A tarde em que finalmente dei em cima de um desconhecido
Com quarenta e dois anos e um punhado de experiências que havia acumulado graças a Carlos — um homem que me ensinou mais sobre o prazer em seis meses do que eu sozinho em uma vida inteira — eu poderia dizer que me virava bem em quase qualquer situação. Ativo, passivo, o que fosse preciso. Chupar um pau até o fundo sem engasgar, abrir o cu aos poucos para receber um pau inteiro, gozar sem mãos apertando a buceta de outro com a minha: tudo aquilo eu já tinha feito. Mas havia uma coisa que eu nunca tinha feito: sair na rua, escolher um desconhecido com os olhos e levá-lo para a cama sem mais história que a vontade. Sem aplicativos, sem perfis, sem mensagens de texto que demoram horas. Só eu, o instinto e o primeiro movimento.
A ideia me rondava fazia tempo. Não como uma fantasia vaga, mas como um objetivo concreto com passos definidos: ver alguém, decidir que era ele, e agir. Simples na teoria. Mais intimidador na prática, porque sempre aparece algo que trava: a dúvida, o momento errado, a desculpa do dia seguinte. Naquela tarde de terça-feira, eu disse a mim mesmo que não haveria desculpa.
Escolhi um café no centro que eu conhecia de vista, mas no qual nunca tinha me sentado. Tinha grandes janelas voltadas para a praça, mesas de madeira escura e aquela luz de fim de tarde que deixa tudo um pouco mais interessante do que realmente é. Entrei, pedi um momento para olhar e lancei uma vista demorada pelo lugar. Duas mesas com grupos de amigos falando alto. Um casal discutindo em sussurros sobre algo que não importava. E no fundo, um pouco afastado do resto, um homem sozinho com um livro.
Ele não levantou os olhos quando eu entrei. Esse detalhe também me agradou.
Deveria ter uns quarenta anos. Cabelo escuro com alguns fios grisalhos nas têmporas, a postura de alguém que não precisa provar nada a ninguém. Usava uma camisa verde arregaçada até os cotovelos e, sobre a mesa, tinha o livro aberto, uma xícara quase vazia e um caderno fechado com uma caneta por cima. Metódico. Alguém que planejava com cuidado as próprias tardes livres.
Eu ia alterar esse planejamento.
Sentei a duas mesas de distância, num ângulo de onde eu podia olhá-lo sem parecer óbvio demais. Quando o garçom se aproximou, calibreI o volume da minha voz para que chegasse exatamente até onde ele estava:
— O mesmo que aquele senhor, por favor.
Uma breve pausa. O homem do livro ergueu os olhos pela primeira vez. Encontrou-me olhando diretamente e eu não desviei o olhar. Ele me devolveu um aceno leve com a cabeça, quase imperceptível. Eu respondi do mesmo jeito e continuei olhando para frente como se nada tivesse acontecido.
Primeiro movimento: feito.
O garçom voltou com um café pingado, um copo de suco de laranja e dois biscoitos de aveia. Peguei o copo e o ergui em direção ao desconhecido, em um brinde silencioso atravessando o salão. Ele soltou um sorriso breve — o primeiro —, fechou o livro com cuidado e se levantou.
Ele cruzou as duas mesas com uma calma que me impressionou. Parou ao lado da minha mesa sem pressa.
— Boa tarde. Meu nome é Diego.
— Boa tarde. Martín. Senta, por favor.
Ele se acomodou ao meu lado, não na minha frente. Perto, mas sem invadir espaço. Conversamos sobre o café, o bairro, o livro que ele estava lendo — algo sobre tipografia experimental que eu nunca tinha ouvido mencionar —. Ele era designer gráfico freelancer, organizava o próprio tempo e tinha aquele jeito tranquilo de falar que faz a gente ouvir mesmo sem ter certeza do que vem depois.
— Você vem sempre? — perguntei.
— Duas ou três vezes por semana. Já conheço bem o movimento do lugar.
— Que movimento?
— Este. — Ele fez um gesto vago que abrangia as mesas, as pessoas, o salão inteiro. — O das pessoas que vêm sozinhas e esperam que alguma coisa aconteça.
— Eu não espero — disse. — Eu faço acontecer.
Ele me olhou por um segundo a mais do que seria necessário para processar a frase.
— Dá para notar — disse.
Continuamos conversando por mais vinte minutos. A conversa foi aberta sem ser explícita, carregada sem ser óbvia. Em algum momento, nossos joelhos se roçaram sob a mesa e nenhum dos dois os afastou. Quando perguntei se ele morava perto, ele terminou o último gole de café, fechou o caderno que tinha tirado para anotar algo pela metade e respondeu:
— São sete quadras. Você vem?
***
Saímos juntos ao entardecer. Caminhamos devagar, com aquele silêncio confortável que existe entre duas pessoas que já sabem o que vai acontecer e não precisam preenchê-lo com palavras. A cidade, àquela hora, tinha aquele ruído de fundo de buzinas e passos que, paradoxalmente, deixa tudo mais íntimo.
Na porta do prédio dele — um bloco de concreto dos anos 70, reformado por dentro, com um hall de entrada com plantas e luz indireta — Diego me cedeu a passagem. O elevador era pequeno. Quando as portas se fecharam, ficamos a uns trinta centímetros de distância. Ele me olhou de uma maneira que já não era só curiosidade: era outra coisa, mais direta, mais concreta. Passou dois dedos pelo meu antebraço, do cotovelo ao pulso, devagar. Foi um gesto tão simples que me surpreendeu mais do que se ele tivesse me beijado. Baixei o olhar por um segundo e vi o volume marcado contra a calça. Ele já estava duro, ali mesmo, no elevador, com as câmeras no teto e tudo. Me veio água à boca.
As portas se abriram no quarto andar.
O apartamento dele era arrumado e silencioso, com estantes cheias de livros nas paredes e uma janela grande que dava para os telhados do bairro. Não tive tempo de ver direito porque, mal fechamos a porta, Diego me virou para ele com uma mão na nuca e me beijou com uma intensidade que eu não tinha previsto em um homem tão contido. Enfiou a língua até o fundo, sem protocolo, e com a outra mão agarrou minha bunda por cima da calça, apertando forte, marcando os dedos na carne.
Eu correspondi na mesma moeda. Agarrei a camisa dele e cravei a mão na virilha. Ele estava duro, grosso, pulsando contra o tecido. Apertei por cima da calça e ele soltou um rosnado na minha boca que me fez apertar mais. Empurrei-o pelo corredor sem soltar o pau dele.
Chegamos ao quarto sem nos separar. Diego tirou minha camiseta com um único movimento. Eu desabotoei a camisa dele botão por botão, sem pressa, deixando o momento durar. O torso dele era mais robusto do que a roupa sugeria: pelos escuros no peito, uma pequena cicatriz perto do umbigo, de onde eu não perguntei. Parei para olhá-lo por um segundo antes de tocar nele. Depois desci a mão até o cinto, desabotoei e abri a calça. Quando puxei a cueca para baixo, o pau dele saltou para fora como se tivesse passado horas esperando. Comprido, grosso, com uma veia marcada por baixo e a glande inchada, brilhando de líquido pré-ejaculatório. Me escapou um som ao vê-lo.
— O que você quer? — perguntou, com a voz mais baixa do que antes.
— Tudo — disse. — Todo esse pau do caralho, inteiro, na boca e onde você quiser depois.
Ele sorriu. Sentou-se na beira da cama e me puxou para perto.
***
Ajoelhei-me entre suas pernas e peguei-o com a mão. Passei a língua da base à ponta, devagar, lambendo toda a veia, sentindo como ele pulsava. Dei um beijo molhado na glande e depois o coloquei na boca aos poucos, deixando a sensação ser gradual para os dois. A respiração dele mudou de ritmo quase de imediato. Desci até a metade, subi, baixei de novo um pouco mais, empurrando com a garganta até arrancar uma ânsia suave. Diego soltou um “puta que pariu” baixinho que me confirmou que eu estava no caminho certo.
Levei o tempo necessário sem apressar nada, usando a língua e as mãos na medida certa para mantê-lo no limite sem ir longe demais. Chupei com força, com as bochechas fundidas pela sucção, sentindo a ponta bater contra o meu palato. Depois eu tirava, cuspia saliva por cima e lambia os seus ovos, um e outro, metendo-os inteiros na boca enquanto sacudia o pau com a mão. Carlos tinha me ensinado isso: que a paciência é metade do prazer, e a outra metade é saber quando acabar com ela. Que um homem se domina com a boca antes de qualquer outra coisa.
Diego entrelaçou os dedos no meu cabelo, mas sem forçar nada. Só como apoio, como se precisasse ter onde se firmar. Cada vez que eu o levava até o fundo, as pernas dele se retesavam contra meus ombros. Senti as bolas apertadas, subindo. Afrouxei o ritmo pouco antes de ele gozar.
Depois ele me ergueu, me deitou de costas e tirou minha calça e a cueca em um único movimento. Abriu minhas pernas sem cerimônia, olhou para o meu pau ereto contra a barriga e se lambeu os lábios. Ajoelhou-se entre minhas pernas e me devolveu o que eu tinha feito com ele, com a mesma precisão e a mesma calma. Chupou inteiro, até a base, e quando chegou no fundo passou a língua pelos meus ovos sem deixar de engolir. Depois o tirou, lambeu-me do períneo até a ponta e enfiou-o de novo na boca. Eu me agarrei ao estofado. Ele sabia chupar. Ficava claro que já tinha mamado muitos homens antes de mim, e bem.
Ele me levou ao limite duas vezes e nas duas parou justo antes. Na terceira, me olhou de baixo, com o meu pau na mão e a boca brilhando, e sorriu.
— Vira — pedi, com a voz rouca.
Ele entendeu. Nos ajeitamos em sentido inverso, ele sobre mim, cada um com o pau do outro na boca ao mesmo tempo. Agarrei a bunda dele com as duas mãos e o empurrei para baixo, obrigando-o a me engolir mais fundo enquanto eu fazia o mesmo com o dele. Durante um bom tempo, o único som no apartamento foi nossa respiração pesada, o chape-chape molhado das bocas, o atrito da pele contra os lençóis e o ranger leve do colchão. Eu sentia o pau dele inchar entre meus lábios toda vez que eu o engolia inteiro, e o meu pulsar na boca dele quando ele me chupava com mais vontade. Em algum momento perdi a noção de quem dava e quem recebia. Era exatamente como tinha que ser: dois paus, duas bocas, nenhum limite claro.
Passei um dedo molhado de saliva no seu ânus e ele soltou um gemido abafado em torno do meu pau. Enfiei até a junta do dedo. Estava quente, apertado. Mexi nele devagar enquanto continuava a chupá-lo. Ele me respondeu abrindo mais as pernas sobre mim, oferecendo-se.
***
Nos separamos sem pressa. Diego se inclinou sobre a mesa de cabeceira, abriu a gaveta e tirou lubrificante e um preservativo. Eu me pus de quatro na beira da cama, com a bunda levantada, as pernas abertas e as costas arqueadas. Ele ficou em pé sobre o tapete atrás de mim. Primeiro passou os dedos com lubrificante pelo meu ânus, dando voltas ao redor sem entrar, até que eu empurrei para trás à procura deles. Enfiou um, até o fundo, e o moveu em círculos. Depois dois, com paciência e sem omitir nenhum passo, me abrindo por dentro, pressionando aquele ponto que me fez cerrar os punhos contra o lençol. Eu controlei a respiração, indiquei com o ritmo do meu corpo quando estava pronto.
— Mete — eu disse. — Tudo.
Ele colocou o preservativo, passou lubrificante no pau e o apoiou no meu ânus. Quando entrou, foi gradual, sem brutalidade. Senti a glande abrindo o anel e depois a vara inteira me enchendo aos poucos, até que as bolas ficaram coladas contra a minha bunda. Ele ficou quieto por um segundo, enterrado até o fundo. Começou com movimentos curtos para que eu pudesse me adaptar. Eu movi os quadris para trás para me encontrar com cada um deles, e isso o acendeu: percebi pelas mãos que se tensionaram nos meus quadris, pela respiração que acelerou e perdeu parte daquela calma que ele tinha no café.
— Que cu você tem, puta que pariu — murmurou atrás de mim, me agarrando mais forte. — Que cu quente.
— Vai mais forte — respondi. — Não se segura.
Ele foi aumentando o ritmo aos poucos. Encontramos entre nós um compasso próprio, que nenhum dos dois precisou pensar. Cada vez que ele saía quase por completo e voltava a entrar, o pau abria meu cu por dentro e eu tinha de fazer um esforço consciente para não fazer barulho. Depois nem tentei mais me conter. Passei a gemer contra o estofado cada vez que ele me cravava até o fundo. Ouviam-se o choque dos quadris dele contra minhas nádegas, seco, rítmico, e o chape-chape do lubrificante entre nós.
Ele me agarrou pelo cabelo, puxou minha cabeça para trás e me meteu mais forte, com todo o quadril, até soltar um rosnado gutural. Passou uma mão pela frente e agarrou meu pau, começou a me masturbar no ritmo das investidas. Eu estava pingando líquido pré-ejaculatório sobre o lençol.
— Vou gozar — avisei.
— Goza — disse, sem diminuir o ritmo. — Goza com meu pau dentro.
Gozei poucos segundos depois, escorrendo pelo estofado, apertando a bunda ao redor do pau dele a cada espasmo. Meu ânus se contraiu inteiro sobre ele e foi aí que o empurrei ao limite. Ele acelerou mais três, quatro estocadas e ficou cravado até o fundo, tremendo, com as mãos afundadas na carne dos meus quadris.
Ele durou bem mais do que eu esperava. Quando chegou ao limite, fez isso com um som curto, quase surpreso consigo mesmo, e ficou imóvel por alguns segundos com as mãos nos meus quadris e a testa inclinada sobre minhas costas. Senti o pau pulsar dentro de mim a cada descarga. Depois se retirou devagar, com cuidado, e sentou-se na beira da cama. Tirou o preservativo, amarrou e jogou no lixo. Estava cheio até em cima.
Eu também me sentei, com a bunda ainda pulsando e as pernas meio fracas. Nenhum dos dois disse nada por um minuto inteiro.
— Quer água? — ele perguntou por fim.
— Sim, obrigado.
Ele foi até a cozinha, pelado, e voltou com dois copos. Sentamos na cama e conversamos um pouco sobre coisas sem importância: o café onde tínhamos nos conhecido, se ele cozinhava ou pedia por aplicativo, um documentário sobre cidades que nós dois tínhamos visto separadamente e que era o mesmo. Era a conversa mais normal do mundo para o momento mais incomum da minha semana.
Quando me levantei para me vestir, Diego não me impediu, mas também não me apressou. Acompanhou-me até a porta. No batente, nos beijamos uma última vez, com mais calma do que na entrada.
— Me passa seu número — disse.
Ele o escreveu no meu telefone com a própria mão.
***
Nós nos vimos mais quatro vezes no mês seguinte. Sempre no apartamento dele, sempre à tarde, sempre com aquela mistura de conversa e silêncio que tinha me agradado desde o começo. Diego era cuidadoso com tudo: com os livros, com o tempo, com o sexo. Nunca fingimos que aquilo era mais do que era, e essa honestidade tácita dava ao assunto uma leveza que eu agradeci. Em uma dessas tardes, quem comeu ele fui eu, com o rosto afundado no travesseiro e as mãos agarradas às barras da cama; gozei dentro dele entre gemidos que acordaram os vizinhos. Em outra, terminamos no sofá, ele sentado com o pau duro e eu por cima, cavalgando devagar até fazê-lo implorar. A gente sabia foder junto.
O problema apareceu sem aviso. Numa tarde, cheguei com uma camiseta de mulher que eu gostava de usar, algo sem maior importância para mim, um costume de anos que eu não costumava explicar. Notei que Diego ficou tenso assim que me viu entrar. Dessa vez, ele não disse nada. Na seguinte, quando eu mencionei isso de passagem na conversa, escapou-lhe um gesto de incômodo que ele não conseguiu disfarçar por completo.
— Não é algo que me fecha — ele admitiu no fim, com uma honestidade direta que eu agradeci, embora me irritasse.
Não discutimos. Nem precisou. Simplesmente deixamos de nos escrever, e o silêncio foi claro o suficiente para os dois.
O que ficou foi isto: a certeza de que eu podia fazer aquilo, de que o instinto não tinha falhado naquela tarde no café, e de que às vezes uma única tarde bem escolhida vale mais do que meses de expectativas mal administradas. Aprendi a prestar atenção nos homens que entram em um lugar sem erguer os olhos, e a saber que o primeiro movimento é sempre o que conta.
Da próxima vez, escolherei melhor o café.