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Relatos Ardientes

O aluno que me esperou depois da última aula

Nunca tinha me acontecido nada parecido em treze anos de sala de aula.

Dou aulas de inglês numa academia pequena, no térreo de um prédio antigo do centro. Meus alunos são garotos entre dezoito e vinte e dois anos que se preparam para certificados oficiais ou para a recuperação do vestibular. Estou nessa profissão há tanto tempo que poderia dar aula de olhos fechados. Rotina, distância, técnica. Tudo sob controle.

Até ele entrar pela porta naquela tarde de outubro.

Foi numa terça-feira, com chuva fina e o chão da sala manchado de pegadas molhadas. Ele chegou cinco minutos atrasado, com uma pasta vermelha apertada contra o peito e o cabelo ainda úmido nas pontas. Bruno, disse quando perguntei o nome. Dezenove anos. Camiseta branca lisa, jeans escuros, tênis gastos e uns braços sem pelos, longos, de garoto que jogou basquete por tempo demais. Me olhou de frente quando disse isso, sem piscar, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Senti algo estranho bem abaixo do esterno. Pensei que fosse o café da tarde.

— Senta onde quiser — indiquei, sem sustentá-lo com os olhos por muito tempo.

Ele escolheu a segunda fileira, perto da janela. Da minha mesa eu o via sem esforço toda vez que levantava a vista do livro. E eu levantei a vista mais vezes do que o necessário naquela tarde.

Esse foi o começo do problema.

Nas primeiras semanas tentei me convencer de que era só curiosidade profissional. Um aluno novo sempre chama atenção. É preciso medir o nível, o ritmo, o caráter. Nada além disso. Mas havia algo na maneira como Bruno escutava, em como inclinava a cabeça quando não entendia uma expressão idiomática, na paciência com que esperava eu terminar uma explicação antes de levantar a mão. Isso me desestabilizava.

E comecei a cometer erros que nunca tinha cometido. Erros idiotas. Confundia tempos verbais que ensinava havia quinze anos. Pulava etapas nas explicações gramaticais. Voltava, apagava o que tinha acabado de escrever no quadro, corrigia com a voz um pouco apagada. Minhas mãos, sempre firmes, começaram a tremer levemente quando eu sentia os olhos dele cravados em mim.

Porque ele me olhava. Nem sempre. Não de forma descarada. Mas, quando fazia isso, eu sentia como uma corrente quente descendo pelas costas até os rins.

— Professor… — dizia às vezes, levantando a mão só um palmo acima da mesa.

E toda vez que pronunciava essa palavra, com meu cargo implícito nela, algo estranho se tensionava na minha garganta.

— Diga, Bruno.

— Acho que ainda não peguei esse verbo modal.

Eu me aproximava da mesa dele com uma mistura de decisão profissional e medo privado. A sala parecia encolher ao nosso redor. Os outros sete alunos desapareciam do mapa. O cheiro dele era limpo, suave, algo cítrico, difícil de ignorar a essa distância. Eu me inclinava sobre o caderno para apontar o erro e sentia o calor que saía do braço dele a centímetros do meu, a respiração um pouco mais rápida que o normal.

E então minha voz falhava.

— Aqui… — eu dizia — aqui você precisa…

Mas a frase ficava pela metade, suspensa. Ele também não parecia concentrado. Eu notava isso na forma como ele mexia a caneta sem escrever, em como evitava me olhar quando eu estava perto demais e em como, quando eu me afastava, cravava os olhos em mim por um segundo a mais. Havia algo silencioso crescendo entre nós. Algo que não devia estar ali.

Com as semanas, cada aula virou um exercício de autocontrole. Eu tentava falar com neutralidade, não ficar tempo demais ao lado dele, não cruzar com seu olhar na chamada. Mas a cada dia ficava mais difícil.

Numa tarde de novembro, enquanto eu explicava o condicional misto, errei três vezes seguidas. Três vezes. Algo que nunca tinha acontecido em treze anos. Um murmúrio percorreu a sala, alguém soltou uma risadinha curta. Senti o calor subir pelo pescoço.

— Desculpem — falei, apagando o quadro com mais força do que devia.

Levantei a vista. Bruno me olhava. Não com deboche, não com impaciência. Com outra coisa. Algo que me fez esquecer completamente o que eu estava dizendo.

A aula terminou com uma sensação estranha pairando no ar. Os alunos começaram a guardar as coisas, as cadeiras chiaram, as mochilas se fecharam com estalos secos. Eu fingi arrumar papéis. Esperei. Um a um, foram saindo.

Até que só ele ficou.

O silêncio na sala ficou espesso, quase tangível. Ouvi o zumbido dos fluorescentes pela primeira vez em semanas.

— Professor… — disse ele.

A voz soou mais baixa do que de costume, quase um sussurro. Levantei a vista devagar.

— Sim?

Ele ficou parado em frente à minha mesa, com a pasta vermelha apertada contra o peito. Estava hesitando. Eu via isso nas mãos tensas, no jeito como mudava o peso de um pé para o outro.

— Acho que ainda não entendi o exercício de antes.

Ele mentia. Eu soube na hora. Mas assenti, porque qualquer outra resposta teria sido uma confissão.

— Vem.

Ele se aproximou. Demais.

Abri o caderno dele sobre a mesa e apontei uma linha qualquer, tentando manter a compostura. Sentia a presença dele a poucos centímetros, a respiração leve, irregular. A caneta na minha mão tremeu quando tracei uma seta sobre o papel.

E então aconteceu.

Um roçar acidental. A mão dele tocou a minha, só por um instante. Um contato mínimo. Mas foi suficiente. Senti um arrepio subir pelo braço, percorrer minhas costas e se cravar na base da nuca. Ergui os olhos sem pensar. Nossos olhos se encontraram. Perto demais. Tempo demais.

Nenhum de nós se afastou.

O silêncio ficou insuportável.

— Eu não posso… — murmurei, sem saber exatamente o que queria dizer.

Ele também não disse nada. Mas deu meio passo a mais na minha direção. E então eu soube. Tudo o que eu tinha tentado ignorar, esconder e disfarçar durante semanas estava ali, flutuando entre nós. Sem palavras. Sem desculpas. Só desejo contido.

Meu coração batia com força desconfortável. Eu sentia o pulso nas têmporas, na garganta, na ponta dos dedos.

— Isso não deveria… — comecei.

Mas a frase morreu antes de sair inteira.

Porque ele ergueu o rosto só uns milímetros. E eu parei de pensar.

Foi um impulso. Um instante suspenso.

Me inclinei, hesitei no último segundo, e então nossos lábios se encontraram. O contato foi suave no começo. Quase tímido, como se nós dois estivéssemos esperando uma negativa do outro.

Os lábios dele eram quentes, firmes, um pouco mais grossos do que eu tinha imaginado. Se moveram contra os meus com uma lentidão que me fez prender a respiração. Um arrepio me percorreu inteiro, como se todo o corpo despertasse depois de anos apagado. Só existia aquele ponto de contato. Aquele calor. Aquela boca que prendia a minha sem pressa. Nossas línguas começaram a se buscar, a se entrelaçar, a se provar.

Minhas mãos tremeram ao se apoiarem nos ombros dele. Hesitei um instante antes de apertá-los de verdade, sentindo a tensão dos músculos sob a camiseta, a rigidez contida de um corpo jovem que não sabia o que fazer com a própria urgência.

Ele correspondeu com uma segurança inesperada. Não foi brusco. Não foi apressado. O tempo deixou de importar enquanto nossas línguas continuavam procurando o fundo da boca um do outro.

Nos afastamos só alguns centímetros. Testas se tocando. Eu sentia o hálito dele se misturar ao meu, irregular, entrecortado, com um toque de riso nervoso que não chegou a sair.

— Sobe — pedi, oferecendo a mão para ajudá-lo.

Eu o ergui da cadeira e o sentei sobre a mesa, entre o caderno e a caneta largada. Continuamos nos beijando enquanto meus lábios desciam até a mandíbula dele, até o pescoço, até a curva do ombro que aparecia por baixo da camiseta. Bruno inclinou a cabeça para trás e soltou um suspiro longo, contido, como se tivesse passado semanas guardando aquilo em algum lugar.

Mordi o lóbulo da orelha dele. Senti a dureza entre as pernas pressionando contra a borda da minha cintura. Desci a mão até o botão do jeans. Desabotoei devagar. Ele ergueu a pelve para me ajudar a baixá-lo.

Foram surgindo pernas longas, depiladas, de alguém que se cuida mais do que gostaria de admitir. Abaixei-me diante da mesa. Beijei o joelho dele, fui subindo pela parte interna da coxa, devagar, mordiscando de leve a pele. Bruno apoiou as mãos para trás, sobre a madeira, e deixou a cabeça cair em direção ao teto.

Cheguei à virilha e esfreguei o rosto contra ela, respirando o calor da pele. Puxei a cueca boxer para baixo. Lambi tudo, primeiro os ovos sem pelos, macios, recém-saídos do banho, e depois o tronco da pica, devagar, contornando cada veia com a ponta da língua. Aquilo tinha gosto de juventude, de impaciência, de algo que esperava há tempo demais para ser tocado.

Quando a enfiei inteira na boca, Bruno soltou um som rouco, surpreso, quase envergonhado. Minhas mãos subiram pela parte de trás das coxas dele até se fecharem sobre as nádegas. A pele era firme, jovem, sem um único defeito. Comecei a marcar um ritmo lento, deixando-o se acostumar, enquanto sentia ele se tensionar a cada passada da língua.

Depois de um tempo foi ele quem começou a marcar o ritmo. Tímido no início, mexendo os quadris só um pouco. Em seguida com mais confiança, agarrando meu cabelo com uma mão que não sabia se pedia permissão ou exigia isso. Deixei que ele fizesse. Deixei que tomasse o controle de algo que já lhe pertencia havia semanas.

Lágrimas escaparam dos meus olhos quando ele empurrou até o fundo. Bruno se assustou. Aliviou a pressão da mão.

— Continua — murmurei, com a voz partida.

E ele continuou. Mais forte, mais rápido, com a respiração curta e as coxas tremendo sob meus dedos. A mesa rangeu algumas vezes. A pasta vermelha caiu no chão sem que nenhum de nós olhasse para ela.

De repente tudo parou por um segundo interminável. Bruno soltou um gemido cortado, agarrou a borda da mesa com as duas mãos, e uma explosão quente encheu minha boca. Eu engoli tudo, sem me afastar, sem soltá-lo.

Depois fiquei um tempo assim, com a testa apoiada na coxa dele, recuperando o fôlego. Ele acariciava meu cabelo como se não soubesse o que dizer.

— Professor… — começou.

— Cala a boca.

Ergui o rosto. Olhei para ele. Estava corado, desgrenhado, com a camiseta amarrotada e o jeans pela metade. Sorria com aquela mistura de incredulidade e orgulho que só garotos de dezenove anos têm quando descobrem algo novo sobre si mesmos.

— Isso não acabou — eu disse, me levantando devagar.

Abotoei a calça dele com cuidado, passei a mão pelo cabelo dele e dei um beijo curto no canto da boca. Bruno assentiu em silêncio, ainda sem recuperar totalmente o fôlego.

Ele pegou a pasta no chão. Pegou a mochila. Caminhou até a porta como se as pernas pesassem. Antes de sair, se virou.

— Amanhã tem aula?

— Às sete.

— Vou chegar cedo.

Fechou a porta atrás de si. Fiquei sozinho na sala, com a luz branca dos fluorescentes e o eco da voz dele ainda preso em algum canto. Apoiei as mãos na mesa e respirei fundo.

Treze anos de profissão. E agora era eu quem devia algo a ele.

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