilo.
Pegou de novo o brinquedo menor. Estava escorregadio, brilhante, e ao levá-lo mais para baixo encontrou seu cu igualmente úmido, lubrificado por tudo o que sua boceta não parava de soltar. Encostou a ponta no ânus e ficou imóvel, sentindo a pressão, o formigamento de algo novo.
— Calma — disse em voz baixa, quase num sussurro. — Devagar.
Respirou fundo outra vez. Relaxou os ombros, deixou a tensão das pernas cair e empurrou só um pouco. Metade entrou com uma facilidade que a deixou admirada. Nenhuma dor, apenas uma sensação densa, morna, diferente de tudo o que ela havia conhecido antes. Pela primeira vez confiou no próprio corpo, nessa parte que sempre considerara proibida, e o que recebeu em troca foi puro prazer.
Empurrou um pouco mais até entrar inteiro. Deixou-o ali dentro por alguns segundos, sentindo como seu cu se fechava ao redor dele e depois o expulsava com um pequeno espasmo, como se tivesse vida própria. Aquela sensação de cheio e vazio, de ter algo e perdê-lo, a enlouqueceu. Repetiu uma vez. E outra. E mais uma.
Cada vez que o brinquedo entrava e saía, uma corrente nova subia por suas pernas e se misturava ao que sentia na frente. Descobriu que, se combinasse as duas coisas, os dedos de uma mão trabalhando o clitóris enquanto a outra empurrava devagar por trás, o prazer se multiplicava até se tornar quase insuportável. Teve de parar um momento, ofegante, assustada com a própria intensidade.
Chegou a pegar o médio e a encostá-lo, mas percebeu logo que era demais para a primeira vez. Não havia problema. Para uma tarde de descoberta, o que acabara de sentir já era mais do que suficiente.
Ficou deitada, recuperando o fôlego, com um sorriso bobo no rosto e o coração ainda acelerado. Depois limpou os brinquedos com cuidado, arrumou a bagunça do sofá e secou o chão com o pano do pijama que tinha ficado jogado. Quando tudo voltou ao lugar, ninguém teria imaginado o que acontecera naquela sala.
Mas ela sabia. E já pensava na próxima vez.
***
A próxima vez foi no dia seguinte. E a seguinte, naquela mesma noite.
Em uma semana, Lucía já conseguia enfiar a ponta do brinquedo grande e mantê-la dentro por vários minutos, respirando com calma, aprendendo o ritmo exato do próprio corpo. Três dedos entravam sem esforço, e cada sessão lhe parecia mais intensa que a anterior. Chegou a um ponto em que mal tocava a própria boceta: todo o desejo havia se concentrado naquele outro lugar que durante anos ela ignorara.
Descobriu que a expectativa era quase tão boa quanto o final. Passava o dia com a mente em outro lugar, contando as horas até ficar sozinha, imaginando texturas, tamanhos, sensações novas. Na aula, não prestava atenção. No jantar com as amigas, sorria sem ouvir, perdida no próprio segredo.
Ao fim de um mês, o brinquedo grande quase já não era sentido. Seu corpo tinha se acostumado, aprendido, pedido mais. E ela, longe de se assustar, aceitou isso com uma mistura de orgulho e um toque de inquietação.
Até onde vou chegar?, perguntava-se às vezes, deitada no escuro do quarto.
Começou a experimentar com outras coisas. Objetos do cotidiano que de repente passou a olhar com outros olhos: o cabo liso de um utensílio, a curva de uma fruta firme, qualquer forma que prometesse uma sensação diferente. Cada descoberta era uma pequena vitória, mais um degrau numa escada que parecia não ter fim.
Também mudou a forma como se preparava. Já não se atirava sem mais: acendia uma vela, colocava música baixa, dava a si mesma tempo para entrar no estado certo. Transformava cada sessão num ritual privado, algo só seu, um espaço onde podia ser exatamente quem queria ser sem dar explicações. Gostava desse poder, o de mandar no próprio corpo e descobrir que ele respondia melhor quanto mais ousava.
Houve noites em que adormeceu exausta, com o corpo mole e a mente em branco, e acordou pela manhã com a primeira ideia fixa no que faria naquela tarde. Não se reconhecia, e ao mesmo tempo nunca se sentira tão dona de si.
Três meses depois daquela primeira tarde, o que começara como curiosidade tinha se tornado uma rotina da qual ela não podia abrir mão. Não falhava um único dia. Conhecia-se melhor do que nunca, sabia exatamente o que queria e como conseguir, e ainda assim a sensação de que sempre precisava de um pouco mais não a abandonava.
***
Uma noite, diante do espelho do banheiro, Lucía se observou como se quisesse se reconhecer. A garota tímida que tinha assinado aquele pacote sem saber o que continha já não existia. Em seu lugar havia alguém que aprendera a não ter vergonha do próprio desejo, que se permitira explorar sem pedir permissão a ninguém.
Logo faria aniversário. Celebraria com as amigas, sopraria as velas, fingiria que a cabeça estava na festa. Mas por dentro pensava em outra coisa. Pensava que já não lhe bastavam os brinquedos, que sua fantasia crescera até um ponto em que precisava de algo mais real, mais quente, mais vivo.
Queria compartilhar isso. Queria que duas mãos que não fossem as suas a abrissem devagar, que dois corpos se revezassem para preenchê-la enquanto ela se entregava sem reservas. Tinha imaginado isso tantas vezes que já não lhe parecia impossível, e sim um plano.
E faltava apenas um mês.
Fechou a torneira, olhou-se uma última vez e sorriu para o reflexo. Sabia que esse aniversário não se pareceria com nenhum anterior. A única coisa que precisava decidir era a quem convidar para seu presente.