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Relatos Ardientes

O vizinho de cima aprendeu a escutar minhas noites

Há algo que não conto para quase ninguém, e é que aprendi mais sobre o meu próprio corpo em seis meses de confinamento do que em todos os anos anteriores juntos. Moro sozinho, em um apartamento pequeno de um prédio antigo onde as paredes são finas como papel, e, quando o mundo inteiro parou e deixou de ser possível encontrar com alguém, não me restou outra opção senão voltar o olhar para dentro. Para mim.

Tenho trinta e quatro anos e sempre fui daqueles que precisam descarregar com frequência. Não é exagero: há dias em que o desejo me desperta de madrugada como se eu tivesse dezoito outra vez, com o corpo tenso e a cabeça cheia de imagens que não pedem licença. A noite é a minha hora. Quando o prédio fica em silêncio e só se ouve o zumbido da geladeira, algo dentro de mim se acende e não há jeito de apagar até que eu termine.

Antes eu resolvia isso rápido, quase por formalidade. Mas o confinamento me obrigou a ter paciência comigo mesmo, a me tratar como eu gostaria que outra pessoa me tratasse. E descobri, quase sem querer, que o prazer na solidão não precisa ser uma versão menor de nada. Pode ser um território inteiro a explorar.

***

Meu primeiro companheiro daqueles meses eu guardava numa gaveta havia tempo, comprado num impulso numa tarde e quase esquecido depois. Um brinquedo grosso, escuro, de um tamanho que na primeira vez me intimidara. Resgatei-o numa noite qualquer, com uma taça de vinho a mais e a casa às escuras, e naquela noite tudo mudou.

Como muita gente, eu podia trabalhar de casa. Passava as manhãs diante do computador, respondendo e-mails e atendendo reuniões intermináveis. E foi justamente aí, entre uma planilha e outra, que me ocorreu a ideia mais absurda e melhor de toda a quarentena. Descobri que, se eu o posicionasse bem preso na cadeira e me sentasse devagar, podia seguir trabalhando, atravessado por uma sensação lenta que subia pela minha coluna cada vez que eu me mexia um pouco.

Aprendi a disfarçar nas reuniões. A apertar os lábios quando o prazer ameaçava escapar em forma de suspiro, a mover quase nada os quadris enquanto alguém falava de metas trimestrais. Se soubessem, eu pensava, e essa ideia me acendia ainda mais. Terminava cada manhã exausto e satisfeito, com um sorriso que meus colegas atribuiriam, suponho, à vontade de começar o dia.

***

O chuveiro virou outro dos meus lugares favoritos. Eu tinha comprado um daqueles acessórios com ventosa e o prendia nos azulejos na altura certa. Sob a água quente escorrendo pelas costas, com o vapor embaçando tudo, eu me entregava de um jeito diferente, mais escorregadio, mais animal. O som da água abafava meus gemidos, ou era isso que eu acreditava na época.

E depois havia a casa, que nunca estivera tão limpa. Descobri que as tarefas domésticas, além de necessárias, podiam ser um jogo. Enquanto passava o aspirador ou estendia a roupa, fui inventando maneiras de não parar nunca por completo. Improvisava com o que tinha à mão, aprendia a regular a altura, o ritmo, a apoiar o peso do corpo do jeito exato para que cada movimento contasse. O truque era não ter pressa, deixar que a tarefa mais entediante se transformasse em desculpa para prolongar o desejo por horas, levando-o comigo de um cômodo a outro como quem carrega um segredo aceso sob a roupa.

Lembro de uma tarde de domingo, com o rádio ligado e a luz entrando oblíqua pela janela, em que me peguei passando camisas e tremendo ao mesmo tempo, mordendo o lábio para não gritar. Depois ri sozinho, largado no sofá. Nunca tinha imaginado que o confinamento me levaria até lá.

***

Mas onde eu realmente gozei foi na minha cama. A cama velha, com a cabeceira de madeira que batia contra a parede, aquela parede fina que separava meu quarto do resto do prédio.

Teve noites inteiras dedicadas só a mim. Eu me besuntava de óleo e percorria meu corpo devagar, alongando cada sensação, negando o fim uma vez após a outra até não aguentar mais. Aprendi que o segredo não estava em correr, mas em sustentar: levar o corpo à beira e se afastar, e voltar, e se afastar outra vez, até que o prazer se torne quase insuportável e então, só então, se deixar cair.

De bruços, com o travesseiro dobrado por baixo e as duas mãos agarradas à cabeceira, marcava um ritmo que crescia sozinho. Primeiro lento, quase tímido. Depois insistente. No fim, frenético, com a madeira batendo no muro em uma pancada constante que enchia o quarto, minhas pernas tensas, o corpo inteiro apertado como uma corda prestes a se romper. E, quando vinha, vinha com um grito abafado contra o lençol que nem eu mesmo reconhecia como meu.

Nesses meses, deixei de ter vergonha do meu próprio prazer. Parei de fazê-lo em silêncio, escondido de ninguém, porque não havia ninguém. Ou era o que eu pensava.

***

Numa manhã, ao recolher o correio debaixo da porta, encontrei entre os panfletos um papel dobrado em quatro. Não tinha remetente. Abri-o na cozinha, com o café na mão, esperando uma reclamação do condomínio ou um aviso do porteiro.

Não era nada disso.

«Moro exatamente acima de você», dizia a nota, com uma letra caprichada, masculina. «Não quero incomodar e espero que você não leve a mal. Mas estes meses foram muito duros e, sem querer, eu ouvi você em mais de uma noite. Você não imagina o bem que isso me fez. Obrigado por me lembrar que ainda sei desejar. Um vizinho agradecido.»

Fiquei de pé no meio da cozinha, relendo aquilo, com o rosto ardendo e o coração disparado. A vergonha durou exatamente o tempo que levei para perceber outra coisa: eu não estava incomodado. Pelo contrário. A ideia de que alguém, do outro lado do teto, tivesse estado escutando minhas noites, prendendo a respiração ao mesmo tempo que eu, percorreu meu corpo como uma corrente elétrica.

Eu sabia quem era. Tinha cruzado com ele algumas vezes na escada. Um cara da minha idade ou pouco menos, de sorriso fácil, que morava sozinho igual a mim. Nunca tínhamos falado além de um cumprimento. E, de repente, compartilhávamos um segredo enorme, sustentado por uma parede de gesso.

***

Nessa noite eu não consegui pensar em outra coisa. Fui para a cama cedo, mas não para dormir. Fiquei deitado na escuridão, escutando. E, pela primeira vez, me dei conta dos sons que vinham de cima: uma cadeira arrastando, passos, o rangido de uma cama.

Sorri na penumbra. Ele está acordado. Igual a mim.

Não sei o que me possuiu. Talvez a certeza de ter plateia, de não estar sozinho na minha solidão. Comecei devagar, como sempre, mas desta vez com toda a intenção do mundo. Deixei a cabeceira falar por mim, golpe após golpe contra a parede, marcando um ritmo que eu sabia que ele reconheceria na hora. Deixei escapar a voz que normalmente eu abafava contra o travesseiro.

E, lá em cima, o silêncio mudou. Virou um silêncio que escuta, um silêncio carregado, atento. Por um instante, achei ouvir, entre um golpe e outro, um rangido respondendo ao meu, como um eco que chegava com um segundo de atraso. Dois corpos separados por um teto, se encontrando sem se tocar.

Nunca tinha sentido nada parecido. Não era só o prazer do corpo, era saber-me desejado, ouvido, acompanhado através da única distância que o confinamento não tinha conseguido fechar. Cheguei com uma intensidade que me deixou vazio e trêmulo, agarrado à cabeceira, com o nome de um desconhecido na ponta da língua, mesmo sem saber qual era.

***

No dia seguinte, fui eu quem deixou uma nota para ele. Levei meia hora para escrever três linhas. «Não levei a mal. Muito pelo contrário. Quando isso tudo acabar e for possível, eu gostaria de te convidar para um café. As paredes já nos conhecem bem demais.» Assinei com o número do meu apartamento e deslizei o papel por baixo da porta antes que eu me arrependesse.

As semanas passaram. Houve mais noites e mais silêncios compartilhados, uma conversa muda que nenhum dos dois ainda ousava transformar em palavras durante o dia. Aprendi a desejar com a certeza de estar sendo ouvido, e descobri que essa certeza multiplicava cada sensação até transformá-la em outra coisa.

O confinamento me ensinou a estar comigo mesmo sem medo, a fazer do prazer na solidão uma arte e não um substituto. Aprendi que conhecer o próprio corpo não é prêmio de consolação, mas a base de qualquer coisa que valha a pena compartilhar depois com outra pessoa. Mas também me deu algo que eu não esperava: a fantasia de um outro ao alcance da voz, desejando ao mesmo tempo que eu, separados apenas por alguns centímetros de parede. Essa proximidade impossível, esse jogo de ecos na escuridão, me marcou mais do que qualquer encontro real que eu tivesse tido antes.

Quando enfim pudemos abrir as portas para o mundo, a primeira porta que eu bati foi a dele. Mas essa, amigos, é outra história. E eu juro que valeu a pena cada noite de espera.

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