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Relatos Ardientes

A fissura que o artista abriu em seu casamento

Irene se movia como a arquitetura que habitava: ângulos retos, transições suaves e nenhum ruído a mais. Seu casamento com Andrés era uma extensão dessa estética. Ele era um homem de números, de camisas de popeline que nunca amassavam e de silêncios compartilhados diante das janelas envidraçadas que davam para uma Valência que, do ático, parecia uma maquete.

Naquela manhã, o ateliê de restauração não era um santuário, mas um escritório de trâmites. O Ministério havia imposto a colaboração de um artista contemporâneo para recuperar os afrescos da ala oeste, e ela aceitou a intrusão com a mesma resignação com que se aceita uma mancha de umidade em uma parede estrutural.

Bruno chegou atrasado. Não foi uma entrada dramática, mas um gotejar. Primeiro o som metálico de uma caixa de ferramentas contra o piso de pedra, depois sua figura recortada contra a claraboia. Era um homem de estrutura óssea pesada, com ombros feitos para suportar mais peso do que lhes cabia. Vestia uma jaqueta de lona desbotada pelo sol, com os punhos puídos que deixavam à mostra uns pulsos largos, marcados pelo rastro borrado de algum tatuagem antiga.

Ele não olhou as obras. Olhou para ela. Não foi um olhar lascivo, mas uma inspeção técnica, como se Irene fosse parte do material que ele precisava trabalhar.

— Me disseram que aqui se trabalhava com luz de centro cirúrgico — disse Bruno. Sua voz tinha a textura de uma lixa fina —. Não sei como vocês enxergam a alma de alguma coisa sob esses refletores.

Irene não ergueu os olhos de seu bisturi. Estava limpando uma crosta de cal do rosto de um anjo do século XVIII.

— Aqui não buscamos a alma, buscamos a integridade do pigmento. A alma é o que vocês, artistas, usam como desculpa para a falta de técnica.

Ele se aproximou. Não pediu licença para entrar no seu perímetro. Ficou a uma distância em que ela podia sentir o calor que seu corpo emanava, um contraste violento com o ar-condicionado do ateliê. Bruno estendeu um braço e apontou uma fissura no ombro do anjo. Seus dedos eram longos, com articulações nodosas e pequenas cicatrizes brancas nos nós.

— Essa rachadura não é do tempo — observou, ignorando a alfinetada dela —. É de uma tensão interna. A parede está cedendo, embora você insista em dar brilho à superfície.

Irene pousou o bisturi sobre a bandeja de aço com uma precisão que não admitia réplica. Pela primeira vez, olhou-o nos olhos. Eram de uma cor indefinida, como a água de um porto, turvos, mas inteligentes.

— A parede vai aguentar — sentenciou, com a frieza de quem confia cegamente nos materiais que maneja —. Se você trouxe os esboços, podemos começar a fingir que isso faz sentido.

— Os esboços estão na minha cabeça — respondeu ele, apoiando o peso em uma perna com uma indolência que lhe pareceu um insulto —. O que eu trouxe é fome. Onde é que se come algo de verdade por aqui que não tenha nome de conceito?

Ela começou a tirar as luvas de látex, fazendo-as estalar contra os pulsos.

— Não saberia dizer. Eu almoço no clube com meu marido. Sua ideia de “algo de verdade” e a minha não moram no mesmo CEP.

Bruno sorriu, apenas um movimento no canto da boca que revelava uma confiança que ela achou profundamente irritante. Irene guardou as ferramentas no estojo aveludado e fechou o zíper com um deslizamento que pôs fim à conversa.

— Boa sorte com a sua busca. Amanhã às oito preciso desses esboços no papel, não na sua cabeça.

Ela saiu sem esperar resposta, sentindo o eco de seus próprios passos sobre o mármore do corredor.

***

A chegada em casa foi, como sempre, um exercício de simetria. Andrés já estava lá, sem o paletó do escritório, revisando documentos na tablet sobre o sofá cor de areia. Não havia uma almofada fora do lugar.

— Dia longo? — perguntou sem erguer os olhos, embora o tom fosse caloroso, uma nota familiar que sempre lhe servia de ancoragem.

— Dia de ajustes — respondeu ela, deixando a bolsa sobre a consola —. O Ministério finalmente mandou o artista para os afrescos. Um tal de Bruno.

Andrés ergueu os olhos. Seu olhar era limpo, previsível, cheio da segurança que só uma vida sem sobressaltos dá.

— Espero que ele seja profissional. Essa ala é o seu maior orgulho do ano.

Irene pousou uma mão no ombro dele. O algodão egípcio da camisa não ofereceu resistência. E, ao tocá-lo, lembrou por um segundo da mão de Bruno apoiada na mesa do ateliê: os nós marcados, a pele curtida, aquela cicatriz que parecia contar uma história da qual ela não queria fazer parte.

— Ele é — mentiu, ou talvez tenha se convencido disso.

***

Na manhã seguinte, Bruno apareceu às oito e quinze. Não trazia a caixa de ferramentas, mas um caderno de capa de papelão fechado com um elástico que perdera a elasticidade. Deixou-o sobre a mesa de Irene, deslocando alguns centímetros sua bandeja de instrumentos, e o abriu no meio de uma página central.

Não eram esboços técnicos. Eram traços de carvão, violentos e rápidos, que capturavam não o afresco, mas o movimento da estrutura interna do edifício. Linhas que atravessavam os anjos em vez de respeitar sua forma.

— Eu pedi que você respeitasse a obra, Bruno. Isso é uma dissecação.

— É a verdade do que há por baixo — disse ele, tão perto que ela percebeu que ele não usava perfume, apenas o cheiro neutro da pele limpa e o rastro metálico do carvão nas pontas dos dedos —. Sua restauração é uma máscara. Eu quero pintar o esforço da parede para não cair.

Irene se virou, pronta para exigir rigor, mas ele não olhava para o caderno. Observava-a com uma curiosidade desarmante, empenhado em cartografar as fissuras que ela escondia sob o jaleco branco.

— Seu marido... — começou ele, fazendo o nome soar estranho — sabe que você se esconde atrás desses anjos para não olhar o que está se quebrando lá fora?

Ela não recuou, embora sentisse um calor repentino subir-lhe pelo pescoço.

— Minha vida pessoal não entra neste contrato, e meus métodos mantiveram esse patrimônio de pé por doze anos. Se você não consegue trabalhar com rigor, eu informarei o Ministério hoje mesmo.

— O rigor é só outra forma de medo, Irene. Mas eu vou fazer os seus planos. Espero que o papel aguente tanta contenção.

***

O andaime vibrou quando Bruno subiu o último lance. Era uma estrutura estreita, mal um metro entre a parede descascada e o vazio da ala oeste. Irene limpava com um cotonete o rosto de um querubim, ajoelhada sobre uma tábua. A proximidade dele mudou a acústica do canto; sua respiração pausada rompeu o silêncio da nave.

— Sai — disse Bruno.

Ela parou. O tom não admitia discussão. Ele estendeu a mão e seus dedos roçaram o pulso dela para afastá-la. A pele dele era áspera, uma textura de lixa contra o látex da luva. Sem pedir permissão, pressionou o polegar sobre a tinta descascada, um gesto que qualquer manual de restauração consideraria sacrilégio.

— Não é o verniz que morre — murmurou —. É a base. Sinta a vibração.

Ele manteve a mão sobre a dela, obrigando-a a pressionar a parede. Irene sentiu o frio da pedra através da luva e, por baixo, o calor da palma de Bruno envolvendo-a. Não havia metáfora: era a pressão física de um homem que trabalhava com a força contra uma mulher que trabalhava com a delicadeza.

Ela tentou puxar o braço, mas ele aumentou a pressão. Os rostos estavam a poucos centímetros. Bruno tinha uma mancha de grafite na bochecha.

— Solta — ordenou ela, embora sua voz não tivesse a firmeza da manhã.

Ele soltou, mas não se afastou. Ficou ali, invadindo seu ar, observando como ela rearrumava o jaleco com mãos trêmulas.

***

Os dias seguintes foram uma erosão lenta. Bruno trazia pedras do porto, deixava-as sobre sua mesa impecável e dizia que estavam mais vivas do que todo o seu ateliê. Uma tarde, apontou os dedos nus dela, onde um resíduo de pó branco denunciava que ela tinha trabalhado sem luvas.

— Você está com as mãos manchadas de cal, Irene — sussurrou —. Está começando a tocar a ruína. Você gosta do tato do que está quebrando.

Não foi uma provocação sexual. Foi uma acusação. Irene olhou para as próprias mãos e, pela primeira vez em anos, sentiu que a ordem da sua vida era um cenário que Bruno acabava de chutar sem esforço. Ninguém falava assim no mundo de Andrés, onde os problemas se resolviam com reformas e as emoções com viagens.

***

O estrondo da marreta contra o tijolo seco ecoou pela nave. Bruno não golpeava com raiva, mas com uma precisão técnica que ela reconheceu a despeito de si mesma. Cada impacto desprendia uma nuvem de poeira fina que se depositava sobre o jaleco dela e sobre a pele suada dele. Quando apareceu a viga de ferro enferrujada, ele largou a marreta e desceu pendurando-se nos tubos laterais, até ficar diante dela.

O cheiro de Bruno a alcançou antes das palavras: esforço físico, poeira antiga, o rastro metálico do ferro corroído. Nada a ver com o perfume cítrico e distante de Andrés.

— Toca — ordenou ele, puxando-a pelo cotovelo até a parede aberta.

Irene estendeu a mão para o ferro exposto. A ferrugem se desfez sob seus dedos como escamas de uma pele morta. Estava quente. Bruno se colocou atrás dela, pôs a mão sobre a dela e esmagou seus dedos contra o metal áspero. A envolvia, na penumbra, uma massa térmica que parecia muito mais real do que os muros que ela havia passado anos tentando salvar.

— Sente o peso? — sussurrou no ouvido dela. Seu hálito tinha gosto de café amargo.

Ela não respondeu. Jogou a cabeça para trás, encontrou o ombro dele e finalmente aceitou que a desgraça já não estava na parede, mas no centro exato do seu peito. Quando se virou, presa entre a parede e o corpo dele, Bruno apoiou ambas as mãos de cada lado da sua cabeça, cercando-a.

— Seu mundo de cristal não tem ventilação, Irene. Você está se sufocando de tanto ordenamento.

Ele não esperou que ela confirmasse o diagnóstico. O beijo foi uma colisão de texturas: sal e a urgência de quem não tem nada a perder. Irene respondeu com uma voracidade que ela mesma não reconheceu, cravando os dedos na lona da jaqueta. Bruno a ergueu no ar e a sentou sobre a mesa de trabalho, onde costumava classificar pigmentos com pinças de precisão. Os frascos de vidro tilintaram.

— Você vai quebrar alguma coisa — conseguiu dizer ela.

— Já está quebrado. Só estamos tirando os escombros.

Bruno se ajoelhou entre as coxas dela. Suas mãos, manchadas de grafite, seguraram-lhe os quadris com força enquanto ele erguia a saia lápis até a cintura. Quando afastou a seda e sua boca encontrou o centro da umidade dela, ela soltou um gemido que rebateu nas abóbadas do ateliê. Era uma língua rude, que buscava seu clitóris com a mesma precisão com que ele buscava as fissuras da parede. O primeiro orgasmo a atingiu rápido, um espasmo elétrico que a obrigou a arquear as costas e a cravar os dedos no cabelo desgrenhado dele.

Sem lhe dar trégua, Bruno a pôs de pé e a virou contra a mesa. Irene apoiou os antebraços sobre os esboços de carvão, com o tronco baixo, oferecendo-se numa vulnerabilidade que nunca tinha se permitido. A penetração foi um golpe seco, uma incursão profunda que a preencheu por completo. Cada investida a empurrava contra a borda da madeira enquanto ela olhava de frente os afrescos deteriorados, testemunhas mudas da sua queda.

— Olha como tudo se quebra — rosnou ele perto da nuca dela.

Ela não conseguia desviar os olhos dos anjos. O segundo clímax veio em forma de grito que ela não tentou abafar, uma série de espasmos tão violentos que arrastaram também Bruno. Ele se enterrou uma última vez, despejando-se dentro dela, enquanto ambos se fundiam num final que cheirava a ferro e à derrota da compostura.

***

Naquela noite, em casa, Andrés serviu um vinho branco gelado em taças tão finas que pareciam vibrar com os talheres. Irene mal provou o prato.

— Você está muito calada. É tão grave assim o da viga? — perguntou ele.

— É preciso sanear desde o núcleo — respondeu, evitando os olhos dele —. Não basta a superfície.

— Confio no seu critério. Você sempre soube onde pôr o limite entre o que se salva e o que precisa ser substituído.

A palavra “limite” soou como um disparo. Sob a mesa, Irene cruzou as pernas e sentiu o roçar do tecido contra as coxas ainda sensíveis, ainda marcadas pela pressão de Bruno. O contraste era insuportável: a voz aveludada do marido diante do rosnado na sua nuca; a limpeza da sala de jantar diante do cheiro de ferro que ela juraria ainda emanava dos seus poros.

***

Dois dias depois, a ordem foi pelos ares, mas não no ateliê. Irene e Andrés assistiam à inauguração de uma galeria, um evento de etiqueta com vestidos de seda e canapés em bandejas de prata. Era o seu terreno, o lugar onde seu autocontrole era uma moeda valiosa. Até que a porta se abriu e Bruno entrou.

Ele não usava smoking. Vestia calças escuras, uma camisa preta mal abotoada e a mesma jaqueta de lona que, naquele ambiente, parecia um ato de terrorismo estético. Cruzou o salão com sua passada pesada, ignorando os olhares, até parar a um metro do casal.

— Irene — disse. Não foi um cumprimento, foi uma cobrança.

Andrés ergueu uma sobrancelha com a curiosidade de quem observa um exemplar estranho e lhe estendeu uma mão impecável.

— Bruno, certo? O artista do Ministério. Irene diz que você é... impetuoso com as estruturas.

Bruno não apertou a mão dele. Tirou um pedaço de carvão do bolso e o deixou sobre a borda de uma vitrine, ao lado da taça de champanhe dela.

— Vim te dizer que a viga cedeu de vez hoje à tarde — disse, com os olhos fixos nos de Irene —. Amanhã a ala oeste estará interditada por segurança. Se você quiser ver a desgraça antes que a escorem, venha hoje à noite.

— Hoje à noite? Já é tarde para inspeções técnicas — interveio Andrés.

— Para algumas coisas, o dia é claro demais, senhor Andrés — respondeu Bruno, e foi embora deixando um rastro de pó de carvão sobre o vidro impecável.

Irene segurou a haste da taça com tanta força que temeu quebrá-la.

— É uma emergência estrutural — disse ao marido, e sua voz soou firme, como se tivesse ensaiado a mentira a vida inteira —. Se a ala desabar, o Ministério vai me cobrar responsabilidades. Tenho que ir.

— Agora? Estamos no meio do jantar com os diretores...

— Levo uma hora. Me desculpe com os anfitriões.

***

O prédio do Ministério era uma sombra imponente. Irene entrou pela porta lateral com sua chave-mestra. As luzes de emergência tingiam os corredores de um vermelho tênue. Na ala oeste não havia operários, apenas Bruno sentado no chão, entre os escombros da parede que ele mesmo havia golpeado, com a lanterna projetando sombras alongadas sobre os anjos, que agora pareciam chorar poeira.

— Você veio — disse ele sem se levantar.

Ela parou a poucos metros. Seu vestido de seda verde destacava-se como uma anomalia naquele cenário de ruína.

— Você disse que ela tinha cedido.

Bruno se levantou e passou o polegar manchado de preto no lábio inferior dela, desfazendo a linha perfeita do batom.

— Não estava falando da viga, Irene. Andrés te espera numa sala cheia de gente morta. E você está aqui, entre os escombros, porque é o único lugar onde se sente viva.

Ela fechou os olhos e agarrou a lapela da jaqueta dele. A seda do vestido se sujou ao bater na roupa de trabalho, mas o ruído do tecido lhe produziu um prazer quase doloroso.

— Cala a boca — disse, e foi ela quem o procurou desta vez, estilhaçando os lábios contra os dele com uma violência que tinha gosto de renúncia e liberdade.

Desabou de joelhos sobre a brita, sem se importar que a seda se rasgasse. Desabotoou a calça dele com dedos frenéticos e o colocou na boca com uma avidez que nunca dedicara a nada vivo. Bruno agarrou seu cabelo, enrolando-o no punho para conduzir os movimentos, fodendo sua boca com uma cadência bruta. Quando gozou, ela retirou o rosto só o suficiente para que os últimos jatos se espalhassem sobre a maquiagem impecável que exibira diante do marido, manchando a máscara da perfeição.

Sem deixá-la recuperar o fôlego, Bruno a ergueu e a estendeu sobre a mesa de trabalho, entre os projetos e a poeira. Levantou o vestido até a cintura e, de um puxão, arrancou a calcinha preta dela. Abriu-lhe as pernas de par em par e se enterrou nela de uma só investida. Irene abriu a boca buscando um ar que lhe escapara dos pulmões. Ele a possuiu com veemência animal, alternando as estocadas com palmadas secas nas nádegas dela, que se acenderam sob a luz vermelha. Ela gozou entre gemidos, com o olhar perdido no teto descascado.

Mas Bruno ainda não tinha terminado. Retirou o membro, lubrificado pelos fluidos dela, e posicionou a ponta numa fronteira que ela sempre mantivera fechada. Ao sentir a intrusão, Irene soltou um grito.

— Aí não... — protestou, empurrando com as mãos contra a madeira.

Ele ignorou as queixas e, com um empurrão implacável, entrou até a metade. O primeiro berro de dor foi mudando de frequência; a pressão interna começou a se transformar num prazer lancinante, desconhecido e absoluto. A rejeição virou entrega: os quadris dela passaram a buscar o impacto, denunciando que a invasão a devorava por dentro. Bruno aumentou o ritmo, agarrado às nádegas avermelhadas dela. Irene buscou o clitóris com a mão e o orgasmo anulou qualquer controle sobre os músculos. Quase ao mesmo tempo, ele se esvaziou com os últimos sobressaltos, e os dois caíram exaustos sobre a mesa, dois corpos derrotados entre as ruínas do que costumava ser uma restauração exemplar.

***

A água do chuveiro corria na temperatura exata da pele, uma fronteira líquida que tentava separar o ateliê do lar. Irene esfregou-se com uma esponja, não com desespero, mas com a meticulosidade de quem elimina uma camada de verniz excedente. Observou as marcas vermelhas nos quadris com a mesma frieza com que avaliaria uma viga corroída. Danos colaterais. Nada que uma boa preparação de silêncio não pudesse ocultar.

Andrés lia na cama sob a luz dirigida de um abajur que não permitia sombras.

— Tudo sob controle? — perguntou sem tirar os olhos do livro.

— Sim. A estrutura está estável. Só precisava de um ajuste drástico.

Deslizou entre os lençóis de linho, sentindo o contraste entre a suavidade do tecido e a lembrança da madeira áspera. Andrés pousou uma mão na cintura dela, um gesto morno e possessivo que ela recebeu com imobilidade absoluta.

A partir daquela noite, Irene aperfeiçoou a técnica. A mentira se tornou sua melhor obra de restauração. No ateliê, Bruno era a força bruta que mantinha o sangue circulando; em casa, Andrés era o verniz final, o acabamento impecável que protegia a obra diante do mundo. Ela aprendeu a transitar entre os dois estados com uma precisão invejável.

Compreendeu que uma estrutura perfeita não é a que não tem fissuras, mas a que sabe escondê-las sob uma camada magistral de estuque. Seu casamento não era uma farsa: era uma fachada histórica que precisava de uma degradação interna e secreta para não desabar sob o peso do próprio tédio.

No jantar de gala seguinte, Irene usava um vestido preto fechado até o pescoço, uma peça que não revelava um milímetro sequer das marcas que Bruno lhe deixara naquela mesma tarde. Enquanto segurava a taça e ouvia Andrés falar de fundos de investimento, sentiu a pulsação surda do próprio corpo, um eco da punição que ainda a habitava. Sorriu com uma serenidade quase sagrada. Olhou para o marido e depois para os convidados, consciente de que ela era a única artista verdadeira naquela sala. Os demais viviam em edifícios que acreditavam sólidos; ela habitava uma ruína bonita, escorada pela traição e sustentada pela maestria absoluta da própria mentira. Não havia nada a salvar, porque o dano, bem administrado, era a única coisa que a fazia se sentir real.

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