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Relatos Ardientes

Nessa véspera de Ano-Novo, quatro homens e uma só cama

Passadas as festas de Natal, o vilarejo respirava um ar de calma tensa, como se a neve nos telhados tivesse congelado as emoções só para que explodissem com ainda mais força na despedida do ano. A loja de roupas no centro trabalhava a todo vapor: prateleiras abarrotadas de macacões de todas as cores, clientes entrando em ondas, atraídos pelo sucesso viral de Unai, o cheiro de tecido novo impregnando o local. Gorka e Imanol mal tinham tempo de respirar entre vendas e envios, mas em seus olhares havia uma mistura de orgulho e cansaço que só eles entendiam.

Faltavam dois dias para a véspera de Ano-Novo e o vilarejo inteiro se preparava à sua maneira. Unai e Eneko, instalados no quarto de hóspedes da casa de Mikel e Asier, levavam semanas planejando uma surpresa que lhes enchia o peito de nervosismo. Com o dinheiro ganho nos patrocínios que o tinham transformado em ícone do basquete, haviam comprado um casarão na entrada do povoado, de pedra e madeira, com um jardim amplo e vista para as colinas. A ideia era dividi-lo em três: uma moradia para a mãe de Unai, outra para o irmão e a terceira para eles dois.

—Isso é real —murmurou Unai certa noite, com o tablet e as plantas sobre as pernas, a voz trêmula—. Minha mãe nunca mais vai ter que voltar para a fábrica.

—Ela merece —respondeu Eneko, com a mão em seu ombro—. E você também. Vai ser um lar de verdade.

Falavam todas as noites de como decorariam as casas, dos jantares em família, de um futuro em que o casarão seria um refúgio seguro. O sonho compartilhado os unia ainda mais, fazia-os esquecer a faixa homofóbica que alguém havia pendurado na entrada do povoado. Dormiam enroscados sob os lençóis, pele contra pele, um calor terno que acalmava a incerteza.

***

O dia trinta amanheceu com um céu de chumbo que ameaçava neve, mas a loja vibrava de expectativa. Fechada ao público pela primeira vez em semanas, tinha se transformado num cenário improvisado: a entrada convertida em passarela de madeira, luzes brancas, cadeiras dobráveis em filas para a imprensa. Seria apresentada a nova linha de roupas inspirada em Unai, fruto do acordo com duas marcas internacionais.

Nos bastidores, Unai ajustava o macacão de algodão verde-musgo, sua cor para as grandes ocasiões, justo no tronco, com os bolsos cargo que lembravam sua essência rebelde. Eneko vestia o azul-celeste escolhido pelos criativos para ele, suave e luminoso.

—Acertaram em cheio —disse Unai diante do espelho, embora a voz soasse resignada—. É trabalho em pleno momento de família.

—Eu sei. —Eneko roçou a nuca dele—. Mas com você ao lado a gente aguenta melhor.

A apresentação saiu como previsto. Os comerciais falaram da linha, passaram um vídeo na tela gigante e então Unai entrou na passarela com passo firme, seguido por Eneko. O público explodiu em aplausos, os fotógrafos disparando. Na coletiva improvisada tudo corria bem até que um enviado de um canal estrangeiro ergueu o microfone e perguntou fora do roteiro:

—O que o senhor acha dos rumores que o colocam na grande liga americana já nesta temporada?

Unai ficou paralisado, os olhos muito abertos. Depois de titubear, respondeu com voz insegura:

—Eu já jogo em uma franquia, no time de desenvolvimento. Não sei ao que o senhor se refere.

O jornalista insistiu. Unai procurou Mikel com o olhar, o rosto pálido, sem entender nada. Deram o evento por encerrado, abriram a loja e os clientes entraram em ondas, mas a tempestade midiática já tinha recomeçado: flashes, perguntas aos gritos, boatos ganhando vida.

***

Nessa mesma tarde, longe do barulho, Dani estava jogado na cama de Marc —que agora também era a sua, lençóis revirados com o cheiro dos dois, pôsteres nas paredes, a luz morna do abajur—. Marc assistia a uma série com fones de ouvido enquanto Dani deslizava o dedo pelo celular, até que uma publicação fez seu coração parar: o anúncio do evento, com transmissão ao vivo pelo canal da loja.

—Marc! Olha isso, Unai e Eneko estão no povoado —exclamou.

Marc tirou um dos fones.

—Sério? E não falaram nada pra gente?

Dani abriu o chat que dividiam com eles e escreveu. Eneko respondeu quase na hora: tinham chegado havia dias, queriam se encontrar antes de Reis, e traziam uma surpresa. Dani sentiu um calor no peito.

—Confirmamos —digitou, e Marc o abraçou por trás, a mão deslizando para a parte interna da coxa com um tesão sutil.

Desceram para a sala para assistir à transmissão. Os pais de Marc, Joseba e Rosa, se acomodaram no sofá, resignados mas felizes por compartilhar o momento.

—Vamos ver como vai ser —disse Rosa com um sorriso maternal.

—Vai pra cozinha com Marc —pediu Joseba a Dani— e se certifique de que ele não coloque manteiga demais nas pipocas.

Dani obedeceu na hora. Na cozinha, abraçou Marc por trás enquanto ele esperava o sinal do micro-ondas, e falou baixo, rouco de desejo súbito.

—Estou tão excitado que não sei se vou aguentar. O risco me deixa a mil.

Marc, sem se virar, apalpou a dureza por cima do tecido fino da calça de pijama, sua própria ereção pressionando contra a bancada.

—Porra, eu também. Te sinto duríssimo contra mim.

Sem pensar, o ergueu na bancada, baixou sua calça com urgência e o engoliu fundo, a língua girando sobre a cabeça inchada, as mãos firmes em seus quadris, sugando num ritmo que fazia as pernas de Dani tremerem.

—Marc... seus pais estão na sala —ele gemeu entre suspiros abafados—. Eles podem nos pegar. E isso me excita mais.

Marc não parou. Sugou com mais vontade, a garganta contraindo em torno do pau pulsante, até que Dani, num suspiro sufocado, se derramou quente e espesso em sua boca. Marc engoliu sem deixar rastro, a língua limpando cada gota enquanto Dani tremia. Se recompuseram às pressas, o micro-ondas apitou, despejaram as pipocas numa tigela e sentaram no chão diante da TV, cúmplices, com o tesão recém-vivido ainda latejando entre as pernas.

Então, no meio da transmissão, surgiu a pergunta sobre a contratação. O celular começou a vibrar sem parar: rumores de que Unai estava na lista de reforços imediatos, tuítes a favor e comentários homofóbicos em igual medida. Dani sentiu um nó no estômago.

—Isso é uma loucura. Unai na grande liga?

—Se for verdade —disse Marc, apertando a mão dele—, vai mudar tudo.

***

Na casa de Mikel e Asier, a sala de crise se formou no salão, a lareira crepitando, o aroma do café recém-passado preenchendo o ar. Unai não conseguia ficar parado, andava de um lado para o outro com as mãos na cabeça.

—Agora? Justo agora, quando finalmente respiramos, quando estamos com a família.

Eneko o observava encolhido no sofá, os joelhos contra o peito, os olhos vidrados. O medo de perder a paz que haviam recuperado no povoado apertava seu peito, e as lágrimas apareciam por todo o ódio acumulado nas redes.

—Senta um momento, por favor —pediu com a voz trêmula.

Mikel, com o telefone ainda na mão, falou grave:

—Precisamos nos preparar. O empresário disse que o técnico principal pediu nomes e você está na lista de apostas. Lesões, mau começo de temporada... precisam de sangue novo.

Unai parou diante do fogo.

—Não sei se estou pronto. E com toda essa barulheira homofóbica, o que vão dizer?

—É sua decisão, garoto —respondeu Asier enquanto servia as xícaras—. Amanhã falamos com o empresário, sem pressa. Não vamos perder isso, só vai se ampliar.

Mas Eneko estava sobrecarregado. O ódio, os boatos, a pressão esportiva e social pairavam sobre eles como uma sombra que não o deixava respirar.

—Não consigo —soluçou—. Tudo isso me supera. E se nos destruir?

Unai o levou para o quarto, despiu-o devagar, cobriu-o de beijos suaves e carícias, o corpo endurecido roçando sua coxa. Mas Eneko continuava tremendo, os soluços abafados contra o travesseiro. Então Unai tomou uma decisão desesperada, aquela que tinha sido seu refúgio em outras crises antes de conhecer Eneko: o levou pela mão até o quarto de Mikel e Asier, onde os encontrou nus, enroscados de conchinha.

—Eneko está destruído —disse Unai, com a voz partida—. Preciso da ajuda de vocês.

Os dois entenderam na hora e abriram a cama para eles.

O encontro começou com ternura. Mikel beijou Eneko devagar, a língua explorando sua boca, as mãos descendo pelo tronco até os mamilos; Asier, por trás, lambia seu pescoço enquanto a mão descia para envolver seu membro com um carinho escorregadio; Unai, ao lado, chupava o outro mamilo, massageando seus testículos tensos.

—Sente como nós te cercamos —rosnou Mikel—. Você é nosso. Solta tudo.

Eneko gemeu. O tesão de ser tocado por três homens ao mesmo tempo acendeu seu desejo e apagou, por um momento, todo o resto.

—Sim... eu preciso disso. Que vocês me façam esquecer.

Unai o penetrou por trás com lentidão, investidas profundas e rítmicas, enquanto Mikel o engolia fundo, a garganta apertando até a base, e Asier devorava sua boca com a língua. Mudaram de posição: Mikel o colocou de quatro, as palmadas nas nádegas ecoando, e Unai ofereceu o pau para a boca. Asier o chupava enquanto os dedos exploravam sua entrada alargada.

—Porra, Eneko, que apertado você está —gemeu Unai antes de se derramar quente dentro dele.

Os orgasmos vieram quase sincronizados, os fluidos se misturando nos lençóis encharcados, os gemidos abafados em beijos, os olhares cúmplices atiçando o fogo. Eneko, exausto mas enfim em paz, derramou lágrimas de alívio entre suspiros.

—Obrigado —sussurrou—. Eu precisava disso. De me sentir querido por todos, de desligar.

O objetivo tinha sido cumprido: Eneko assumia a mudança com uma paz renovada, e aquela intimidade compartilhada selava a união dos quatro.

***

A véspera de Ano-Novo chegou envolta num clima tumultuado: jornalistas rondando, flashes nas ruas, boatos sobre o possível salto de Unai. Mikel e Asier decidiram comemorar em casa, com Unai, Eneko, a mãe e o irmão de Unai. Um jantar íntimo: velas, comida caseira, sidra e canções natalinas ao fundo.

—Não precisamos de mais barulho —disse Mikel com voz serena.

Durante o jantar, Unai anunciou a compra do casarão.

—Mãe, a casa é para você, para meu irmão e para nós. Larga a fábrica. Você não precisa mais dela.

Ela, com lágrimas caindo, abraçou o filho.

—Meu menino... obrigada. Nunca imaginei isso.

—Vamos ser felizes aqui —acrescentou o irmão, emocionado.

Enquanto isso, na capital, Gorka e Imanol passavam uma noite dos sonhos com suas famílias em um txoko do centro histórico. Tinham planejado aquilo durante semanas, e no meio do brinde Imanol se ajoelhou diante de Gorka, com um anel na mão e a voz trêmula, mas firme.

—Desde o dia em que te conheci, soube que você era minha casa. Quero passar o resto da minha vida com você, construindo, amando... você se casaria comigo?

Houve lágrimas, aplausos, famílias emocionadas. Gorka mal conseguiu falar.

—Sim. Mil vezes sim.

As mães se abraçaram chorando, os pais deram as boas-vindas ao novo filho. Mais tarde, Gorka fez uma chamada de vídeo e a notícia correu de tela em tela: Unai, Eneko, Mikel e Asier se juntaram à celebração entre felicitações e lágrimas.

—Queremos vocês no casamento —disse Gorka—. Precisamos de vocês.

—Estaremos lá —respondeu Eneko—. Sempre.

Nessa mesma noite, em outro lugar, Marc e Dani celebravam como a família unida em que tinham se tornado, com a mãe de Dani incluída, que já considerava Marc mais um filho. Jantar, risadas, brindes, uma aceitação palpável. Marc tinha se vestido de preto, com o cabelo recém-descolorido como única nota de cor; Dani de branco impoluto, com suas mechas rosas, os dois lindíssimos.

Depois das badaladas, eles se embrenharam na noite da capital e descobriram bares onde outros garotos como eles dançavam sem medo. Pela primeira vez saíam à rua sem se esconder, de mãos dadas, enquanto o ano novo começava como uma promessa de que, acontecesse o que acontecesse com os boatos e o ódio, nunca mais precisariam apagar a luz.

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