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Relatos Ardientes

O que aconteceu entre meus dois amigos e eu naquela madrugada

Fazia quase um ano que nós três não nos encontrávamos. A vida tinha nos espalhado entre mudanças, turnos impossíveis e desculpas que soavam cada vez mais ocas. Mas naquela noite, quando os vi entrar, foi como se o tempo se recolhesse sobre si mesmo e nos devolvesse ao ponto exato onde o havíamos deixado.

Marina chegou primeiro. Usava um vestido simples, daqueles que em qualquer outra mulher passariam despercebidos, mas nela nada era simples. Seu sorriso tinha aquela calma que esconde tempestades. Quando me abraçou, senti o calor da sua pele através do tecido, seu perfume, e algo mais que me atravessou sem aviso.

Adrián apareceu um pouco depois, com seu ar descompromissado de sempre, a camisa arregaçada até os cotovelos, aquele olhar que nunca termina de dizer o que pensa. Me cumprimentou com uma piada sem graça, como costumava fazer, mas havia uma nota diferente em sua voz. Curiosa. Tensa. Algo que eu nunca tinha ouvido nele antes.

Durante o jantar, as risadas foram um fio constante. As lembranças antigas se misturavam com o vinho e com olhares que duravam um segundo a mais. Os dedos se roçavam sobre a toalha ao alcançar a garrafa, ao passar o pão, e nenhum de nós afastava a mão com a rapidez que seria normal entre simples amigos.

— Se hoje à noite nenhum de nós pegar ninguém — disse Adrián, girando a taça entre os dedos —, sempre ficamos com nós mesmos.

Marina jogou um guardanapo na cara dele e soltou uma gargalhada. Eu fingi rir também. Mas nenhum dos três desviou o olhar, e o silêncio que veio depois foi curto, apenas alguns segundos, tempo suficiente para entender que a frase não tinha sido totalmente uma brincadeira.

Não tinha sido brincadeira nenhuma.

***

O bar nos recebeu com uma música densa e luzes baixas, aquele ar carregado de risadas alheias que os reencontros têm quando algo está prestes a mudar. Eu não saberia dizer quando o jogo começou. Talvez tenha sido a forma como Marina prendeu o cabelo enquanto falava, deixando o pescoço nu sob a luz, sem medir o que provocava.

Adrián nos observava do seu banco, tranquilo, com uma atenção pesada, como se estivesse medindo algo invisível entre nós duas. Saímos para dançar sem muita intenção. No começo mantínhamos distância, mas a pista era pequena e a música insistente, e muito em breve essas distâncias se tornaram mínimas, quase inexistentes.

Marina girou sobre si mesma, rindo, e a mão dela roçou meu lado. Não foi um acidente. Eu soube disso pela forma como deixou os dedos apoiados por um instante a mais do que o necessário, bem sobre o quadril. Um arrepio me percorreu de cima a baixo.

Adrián se aproximou por trás. Não me tocava, mas eu podia sentir sua presença colada às minhas costas, o calor do seu corpo, sua voz perto do meu ouvido se misturando à música.

— Você percebe o que está acontecendo? — murmurou.

Não respondi. Marina me olhava a menos de um palmo de distância, e aquele olhar já não era de amizade, ou não totalmente. O bar inteiro se desfez. Só existia o vai e vem dos corpos, o roçar quase imperceptível, a certeza perigosa de que mais um passo, mais uma palavra, bastariam para cruzar uma linha que vínhamos contornando havia anos.

***

Não me lembro de quem propôs. Só sei que, de repente, nós três estávamos na minha sala, com o barulho do bar ainda zunindo nos ouvidos como um eco distante. Ninguém falava. Não era preciso. A tensão tinha forma, quase dava para tocar com a mão.

Marina se sentou no sofá, à minha direita, com um sorriso mais tênue do que antes, como se guardasse algo que ainda não se atrevia a dizer. Adrián ficou em pé perto da luminária do canto, a única luz acesa, nos observando com as mãos nos bolsos.

Por um instante pensei em dizer qualquer bobagem, quebrar o feitiço antes que fosse tarde. Não fiz isso. Não podia. Havia algo hipnótico na maneira como Marina e eu nos olhávamos, em como o ar do quarto parecia conter algo mais que oxigênio. E então entendi que aquilo não era só desejo: era uma espécie de reconhecimento, como se nós três estivéssemos esperando exatamente isso havia muito tempo.

Me inclinei na direção de Marina. Ela não recuou. Encostou-se mais um pouco, me medindo, deixando o ar entre nossas bocas ficar fino. Adrián continuava perto, sem intervir, atento a cada gesto: uma risada contida, uma mecha afastada, a forma como nossos olhos se encontravam e voltavam a se separar.

E no fim fui eu quem a beijou. Foi um beijo lento, úmido, daqueles que deixam fome de mais. Marina o devolveu com uma ânsia que não disfarçou, como se esperasse por aquilo em silêncio havia meses. Seus lábios eram macios e sua língua quente, e quando ela mordeu de leve meu lábio inferior senti algo se soltar dentro de mim.

Adrián nos observava da beirada do sofá. Estendi uma mão para ele. Marina estendeu a outra. Os três nos fundimos num abraço desajeitado e quente, um emaranhado de carícias, beijos e suspiros em que ninguém mais contava de quem era cada mão.

Começamos a despir Marina entre nós dois. Enquanto eu descia as alças do vestido, Adrián percorria o pescoço dela com os lábios, deixando um rastro de beijos sobre cada pedaço de pele que ia ficando exposto. Marina fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. O que tantas vezes eu tinha imaginado sozinha estava prestes a acontecer de verdade, e a ideia acelerou meu pulso.

Quando o vestido caiu no chão, Marina ficou exposta para nós dois. Eu a examinei de cima a baixo sem disfarçar, e ela sustentou meu olhar com uma mistura de pudor e orgulho que a tornava ainda mais desejável.

Depois foi a vez de Adrián. Marina e eu nos olhamos por um segundo, nos entendemos sem palavras, e juntas começamos a despi-lo, a beijá-lo, a percorrer seu peito e seu ventre com as mãos. Nossas respirações foram se sincronizando. Ele gemia baixo e rouco ao sentir quatro mãos reconhecendo seu corpo ao mesmo tempo, sem saber a qual atender primeiro.

Eu fui a última a tirar a roupa, e fiz isso sozinha, devagar, enquanto os dois me devoravam com os olhos. Me senti desejada como poucas vezes, e aproveitei o espetáculo improvisado que estava lhes oferecendo. Marina e Adrián se acariciavam sem deixar de me olhar, e havia algo quase mágico naquela troca, um ritmo novo que nenhum dos três havia dançado antes.

Fiquei no meio dos dois. Ambos me beijavam e se beijavam entre si por cima do meu ombro, e eu me deixei levar por essa maré de bocas e mãos. Acabamos no sofá. Me deitei e Marina se aproximou, me beijando da clavícula para baixo, acariciando meus seios com seus dedos finos enquanto eu arqueava as costas em busca de mais.

Adrián, hipnotizado, se aproximou por trás dela. Passou as mãos pelas pernas dela, pelas nádegas, subiu pelas costas até alcançar os seios dela por trás. Marina gemia contra minha pele, e cada gemido vibrava diretamente sobre mim.

Quando ela começou a descer, beijando meu ventre, mudei de posição para abrir espaço e, sem pensar, fiquei também ao alcance de Adrián. A imagem dos três encaixados naquele sofá era deliciosa: eu aberta para a boca de Marina, Marina ajoelhada e exposta para ele.

Ele se demorou um momento, apenas roçando nela, verificando o quanto ela estava excitada. E, quando a língua de Marina sobre mim acelerou o ritmo, Adrián começou a penetrá-la na mesma cadência, de modo que cada impulso dele se transmitia por ela até chegar a mim.

O sofá rangia sob o nosso peso, as paredes absorviam os gemidos, a pele buscava a pele sem descanso. Eu me arqueava sob a boca de Marina, cada vez mais perto do limite. Ela se movia entre dois prazeres ao mesmo tempo: o de continuar me devorando e o próprio, as coxas indo ao encontro de cada investida.

Adrián arfava a cada movimento, olhando para nós duas como se ainda não acreditasse onde estava. O vaivém frenético dos três corpos nos arrastou sem freios. Marina foi a primeira a se desfazer, com um grito abafado contra minha coxa. Segundos depois, Adrián e eu chegamos quase ao mesmo tempo: eu me derramando sob seus lábios, ele se esvaziando dentro dela com um gemido longo que foi se apagando aos poucos.

***

O sol começava a se infiltrar entre as cortinas. A cidade despertava do lado de fora, mas dentro daquele quarto o tempo continuava parado. A madrugada tinha deixado sua marca em tudo: nos lençóis revirados do sofá, nos corpos enroscados, nos segredos que nunca mais poderíamos devolver ao silêncio.

Marina se recostou no meu ombro, ainda sentindo a proximidade de Adrián. Ele ficou estendido aos nossos pés, com um sorriso cansado e os olhos semicerrados. Eu os observava em silêncio e entendi que aquilo não tinha sido só atração. Era eletricidade, reconhecimento, um fio invisível que vinha puxando nós três há anos sem que nenhum de nós ousasse nomeá-lo.

Não fizeram falta palavras. Cada risada da noite, cada olhar, cada silêncio ficaria gravado em algum lugar ao qual só nós três teríamos acesso. E compreendi que, mesmo quando amanhecesse e a vida voltasse a nos dispersar, aquela madrugada continuaria pulsando entre nós, sempre, como uma lembrança magnética à qual mais cedo ou mais tarde quereríamos voltar.

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