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Relatos Ardientes

O ritual das máscaras que despertou Renata

Renata era arquiteta e passava semanas sem dormir mais de quatro horas seguidas. Os prazos impossíveis, as reuniões intermináveis e o peso de cada decisão a tinham empurrado à beira do colapso. Como tantas outras vezes, enfiou a barraca no porta-malas, provisões para uma semana, e foi sozinha para as montanhas, longe de tudo e de todos.

A floresta era seu refúgio. O ar frio, o estalar das folhas sob suas botas e um silêncio quebrado apenas pelos pássaros eram a única terapia que realmente funcionava para ela. Mas, dessa vez, algo parecia diferente desde o começo.

Enquanto dirigia pela estrada de terra que serpenteava até seu canto de sempre, viu figuras imóveis entre as árvores. Pessoas em pé, quietas, com máscaras de cervo cobrindo o rosto. Elas a observaram passar sem se mover.

Um festival? Algum ritual de gente da vila?, pensou, intrigada. Não deu maior importância, embora um arrepio lhe percorresse as costas e ficasse ali, grudado, na nuca.

***

A noite caiu tranquila, como sempre fora naquele claro que Renata considerava quase seu. O fogo crepitava sob a lata de comida, o aroma se misturando à fumaça que subia em direção às estrelas. Ela se deitou no saco de dormir, deixando-se envolver pela solidão. Até que o silêncio se quebrou.

Primeiro foi um sussurro, mal audível. Depois, uma melodia distante: tambores, guitarras, um trompete que soava alegre demais para aquela hora. A música a envolveu, hipnótica, como se cada nota falasse diretamente em seu ouvido. Venha. Junte-se a nós.

Ela se ergueu, alerta. E então os viu.

Entre as árvores, figuras dançando. Homens e mulheres com os corpos envoltos em tecidos leves que mal disfarçavam as curvas e os músculos sob a luz da lua. Todos usavam máscaras de cervo, os rostos talhados em um sorriso eterno, mas os movimentos eram fluidos, sensuais, como se o ritmo os possuísse por dentro.

Um deles se separou do grupo e avançou em sua direção com passos lentos, calculados. A máscara branca brilhava sob o fogo das tochas.

—A noite é jovem —murmurou, estendendo uma mão enluvada—. Não quer dançar?

Renata sentiu o impulso de recuar, de procurar algo para se defender, mas a música e a forma como aqueles corpos se moviam a deixaram pregada no lugar. O ar cheirava a incenso e suor, a ervas que ela não reconhecia e que, ainda assim, lhe faziam a boca salivar.

—Quem são vocês? —perguntou, mas sua voz saiu fraca, perdida entre os tambores.

—Os que celebram —respondeu outra figura, deslizando ao seu lado, roçando-lhe o ombro com uma delicadeza que a fez estremecer—. Os que adoram sob a lua.

***

Nunca soube como foi parar no centro daquele círculo de corpos dançantes. Alguém havia colocado uma máscara de cervo nela e o material apertava suas bochechas, os olhos de cristal escuro reduzindo sua visão a lampejos de pele iluminada pelas tochas.

As mãos alheias a exploravam com uma mistura de timidez e ousadia, como se já a conhecessem, como se soubessem exatamente onde tocar. Uns dedos se fecharam em volta dos seus seios por cima da blusa, os polegares traçando círculos sobre os mamilos. Outras mãos, mais suaves, desceram por suas costas até se enfiar na curva das nádegas com uma pressão que a obrigou a prender a respiração.

—Sinta a música —sussurrou uma voz colada ao seu ouvido, enquanto uma palma quente pousava sobre seu ventre e descia, devagar, até acariciá-la por cima da calça.

Renata arfou. Não se afastou. O cheiro de ervas queimadas, o ritmo constante dos tambores, os olhares fixos daquelas máscaras vazias: tudo a mantinha em uma espécie de transe lúcido. Seu corpo respondia sozinho, arqueando-se para as carícias, permitindo que lhe abrissem o zíper da calça, que os dedos se insinuassem sob a roupa íntima.

—A lua quer que você goze —disse outra pessoa, e dessa vez uma boca se juntou às mãos, mordendo-lhe o pescoço enquanto os dedos que a acariciavam se tornavam mais insistentes.

Era demais e, ao mesmo tempo, não era suficiente.

Tiraram-lhe a roupa com mãos experientes, cada peça dobrada e deixada de lado com uma espécie de reverência, como se naquele lugar, sob a lua cheia e o murmúrio das árvores, só a pele importasse. Ao olhar ao redor, Renata viu que os demais faziam o mesmo. Os tecidos vaporosos caíam no chão, revelando corpos acesos, entregues. Homens excitados. Mulheres com os mamilos erguidos. Todos avançavam em direção a ela, mas não com violência, e sim com uma devoção quase religiosa.

—Você é o templo —sussurrou uma mulher de cabelos escuros, roçando-lhe o ombro com os lábios—. Deve ser adorada. E deve nos receber.

Não havia líder, ninguém dando ordens. Apenas a fé compartilhada, o desejo coletivo que os movia como uma única criatura. Boccas e mãos percorreram Renata: lábios em seus mamilos, línguas traçando círculos em seu umbigo, dedos afundando nela com uma precisão que a fez gemer sem pudor.

Um homem se ajoelhou diante dela, a máscara inclinada, e a encarou por um instante antes de enterrar o rosto entre suas coxas, saboreando-a sem pressa. Uma mulher se posicionou à sua frente e guiou a boca de Renata até seus seios, enquanto mais mãos percorriam cada centímetro do seu corpo.

***

Depois vieram as penetrações. Primeiro um homem, empurrando dentro dela com uma lentidão agonizante, preenchendo-a até fazê-la acreditar que não cabia mais nada. Depois uma mulher, deslizando um brinquedo preso à sua coxa, enquanto outro homem procurava sua boca. Não havia turnos nem hierarquias. Só o fluxo constante de corpos entrando e saindo dela, murmurando palavras sem sentido entre gemidos.

—A deusa se compraz —gritou alguém, e Renata sentiu algo mudar no ar, como se a própria lua estivesse prendendo a respiração.

Ela já não pensava. Só sentia. Um homem robusto a ergueu sem esforço, enterrando-se nela enquanto ela lhe envolvia a cintura com as pernas. Uma mulher de pele canela deslizou por baixo e começou a lamber o ponto exato onde ambos se uniam, acrescentando um novo arrepio a um prazer já insuportável.

As máscaras de cervo continuavam idênticas, mas agora Renata distinguia seus amantes por outros detalhes: o homem que a tomava por trás tinha cicatrizes antigas nos ombros; a mulher que mordiscava seus mamilos cheirava a baunilha e tabaco; o que agora buscava sua boca usava um colar de contas que batia em seu queixo.

Alguém ajustou sua máscara e um beijo úmido encontrou seus lábios. Não durou o bastante para reconhecer o sabor, porque outra boca já a reclamava, e depois outra, e mais outra. Renata arqueou as costas com um grito abafado. Não sabia se eram três ou trinta os que a cercavam. Só que o êxtase a partia em dois enquanto umas mãos apertavam seus seios, unhas lhe marcavam as coxas e línguas recolhiam o suor da sua pele como se fosse néctar.

***

Deitaram-na sobre uma armação de couro e madeira, o corpo brilhando de suor, preso com correias macias que não a comprimiam, mas pareciam consagrar cada um de seus movimentos. As máscaras de cervo ainda estavam ali, observando, participando, mas agora o ritual tinha se transformado em algo mais profundo.

Toda vez que um novo amante a penetrava, outro se aproximava para alimentá-la. Pedaços de fruta madura passados de boca em boca até a sua, misturando o doce da polpa com o gosto de pele alheia. Vinho tinto que corria espesso, às vezes diretamente dos lábios de outra pessoa, às vezes derramado sobre seu peito para ser lambido por várias línguas antes de chegar à sua boca. Pão untado com mel, desfeito entre os dentes de um homem que depois se inclinava para beijá-la e lhe transferia a migalha morna.

As revezas continuaram até Renata deixar de distinguir entre prazer e cansaço, entre fome e saciedade, entre vergonha e glória. Uma mulher madura, de quadris largos, montou-a por trás com um falo de silicone enquanto mordia suas nádegas. Um homem de torso anguloso buscou sua boca e se esvaziou entre seus lábios com um gemido longo.

O céu começava a se tingir de púrpura e ouro quando o ritual alcançou seu ponto mais alto. Colocaram-na de barriga para cima sobre um altar de pedra, as pernas abertas e presas com sedas carmesim que se moviam a cada investida. As máscaras se apertaram ao redor, os corpos reluzindo sob a primeira luz do amanhecer.

—Beba, irmã —sussurrou alguém, aproximando-lhe um copo de barro dos lábios—. Este é o seu renascimento.

A inconsciência chegou como uma onda morna.

***

O sol já estava alto quando Renata abriu os olhos, ofegante, o coração batendo como se tivesse corrido uma maratona. Estava dentro da barraca, enrolada no saco de dormir, a luz do dia filtrando-se pela lona.

Ela se sentou de repente e percorreu o próprio corpo com as mãos. Não havia marcas. Não havia dor. Nenhum vestígio da noite anterior. Só sua pele limpa e intacta, como se tudo tivesse sido um sonho.

Vestiu-se às pressas, os dedos trêmulos nos cadarços das botas. Ao sair, varreu o claro com o olhar. Não havia nada. Nenhum altar, nenhuma seda carmesim, nenhuma máscara. Só a floresta, silenciosa e normal, como sempre a conhecera.

Até que voltou à fogueira. Ali, colocada com cuidado ao lado das brasas apagadas, estava uma máscara de cervo. Branca. Vazia. Sorridente.

Renata prendeu a respiração. Teria jurado que aquilo não estava ali quando acordou. Teria jurado que não a tinha trazido consigo. Mas lá estava. Sem pensar duas vezes, pegou a mochila e foi embora quase correndo. Não olhou para trás. Não quis saber se alguém, ou algo, a observava de entre as árvores.

***

Passou os dias seguintes trancada em seu apartamento, com as cortinas fechadas, comendo sem fome e dormindo sem descanso. Mas sua mente não a deixava em paz. As lembranças a possuíam: o toque daquelas mãos anônimas, as penetrações intermináveis, o gosto do vinho misturado à saliva alheia, o cheiro de sexo e ervas ardentes sob a lua.

E o pior de tudo: ela sentia falta.

Não conseguiu resistir. Voltou à floresta, ao mesmo claro, como se algo a puxasse de volta. E lá estava, no mesmo lugar onde a havia deixado: a máscara de cervo, fria e suave, como se nunca tivesse se movido. Dessa vez, ela não a deixou para trás.

Desde então, a máscara descansa numa caixa sob sua mesa de cabeceira. Às vezes, de madrugada, Renata se levanta e a acaricia, perguntando-se se foi real, se poderia acontecer de novo, o que aconteceria se a colocasse. Durante meses, não teve coragem.

***

Quase um ano havia passado quando, no meio do jantar de Ano-Novo, entre o brilho das luzes e os brindes da família, Renata sentiu um arrepio conhecido. Alguém havia deslizado um envelope para debaixo do seu prato. Dentro, um cartão de papel grosso, com letras douradas que brilhavam à luz das velas: «A Dança do Cervo te espera. Meia-noite. O claro você já conhece. Venha sozinha. Venha faminta».

A mensagem não estava assinada, e ninguém à mesa parecia ter notado o envelope. Mas Renata sentiu na hora: o calor entre as pernas, uma umidade que não podia ignorar.

—Você está bem, filha? —perguntou sua mãe, inclinando-se para ela.

—Sim, só… o vinho me deixou meio tonta —mentiu.

Na mente dela, já não estava naquela mesa. Estava na floresta, entre as máscaras.

Despediu-se cedo, alegando uma dor de cabeça inventada. No quarto, abriu a caixa, olhou para a máscara de cervo e, pela primeira vez, não hesitou. Vestiu-se de preto, guardou a máscara na bolsa e saiu para a noite gelada.

A floresta estava coberta por uma fina camada de neve que rangia sob seus passos. O frio mordia sua pele, mas por dentro ela ardia. Chegou ao claro exatamente à meia-noite. E então, uma por uma, as tochas se acenderam, como olhos se abrindo na escuridão.

As figuras emergiram de entre as árvores, movendo-se ao ritmo de tambores que não se ouviam, mas que Renata sentia nos ossos. Todas usavam máscaras de cervo. Todas a esperavam. Ela não pensou duas vezes: tirou a sua e a colocou.

O ritual começou de novo. Mas desta vez Renata caminhou entre eles com passo firme. Uma mulher de ombros estreitos deslizou atrás dela e apertou uma nádega com fingida casualidade; ela prendeu o ar, mas não se afastou. Um homem alto procurou um seio e o apertou com devoção; ela soltou um gemido que já não era de surpresa, mas de entrega.

E então, sem pensar, ela também estendeu as mãos. Acariciou o abdômen tenso de um desconhecido, mordiscou o lóbulo de uma orelha sob outra máscara, roçou com os dedos o sexo úmido de uma mulher que se arqueou contra ela. A música recomeçou, mas agora Renata reconhecia o ritmo: era o mesmo que vinha ouvindo em sonhos havia meses.

O círculo se fechou ao redor do fogo e as máscaras se inclinaram para ela. Quando veio a primeira penetração da noite, Renata soube que não havia mais volta. Ela era uma deles.

Dessa vez, ela não acordou em sua barraca. Acordou em braços alheios, com a máscara ainda posta, e com a certeza de que no próximo inverno seria ela quem deslizaría um convite sob um prato, no jantar de alguém que ainda não sabia o quanto desejava ser encontrado.

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