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Relatos Ardientes

A fenda que o artista abriu em seu casamento

Irene se movia do mesmo jeito que a arquitetura que habitava: ângulos retos, transições suaves e nenhum ruído a mais. Seu casamento com Andrés era uma extensão dessa estética. Ele era um homem de cifras, de camisas de popeline que jamais amassavam e de silêncios compartilhados diante das janelas panorâmicas que davam para uma Valência que, do ático, parecia uma maquete.

Nessa manhã, a oficina de restauração não era um santuário, e sim um escritório de trâmites. O Ministério havia imposto a colaboração de um artista contemporâneo para recuperar os afrescos da ala oeste, e ela aceitou a intrusão com a mesma resignação com que se aceita uma mancha de umidade em uma parede estrutural.

Bruno chegou atrasado. Não foi uma entrada dramática, mas um gotejar. Primeiro o som metálico de uma caixa de ferramentas contra o chão de pedra, e depois sua figura recortada contra o claraboia. Era um homem de estrutura óssea pesada, com ombros feitos para suportar mais peso do que lhes cabia. Vestia uma jaqueta de lona desbotada pelo sol, com os punhos puídos que deixavam ver uns pulsos largos, marcados pelo rastro difuso de alguma tatuagem antiga.

Ele não olhou para as obras. Olhou para ela. Não foi um olhar lascivo, mas uma inspeção técnica, como se Irene fosse parte do material que ele devia trabalhar.

— Disseram-me que aqui se trabalhava com luz de centro cirúrgico — disse Bruno. Sua voz tinha a textura de uma lixa fina —. Não sei como vocês enxergam a alma de alguma coisa sob esses refletores.

Irene não ergueu os olhos do bisturi. Estava limpando uma crosta de cal do rosto de um anjo do século XVIII.

— Aqui não buscamos a alma, buscamos a integridade do pigmento. A alma é o que vocês artistas usam como desculpa para a falta de técnica.

Ele se aproximou. Não pediu licença para entrar no espaço dela. Ficou a uma distância em que ela podia sentir o calor que seu corpo desprendia, um contraste violento com o ar-condicionado da oficina. Bruno estendeu um braço e apontou uma fissura no ombro do anjo. Seus dedos eram longos, com as articulações nodosas e pequenas cicatrizes brancas nos nós.

— Essa rachadura não é do tempo — observou, ignorando a farpa dela —. É de uma tensão interna. A parede está cedendo, mesmo que você insista em dar brilho à superfície.

Irene deixou o bisturi sobre a bandeja de aço com uma precisão que não admitia réplica. Pela primeira vez o encarou. Os olhos dele eram de uma cor indefinida, como água de porto, turvos mas inteligentes.

— A parede vai aguentar — sentenciou, com a frieza de quem confia cegamente nos materiais que manuseia —. Se trouxe os esboços, podemos começar a fingir que isso faz sentido.

— Os esboços estão na minha cabeça — respondeu ele, apoiando o peso numa perna com uma indolência que a ela pareceu um insulto —. O que trouxe foi fome. Onde se come algo de verdade por aqui que não tenha nome de conceito?

Ela começou a tirar as luvas de látex, fazendo-as estalar contra os pulsos.

— Não saberia dizer. Eu almoçado no clube com meu marido. Sua ideia de “algo de verdade” e a minha não moram no mesmo CEP.

Bruno sorriu, apenas um movimento no canto da boca que revelou uma confiança que ela achou profundamente irritante. Irene guardou as ferramentas no estojo aveludado e fechou o zíper com um deslizar que encerrou a conversa.

— Boa sorte na busca. Amanhã às oito preciso desses esboços no papel, não na sua cabeça.

Ela saiu sem esperar resposta, sentindo o eco dos próprios passos sobre o mármore do corredor.

***

A chegada em casa foi, como sempre, um exercício de simetria. Andrés já estava lá, sem o paletó do escritório, revisando documentos na tablet sobre o sofá cor de areia. Não havia uma almofada fora do lugar.

— Dia longo? — perguntou sem levantar os olhos, embora o tom fosse cálido, uma nota familiar que sempre lhe servia de âncora.

— Dia de ajustes — respondeu ela, deixando a bolsa na consola —. O Ministério finalmente mandou o artista para os afrescos. Um tal de Bruno.

Andrés ergueu os olhos. O olhar dele era limpo, previsível, cheio da segurança que só uma vida sem sobressaltos dá.

— Espero que seja profissional. Essa ala é seu maior orgulho do ano.

Irene pôs uma mão no ombro dele. O algodão egípcio da camisa não ofereceu resistência. E, ao tocá-lo, lembrou por um segundo a mão de Bruno apoiada na mesa da oficina: os nós marcados, a pele curtida, aquela cicatriz que parecia contar uma história da qual ela não queria fazer parte.

— É — mentiu, ou talvez tenha se convencido disso.

***

No dia seguinte, Bruno apareceu às oito e quinze. Não trazia a caixa de ferramentas, mas um caderno de capa de papelão fechado com um elástico que já havia perdido a elasticidade. Deixou-o sobre a mesa de Irene, deslocando alguns centímetros sua bandeja de instrumentos, e o abriu numa página central.

Não eram esboços técnicos. Eram traços de carvão, violentos e rápidos, que capturavam não o afresco, mas o movimento da estrutura interna do edifício. Linhas que atravessavam os anjos em vez de respeitar sua forma.

— Eu pedi que você respeitasse a obra, Bruno. Isso é uma dissecação.

— É a verdade do que há por baixo — disse ele, tão perto que ela percebeu que não usava perfume, apenas o aroma neutro da pele limpa e o rastro metálico do carvão nas pontas dos dedos —. Sua restauração é uma máscara. Eu quero pintar o esforço da parede para não cair.

Irene se virou, pronta para exigir rigor, mas ele não olhava para o caderno. Observava-a com uma curiosidade desarmante, empenhado em cartografar as fissuras que ela escondia sob o jaleco branco.

— Seu marido… — começou ele, fazendo o nome soar estranho — sabe que você se esconde atrás desses anjos para não olhar o que está se quebrando lá fora?

Ela não recuou, embora sentisse um calor súbito subir-lhe pelo pescoço.

— Minha vida pessoal não entra neste contrato, e meus métodos mantiveram este patrimônio de pé durante doze anos. Se você não consegue trabalhar com rigor, informarei o Ministério hoje mesmo.

— O rigor é só outra forma de medo, Irene. Mas eu farei seus planos. Espero que o papel suporte tanta contenção.

***

O andaime vibrou quando Bruno subiu o último lance. Era uma estrutura estreita, mal um metro entre a parede descascada e o vazio da ala oeste. Irene limpava com um cotonete o rosto de um querubim, ajoelhada sobre uma tábua. A proximidade dele alterou a acústica do canto; sua respiração pausada quebrou o silêncio da nave.

— Sai — disse Bruno.

Ela parou. O tom não admitia discussão. Ele estendeu a mão e os dedos roçaram seu pulso para deslocá-la. A pele dele era áspera, uma textura de lixa contra o látex da luva. Sem pedir permissão, pressionou o polegar sobre a pintura descascada, um gesto que qualquer manual de restauração consideraria sacrílego.

— Não é o verniz que morre — murmurou —. É a base. Sente a vibração.

Manteve a mão sobre a dela, obrigando-a a pressionar a parede. Irene sentiu o frio da pedra através da luva e, por baixo, o calor da palma de Bruno envolvendo-a. Não havia metáfora: era a pressão física de um homem que trabalhava com força contra uma mulher que trabalhava com delicadeza.

Ela tentou recolher o braço, mas ele aumentou a pressão. Seus rostos estavam a poucos centímetros. Bruno tinha uma mancha de grafite na bochecha.

— Solta-me — ordenou ela, embora sua voz não tivesse a firmeza da manhã.

Ele soltou, mas não se afastou. Ficou ali, invadindo seu ar, observando como ela reajustava o jaleco com mãos trêmulas.

***

Os dias seguintes foram uma erosão lenta. Bruno trazia pedras do porto, deixava-as sobre a mesa imaculada dela e dizia que estavam mais vivas que todo o ateliê. Uma tarde, apontou os dedos nus de Irene, onde um resto de pó branco denunciava que ela havia trabalhado sem luvas.

— Você está com as mãos manchadas de cal, Irene — sussurrou —. Está começando a tocar a ruína. Você gosta do tato daquilo que se quebra.

Não foi uma provocação sexual. Foi uma denúncia. Irene olhou para as mãos e, pela primeira vez em anos, sentiu que a ordem de sua vida era um cenário que Bruno acabara de chutar sem esforço. Ninguém falava assim no mundo de Andrés, onde os problemas se resolviam com reformas e as emoções com viagens.

***

O estrondo da marreta contra o tijolo seco ecoou pela nave. Bruno não golpeava com raiva, mas com uma precisão técnica que ela reconheceu apesar de si mesma. Cada impacto desprendia uma nuvem fina de pó que se depositava sobre o jaleco dela e sobre a pele suada dele. Quando a viga de ferro enferrujada apareceu, ele largou a marreta e desceu pendurando-se nos tubos laterais, até ficar diante dela.

O cheiro de Bruno a alcançou antes das palavras: esforço físico, pó antigo, o rastro metálico do ferro corroído. Nada a ver com o perfume cítrico e distante de Andrés.

— Toca — ordenou ele, puxando-a pelo cotovelo até o muro aberto.

Irene estendeu a mão em direção ao ferro exposto. A ferrugem se desfazia sob os dedos como escamas de uma pele morta. Estava quente. Bruno se colocou atrás dela, pôs a mão sobre a dela e esmagou seus dedos contra o metal áspero. Uma massa térmica a envolvia na penumbra, muito mais real que as paredes que ela vinha tentando salvar havia anos.

— Sente o peso? — sussurrou ao ouvido dela. Seu hálito tinha gosto de café amargo.

Ela não respondeu. Jogou a cabeça para trás, encontrou o ombro dele e finalmente aceitou que o desastre já não estava no muro, mas no centro exato do próprio peito. Quando se virou, presa entre a parede e o corpo dele, Bruno apoiou as duas mãos em cada lado da cabeça dela, cercando-a.

— Seu mundo de vidro não tem ventilação, Irene. Você está se sufocando com tanto ordem.

Ele não esperou que ela confirmasse o diagnóstico. O beijo foi uma colisão de texturas: sal e a urgência de quem não tem nada a perder. Irene respondeu com uma voracidade que nem ela mesma reconheceu, enterrando os dedos na lona da jaqueta. Bruno a ergueu nos braços e a sentou sobre a mesa de trabalho, onde costumava classificar pigmentos com pinças de precisão. Os frascos de vidro tilintaram.

— Você vai quebrar alguma coisa — conseguiu dizer ela.

— Já está quebrado. Só estamos tirando os escombros.

Bruno se ajoelhou entre as pernas dela. As mãos, manchadas de grafite, seguraram-lhe os quadris com força enquanto ele erguia a saia reta até a cintura. Afastou o tecido da calcinha com uma impaciência brutal e, antes de tocá-la com a boca, olhou para ela como quem verifica o nível exato de uma fissura. Irene já respirava em falhas, com as costas arqueadas contra a borda dura da mesa. Ele beijou o interior da coxa, primeiro uma, depois a outra, deixando saliva morna sobre a pele trêmula. Depois enterrou o rosto entre as pernas dela, lambendo-a com a língua aberta, lenta no começo, como se provasse, e logo mais firme, mais suja, mais insistente. Irene apertou uma mão contra a parede para não cair; a outra foi para o cabelo escuro de Bruno, que agarrou em punhados, sentindo o puxão no couro cabeludo enquanto ele a fodia com a boca sem deixar de segurá-la pelos quadris.

Sua respiração virou um fio partido. Bruno afastou só um pouco a língua, deixou-a ofegante e voltou a meter a boca com uma fome quase violenta, chupando-lhe o centro, circulando o clitóris com um ritmo duro, preciso, até que Irene gozou de repente, com um espasmo que atravessou seu abdômen e a deixou sem ar. Tremia sobre a mesa, com as pernas abertas e os joelhos tensos, enquanto ele continuava a lambê-la devagar, recolhendo o que escapava entre as dobras úmidas, como se quisesse espremer tudo dela.

Sem lhe dar trégua, Bruno a pôs de pé e a virou contra a mesa. Irene apoiou os antebraços sobre os esboços de carvão, com o torso abaixado, oferecendo-se numa vulnerabilidade que nunca se permitira. Ele ergueu o jaleco pelas costas e baixou a calcinha dela com uma só mão, até deixá-la nos tornozelos. Abriu-lhe as pernas com o joelho, apalpou a umidade com dois dedos e soltou um rosnado baixo, satisfeito. Depois desapertou a calça, tirou a rola dura, grossa, com a ponta brilhante, e a esfregou por um instante contra a entrada dela, sujando os lábios com a glande inchada. Irene soltou um gemido quando sentiu o primeiro empurrão, uma dor doce, um rasgo breve que logo se transformou numa pressão intensa, perfeita, quando ele foi entrando devagar, até preenchê-la por completo. Cada investida a empurrava contra a borda da madeira enquanto ela encarava de frente os afrescos deteriorados, testemunhas mudas de sua queda.

— Assim — rosnou ele perto de sua nuca —. Fique quieta e me deixe te foder direito.

Irene cravou os dedos na mesa, os nós brancos, e começou a acompanhar o movimento de Bruno com uma cadência desesperada, buscando o choque dos quadris dele contra sua bunda, o golpe fundo que lhe arrancava gemidos curtos e ásperos. O som de pele contra pele se misturou ao roçar dos papéis, ao tilintar de um frasco mal fechado, à respiração quebrada dos dois. Ele a tomou com mais força, apertando-lhe as nádegas com as mãos, enterrando-se com uma violência que a fazia tremer de prazer e vergonha ao mesmo tempo. Cada golpe percorreu sua coluna, tensionou seu ventre, afrouxou suas pernas. Irene se ouviu pedir mais sem reconhecer a própria voz.

Bruno afastou-lhe o cabelo do rosto com um puxão e a obrigou a olhar para ele por cima do ombro. A testa dele estava úmida, a mandíbula travada, os olhos sujos de desejo.

— Olha como eu te abro — disse, e continuou a macetá-la —. Olha como você deixa de ser de porcelana.

Ela não conseguia tirar os olhos dos anjos. O segundo clímax veio com uma violência mais funda, um abalo que lhe fechou a garganta e arqueou suas costas sobre a mesa. Bruno percebeu o tremor, acelerou o ritmo e soltou uma respiração truncada antes de se esvaziar dentro dela em uma série de pulsos quentes e espessos, que lhe encheram o interior enquanto ele continuava a empurrar até o fundo. Irene sentiu o sêmen se derramar em sua vagina, escorrer pegajoso quando ele saiu apenas para voltar a entrar mais algumas vezes, como se quisesse deixar sua marca em cada recanto. Os dois ficaram imóveis por segundos, ofegantes, com a madeira cravando-se nas costelas de Irene e o cheiro de pó, suor e sexo enchendo a nave como uma presença nova.

***

Nessa noite, em casa, Andrés serviu um vinho branco gelado em taças tão finas que pareciam vibrar com os talheres. Irene mal provou o prato.

— Você está muito calada. É tão grave assim o da viga? — perguntou ele.

— É preciso saneá-la desde o núcleo — respondeu, evitando os olhos dele —. Não basta a superfície.

— Confio no seu critério. Você sempre soube onde colocar o limite entre o que se salva e o que precisa ser substituído.

A palavra “limite” soou como um tiro. Sob a mesa, Irene cruzou as pernas e sentiu o roçar do tecido contra suas coxas ainda sensíveis, ainda marcadas pela pressão de Bruno. O contraste era insuportável: a voz aveludada do marido diante do rosnado em sua nuca; a limpeza da sala de jantar diante do cheiro de ferro que ela juraria ainda emanar dos poros.

***

Dois dias depois, a ordem voou pelos ares, mas não na oficina. Irene e Andrés assistiam à inauguração de uma galeria, um evento de etiqueta, vestidos de seda e canapés em bandejas de prata. Era o terreno deles, o lugar onde o autocontrole valia ouro. Até que a porta se abriu e Bruno entrou.

Não vestia smoking. Usava calças escuras, uma camisa preta mal abotoada e a mesma jaqueta de lona que, naquele ambiente, parecia um ato de terrorismo estético. Cruzou a sala com sua passada pesada, ignorando os olhares, até parar a um metro do casal.

— Irene — disse. Não foi uma saudação, foi uma reivindicação.

Andrés ergueu uma sobrancelha com a curiosidade de quem observa um espécime raro e lhe estendeu uma mão impecável.

— Bruno, certo? O artista do Ministério. Irene diz que você é… impetuoso com as estruturas.

Bruno não apertou a mão. Tirou um pedaço de carvão do bolso e o deixou sobre a moldura de uma vitrine, junto à taça de champanhe dela.

— Vim dizer que a viga cedeu de vez esta tarde — disse, com os olhos fixos nos de Irene —. Amanhã a ala oeste estará interditada por segurança. Se quiser ver o desastre antes que escorem, venha esta noite.

— Esta noite? É tarde para inspeções técnicas — interveio Andrés.

— Para algumas coisas, o dia é brilhante demais, senhor Andrés — respondeu Bruno, e foi embora deixando um rastro de pó de carvão sobre o cristal impecável.

Irene apertou a haste da taça com tanta força que temeu quebrá-la.

— É uma emergência estrutural — disse ao marido, e a voz saiu firme, como se tivesse ensaiado a mentira a vida toda —. Se a ala colapsar, o Ministério vai cobrar responsabilidades de mim. Tenho que ir.

— Agora? Estamos no meio do jantar com os diretores…

— Levo uma hora. Peça desculpas aos anfitriões por mim.

***

O prédio do Ministério era uma sombra imponente. Irene entrou pela porta lateral com sua chave-mestra. As luzes de emergência tingiam os corredores de um vermelho tênue. Na ala oeste não havia operários, apenas Bruno sentado no chão, entre os escombros da parede que ele mesmo tinha golpeado, com a lanterna projetando sombras alongadas sobre os anjos, que agora pareciam chorar pó.

— Você veio — disse ele sem se levantar.

Ela parou a poucos metros. Seu vestido de seda verde destacava-se como uma anomalia naquele cenário de ruína.

— Você disse que tinha cedido.

Bruno se ergueu e passou o polegar manchado de preto pelo lábio inferior dela, desfazendo a linha perfeita do batom.

— Não me referia à viga, Irene. Andrés espera você numa sala cheia de gente morta. E você está aqui, entre os escombros, porque é o único lugar onde se sente viva.

Ela fechou os olhos e agarrou as lapelas da jaqueta dele. A seda do vestido se sujou ao bater contra a roupa de trabalho, mas o ruído do tecido lhe causou um prazer quase doloroso.

— Cala a boca — disse, e foi ela quem o buscou desta vez, esmagando os lábios nos dele com uma violência que sabia a renúncia e liberdade.

Bruno lhe enfiou a língua na boca sem suavidade, dominando o beijo, mordendo de leve o lábio inferior até fazê-la ofegar. Irene se agarrou aos ombros dele, sentindo a dureza dos músculos sob a camisa, e desceu com urgência pelo torso até encontrar o cinto. Ajoelhou-se na brita sem pensar, ignorando a ardência nos joelhos, e desabotoou a calça com dedos frenéticos. Tirou a rola, já inchada e pulsante, e a levou à boca com uma avidez que nunca tinha dedicado a nada vivo. Lambia-a da base à ponta, chupou devagar no começo e depois mais fundo, engolindo a cabeça de Bruno até encher-lhe as bochechas e umedecer o canto da boca. Ele segurou o cabelo dela num punho, guiando o ritmo das investidas do quadril contra a língua.

— Assim, porra — rosnou ele —. Olha pra mim quando me chupar.

Irene ergueu os olhos, brilhantes, e engoliu a rola de novo até a garganta. Sentiu o tremor que o percorreu quando acelerou o movimento da língua e da mão, apertando a base enquanto lambia-lhe o freio com insistência. Bruno soltou um gemido grave, tensionou-se de súbito e gozou na boca dela com várias pulsações quentes. Ela ficou imóvel um segundo, sentindo a porra espessa na língua, antes de recuar só um pouco para deixar parte do sêmen escorrer pelo canto da boca e manchar a maquiagem impecável que ostentara diante do marido, apagando a máscara de perfeição.

Sem lhe dar tempo de recuperar o fôlego, Bruno a ergueu pela cintura e a deitou sobre a mesa de trabalho, entre os planos e o pó. Levantou o vestido até a cintura e, de um puxão, arrancou a tanga preta. Abriu-lhe as pernas escancaradamente e se inclinou para lambê-la de novo, mais embaixo, com uma paciência obscena que a fez se retorcer e se agarrar à madeira. Depois a penetrou de uma só investida, profunda e seca, até se enterrar por completo na boceta úmida dela. Irene abriu a boca buscando um ar que lhe escapara dos pulmões. Ele a macetou com veemência animal, alternando as estocadas com tapas secos nas nádegas, que se acenderam sob a luz vermelha. Ela gozou entre ofegos, com o olhar perdido no teto descascado, enquanto Bruno continuava a enfiar a rola uma e outra vez, encharcado por seus fluidos.

Mas Bruno não tinha terminado. Retirou o membro, lubrificado pela umidade dela, e posicionou a cabeça numa fronteira que ela sempre mantivera fechada. Ao sentir a pressão da glande contra a entrada anal, Irene soltou um grito e tentou fechar as pernas, mas ele lhe separou as coxas com uma mão firme.

— Por aí não… — protestou, empurrando com as mãos contra a madeira.

Ele ignorou as queixas e, com um empurrão implacável, entrou devagar, até que a resistência se abriu à força e a dor inicial começou a se transformar numa pressão brutal, insuportável e estranhamente deliciosa. Irene soltou um ofegar sufocado, cravou os dedos na mesa e sentiu como cada avanço de Bruno lhe arrancava um arrepio inteiro do baixo ventre até a garganta. Ele se movia com uma cadência pesada, batendo o pau contra a bunda dela, sujando a pele com suor e saliva, marcando-a com um uso que a enchia de vergonha e de uma excitação que a deixava trêmula. O grito de dor foi se desfazendo até virar um gemido partido quando ela começou a responder, buscando o próprio ritmo, empurrando para trás, pedindo mais sem palavras.

Bruno agarrou-lhe os quadris com ambas as mãos e acelerou, fazendo a mesa chiar sob o peso deles. Irene buscou o clitóris com dois dedos enquanto ele continuava a fodê-la no cu com uma determinação brutal. O orgasmo explodiu de repente, uma sacudida violenta que lhe esvaziou a cabeça e amoleceu as pernas. Sentiu o prazer percorrer sua coluna em pulsos sucessivos e, ao mesmo tempo, Bruno se tensionar atrás dela, soltando uma respiração quebrada antes de também se correr, despejando o sêmen dentro dela em uma série de batidas quentes e espessas. Ele continuou empurrando mais algumas vezes, fundo, para deixá-la cheia, e então os dois caíram exaustos sobre a mesa, dois corpos derrotados entre as ruínas do que costumava ser uma restauração exemplar.

***

A água do chuveiro corria na temperatura exata da pele, uma fronteira líquida que tentava separar a oficina do lar. Irene se esfregou com uma esponja, não com desespero, mas com a metodicidade de quem elimina uma camada de verniz excedente. Observou as marcas vermelhas nos quadris com a mesma frieza com que avaliaria uma viga corroída. Danos colaterais. Nada que uma boa demão de silêncio não pudesse encobrir.

Andrés lia na cama sob a luz direta de um abajur que não permitia sombras.

— Tudo sob controle? — perguntou sem tirar os olhos do livro.

— Sim. A estrutura está estável. Só precisava de um ajuste drástico.

Deslizou entre os lençóis de linho, sentindo o contraste entre a maciez do tecido e a lembrança da madeira áspera. Andrés pôs uma mão em sua cintura, um gesto morno e possessivo que ela recebeu com absoluta imobilidade.

A partir dessa noite, Irene aperfeiçoou a técnica. A mentira tornou-se sua melhor obra de restauração. Na oficina, Bruno era a força bruta que mantinha o sangue circulando; em casa, Andrés era o verniz final, o acabamento impecável que protegia a obra diante do mundo. Ela aprendeu a transitar entre os dois estados com uma precisão invejável.

Entendeu que uma estrutura perfeita não é a que carece de fissuras, mas a que sabe escondê-las sob uma camada magistral de estuque. Seu casamento não era uma farsa: era uma fachada histórica que precisava de uma degradação interna e secreta para não desabar sob o peso do próprio tédio.

No jantar de gala seguinte, Irene usava um vestido preto fechado até o pescoço, uma peça que não revelava nem um milímetro das marcas que Bruno lhe havia deixado naquela mesma tarde. Enquanto segurava a taça e ouvia Andrés falar de fundos de investimento, sentiu a pulsação surda do próprio corpo, um eco da punição que ainda a habitava. Sorriu com uma serenidade quase sagrada. Olhou para o marido e depois para os convidados, consciente de que era a única artista de verdade naquela sala. Os demais viviam em edifícios que acreditavam sólidos; ela habitava uma ruína bela, escorada pela traição e sustentada pela maestria absoluta da própria mentira. Não havia nada a salvar, porque o dano, bem administrado, era a única coisa que a fazia se sentir real.

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