Uma segunda-feira de desejo que não me deixou respirar
Decidi escrever isso porque preciso que fique em algum lugar. Não para que ninguém leia. Só para que exista fora da minha cabeça.
A protagonista se chama Clara. Um nome que escolhi ao acaso, embora talvez não seja tão ao acaso assim. Nas palavras dela talvez você encontre algo seu. Ou algo meu. Ainda não sei.
Segunda-feira
São 7:00 da manhã. A luz se infiltra entre as lâminas das persianas e me traz de volta ao mundo de supetão. Ao meu lado, Andrés continua dormindo de costas para mim, a respiração lenta e funda. Eu o observo por alguns segundos. Conheço aquelas costas melhor do que qualquer outra coisa no mundo. E, no entanto, o que sinto agora ao olhar para elas não é ternura.
É outra coisa. Algo que nasce bem abaixo do umbigo e desce devagar, insistente, sem pedir licença. Uma pulsação surda entre as coxas que já está molhada, que já está ali há horas. Ponho uma mão sob os lençóis quase sem perceber e me toco por cima da calcinha: o tecido está encharcado, grudado na buceta, e basta essa constatação para meu pulso acelerar.
Ontem à noite ele pegou no sono no meio de uma carícia. Não foi rejeição, foi cansaço. Eu sei. Mas meu corpo não distingue uma coisa da outra, e está em espera há horas. O calor entre minhas pernas é uma certeza física, tão concreta quanto o colchão sob minhas costas ou o som da rua começando a despertar. Fecho as coxas e sinto o clitóris pulsar, inchado, exigindo.
Eu podia acordá-lo.
A ideia me arranca um sorriso que não chega a se formar. Sei como isso termina quase sempre: algo breve, algo que resolve o dele e me deixa mais tensa do que antes. Quatro estocadas meio adormecidas, uma gozada rápida dentro de mim, um beijo na testa e de novo as costas dele. O tipo de alívio que satisfaz pouco e deixa o eco da fome ressoando por horas. Então me levanto sem tocá-lo, sem dizer nada, antes que essa possibilidade se transforme em outra decepção silenciosa.
7:20. O banho.
A água quente desce pelos meus ombros e pelo corpo. Me ensaboo devagar. Minhas mãos passam pelos seios e os mamilos endurecem na hora, como se estivessem esperando há horas que alguém lhes desse atenção. Belisco-os entre o indicador e o polegar, puxo um pouco, e uma descarga desce reta até a buceta. Fecho os olhos.
A imagem de Andrés se desfaz.
Aparece Roberto, o eletricista que veio na semana passada trocar o quadro de luz. Quarenta e poucos anos, mãos grandes, aquela camiseta justa que não escondia nada. Ele tinha me perguntado se podia usar o banheiro e eu tinha dito que sim da cozinha, sem olhar demais para ele. Ou é isso que quero acreditar.
No chuveiro eu o observo. Na minha fantasia ele me observa. Imagino-o entrando sem bater, me empurrando contra os azulejos frios, erguendo uma das minhas pernas até a altura do quadril. Imagino o pau duro colado contra meu ventre por cima do jeans, aquele pau grosso de operário que se marca quando ele se abaixa. Imagino desabotoar o zíper com a mão trêmula, tirá-lo para fora, sentir o peso quente contra a palma. Grosso. Pulsante. Com uma gota espessa brotando na ponta, que eu espalho com o polegar sobre a glande.
Apoio uma mão nos azulejos e com a outra levo os dedos até onde preciso. Abro os lábios da buceta com dois dedos e o coração entre eles já está escorregadio. Começo a esfregar o clitóris em círculos pequenos e rápidos, enquanto na minha cabeça Roberto me enfia tudo de uma vez, até o fundo, sem perguntar. «Cala a boca, tía, cala a boca», ele me diz ao ouvido na minha fantasia, e tapa minha boca com aquela mão de eletricista que cheira a metal. Eu o imagino me fodendo contra a parede, em pé, com essa força de quem trabalha com o corpo, cada estocada batendo contra minha bunda, arrancando de mim um gemido que ele abafa.
Não procuro nada elaborado, só apagar o suficiente para poder funcionar. Três minutos. Enfio dois dedos e com a outra mão continuo no clitóris, apertando forte, e o orgasmo me sobe pelas pernas e explode curto e eficaz, como tomar um comprimido. Cerrego os dentes para não gemer. Saio, me enxugo, me olho por um segundo no espelho antes de desviar o olhar. Minhas bochechas estão ardendo e os mamilos ainda duros.
Mesma rotina de sempre.
7:50. A cozinha.
O café cheira a promessa e as torradas estalam quando eu as parto. Escuto os ruídos do quarto: Andrés acordando, a água do banho dele, as gavetas abrindo e fechando. As crianças ainda dormem. Essa meia hora me pertence por inteiro.
Sento à mesa e não penso em nada por um momento. Só o café. Só o sabor amargo e quente, a xícara entre as mãos. A porta da rua se fecha quando Andrés sai. A casa fica em silêncio.
Então, sem que eu o chame, Sergio volta.
O instrutor de pilates do sábado. Trinta e tantos anos, voz tranquila, aquela maneira precisa de corrigir as posturas — as mãos firmes no quadril, os dedos ajustando sem hesitar — que poderia parecer totalmente profissional se eu não tivesse demorado demais para desviar os olhos quando a aula terminou.
Fico corada sozinha na cozinha. Sinto o calor nas bochechas e, mais embaixo, algo que se reativa com uma facilidade que me inquieta. Mordo a torrada como se isso ajudasse. Não ajuda. Fecho as coxas e noto que volto a me molhar, ainda sensível do orgasmo no banho, e mesmo assim já querendo mais.
Levo a mão ao pescoço quase por inércia. Desço até o peito por cima da camiseta e belisco o mamilo. Imagino-o aqui. Encostado na bancada, os braços cruzados, me olhando com aquela calma que não era indiferença. Na minha fantasia ele não faz mais nada além disso: olhar. É suficiente para o ar da cozinha ficar denso. Depois, na minha cabeça, ele se aproxima sem dizer palavra, me vira contra a mesa e me puxa o legging até os joelhos. «Você tá molhada», ele me diz na fantasia, passando um dedo pela minha buceta de trás para frente. «Você fica assim o dia todo, não fica?»
Levanto bruscamente. Subo as escadas. O banheiro de hóspedes, aquele que ninguém usa durante a semana. Baixo o legging e a calcinha de uma vez até os tornozelos e me apoio na pia. Me olho no espelho: a boca entreaberta, o cabelo desgrenhado, os mamilos marcando sob a camiseta. Dessa vez me demoro mais. Abro as pernas o máximo que a roupa embolada nos pés permite e vejo minha mão descer. Imagino as mãos dele, a precisão dos dedos, aqueles dedos longos que na aula ajustaram meu quadril com uma firmeza que me deixou tremendo por meia hora.
Imagino estar de joelhos sobre o colchonete e ele atrás, me segurando pelo cabelo enquanto me enfia devagar, milímetro por milímetro. «Aguenta a postura», ele me diz na minha cabeça, com aquela voz tranquila de instrutor. «Aguenta.» Imagino apertar a buceta ao redor do pau dele enquanto ele vai me abrindo, e depois o ritmo se acelerando, a mão descendo do meu cabelo para o meu pescoço, os quadris dele batendo contra minha bunda. Enfio três dedos e os curvo para cima, procurando aquele ponto que tão poucas vezes alguém encontra direito, e com a outra mão o clitóris, rápido, insistente. O orgasmo vem mais fundo do que o do banho, sobe pela barriga e me deixa com as pernas um pouco trêmulas e uma umidade espessa escorrendo pela parte interna da coxa. Me limpo com papel. Arrumo a roupa em frente ao espelho. Desço as escadas. A torrada está fria.
***
11:00. As tarefas da casa.
Passo o rodo, dobro roupa, recolho o que ficou onde não devia. A mente deveria esvaziar com o movimento repetitivo. Não esvazia. Me abaixo para pegar algo no chão e, sem nenhuma transição, aparece o vizinho do terceiro: o cumprimento de terça passada, aquela fração de segundo em que pareceu que ele ia dizer mais alguma coisa antes de entrar no elevador. Agora eu o imagino entrando em casa sem dizer nada, me levantando a saia, se ajoelhando entre minhas pernas e comendo minha buceta como se estivesse esperando meses para fazer isso. Passo um pano na estante e minha cabeça projeta uma cena da série que vimos ontem, um momento que durou dez segundos na tela mas está instalado há horas atrás dos meus olhos, aquele em que ele a agarra pelo pescoço e diz algo ao ouvido.
Não há descanso. É um redemoinho constante: imagens, fragmentos, suposições, pequenas histórias que minha cabeça constrói a partir de quase nada. O que deveria ser uma manhã produtiva vira uma sucessão de desvios involuntários.
Me jogo no sofá por um instante. Só um instante. Fecho os olhos.
A mão desce sozinha. Abaixo o cós da calça, abaixo a calcinha, até a buceta que continua ali, pronta, inchada, escorregadia. Está tão sensível depois de duas vezes que o primeiro toque quase dói. Me esfrego em círculos lentos, sem fantasia precisa, deixando as imagens se misturarem: a boca do vizinho, o pau de Roberto, os dedos de Sergio, um desconhecido qualquer me empurrando contra a parede do elevador e me enfiando por trás com a roupa ainda vestida, só um pouco afastada de lado.
A terceira vez do dia é quase mecânica, mais parecida com coçar uma coceira do que com qualquer outra coisa. Sem fantasia precisa, sem cena elaborada. Só a sensação, dois dedos dentro e o polegar no clitóris, o alívio mínimo, um tremor curto nos quadris, a promessa de continuar funcionando pelas próximas horas. Tiro os dedos brilhantes e os olho por um segundo antes de limpá-los num lenço.
Fico um tempo encarando o teto. Isso não pode ser normal. E então penso que talvez seja, e eu simplesmente nunca tenha ouvido isso em lugar nenhum porque ninguém fala em voz alta.
Me levanto. É preciso terminar a lavanderia.
12:45. O supermercado.
O que deveria ser uma hora sem importância vira um exercício de contenção. O rapaz que empilha latas na seção de conservas me pede desculpas quando o carrinho dele roça no meu e sorri por pura educação. Minha cabeça amplia o gesto, acrescenta coisas que não existiam, constrói uma versão adulterada de um segundo que não significou nada: eu o vejo me levando ao estoque, me pondo em cima das caixas de conserva, baixando minha calcinha com os dentes. O açougueiro me pergunta se prefiro o corte fino ou o grosso e eu demoro demais para responder porque estou imaginando ele me passando por cima do balcão e me fodendo sobre a tábua, ainda com o avental manchado vestido.
É automático. Não procuro isso. Ou pelo menos não conscientemente, embora exista um canto de mim que prefiro não examinar de muito perto.
Saio com as sacolas e o coração acelerado, como se tivesse vivido algo que na verdade não aconteceu. A calcinha voltou a ficar molhada. Sento no carro antes de dar partida. Mãos no volante. Respiração lenta. Me sinto ridícula e também exausta, que é a pior combinação possível: envergonhada de algo que só aconteceu dentro da minha cabeça.
Ninguém viu nada. Ninguém sabe de nada. E mesmo assim, a culpa pesa do mesmo jeito.
***
18:15. As crianças já estão em casa.
Os cadernos abertos na mesa da cozinha, o ensopado borbulhando devagar no fogo. Confiro a lição, explico um problema de frações duas vezes, pergunto como foi a escola, escuto a resposta com atenção de verdade.
Sou a mãe deles. Estou aqui. Isso não é mentira.
Mas o desejo não saiu de mim em nenhum momento do dia. Ele recuou, ficou menor enquanto as crianças estão na frente, mas continua ali. Um motor em segundo plano que segue girando mesmo quando ninguém o escuta. Quando sirvo os pratos, quando recolho o copo que quase caiu, quando os mando escovar os dentes e apago a luz do quarto deles com delicadeza… tudo isso acontece na superfície. Embaixo, eu conto o tempo que falta. Não com impaciência cruel, não desejando que passe mais rápido do que deveria. Só consciente de que, quando a casa voltar ao silêncio, essa corrente vai parar de fingir que não existe.
22:40. O sofá.
Andrés está com minha mão entre as dele. Uma série qualquer na televisão. Volume baixo, luz suave. É uma cena bonita, daquelas que de fora parecem exatamente o que um casal deveria parecer numa segunda-feira à noite.
Não consigo me concentrar em nada do que acontece na tela.
A urgência volta com uma intensidade que eu não esperava. Sobe pelo peito, me aperta a garganta. Mexo a perna sem querer e noto como a buceta, ainda sensível das três vezes anteriores, volta a pulsar como se nada tivesse acontecido. Andrés comenta alguma coisa sobre a trama e eu assinto, respondo algo coerente, sorrio na hora certa. Por fora somos duas pessoas tranquilas compartilhando uma noite comum. Por dentro sou uma pulsação acelerada esperando não ouvir de novo um «agora não» que me deixe outra vez sozinha com isso.
Quero jogá-lo no chão agora mesmo.
A fantasia é brusca, quase violenta na intensidade. Eu o imagino aqui, no sofá, a série pausada, a distância entre nós desaparecendo. Imagino subir nele de pernas abertas, arrancar a calça do pijama, tirar o pau dele e enfiá-lo sem preliminares, sem carícias educadas, cavalgar até gozar sobre ele com a mão na boca dele para não acordar as crianças. Imagino chupá-lo primeiro, de joelhos entre as pernas dele no sofá, olhando-o de baixo enquanto o levo até a boca toda, até engasgar, ouvindo-o gemer baixinho, bebendo cada gota quando ele gozar. Tomando o que passei o dia todo precisando sem pedir licença, sem esperar.
Mas também imagino a outra cena. O rosto dele surpreso. O sorriso cansado. O «agora não, querida» dito com toda a suavidade do mundo, que é exatamente a versão que mais machuca. Não porque seja crueldade — não é —, mas porque me deixa completamente sozinha com algo que não tem saída.
Aperto os dedos em torno do meu próprio joelho.
— Vou pegar água — digo.
Subo as escadas. O quarto está em penumbra. Tranco a porta, coisa que nunca faço. Deito na cama e dessa vez tiro mesmo a calça e a calcinha. A calcinha está encharcada, pesada, com uma mancha translúcida na virilha que eu olho por um segundo antes de jogá-la no chão. Abro as pernas em cima do edredom. Não penso em Roberto nem em Sergio nem em nenhum desconhecido do supermercado.
Penso em Andrés.
Nele de cinco anos atrás. Na versão que me olhava de um jeito que agora quase não lembro exatamente como era, mas que sei que existiu. Em como ele me fodia naquela época, sem pedir vez, sem cansaço, com aquela fome que eu tomava como certa que nunca acabaria. Em como me agarrava pelos quadris e me enfiava por trás com a cara enterrada no meu cabelo, respirando como um animal contra meu pescoço. Em como lambia minha buceta por meia hora sem levantar a cabeça, como se fosse a única coisa que tivesse que fazer no mundo. No que havia entre nós quando o desejo não precisava se desculpar nem procurar um momento melhor.
Enfio dois dedos, depois três. Tiro-os brilhantes e os levo à boca. Volto para baixo. Começo pelo clitóris com a ponta do dedo médio, círculos rápidos, enquanto com a outra mão belisco os mamilos, alternando um e outro. Ergo os quadris contra a minha própria mão. Imagino Andrés entre minhas pernas, me comendo até me arquear, e depois subindo pelo meu corpo para enfiar o pau em mim olhando nos meus olhos como me olhava antes.
E essa mistura de desejo e saudade e raiva e amor faz o orgasmo ser o mais intenso dos quatro. Ele me arqueia inteira na cama, contrai a buceta ao redor do nada, sobe pela barriga em ondas longas que não terminam quando eu acho que terminam, e me obriga a abafar o som contra o travesseiro, mordendo-o, enquanto os dedos continuam sem conseguir parar de todo, prolongando cada tremor até quase doer.
Fico imóvel por um minuto. Com os dedos ainda dentro. Com o peito subindo e descendo. Com lágrimas aflorando por um motivo que eu não saberia nomear.
Me limpo. Visto o pijama. Desço para a sala. A série continua. Andrés ergue os olhos.
— Tudo bem?
— Sim — digo. Sento ao lado dele. Dou a mão para ele.
***
Já passa quase da uma da manhã. Ele dorme. Eu escrevo.
O fogo não desapareceu. Acalmou o suficiente para me deixar pensar com clareza, mas continua ali, cochilando, pronto para amanhã. Para depois de amanhã. Para sempre, provavelmente.
Não sei se isso tem nome. Às vezes procurei com frases vagas que depois apago do histórico, como se as palavras pudessem me incriminar por alguma coisa. O que encontro sempre parece clínico demais ou dramático demais para descrever o que sinto, que não é exatamente sofrimento. É mais um ruído constante que nunca se apaga por completo. Um companheiro ao qual ninguém convidou e que, ainda assim, está instalado há anos no quarto ao lado.
O que sei é que hoje me masturbei quatro vezes, que tive quatro orgasmos com meus próprios dedos, que gozei pensando num eletricista, num instrutor de pilates, num desconhecido qualquer e finalmente no meu próprio marido dormindo a dois metros de mim, e que nenhuma das quatro vezes resolveu nada de verdade. Só adiaram a próxima.
O que também sei é que amo Andrés. Que não quero ninguém além dele na minha vida real, na vida que acontece fora da minha cabeça. Que, se o Roberto eletricista ou o Sergio do pilates aparecessem de verdade na minha porta, eu fecharia essa porta sem hesitar.
Mas dentro da minha cabeça não há portas.
E isso, eu ainda não sei se é um problema ou simplesmente o que eu sou. Amanhã tudo vai começar de novo. Eu já sei. E o curioso — o que mais me inquieta em tudo isso — é que uma parte de mim não quer que pare.