A noite em que Sofia me mostrou o que queria
Eram onze e meia da noite quando Sofia fechou a porta do banheiro pela segunda vez. Eu fiquei sentado na beirada da cama, com o paletó azul-marinho ainda vestido, olhando sem ver a televisão desligada.
Fazíamos quase um ano que falávamos disso. No começo era uma espécie de jogo: uma pergunta hipotética que um de nós lançava no ar depois de transar, quando a guarda estava baixa e as coisas que a gente diz em voz alta parecem menos reais do que as que se cala. Depois deixou de ser jogo. A conversa ficou mais específica, mais séria, mais concreta. E, quando por fim dissemos sim, já tínhamos rodado tanto o assunto que a decisão não chegou como um salto no vazio, e sim como um passo lógico, quase inevitável.
Ou era o que eu dizia a mim mesmo.
Sofia saiu do quarto com um vestido preto justo, sem mangas, com um decote nas costas que ia até a cintura. Ela me olhou da porta com uma expressão que eu conhecia bem: aquela mistura de nervosismo e determinação que ela fazia quando algo realmente importava para ela.
—Estou bem? — perguntou.
—Você está perfeita — eu disse.
E estava. Sofia tem esse tipo de presença que não precisa de esforço para se impor: alta, de ombros largos e quadris que acompanham a silhueta com uma precisão quase cruel. O cabelo castanho-escuro caía solto sobre os ombros. Os brincos de prata captavam a luz do corredor. Sob o vestido, os seios grandes se marcavam, sem sutiã, os mamilos desenhando-se contra o tecido cada vez que ela respirava fundo.
—E você, como está? — perguntou, chegando mais perto.
—Bem — menti.
Ela sorriu. Não era um sorriso de deboche. Era o sorriso que ela me dava quando me conhecia melhor do que eu mesmo. Pegou minha mão e apertou por um segundo, sem dizer mais nada.
—Lembra do que a gente combinou — disse ela—. Se em algum momento você quiser parar, me avisa e acaba. Sem drama.
—Eu sei, Sofia.
A campainha tocou.
***
Rodrigo e Damián chegaram juntos. Rodrigo era o que Sofia conhecia de algum fórum da internet, onde trocaram mensagens por semanas sem que eu desse muita atenção na época. Era músico, devia ter uns cinquenta e tantos anos, o cabelo completamente branco e a barba da mesma cor, fechada e bem cuidada. O tipo de homem que toma conta de um ambiente sem nem tentar. Vestia-se de preto dos pés à cabeça e tinha maneiras que oscilavam entre a cordialidade genuína e uma ironia suave que nunca se esclarecia por completo.
Damián era amigo dele. Mais jovem, cabelo escuro, bigode bem cuidado, camisa e calça jeans. Mais calado. Com olhos que não paravam de se mover.
Eu os fiz entrar. Sofia abriu umas cervejas. Sentamos.
Fiquei ao lado dela no sofá, de frente para os dois. Rodrigo falava com facilidade, sem esforço, preenchendo o silêncio com histórias de turnês e estúdios de gravação. Damián assentia, bebia e, de vez em quando, olhava para Sofia de um jeito que não disfarçava nada. Não de forma hostil. Simplesmente olhava, com aquela avaliação tranquila que é mais intimidadora do que qualquer provocação direta. Encarava os seios dela, depois as coxas que o vestido deixava entrever quando ela cruzava as pernas, e voltava a subir sem pressa.
—Então, advogado — disse Rodrigo em dado momento, me olhando.
—Sim.
—Interessante — disse, embora o tom indicasse o contrário.
Não perguntei o que tinha de interessante ser advogado. Me contive.
Sofia falava mais do que eu. Ria nos momentos certos, fazia perguntas que mostravam que tinha prestado atenção, incluía meu nome na conversa quando podia. Era uma versão dela que eu reconhecia, mas que naquele contexto me parecia ligeiramente alheia: a Sofia pública, a que exibia toda a graça diante de desconhecidos. Eu me sentia desnecessário, como um móvel que alguém decorou com cuidado, mas que ninguém precisa usar naquela noite.
Em certo momento Damián perguntou, falando diretamente comigo:
—O Rodrigo me comentou que você não ia participar. Continua assim?
O silêncio que veio depois foi daqueles que pesam fisicamente.
—Não vou participar — confirmei.
—Ótimo. Só queria deixar isso claro antes.
Rodrigo encheu os copos. Sofia disse que ia buscar mais cerveja na cozinha e Rodrigo se levantou para ajudar. Eu quase me levantei também. Não o fiz. Da cozinha veio uma risada dela que me gelou uma coisa que eu não sei nomear exatamente.
Quando voltaram, Sofia se sentou no meio. Não ao meu lado. No meio, entre os dois, com uma naturalidade que só podia ser deliberada.
Meu coração começou a bater com uma força que me parecia quase incômoda.
***
Foi Rodrigo quem se moveu primeiro. Sem aviso, sem preliminares, ele se inclinou em direção a Sofia e a beijou. Ela recuou por instinto um centímetro, dois, até que as costas tocaram o encosto do sofá. E então, sem que ninguém dissesse nada, passou os braços pelo pescoço dele e correspondeu.
Eu a olhei. Vi como o beijo se prolongava, como ele a puxava para si com uma segurança que não admitia hesitação. Era um beijo longo, profundo, do tipo que não pretende ser delicado. Rodrigo enfiou a língua até o fundo e ela a chupou com uma urgência que eu não conhecia, enquanto ele apertava um seio por cima do vestido com a mão aberta, moldando-o, medindo seu peso através do tecido.
Quando terminou, Sofia me olhou. Os lábios estavam inchados e um fio de saliva brilhava no canto da boca.
Não soube o que fazer com a cara. Acho que assenti com a cabeça.
Damián segurou o queixo dela e a virou para ele. Sussurrou algo no ouvido dela. Ela soltou uma risada curta, nervosa.
—O que você disse pra ela? — perguntei.
Damián me olhou com uma expressão que não era exatamente desprezo, mas também não era respeito.
—Que ela é muita mulher para quem quer ter só pra si.
Engoli em seco. Sofia sustentou meu olhar por um segundo, como se quisesse dizer algo que não chegou a dizer, e então Damián a beijou também. Agarrou a nuca dela sem nenhuma delicadeza e devorou sua boca. A mão livre desceu pelo decote e encontrou o mamilo sob o tecido. Apertou-o. Sofia gemeu dentro do beijo, um som curto, agudo, que escapou sem permissão.
***
Sofia se levantou e disse que ia buscar alguma coisa na cozinha. Eu a segui sem pensar, movido por uma inércia que não escolhi. Ela abriu o armário, pegou um copo, encheu-o com água e bebeu devagar, olhando os azulejos da parede como se precisasse de um momento de calma antes de continuar.
Sobre a bancada havia uma cartela de comprimidos. Ela a pegou, extraiu um, engoliu com um gole direto da torneira, sem copo, sem cerimônia.
Esse gesto me atingiu mais do que tudo o que tinha acontecido antes. Era tão premeditado, tão prático, que me deixou sem palavras. O corpo dela já estava preparado de antemão para o que vinha. Era o sinal de que não havia volta atrás.
Sofia largou a cartela sobre a bancada e se virou. Ao me ver parado ali, olhando para ela, algo no rosto dela amoleceu um pouco.
—Vamos? — perguntou.
—Vamos — respondi.
***
O quarto estava em ordem. Sofia tinha preparado a cama mais cedo: lençóis limpos, toalhas dobradas sobre o sofá do canto, a mesinha de cabeceira afastada para abrir espaço. A cadeira estava posicionada de modo que, quem se sentasse nela, tivesse a vista completa da cama.
Eu me sentei nela.
Rodrigo e Damián entraram sem hesitar, com aquela segurança de homens que não precisam que ninguém lhes indique onde estão. Sofia ficou parada à beira da cama, de costas para mim.
—Abre o zíper pra mim — pediu em voz baixa.
Eu me levantei. Procurei o pequeno gancho metálico na parte alta das costas dela e o desci devagar, centímetro por centímetro. O tecido preto se abriu revelando a pele dela, a curva da coluna, a borda da lingerie branca. Havia algo solene naquele gesto: abrir o zíper para ela, com minhas próprias mãos, antes de me sentar para assistir.
O vestido caiu aos pés dela.
Sentei de novo.
Sofia tirou o sutiã num único movimento e os seios ficaram à mostra, pesados, com os mamilos escuros e já duros. Desceu a calcinha branca, escorregando-a pelas pernas, e ficou completamente nua diante dos dois, com a mata de pelos castanho-escuros entre as pernas aparada com cuidado. Abriu a bolsa que estava sobre a cama, tirou uma cartela de preservativos e os deixou sobre a mesinha de cabeceira sem me olhar. Depois se virou para os dois homens, e naquele momento deixou de ser a mulher que eu conhecia para se tornar algo que ainda não sei nomear.
***
O que veio depois não tem uma única forma de ser contado. Foi uma acumulação de imagens e sons que meu cérebro registrou de maneira fragmentada, como se o tempo tivesse ficado viscoso.
Rodrigo e Damián se despiram sem pressa, com a naturalidade de quem não deve explicações a ninguém. Damián tinha uma rola grossa, curta, com as veias marcadas e já completamente ereta; Rodrigo tinha uma mais longa, mais fina, apontando para cima contra a barriga. Sofia olhou para os dois, primeiro para um e depois para o outro, e algo no rosto dela relaxou, como se acabasse de confirmar que valia a pena.
Ela se ajoelhou diante de Damián. Segurou-o com a mão na base, passou a língua desde os testículos até a ponta com uma lentidão calculada e depois o enfiou inteiro na boca de uma só vez. Entrou até o fundo. Damián soltou um rosnado quando a garganta dela se fechou em torno da cabeça. Sofia engasgou de leve, se afastou um segundo para respirar, deixando um fio de saliva preso ao glande, e voltou a chupá-lo.
—Caralho — disse Damián—. Como você chupa, menina.
Ela chupava com uma concentração que me pareceu completamente alheia, como se a mulher ali fosse alguém que eu conhecia de outra vida. Segurava os testículos dele com uma mão enquanto com a outra masturbava a base da rola, coordenando a mão e a boca num movimento único, meticuloso. De vez em quando tirava o pau da boca, cuspia em cima e o usava como se fosse um microfone para lamber a ponta com a língua achatada.
Rodrigo se posicionou atrás dela. As mãos dele percorriam as costas, as laterais, a curva do quadril, explorando com uma calma que me parecia insultante. Ele agarrou os seios dela por trás, ergueu-os, apertou-os com força contra o peito dela enquanto mordia o pescoço. Depois desceu uma mão e procurou o cu dela por baixo. Enfiou dois dedos de uma vez. Sofia gemeu com a rola de Damián ainda na boca, um som gutural que vibrou em sua garganta e fez Damián enfiar os dedos no cabelo dela.
—Ela está encharcada, irmão — disse Rodrigo a Damián, com os dedos se mexendo dentro dela—. Escorre sozinha.
Ela gemia de vez em quando. Sons contidos no começo, depois cada vez mais abertos, enchendo o quarto com uma intimidade da qual eu estava excluído.
Damián pôs a mão na nuca dela. Não com violência, mas com clara intenção. Marcou o ritmo, e Sofia o seguiu sem resistência, deixando que ele empurrasse a cabeça dela contra a pélvis.
—Isso — disse ele, a cabeça jogada para trás—. Exatamente assim. Engole tudo.
Rodrigo se inclinou e falou no ouvido dela. Ela assentiu sem parar. Rodrigo tirou os dedos do cu dela e os passou pela boca dela, misturando o próprio fluxo com a saliva e com a rola de Damián. Sofia chupou os dedos com a mesma dedicação com que estava chupando o pau, sem reclamar, sem se afastar.
Eu observava da cadeira com as mãos apertadas sobre os joelhos. A diferença entre o que havíamos imaginado durante meses e o que estava acontecendo diante de mim era real, concreta, irreversível. Eu percebia que nunca tinha processado por completo o que significava vê-la assim, de perto, sob aquela luz sem piedade, com a boca cheia e a bunda erguida, entregue a esses dois homens que a tocavam como se soubessem exatamente o que queriam.
Em algum momento, minhas próprias mãos desceram. Não tomei nenhuma decisão consciente. Foi uma reação do corpo, completamente independente do que o resto de mim pensava ou sentia. Abri a calça, tirei a rola e a segurei com uma mão trêmula. Já estava dura a ponto de doer. A humilhação e o desejo conviviam em mim com uma honestidade que me envergonhava admitir.
—Tá vendo? — disse Damián de repente, me olhando da cama—. Até você está curtindo. Olha direito pra sua mulher chupando.
Não respondi. Continuei me masturbando em silêncio.
Rodrigo sorriu sem tirar os olhos de Sofia. Encostou a ponta da rola entre as nádegas dela e a esfregou devagar, sem meter ainda, demarcando território.
***
Os três se ajeitaram no centro da cama. Damián a deitou de costas com um movimento rápido e se posicionou entre as pernas dela. Abriu as coxas dela com as duas mãos e lambeu o cu de uma só vez, de uma passada longa, do ânus ao clitóris. Sofia arqueou as costas e soltou um grito curto.
—Meu Deus — disse em voz baixa, com uma expressão que eu nunca tinha visto antes. Não era atuação. Era genuína, sem filtros, sem nenhum traço da mulher que eu achava conhecer.
Damián comeu o cu dela com uma precisão cirúrgica, chupando o clitóris entre os lábios, enfiando a língua até o fundo, subindo e descendo. Passou um braço por baixo da coxa dela para segurar o quadril e mantê-la colada à boca. Sofia se retorcia, cravava os calcanhares nas costas dele, agarrava a cabeça dele com as duas mãos e a apertava contra o cu como se pedisse mais.
Rodrigo cuidou da parte de cima. Enfiou um seio inteiro na boca e mordeu o mamilo com os dentes o suficiente para que ela soltasse um gemido que era metade protesto, metade súplica. Depois passou para o outro. Sugou, lambeu, deixou os seios brilhando de saliva e os mamilos tão duros que pareciam prestes a estourar.
Sofia fechou os olhos.
As mãos dela desceram para tocar os dois ao mesmo tempo, com uma naturalidade que me desmontou por completo. Agarrou a rola de Rodrigo e começou a masturbá-lo com a mão, e com a outra procurou o cabelo de Damián e o agarrou como rédeas. Falava com eles em sussurros que eu não conseguia ouvir direito, mas cujo tom era inconfundível: palavras de elogio, de espanto, de desejo. Ouvi-a dizer algo como "assim, me come o cu assim" e "que enorme você tem" e mais alguma coisa que se perdeu num gemido quando Damián enfiou dois dedos junto com a língua.
Ela teve o primeiro orgasmo quase sem aviso. As pernas começaram a tremer, se contraíram em torno da cabeça de Damián e, de repente, ela soltou um grito longo, sustentado, que veio do fundo. A coluna inteira se arqueou até que só os ombros e os calcanhares tocavam a cama. Damián não a soltou. Continuou chupando o clitóris através dos tremores até Sofia empurrar a cabeça dele com as duas mãos, rindo e ofegando ao mesmo tempo, pedindo que ele parasse porque não aguentava mais.
—Sofia — chamou Damián depois, com a voz rouca, erguendo-se de entre as pernas dela com o queixo brilhando de fluido.
Ela olhou para ele.
—Fala alguma coisa pro seu marido — disse ele.
Sofia procurou meus olhos. Estava despenteada, com os lábios vermelhos, o cabelo grudado na testa, o peito subindo e descendo sem controle. Me olhou por alguns segundos daquele lugar a que eu não podia chegar.
—Estou bem, Marcos — disse ela, e nessas três palavras havia uma ternura que me destruiu mais do que qualquer crueldade—. Continua olhando.
***
Sofia pegou um preservativo da mesinha, abriu com os dentes e o colocou em Damián com a boca, deslizando até a base com os lábios. Depois subiu nele. Lenta no começo, calibrando, com as mãos apoiadas no peito dele para manter o equilíbrio. Desceu devagar até sentar por completo, com a rola inteira dentro, e ficou ali por um segundo, com os olhos fechados e a boca aberta, se adaptando.
—Ai, caralho — murmurou—. Que grande.
Depois o ritmo foi crescendo, ficando mais urgente. Ela subia até a ponta e voltava a afundar, marcando o compasso com os quadris, com os seios quicando a cada descida. Damián agarrou a cintura dela com as duas mãos e começou a empurrar por baixo, sincronizando-se, entrando e saindo com a rola brilhando do fluido dela.
Os sons do quarto ficaram espessos: respirações entrecortadas, o peso dos corpos sobre o colchão, o som úmido de carne contra carne, os gemidos dela, que já não eram contidos, mas abertos, sem disfarce. Cada vez que caía sobre a pélvis de Damián, se ouvia um estalo de pele contra pele e um gemido gutural que saía dela da barriga. —Me come forte — pediu—. Me quebra.
Rodrigo esperou ao lado, observando com uma paciência que me parecia quase insultante em sua tranquilidade, a rola na mão, mexendo-a só o suficiente para mantê-la ereta. De vez em quando aproximava o pau da boca de Sofia e ela o chupava por alguns segundos sem parar de cavalgar Damián, alternando entre os dois, coordenando o cu com a boca.
Quando chegou a vez dele, pegou o lubrificante da mesinha e o espalhou generosamente sobre a rola. Damián segurou Sofia pela cintura e a fez se inclinar para frente, deixando o cu exposto e bem aberto. Rodrigo se posicionou atrás dela. Passou a ponta lubrificada pelo ânus por alguns segundos, pressionando sem entrar, e depois começou a meter devagar. Sofia soltou o ar com força, num gemido longo e grosso, quando ele entrou por trás. A espinha dela se contraiu inteira.
—Calma — disse Rodrigo, parado, com metade dentro—. Calma, linda. Respira.
Sofia respirou. Baixou a cabeça, apoiou a testa no peito de Damián e empurrou o cu para trás com o próprio corpo para que Rodrigo terminasse de entrar. Quando o teve inteiro dentro, o gemido que ela soltou foi diferente: mais grave, mais animal, como se alguma coisa tivesse sido destrancada.
—Agora sim — murmurou contra o peito de Damián—. Agora os dois.
Começaram a se mover de forma coordenada. Quando Damián empurrava para cima, Rodrigo recuava até a metade; quando Damián descia, Rodrigo entrava até o fundo. Os dois homens acharam um ritmo coordenado, preciso, que parecia ignorar completamente minha presença na cadeira. Sofia ficou enfiada entre os dois, sem poder decidir para que lado se mover, gemendo entre um empurrão e outro como se o ar não bastasse.
—Não para — ofegou Sofia—. Por favor, não para. Me come, me come mais forte, mais forte.
Rodrigo deu uma palmada seca na bunda dela que ecoou por todo o quarto. Depois outra. Sofia gritou e arqueou as costas contra ele, pedindo mais.
—Fala — ordenou Rodrigo, agarrando o cabelo dela por trás e puxando a cabeça para cima—. Fala pro seu marido como você gosta.
Ela abriu os olhos e me procurou. Me encontrou com a rola na mão, me masturbando desesperado da cadeira. Os lábios dela se curvaram em algo que eu não cheguei a ler como sorriso.
—Eu adoro, Marcos — disse com a voz entrecortada—. Adoro transar com os dois. Eles me enchem inteira.
O quarto inteiro parecia respirar em outro ritmo, um que não era o meu. Eu estava destroçado naquela cadeira. Não de dor exatamente, embora houvesse algo disso misturado. Era mais uma espécie de vertigem: a constatação de que o real é irreversível, de que as imagens que a gente vê não podem mais ser desvistas nunca.
Rodrigo me olhou da cama. Não disse nada. Apenas sustentou meu olhar por alguns segundos enquanto continuava enfiando a rola na minha mulher pelo cu, como se quisesse ter certeza de que eu estava ali, de que nenhum detalhe me escapava. Depois acelerou o ritmo, agarrando-a pelos quadris com as duas mãos, fodendo-a cada vez mais forte até que o colchão inteiro começou a bater na parede.
Eu não desviei os olhos.
—Ai, Deus, isso, isso! — gritou Sofia, arqueando as costas em direção a Rodrigo enquanto cravava os dedos nas coxas de Damián—. Vou gozar, vou gozar de novo!
E gozou. Foi tomada por um tremor que percorreu o corpo inteiro, dos pés à cabeça. O cu se apertou tanto em torno da rola de Damián que ele soltou um rosnado e cravou os dedos nas nádegas dela. Rodrigo não parou em nenhum momento. Continuou empurrando por trás enquanto ela se sacudia entre os dois, prolongando o orgasmo até que lágrimas escorressem pelos cantos dos olhos de Sofia.
Minha mão se movia na escuridão da cadeira com uma desesperação que me envergonhava e que, ao mesmo tempo, eu não conseguia frear. Os três sobre a cama formavam um mecanismo perfeito do qual eu era o único excluído, o único que olhava de fora sem poder entrar nem querer sair.
Damián foi o primeiro. Agarrou a nuca dela com uma mão, o cabelo com a outra, e começou a empurrar por baixo com toda a força. Tirou a rola do cu no último momento, arrancou o preservativo com um puxão, e gozou sobre os seios dela e sobre a própria barriga em dois, três jatos grossos que respingaram no pescoço e no queixo. Sofia passou dois dedos pelo rosto, recolhendo um pouco, e levou-os à boca.
Rodrigo aguentou alguns segundos a mais. Pediu a Sofia que se virasse e ela se pôs de joelhos diante dele, na beirada da cama, com a boca aberta e a língua para fora. Rodrigo tirou o preservativo, mexeu na rola duas vezes diante do rosto dela e gozou também de boca aberta, sobre a língua e os lábios dela. Sofia engoliu o que caiu em sua boca e lambeu a ponta até a última gota, com os olhos fechados e uma expressão de concentração quase cerimonial.
Eu gozei na cadeira quase ao mesmo tempo, em silêncio, sobre a própria mão, mordendo o lábio para não fazer barulho.
***
Terminaram com diferença de segundos. Sofia ficou no centro da cama, o cabelo grudado ao rosto pelo suor, os olhos semicerrados, a respiração lenta e profunda, como alguém que acabou de sair debaixo d’água. Ainda tinha restos de sêmen brilhando no peito e no queixo. Rodrigo se limpou com um lenço do bolso. Damián foi procurar a roupa sem pressa.
Eu não tinha saído da cadeira.
—Boa noite, Marcos — disse Rodrigo, parando na porta—. Você é um homem que cumpre sua palavra.
Não soube o que responder.
Damián não disse nada. Olhou para mim por um segundo, assentiu levemente e saiu.
Sofia os acompanhou até a entrada com um robe por cima. Ouvi murmúrios, uma despedida breve. A porta se fechou. O apartamento ficou em um silêncio que parecia físico, denso, cheio de tudo o que não tinha sido dito.
***
Sofia voltou ao quarto e ficou parada no batente, me olhando.
Nenhum dos dois falou por um longo momento.
Depois ela atravessou o quarto, sentou-se na beirada da cama à minha frente e pegou minhas mãos. As dela estavam frias.
—Você está bem? — perguntou.
—Não sei — disse, com honestidade.
—Quer conversar?
—Agora não.
Ela assentiu. Ficou assim, com minhas mãos entre as dela, sem soltar. Lá fora, na rua, um carro passou e suas luzes atravessaram o teto do quarto. O quarto cheirava a algo que eu prefiro não continuar analisando: suor, sêmen, o fluxo dela, tudo misturado no ar fechado.
Um pouco depois, sem que nenhum dos dois sugerisse nada, eu a beijei. Foi um beijo diferente de todos os que já tínhamos dado: desesperado, possessivo, com uma urgência que não tinha a ver com desejo, mas com a necessidade de reconhecê-la ainda como minha, de encontrar na boca dela algo que continuasse sendo só meu. A boca dela ainda tinha o gosto dos outros dois, e alguma coisa em mim se quebrou e se reorganizou ao mesmo tempo quando senti isso. Ela correspondeu com a mesma intensidade, com as mãos no meu rosto, apertando. Enfiou a língua até o fundo da minha boca e chupou a minha como se quisesse me devolver alguma coisa. Abriu o robe sem deixar de me beijar, guiou minha mão até o sexo encharcado, ainda morno dos outros, e a deixou ali. Eu enfi ei dois dedos e ela soltou um gemido dentro da minha boca. Estava aberta, escorregadia, destruída. Fodi-a ali mesmo, na beirada da cama, com ela deitada sobre o lençol amarrotado e eu ainda meio vestido, com uma fúria que eu não conhecia em mim. Gozei mais duas vezes, agarrando minha cabeça contra o pescoço dela, murmurando meu nome outra vez e outra vez, só o meu.
Naquela noite dormimos enroscados, sem falar mais nada.
***
No dia seguinte acordei cedo. O sol entrava oblíquo pelas persianas. O quarto tinha aquela quietude estranha dos quartos em que aconteceu algo que não vai ser esquecido. Fui para a cozinha.
Sofia estava lá, de costas, preparando café. Vestia uma das minhas camisetas, a que nela fica até os joelhos. Ela cantarolava algo baixinho enquanto esperava a água terminar de passar, se movendo com uma leveza que contrastava com o peso do que havíamos feito na noite anterior.
Parei no corredor e a observei sem que ela me visse.
Havia algo naquela cena que me perturbava e, ao mesmo tempo, me acalmava: a normalidade dela, a forma como se movia pela nossa cozinha como se a noite anterior fosse um capítulo encerrado e aquela manhã fosse simplesmente uma manhã. Ela não estava fugindo do que havíamos feito. Tinha integrado aquilo. Carregava tudo com uma leveza que eu ainda não conseguia imaginar em mim.
—Bom dia — eu disse.
Sofia se virou. Me olhou com aquela calma dela que sempre me custou decifrar.
—Café — disse, apontando a cafeteira com a cabeça.
Sentei-me à mesa. Ela me trouxe uma xícara e se sentou em frente, com as duas mãos em volta do copo. Ficamos assim por um momento, com o ruído da rua entrando pela janela aberta e o silêncio entre nós cheio de coisas que nenhum dos dois ainda sabia nomear.
—Como você está? — perguntou por fim.
—Processando — disse.
Ela assentiu devagar.
—Tudo bem — disse—. Leve o tempo que você precisar.
E foi assim que começou a nova etapa. Não com uma grande conversa nem com uma resolução dramática. Com café, com luz da manhã, com o silêncio de duas pessoas que sabem que algo mudou para sempre e ainda não sabem exatamente o que são uma para a outra agora nem no que vão se tornar.
A única coisa de que eu tinha certeza é que nenhum dos dois tinha acordado com vontade de terminar.
