O segredo do capitão que amava outro homem
O consultório da doutora Irene Castro, na cidade esportiva do clube, não pretendia ser um refúgio, mas um laboratório de alto rendimento emocional. Tinha o ar asséptico de todas as instalações de El Pinar: paredes de um branco cirúrgico, mobiliário minimalista e uma luz técnica que não deixava espaço para sombras. Ainda assim, Irene havia se esforçado para humanizar aquele cubo de vidro com um tapete de lã, duas plantas que sobreviviam ao ar-condicionado e um aroma suave de chá de gengibre. Para Bruno Valverde, capitão e referência da equipe, aquele era o único lugar do mundo onde o escudo não pesava vinte quilos.
Bruno cruzou o umbral com passo lento. Havia meio ano que não comparecia à consulta, quebrando a rotina que mantinham desde seu retorno à cidade, uma década atrás. Irene o conhecia desde que ele era um rapaz de vinte e dois anos que voltava do exterior com a mandíbula cerrada e o medo de fracassar dentro de casa. Ela o reconstruíra peça por peça.
A doutora o esperava sentada atrás de uma mesa de carvalho claro. Era uma mulher que impunha sem levantar a voz, de uma elegância sóbria, com um cabelo curto loiro-acinzentado e olhos azuis por trás de óculos de armação invisível. Tinha aquele olhar que não julgava, mas desnuda, capaz de detectar uma mentira antes que o paciente terminasse de formulá-la.
Diante dela, Bruno parecia um gigante preso dentro de uma caixa de sapatos. Sentou-se na poltrona de couro com os ombros travados, as mãos apertadas sobre as coxas e aquele repicar incessante dos calcanhares contra o chão, um código Morse de ansiedade que ressoava por toda a sala.
—Bem, Bruno… —Irene pousou a caneta sobre a mesa e se recostou—. Como foram esses meses de ausência?
Por um instante o consultório desapareceu. Bruno sentiu de novo o frio do cimento polido no loft do porto, o cheiro de maresia e couro, as mãos de Teo afundando em suas costas, o agarramento que já não era briga, mas fome. O choque dos dois corpos contra a parede, uma explosão de necessidade contida durante anos que o deixara tremendo, vazio, apavorado com o que acabara de descobrir sobre si mesmo. Piscou. Voltou de súbito, com o suor perlando a nuca sob o agasalho oficial.
—Bem, bem. Muito trabalho —começou, atirando as palavras com rapidez artificial, como se lesse um relatório—. Muito focado no desempenho. Os dados de recuperação estão ótimos, mas no terceiro quarto me falta agressividade na marcação. Estou trabalhando a cadeia posterior com os fisios e acho que a dieta está me ajudando com a inflamação…
Continuou com uma fala técnica, refugiando-se nos percentuais e na carga de treinos, falando de si mesmo como uma máquina que precisava de um ajuste de parafusos, evitando qualquer pronome pessoal.
Irene não o interrompeu. Observou-o com o queixo apoiado na mão, vendo como o capitão se escondia atrás de uma muralha de estatísticas, analisando o tremor do lábio inferior e aquela forma de evitar a palavra “sentir”.
—E fora do trabalho? —insistiu ela, inclinando apenas a cabeça, como quem ajusta o foco de um microscópio. Não lhe interessava o capitão; procurava o homem que se escondia atrás dele.
O repicar do calcanhar cessou de repente. Um silêncio físico que doeu.
—Fora? —repetiu, ganhando tempo.
—Você tem uma vida social muito ativa, Bruno. Ou é o que você projeta —Irene entrelaçou os dedos sobre a mesa—. Os jantares oficiais, os eventos, as fotos com Nadia em todas as redes sociais. Um catálogo de felicidade impecável. Como é estar sempre ao vivo, sem um só minuto em impedimento?
Bruno soltou uma risada seca, sem vestígio de humor.
—Faz parte do salário, Irene. Nadia é ótima, entende esse mundo melhor que ninguém, me ajuda com a agenda, com a imagem…
—Não perguntei sobre a logística da sua agenda —ela o interrompeu, baixando o tom até deixá-lo denso—. Perguntei como você lida com isso. Porque, quando fala da sua vida privada, usa as mesmas palavras que usaria para falar de um patrocinador. Como se fosse uma obrigação contratual.
Ele cravou o olhar num ponto perdido da parede branca.
—Minha vida é assim. Treinar, jogar, cumprir e dormir.
—Você dorme, Bruno? Ou fecha os olhos e espera amanhecer para voltar a vestir a máscara? Porque essa vida social de que todos falam me cheira a fuga. Me diga uma coisa: quando foi a última vez que você se sentiu dono do seu próprio silêncio?
Bruno sentiu um nó na garganta. A lembrança de Teo, da respiração ofegante contra seu ouvido, da liberdade brutal daquele encontro clandestino, ameaçava transbordar da contenção do consultório. Fechou os olhos. E o zumbido do ar-condicionado se transformou no rumor do vento entre os pinheiros da sua casa nas colinas de Vallnova.
***
Era uma manhã de três anos atrás. Bruno despertou devagar, não com o sobressalto do atleta que tem treino às nove, mas emergindo da profundidade do descanso. Pela primeira vez em meses, não sentia dor em nada. Sentia os lençóis frios e, ao seu lado, uma fonte de calor que o ancorava à realidade.
Virou-se de lado. Ali estava Teo, afundado no travesseiro, com o cabelo preto revolto e a respiração compassada de quem se sente seguro. A luz do amanhecer entrava filtrada pelas persianas, desenhando linhas de ouro sobre suas costas nuas e as pintas que salpicavam sua pele clara. Bruno ficou observando, maravilhado com a arquitetura daquele corpo.
Com uma lentidão quase sagrada, estendeu a mão e começou a percorrer a coluna de Teo com a ponta dos dedos, contando cada vértebra como um tesouro. Sua mão, grande e curtida pelo campo, contrastava com a maciez daquela pele. Desceu até a curva do quadril, deleitando-se no toque, e continuou deslizando até encaixar a palma sobre uma nádega firme, apertando com uma fome que havia dormido mal disfarçada sob os lençóis.
Teo soltou um suspiro preguiçoso e se remexeu sob a carícia. Virou-se pouco a pouco, abrindo os olhos com aquela névoa de sono que Bruno tanto amava. O lençol escorregou e deixou à mostra seu pau já desperto, meio ereto contra o ventre, grosso e com a glande brilhante daquela primeira umidade matinal.
—Bom dia, capitão… —murmurou com a voz rouca e profunda, espreguiçando os braços como um felino.
Bruno não respondeu com palavras. Inclinou-se sobre ele, prendendo-o entre os braços, deixando que o peito nu pressionasse contra o dele. O contato foi uma combustão lenta que começou no roçar das coxas e subiu pelo abdômen. Beijou-lhe o pescoço, buscando aquele ponto exato atrás da orelha que fazia Teo arquear as costas e soltar um gemido abafado.
As mãos de Teo, já despertas, enredaram-se no cabelo de Bruno, puxando-o para baixo, buscando sua boca com uma urgência que não entendia de horários nem de protocolos. Foi um beijo com gosto de café por vir e desejo acumulado, com a língua de Bruno abrindo caminho até o fundo da dele, roubando-lhe o fôlego. Os corpos se reconheciam na penumbra. Bruno sentiu o pau de Teo, já duro por completo, pressionando contra seu quadril, deixando um rastro úmido sobre sua pele, e a fome explodiu.
Que o tempo pare, pensou. Que pare aqui e agora.
Não havia pressa, apenas uma exploração voraz. Bruno desceu com a língua pelo peito de Teo, parando em cada mamilo para chupá-lo devagar, mordiscando-o apenas o suficiente para arrancar um gemido que ecoou no silêncio do quarto. Desceu pela linha dos pelos, pelo vão do umbigo, enquanto os dedos do outro lhe arranhavam as costas pedindo mais. Quando a barba de Bruno roçou o nascimento do pau dele, Teo abriu as pernas por instinto, oferecendo-se sem pudor.
—Chupa pra mim, porra… —sussurrou Teo, e a voz se partiu—. Passei a noite toda sonhando com a tua boca.
Bruno sorriu contra o ventre liso e obedeceu. Envolveu a glande com os lábios e a deixou repousar um segundo sobre a língua, saboreando o pré-gozo salgado, antes de engoli-la inteira, até a ponta roçar sua garganta. Teo soltou um grito abafado e arqueou os quadris. Bruno lhe segurou as coxas com as duas mãos, marcando o ritmo, subindo e descendo pelo pau duro com uma lentidão calculada, chupando com as bochechas fundas, fazendo-o estalar contra a língua. Cada vez que chegava à base, respirava pelo nariz contra os pelos escuros do púbis e voltava a subir, puxando com os lábios cerrados ao redor da glande, arrancando dele o som mais obsceno que Teo era capaz de produzir.
—Assim… assim, capitão… olha como você mama meu pau —ofegou Teo, erguendo a cabeça para vê-lo—. Olha como sua boca se enche do meu pau.
Bruno o olhou de baixo, com os olhos azuis acesos e os lábios esticados ao redor do pau, e aquela imagem bastou para que Teo precisasse cerrar os dentes para não gozar. Bruno tirou-o da boca com um ruído úmido, cuspiu na glande e voltou a descer, desta vez massageando os testículos com uma mão enquanto a outra segurava a base. Lambeu os ovos um a um, colocou-os na boca, e depois subiu com a língua lisa por toda a extensão do pau, seguindo a veia inchada até a ponta.
—Vou te foder até você esquecer o seu nome —rosnou Bruno contra a parte interna da coxa de Teo, afundando a barba na pele macia.
—É isso que eu quero, caralho… é isso que eu quero…
Bruno ergueu-se o bastante para alcançar o frasco de lubrificante que dormia na mesinha de cabeceira. Passou uma boa quantidade nos dedos e voltou a se posicionar entre as pernas abertas de Teo. Ergueu-lhe os quadris com um braço, deixando o cu exposto à luz dourada do amanhecer, e começou a acariciar o anel com a ponta do polegar, desenhando círculos lentos ao redor da prega apertada.
—Olha só como você está —murmurou—. Todo aberto pra mim, sem pedir permissão.
—Enfia logo, capitão… não me faz esperar…
Bruno enfiou o primeiro dedo até o fundo, girando-o, e Teo deixou escapar um gemido longo. Acrescentou o segundo logo em seguida, abrindo-o em tesoura por dentro, sentindo como o músculo cedia e voltava a apertar, como o corpo de Teo se acostumava a ele com a memória do desejo repetido. Quando pôde mover três dedos com facilidade, tirou-os e pegou o próprio pau, grosso e já com a glande inchada, para besuntá-lo de lubrificante.
Colocou-se entre as coxas de Teo, apoiou as pernas dele nos ombros e buscou a entrada com a ponta. Empurrou devagar, com as mandíbulas cerradas, e sentiu o anel se abrir ao redor da glande, cedendo centímetro por centímetro, engolindo o pau até que os quadris se chocassem.
—Porra… porra, como você me aperta —ofegou Bruno, ficando imóvel por um segundo, com a testa colada à de Teo.
—Se mexe… me fode, Bruno, me fode de uma vez…
Bruno começou a se mover, primeiro com estocadas longas e profundas, saindo quase por completo para voltar a entrar até o fundo, vendo como seu pau desaparecia dentro do corpo de Teo. A cama rangia sob os joelhos, os lençóis se embolavam, e o som dos quadris colidindo preenchia o quarto como um tambor obsceno. Teo se agarrava aos antebraços do capitão, com as unhas cravadas, gemendo cada vez que a glande roçava sua próstata.
—Aí, aí, não para… —implorou, com os olhos semicerrados—. Me dá mais forte, capitão, quero que isso apareça amanhã na cadeira…
Bruno rosnou e acelerou. Segurou-lhe os quadris com as duas mãos, marcando-os com os dedos, e começou a fodê-lo com estocadas curtas e brutais, arrancando gemidos que ricocheteavam nas paredes da casa vazia. Teo estava com o pau pingando sobre o ventre, duro como um bastão, e Bruno o segurou e começou a masturbá-lo no mesmo ritmo das investidas, sentindo o pré-gozo quente escorrer entre seus dedos.
—É assim que se fode o homem que narra meus gols —ofegou Bruno contra seu ouvido—. É assim que se cala a voz que o país inteiro escuta.
Teo riu e gemeu ao mesmo tempo, com os olhos marejados.
—Continua falando… continua falando sujo comigo, porra…
Bruno o tirou, deu-lhe a volta com uma facilidade brutal e o colocou de bruços com o cu erguido. Afastou-lhe as nádegas com as duas mãos e voltou a se enfiar de uma só vez, arrancando-lhe um grito. Dessa posição podia ver tudo: as costas largas de Teo afundadas nos lençóis, as pintas enfileiradas, o anel apertando-se ao redor de seu pau cada vez que o puxava até a metade. Passou uma mão pela nuca dele, agarrando o cabelo, e começou a estocar com a força de um atacante finalizando a gol.
—Diz a quem você pertence —rosnou, com os dentes cerrados.
—A você… sou seu, porra, sou seu…
—Outra vez.
—Seu, capitão, seu, até a última gota!
Era um sexo pausado e intenso, coreografado por anos de desejo contido em quartos de hotel e visitas furtivas. Ali, no bunker das colinas, eram apenas dois homens se consumindo, alheios ao fato de que, fora daquelas paredes, um era o ídolo de um país e o outro o responsável por narrar sua glória. Bruno sentiu a câimbra subindo pela coluna, aquele aviso inconfundível da gozada próxima, e levou a mão por baixo do ventre de Teo para agarrar-lhe o pau e masturbá-lo com fúria. Teo começou a tremer, apertando o cu ao redor do pau de Bruno com espasmos cada vez mais curtos.
—Tô gozando… tô gozando com você dentro… —balbuciou, e explodiu, salpicando os lençóis de sêmen espesso enquanto o anel se fechava em ondas ao redor do capitão.
O aperto foi demais. Bruno deu três estocadas finais, brutais, e afundou até o fundo enquanto a gozada subia dos ovos e se esvaziava dentro de Teo em jatos quentes que o deixaram com as pernas tremendo. Desabou sobre as costas do amante, respirando contra sua nuca, com o pau ainda dentro, pulsando nas últimas sacudidas.
—Porra… —sussurrou contra o cabelo dele—. Porra, porra, porra.
Teo riu baixinho, com o rosto enterrado no travesseiro, ainda sacudido pelos últimos tremores.
—Bem-vindo pra casa, capitão.
***
Bruno abriu os olhos de repente no consultório. Os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar os braços da poltrona. O coração trovejava em seus ouvidos.
—Você saiu por um instante —disse Irene—. Onde você estava?
—Pensando no jogo de domingo —mentiu, com a voz mais áspera que o habitual—. Gestão de recursos.
—Mentir nesta sala é perda de tempo e de dinheiro, Bruno. E você não é do tipo que desperdiça nenhuma das duas coisas. —Irene tirou os óculos, revelando um olhar cansado, mas implacável—. Você voltou daquele jogo com as pupilas dilatadas e a respiração alterada. Não estava pensando em escanteio. Estava pensando em um refúgio.
—E daí se for? Todos temos um refúgio. Não é isso que você prega?
—O problema é quando o seu refúgio se torna sua cela. —Ela se inclinou para a frente, invadindo o espaço do gigante—. Você passou dez anos sendo o filho perfeito, o namorado perfeito e o capitão perfeito. Construiu uma marca tão sólida que ela já não permite respirar. Sabe por que deixou de vir? Não foi por falta de tempo. Foi porque tinha medo de que, se se sentasse aqui, eu o obrigaria a admitir que você já não quer ser o homem dos outdoors.
—Nadia e eu estamos bem —repetiu ele, como um disco riscado—. O clube está contente…
—Você fala dela como se fosse uma extensão do seu contrato. “Entende esse mundo”, “me ajuda”... Quando foi a última vez que sentiu que Nadia via você de verdade, o Bruno que não usa a braçadeira? Você arrumou uma parceira que é a cúmplice perfeita para o seu desaparecimento.
Bruno se levantou de repente. A cadeira rangeu contra o chão. Aproximou-se da janela, de costas para a doutora, olhando os campos onde os jovens corriam atrás de um sonho que, para ele, há anos era uma jaula de ouro.
—Não permito que fale assim da minha relação.
—Dói porque é verdade —a voz de Irene chegou suave, mas letal—. Você está usando a vida com ela para tapar uma fissura por onde vaza algo que te apavora. Quanto tempo acha que vai aguentar antes que seu corpo diga “basta” no meio de um jogo importante?
Bruno encostou a testa no vidro frio.
—Meu corpo nunca vai dizer basta.
—Seus silêncios falam por você, com cada castigo que se inflige em campo, com cada noite que passa fingindo. Você está em guerra consigo mesmo, e o capitão está perdendo a batalha contra a verdade. Vai continuar negando até se quebrar por inteiro, ou vai em busca da sua verdade?
Bruno enterrou o rosto nas mãos. O consultório mergulhou num silêncio sepulcral, quebrado apenas por sua respiração entrecortada. Irene não se moveu; esperou o bloco de granito acabar de se esfarelar.
—Não é tão fácil, Irene… —a voz saiu abafada, carregada de uma derrota que ela não lhe conhecia—. Você vê uma verdade, mas eu vejo um incêndio. Se eu abrir essa porta, não sou eu que me queimo sozinho. Queima minha família, queima o vestiário, queima a imagem de um clube que não está preparado para que o capitão não seja quem eles pensam.
—E quem pensam que você é? Um super-homem sem rachaduras? —Irene baixou a voz até um sussurro firme—. O problema não é o clube. É que você se acostumou tanto a ser o escudo que esqueceu que, por baixo, existe carne. Vi seus olhos quando você voltou daquela lembrança há pouco. Você não estava num incêndio. Estava em paz. E é isso que te apavora: descobrir que sua felicidade é incompatível com sua glória.
Bruno ergueu o olhar, vidrado, despojado de toda autoridade.
—Essa paz é a única coisa que me faz sentir vivo. Mas, fora desse refúgio, sou apenas um mentiroso profissional. Não sei como ser as duas coisas ao mesmo tempo.
—Ninguém consegue ser duas pessoas diferentes por anos sem enlouquecer. Se você não parar de se esconder, o capitão acabará destruindo o homem. E então não haverá mais nada para administrar.
A fissura estava aberta. Já não era uma suspeita da doutora; era uma confissão tácita que enchia cada canto do consultório.
***
Voltaram a se ver um ano depois, no começo do verão seguinte. O zumbido do ar-condicionado parecia mais silencioso naquela manhã, ou talvez fosse porque Bruno já não trazia consigo o ruído ensurdecedor da negação. Irene o recebeu com um meio sorriso e lhe serviu um café puro, sem açúcar.
Ao se sentar, Bruno não pôde evitar olhar para a mesa lateral. Sob uma pasta técnica despontava uma revista. A capa não deixava dúvidas: uma foto dele e Nadia, de costas, sob um título em letras pesadas: “O fim do romance perfeito”.
—Não te vejo muito abalado —disse Irene, pousando a xícara com um tilintar preciso—. Há um ano, a simples ideia desse título te daria um ataque de ansiedade. Hoje você parece ter se livrado de um peso.
Bruno se recostou, cruzando as pernas com uma descontração que ela jamais tinha visto. E então o consultório voltou a se dissolver.
***
Ele tinha ouvido o programa com as mãos agarradas ao tablet até que os nós dos dedos gritassem. A voz de Teo, aquela voz que tantas vezes narrara seus gols na Onda Marina, acabava de narrar a própria existência diante de milhares de pessoas, saindo do armário ao vivo, quebrando-se em mil pedaços com uma firmeza que Bruno achou sobre-humana. Ao fim da transmissão, pegou o celular e digitou rápido, com o pulso desgovernado: “O que você acabou de fazer? Você enlouqueceu. Você é o maldito chefe, Teo. Preciso te ver. Agora”.
Não esperou resposta. Saiu de sua casa nas colinas como se o prédio estivesse em chamas e dirigiu até o bairro do porto com uma temeridade que lhe custaria a carteira. Estacionou de qualquer jeito e esperou em frente ao portal de tijolo aparente, encostado na parede, contando cada segundo. Quando viu Teo descer do táxi, caminhando com o passo vacilante de quem acaba de soltar uma granada e ainda está atordoado pela onda de choque, sentiu o pulso parar.
Assim que a porta do loft se fechou atrás deles, o ar se incendiou. Não houve prelúdio. Teo nem teve tempo de largar as chaves antes que Bruno o encurralasse contra a grande mesa de madeira da sala de jantar.
—Obrigado, obrigado, porra —balbuciou, e a palavra soou ridícula diante da magnitude do que o outro acabara de fazer pelos dois.
—Não fiz isso por você —respondeu Teo com um fio de voz, embora seus olhos, vermelhos e exaustos, dissessem o contrário.
Bruno o agarrou pela nuca e o beijou com uma desesperação que tinha gosto de vitória e de desastre iminente. Foi um choque de dentes e língua que derrubou livros e pastas no chão com estrondo. Arrancou a camisa dele de um puxão, fazendo os botões voarem, e afundou as mãos na pele do peito, apertando-lhe os mamilos entre os dedos até arrancar um rosnado.
—Mais de um maldito ano morrendo de vontade de fazer isso com você —ofegou contra seu pescoço, inalando seu cheiro como se lhe faltasse oxigênio.
As mãos desceram pelas costas de Teo, reconhecendo cada músculo sob a camisa com uma memória tátil que nem o tempo conseguira apagar. Teo respondeu enlaçando as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o para a borda da mesa com uma força que fez a madeira ranger. Pôs os dedos sobre os lábios de Bruno, afastando-os, brincando com o calor daquele homem que o mundo acreditava inalcançável e que ali, sob a luz do abajur, era só dele. Bruno mordeu os dedos, chupou o indicador até o nó e voltou a beijá-lo, mais fundo, mais sujo.
—Porque você é o foda, Teo —murmurou Bruno—. Só você podia ter posto fogo em tudo.
Enfiou a mão dentro da calça dele e agarrou o pau, masturbando-o com avidez. O pau de Teo estava duro, inchado, com a glande encharcada de pré-gozo que começava a escorrer entre os dedos do capitão. Bruno o tirou da calça para deixá-lo ao ar, grosso e venoso contra o ventre. Teo gemeu, libertou uma mão e a deslizou dentro da calça de Bruno, procurando o vinco até encontrar o buraco do capitão e começar a pressioná-lo com um dedo.
—A liberdade se treina. Não se lembra de que foi você quem me disse isso? —sussurrou Teo contra seus lábios, com o ar escapando, enquanto os dois se estimulavam sem freio.
Bruno soltou um rosnado profundo quando sentiu o dedo de Teo pressionando-o por dentro com precisão. Arqueou as costas sobre a mesa, sentindo o frio dos papéis sob a pele e o fogo daquela mão afundando nele. Puxou a calça para baixo num gesto brusco, deixando o pau ao ar, tão duro que se colava ao abdômen, e depois a tirou de vez. Subiu na mesa com Teo por baixo, os dois já nus, e começou a esfregar os paus um no outro, segurando-os juntos com a mão direita.
—Você me deixou seco com isso, filho da puta —ofegou, acelerando o ritmo sobre o pau de Teo—. Te ouvi e só consegui pensar nisso. Em você me tocando assim. Em você parar de ser o jornalista e virar o único homem capaz de me fazer gemer.
Teo introduziu um segundo dedo, abrindo-o, esticando sua resistência, enquanto a outra mão se enroscava na camiseta de Bruno para atraí-lo mais. Bruno desceu da mesa sem deixar de olhá-lo, ajoelhou-se entre suas pernas abertas e engoliu seu pau até o fundo, sem aviso, até quase engasgar contra o púbis. Teo uivou e agarrou o cabelo dele com as duas mãos.
—Porra, capitão, porra, assim… chupa assim…
Bruno o chupou com a raiva acumulada, com as bochechas fundas e a mandíbula relaxada, subindo e descendo pelo tronco com a boca completamente entregue. Lambeu os ovos, cuspiu na glande e voltou a engoli-lo inteiro, puxando com os lábios até Teo começar a tremer. Quando sentiu que o outro estava prestes a gozar, tirou-o de súbito com um beijo úmido na ponta e se ergueu, com o queixo brilhando de saliva.
—Nem pensar que eu deixo você gozar ainda —rosnou—. O país inteiro te ouviu hoje. Agora é a minha vez de ouvir você gemer.
Teo riu, com os olhos marejados, e o agarrou pelo pescoço para jogá-lo sobre a mesa. Virou-o com uma força que Bruno não conhecia nele e o deixou de bruços, com o tronco colado aos papéis e o cu para fora da borda. Afastou-lhe as nádegas com as duas mãos, agachou-se e passou a língua no anel com um gemido baixo.
—Porra… porra, Teo… —Bruno se agarrou à borda da mesa, com os nós dos dedos brancos.
Teo o devorou sem pressa, desenhando círculos com a língua, ensalivando-o, afundando a ponta na prega apertada até sentir o músculo ceder. Enfiou um dedo, depois dois, encharcados de saliva, procurando o ponto exato que fazia o capitão esquecer de si mesmo. Quando o encontrou, Bruno soltou um gemido rouco que não deixava escapar havia meses.
—Você está aberto pra mim, olha só —murmurou Teo, com os dedos afundados até os nós—. O capitão, com o cu pronto para ser fodido por um jornalista.
—É… é, porra, assim eu sou… me fode, Teo, me fode de uma vez…
Teo se endireitou, pegou o próprio pau, cuspiu na mão e se besuntou bem. Colocou a glande contra o anel de Bruno e empurrou devagar, até o músculo ceder e deixá-lo passar. Bruno soltou todo o ar de uma vez quando o sentiu entrar, centímetro por centímetro, até os quadris de Teo baterem no seu cu.
—Fala de novo —ordenou, cravando os olhos avermelhados no azul enevoado do capitão, com a mão afundada em seu cabelo, puxando-lhe a cabeça para trás—. Diz de quem é. Diz quem te tem agora mesmo.
Bruno não respondeu com palavras, mas com um movimento de quadril que buscava mais profundidade, se empalando sozinho contra o pau de Teo. Desceu a mão para liberar por completo o pau de Teo e começou a masturbá-lo com uma fricção desesperada, contornando a glande com o polegar. Corrigiu-se: não, agora era Teo quem o estava comendo por trás, e era a mão de Teo que lhe agarrava o pau pingando sob a beirada da mesa, masturbando-o enquanto se afundava em seu cu.
—É seu, Teo… todo seu. Sou seu —conseguiu articular, com a saliva brilhando nos lábios entreabertos—. Ninguém mais me viu assim. Ninguém mais me quebrou assim. Não para.
Teo começou a fodê-lo de verdade, com estocadas longas e sonoras que faziam a mesa ranger e os quadros da parede tremerem. Cada golpe arrancava de Bruno um rosnado do fundo do peito, o som que ele vinha guardando havia uma década sob a máscara. Teo lhe agarrou a cintura com as duas mãos, cravou os dedos na carne e acelerou, fodendo-o com a força acumulada de mil silêncios.
—Escuta você mesmo, capitão, escuta você gemer como um puto —sussurrou junto ao ouvido dele, sem parar de estocar—. Toda a Espanha te ouviu dar ordens, e só eu te ouço assim.
—Só você… só você… mais, porra, mais forte…
Teo saiu, ergueu-o pelos ombros, virou-o e o deitou de barriga para cima sobre a mesa. Agarrou-lhe as pernas, jogou-as sobre os ombros e voltou a enfiá-lo de uma só vez, olhando-o nos olhos dessa vez. Bruno passou os braços pela nuca dele e o trouxe para beijá-lo de boca aberta, enquanto a mesa batia contra a parede a cada investida.
—Olha pra mim —pediu Teo, com a testa colada à dele—. Olha pra mim enquanto eu gozo dentro de você.
Bruno abriu os olhos e não os desviou. Agarrou o pau com a mão e começou a masturbá-lo com a fricção desesperada de quem já não aguenta mais, contornando a glande com o polegar a cada subida, sentindo o pré-gozo escorrer até o púbis.
Teo acelerou o bombeio dos quadris, ouvindo o som úmido se misturar aos gemidos que ricocheteavam nas paredes do loft. Bruno, completamente desarmado, abandonou qualquer vestígio de sua couraça de gelo; sua mão não dava trégua, subindo e descendo pelo tronco quente até que ambos sentissem o abismo perto.
—Você ficou com tudo —sussurrou Bruno, mordendo-lhe o lábio inferior—. Você é o maldito chefe, e eu sou seu. Goza pra mim. Goza dentro de mim, porra.
Teo deu três estocadas finais, brutais, afundou até o fundo e explodiu, esvaziando-se dentro do capitão com um gemido longo que saiu do peito. Bruno sentiu, sentiu o pulso quente da gozada abrindo caminho dentro dele, e isso bastou para que o próprio pau pulasse em sua mão, salpicando abdômen e peito de sêmen espesso que lhe alcançou o queixo.
Os dois corpos colidiram numa última investida de dedos e palmas, uma explosão de alívio e verdade que os deixou tremendo, vazios, sobre a mesa que ainda guardava o eco da voz de Teo. Teo desabou sobre ele, com o pau ainda dentro, e lambeu a gozada do pescoço dele com uma lentidão quase obscena.
—Bem-vindo ao mundo real, capitão —sussurrou contra a pele dele.
***
A mente de Bruno voltou ao consultório com uma respiração profunda, deixando escapar um suspiro que soou como liberdade.
—A glória esportiva não tem nada a ver com isso, Irene —disse, fitando fixamente a revista—. Nadia e eu terminamos porque ela merece alguém presente, e eu precisava deixar de ser um coadjuvante na minha própria vida.
—É a primeira vez que você não usa a palavra “gestão” para falar de uma separação —observou Irene, anotando algo em seu caderno—. Te vejo mais exposto, Bruno. E, paradoxalmente, mais forte do que nunca. Isso teve algo a ver com aquele programa que paralisou a cidade na semana passada?
Bruno sorriu. Um sorriso autêntico, dos que não aparecem em anúncios.
—Digamos que, às vezes, é preciso alguém aumentar o volume do rádio para que a pessoa comece a ouvir a própria voz.
Durante o último ano, aquele consultório fora o palco de uma demolição controlada. Sessão após sessão, Irene o ajudara a conciliar a figura do capitão onipresente com sua realidade íntima. Eles haviam passado da negação absoluta para uma aceitação pragmática. No entanto, Bruno mantivera uma linha vermelha: o nome. A doutora sabia que ele estava apaixonado por alguém, sabia que esse sentimento era o motor da sua nova paz e também a origem do seu pânico, mas ignorava que aquele “jornalista corajoso” e o homem que habitava seu refúgio mental eram a mesma pessoa.
—Senti inveja, Irene —confessou Bruno com uma honestidade que arranhou sua garganta—. Uma inveja saudável, se é que isso existe. Eu estava em casa, sozinho, e senti que cada uma das palavras dele tirava um quilo das minhas costas, mesmo sem ser eu quem as dizia. Foi como ver alguém pular de um avião e descobrir que o paraquedas funciona.
—Curioso você dizer isso. Porque alguns dias depois você também pulou: sua separação tornou-se pública. De alguma forma, você quebrou o roteiro que vinha interpretando havia dez anos.
—Eu pulei —repetiu—, mas foi ele quem me ensinou que havia uma rede. Não sei se algum dia serei tão corajoso quanto ele, mas já não tenho medo de olhar para baixo.
Irene pousou o caderno no colo, um gesto que nela anunciava o fim do diagnóstico.
—Você venceu a batalha da honestidade consigo mesmo e libertou Nadia de uma ficção que ela não merecia. Mas o bunker ainda tem paredes muito grossas. Você diz que já não teme olhar para baixo, mas… já pensou em quem está ao seu lado quando olha para o futuro?
Bruno se remexeu, desconfortável. Em poucos dias o refúgio se mudaria para o norte, para a casa da família em Cala Serena, o povoado em frente ao mar onde o capitão voltava a ser simplesmente o filho de Tomás e Amparo.
—Eles são de outra geração. Há coisas que talvez seja melhor permanecerem em silêncio. Não quero decepcioná-los.
—A decepção é o preço que pagamos pela autenticidade. O engano é um imposto que você cobra de si mesmo todos os dias. —Irene se inclinou para a frente—. Seus pais o amam porque acreditam que você é feliz. Se essa felicidade inclui outra pessoa, e essa pessoa é a razão pela qual hoje você respira melhor, não está roubando deles a chance de amá-lo de verdade? O amor que se baseia em um personagem é, na realidade, uma forma de solidão.
Bruno ficou em silêncio. Pela primeira vez, sair do armário já não era um conceito abstrato nem um medo midiático, mas uma conversa pendente numa varanda de frente para o Mediterrâneo.
—Não sei se estou preparado para ver as caras deles quando eu contar —admitiu, com uma fragilidade que lhe quebrou a voz—. Fui o herói deles por tanto tempo…
—Talvez esteja na hora de deixar de ser o herói deles para começar a ser o filho. —Irene se levantou e pousou uma mão suave em seu ombro—. Uma relação saudável não sobrevive de segredos compartilhados no escuro. Precisa de oxigênio, e o oxigênio de um casal é o reconhecimento dos outros. Decida se quer continuar sendo um capitão que controla tudo ou um homem que se atreve a ser amado por quem é. O amor saudável não se esconde, Bruno. Ele se celebra. E já está na hora de você parar de pedir permissão para ser feliz.
Bruno ergueu o olhar e assentiu, mudo. Levantou-se, recolheu seus pertences e saiu para o corredor. O peso da bolsa de esportes lhe pareceu, pela primeira vez, mais leve que o peso do segredo que estava prestes a soltar diante do mar.
Ao sair para o estacionamento, colocou os óculos escuros. Não para se esconder dos flashes, mas para se proteger do brilho do próprio futuro. Ligou o motor e tomou rumo ao norte. Sabia que em algum lugar da cidade Teo respirava mais livre do que nunca, e isso o fazia feliz. Fodidamente feliz.