Meu marido viu minha infidelidade e foi embora sem um grito
O sol entrava em listras pela persiana, e os raios caíam bem nos olhos dela. Lucía soube então que passava do meio-dia. Espreguiçou-se sobre o colchão vazio, sentiu o entorpecimento de ter dormido apenas três horas e um peso no peito que não ia embora com bocejos. A noite anterior a deixara fora de si. Ainda estava com a xana inchada e latejando, as coxas pegajosas, e, ao passar a mão pela virilha, sentiu o sêmen seco de Sergio que ficara grudado nos pelos pubianos. Cheirou os dedos sem querer. Cheiravam a ele, a suor e a porra, e algo se contraiu em seu baixo ventre.
O outro lado da cama estava intacto. A primeira coisa em que pensou foi que Adrián, que tinha dormido muito antes dela, já estaria na cozinha preparando um café ou fazendo qualquer coisa com as mãos para não pensar. Era a forma dele de processar as coisas: lavar louça, listas, ligações bobas, qualquer movimento que o mantivesse longe do silêncio.
Quando saiu do banheiro, não ouviu nada. Nem música, nem cafeteira, nem os pés descalços do marido no assoalho. Pensou que ele tivesse saído para correr. Que estivesse dando voltas no parque tentando digerir o que vira na noite anterior, do estacionamento, dentro do carro.
Ela mesma preparou um café. Enquanto a cafeteira aquecia, reviu a cena. Se Sergio tivesse baixado totalmente a persiana lateral da van, como prometera, Adrián nunca teria descoberto nada. Mas ele a deixou pela metade. E ele, que naquela noite tinha saído para procurá-la porque ela estava demorando demais, os viu os dois. Viu a ela, sobretudo. Viu-a com uma expressão que ela jamais lhe fizera em doze anos de casamento. Viu-a de boca aberta, língua para fora, gemendo como uma cadela enquanto outro homem a comia por trás.
Uma Lucía diferente tinha saído daquele furgão.
Sabia que para Adrián aquilo era um golpe do qual custava a se levantar. Descobrir ao vivo, sem filtro e sem aviso, que a mulher com quem compartilhava a cama estava com outro. E pior ainda: descobrir que ela estava desfrutando como nunca desfrutara com ele. O gato, Lobo, aproximou-se miando, e Lucía coçou atrás da orelha dele antes de se sentar à mesa de jantar.
Sobre o centro de mesa, apoiado no fruteiro, havia um envelope. “Lucía”, escrito com a letra quadrada dele. Dentro, uma única folha. Leu duas vezes antes de respirar.
“Lucía: não precisa dizer nada. O de ontem à noite foi suficiente. Sei que você não quis me machucar, mas aconteceu. Foi o que você sentiu e, no fundo, o que vinha desejando há muito tempo. Uma vez, sem querer, vi seu histórico. Vi o que você procurava na internet: histórias de mulheres submissas, de homens brutamontes, de aventuras com desconhecidos. Nunca te disse nada. Ontem também não. Preferi calar e dormir. Nesta manhã, antes do amanhecer, entendi que isso não dá mais. Vou embora. Deixo o apartamento, o carro e o Lobo. Em alguns dias, os papéis vão chegar. Sei que ninguém vai te querer como eu te quis. Mas isso já não importa. Adrián.”
Não derramou uma lágrima. O que sentiu foi uma mistura estranha: vergonha por baixo, alívio por cima. Era verdade que Adrián a amava. Também era verdade que na cama era apenas correto, atento sem nunca ser dono, suave sem nunca ser exigente. Enfiava nela sempre na mesma posição, empurrava com a cadência de um metrônomo, gozava dentro com um gemidinho e lhe dava um beijo na testa. Nunca tinha puxado seu cabelo. Nunca tinha posto a mão em seu pescoço. Nunca tinha cuspido em sua boca nem lhe pedido para chupá-lo até o fundo. E ela, nos últimos anos, começara a fantasiar com coisas que para ele pareceriam aberrantes. Se masturbava às escondidas lendo relatos de mulheres sendo furadas por desconhecidos, de bocas cheias de paus, de xanas abertas à força. Se ele se afastava, ela podia soltar as amarras. Podia ser, pela primeira vez, quem sempre suspeitara ser. Pensou assim, sem drama, enquanto o café esfriava.
***
A noite anterior voltou em flashes enquanto lavava a xícara. Sergio a havia chamado para sua van fechada, no estacionamento do calçadão, sob o pretexto de uma taça de espumante entre velhos amigos. A conversa durou dez minutos. Dez minutos de olhares de lado, de joelhos que se roçavam, de um “você está mais gostosa do que há vinte anos” dito em voz baixa enquanto ele olhava seus peitos pelo decote. O que veio depois não precisou de palavras. Ele a sentou sobre a mesa de aço, abriu-lhe as pernas de um puxão e arrancou-lhe a calcinha pelo elástico. Lucía ouviu o tecido rasgar e sentiu uma umidade morna descer pela coxa antes mesmo de ele tocá-la. Ele baixou as meias com as duas mãos e mordeu a parte interna da coxa, perto da virilha, deixando a marca dos dentes.
— Você está encharcada, vadia — disse, sem parar de mordê-la —. Doze anos casada e continua sendo a mesma putinha do colégio.
Lucía se agarrou à borda da mesa e abriu mais as pernas. Não lembrava quem beijou quem primeiro. Lembrava da língua dele percorrendo-a sem pedir licença, subindo pela coxa até afundar na xana num só movimento longo. Lembrava de como ele a chupava, com a língua larga e chata, como sugava o clitóris até fazê-la gritar, como enfiava dois dedos e os curvava à procura do ponto que Adrián nunca encontrara. A pressão dos dedos se afundando onde Adrián jamais ousava. Ela gozou na boca dele em três minutos, empurrando o rosto dele contra sua xana com as duas mãos, arqueando-se sobre o aço frio. Sergio se afastou com a barba brilhando de fluido e riu.
— Isso é só o aperitivo, gata. Desce e fica de joelhos.
Lucía obedeceu como se passasse anos esperando aquela ordem. Ajoelhou-se no chão metálico da van e abriu a braguilha dele com os dentes. A rola de Sergio saltou para fora, dura, grossa, com a ponta arroxeada pingando. Mal cabia na mão. Ela o levou à boca até a metade e sentiu quando ele agarrou sua nuca e empurrou até o fundo. Lucía engasgou, as lágrimas lhe saltaram aos olhos, um fio de saliva desceu pelo queixo até os seios. Ele não afrouxou. Comeu sua boca como se fosse uma xana, sem gentilezas, marcando o ritmo com os quadris, até ela aprender a respirar pelo nariz entre uma investida e outra. O rosto dela ficou vermelho, a máscara de rímel escorreu, ela cuspiu, tossiu, e o engoliu inteiro de novo. Sergio a chamava de puta, vagabunda, mulher casada tesuda, e cada palavra fazia suas coxas se fecharem mais.
Ele a ergueu pelo cabelo. Viu-a de frente para a mesa, de bruços, com os peitos esmagados contra o aço. Abriu-lhe as pernas com um chute leve e se posicionou atrás. Lucía sentiu a ponta empurrando sua entrada e prendeu a respiração.
— Me pede — disse Sergio, esfregando a rola entre os lábios da xana sem enfiá-la.
— Enfia — sussurrou ela.
— Mais alto.
— Enfia, porra, me come logo!
Empurrou até o fundo na primeira vez. Lucía gritou contra o teto metálico, um grito rouco que ecoou dentro da van. A rola de Sergio chegava a um lugar em que ela nunca a tinha sentido. Ele a segurou pelos quadris e começou a metê-la com força, com golpes secos, com o som úmido das coxas dele batendo na bunda dela. Lucía sentia a cabeça esvaziar, a mesa se mover a cada estocada, escapando-lhe um gemido partido toda vez que ele a acertava até o fundo. Ele lhe segurou os pulsos atrás das costas com uma só mão e com a outra agarrou seu cabelo e puxou a cabeça dela para trás.
— Assim, assim você gosta, né, casada? Assim seu marido não te come, né?
— Não... ele não me come assim...
— Fala. Diz que eu sou melhor que ele.
— Você é melhor... me come melhor... não para...
Ela gozou pela primeira vez com os olhos em branco e uma ânsia seca. O orgasmo subiu dos pés, apertou-lhe o estômago, fez as coxas tremerem. Sergio não parou. Continuou a espancá-la contra a mesa até senti-la relaxar, e só então se retirou.
A segunda vez foi ela por cima. Empurrou-o para o chão, sentou-se cavalgando a rola dele e a enfiou até o fundo num único movimento. Marcava o ritmo com as unhas cravadas no peito dele, quicando, gemendo, com os peitos soltos pulando diante do rosto dele. Sergio a segurava pela cintura, mordia seus mamilos, sugava-os até ficarem roxos. Lucía cuspiu na boca dele. Ele riu com a porra pendurada no lábio e apertou seu pescoço com uma mão, não o bastante para sufocá-la, o bastante para lembrá-la de quem mandava. Ela cavalgou mais forte, arranhando as coxas nas dele, até gozar de novo com um grito abafado.
A terceira foi contra a porta, com o frio do metal nos mamilos. Sergio a colocou de pé, ergueu uma perna dela, jogou-a no ombro e a empalou contra a lataria. Lucía tinha os seios esmagados contra o metal gelado, os mamilos tão duros que doíam, e ele a penetrava de lado, num ângulo impossível que a fazia sentir a rola até as costelas. Em algum momento Sergio tinha levantado a persiana lateral para entrar ar e se esquecera de baixá-la. Lucía o viu por cima do ombro dele: o carro de Adrián, os faróis acesos, o rosto branco atrás do para-brisa. E, em vez de pará-lo, em vez de se soltar, mordeu o lábio e empurrou os quadris para trás. Muito mais forte. Olhando o marido nos olhos.
— Olha, olha quem veio — disse a Sergio, ofegante —. Meu marido está no carro. Ele está nos vendo.
— É mesmo? — Sergio olhou por cima do ombro, sorriu com sujeira e agarrou os peitos dela por trás —. Então que olhe, porra. Que aprenda a te comer.
Ele segurou os pulsos dela atrás das costas com uma mão e com a outra deu uma palmada seca na bunda que ecoou dentro do furgão. Deu outra, e outra, até deixá-la vermelha. Meteu mais forte, mais fundo, sem deixar de tê-la encostada na janela. Lucía tinha os mamilos marcados contra o vidro e os olhos cravados nos de Adrián. Não desviava o olhar. Queria que ele a visse gozando. Que a visse abrir a boca, pôr a língua para fora, gemer como uma cadela no cio enquanto outro homem lhe esvaziava as entranhas. Sergio lhe pôs dois dedos na boca e ela os chupou como se fossem uma rola. Depois passou-os pelo mamilo, e voltou a chupá-los.
Ela gozou pela terceira vez quando sentiu Sergio inchar dentro dela. Sentiu os jatos quentes enchendo-a, subindo até o ventre, transbordando pelos lábios da xana e escorrendo pelas coxas. Sergio continuou empurrando até a última gota, rosnando colado ao seu pescoço. Quando se retirou, um rio branco lhe escorreu pela parte interna da coxa. Lucía ficou apoiada contra a porta por um instante, com a visão turva, e voltou a olhar para o para-brisa. Adrián já não a olhava. Tinha as duas mãos no volante e a testa apoiada nelas.
***
O vídeo daquela noite acabou num site amador por descuido de Sergio. Antes que Lucía pudesse reclamar, já tinha um milhão de visualizações. Um agente de Madri ligou para ela na mesma semana. Dois meses depois assinava contrato com uma produtora de Miami. Quatro meses depois mudava-se com duas malas e um novo nome artístico: Vega Vixen. A marca lhe caiu melhor do que o casamento.
Os sete anos seguintes foram um tobogã para cima e, depois, uma queda. Prêmios do setor, festas privadas em mansões de Coral Gables, tapetes vermelhos para gente de quem ninguém fala em família. Aprendeu a sorrir com a boca e a apagar o olhar. Aprendeu a engolir três paus ao mesmo tempo sem engasgar, a ser comida no cu diante das câmeras sem uma careta, a gozar sob demanda quando o diretor gritava “agora!”. Tornou-se o que os sites chamavam de “a espanhola do ano”, depois “a milf europeia”, depois, simplesmente, “Vega”. Para os produtores, era uma caixa registradora com pernas. Para os homens com quem filmava, era uma especialista, uma boca funda, uma xana elástica, um cu aberto para o que precisasse. Para si mesma, durante muito tempo, foi alguém que finalmente estava viva.
Sua família parou de atender ao telefone. Seus pais, no funeral do avô, sentaram-se na fila de trás para não precisarem cruzar o olhar com ela. Uma prima publicou nas redes que tinham vergonha do sobrenome. Lucía rompeu com todos. Não porque não doesse, mas porque doía demais. A distância era mais barata que a conversa.
O fim chegou numa casa alugada em South Beach, numa noite de festa com álcool demais e cocaína demais. Eram cinco. Quatro homens e ela. Começou de joelhos na sala, com dois paus na boca e um em cada mão, se revezando para enche-la, afogando-a em porra que escorria pelo queixo até os seios. Arrancaram-lhe o vestido, a deitaram no tapete, foram passando-a de um para o outro. Comeram-na pela xana, pela boca, pelo cu, às vezes ao mesmo tempo. Ela pedia mais, com a voz quebrada, com o nariz cheio de coca. Em algum momento, já estirada no chão e quase sem sentidos, alguém propôs uma dupla penetração. Enfiaram-lhe uma rola na xana e outra no cu ao mesmo tempo, com pouca lubrificação, e ela deixou de sentir onde uma terminava e a outra começava. Os corpos pesavam mais do que deviam pesar. Ninguém mediu forças. Alguém empurrou demais. Algo se rompeu por dentro, algo que Lucía sentiu como uma picada funda e quente, mas não disse nada. Não podia. Quando, dois dias depois, a equipe de limpeza a encontrou, Lucía agonizava com uma infecção que já tinha subido pelo abdômen, jogada numa poça de sêmen seco, sangue e vômito.
Salvaram-lhe a vida e pouco mais. Tiveram de esvaziar boa parte do sistema reprodutivo, reconstruir o que restava, costurá-la por dentro. A consequência era dupla: ela não poderia ter filhos e perdera a sensibilidade para sempre. O sexo, aquilo que tinha feito sua vida explodir, deixou de existir para ela num único golpe de bisturi. Quando acordou no quarto do hospital, a primeira coisa em que pensou foi em Adrián. A segunda, em sua mãe. As duas pessoas para quem ela havia fechado a porta sem avisar.
***
Voltou à Espanha um ano depois daquilo, com o rosto cheio de botox mal aplicado e uma conta bancária que era mais uma condenação que um alívio. Tinha deixado de pertencer ao circuito. Também não a deixariam voltar: com quarenta anos, um corpo costurado e a sensibilidade apagada, já não servia a seus donos. Restava-lhe uma única ideia: encontrar Adrián.
A empresa de construção onde ele trabalhava continuava no mesmo prédio do calçadão. Lucía lembrava do cheiro do hall, madeira envernizada e café ruim. Entrou numa terça-feira às onze da manhã e se apresentou na recepção com o sobrenome de solteira. A moça do balcão não a reconheceu. Melhor.
— Espere um momento, por favor — disse ela, e desligou o telefone.
Cinco minutos. Lucía contou cada um apertando a bolsa contra os joelhos. Pelas portas de correr entrava um sol de inverno que desenhava um quadrado no carpete. Pensava no que ia dizer. Pensava que tinha dinheiro, que desta vez seria uma mulher tranquila, que cozinhariam juntos aos domingos, que o desastre dos últimos anos poderia ser contado como uma longa doença já passada. Pensava muitas bobagens e se agarrava a todas.
Do elevador saiu uma mulher na casa dos trinta e poucos. Mediana, nem bonita nem feia, com os quadris largos de quem teve um filho há pouco e ainda não voltou à academia. Aproximou-se com um sorriso profissional e estendeu a mão.
— Lucía? Sou Carla. Colega do Adrián.
Lucía retribuiu o sorriso sem saber o que responder.
— A gente se viu uma vez, há anos, num jantar da empresa — continuou Carla —. Você não se lembra, eu sei. Não tem problema.
— Desculpa, de verdade...
— Fica tranquila. Você veio vê-lo, suponho.
— Sim.
— Olha, não quero te ofender. Mas preferiria que vocês não se vissem. Isso não vai fazer bem pra ele.
Lucía se endireitou como se a tivessem tocado com um fio elétrico. Não esperava aquele muro, não de uma desconhecida.
— E quem é você para impedir que meu marido me veja?
Carla baixou a mão e mostrou a aliança. Simples, lisa, sem ostentação. O sorriso não se moveu.
— Sou a mulher dele. Há quatro anos. Temos um menino, Tomás, e outro a caminho.
O quadrado de sol continuava no carpete. Lucía o encarou para não cair. Estava há sete anos sem notícias de Adrián, em parte por orgulho e em parte por medo. Tinha assumido sem assumir que ele estaria esperando. Que voltaria a abrir a porta do apartamento para ela. Que aquele bilhete era uma promessa de pausa, não de adeus.
— Ele sofreu muito com a separação — prosseguiu Carla, sem agressividade, medindo cada palavra como se as tivesse ensaiado no elevador —. Sei que ele nunca deixou de te amar. Mas agora tem outra família. Eu não sou o que você imagina. Não me importo muito com o que acontece na cama. Me contento em acordar ao lado dele e vê-lo rir com o menino. Com ele é a mesma coisa. Por isso eu te peço, por favor, que não suba.
— Eu... não queria incomodar.
— Você não incomoda. Mas você sabe melhor do que eu que o que vocês tiveram foi outra coisa. Você o escolheu até ele deixar de servir. Estou errada?
Lucía não respondeu. Não soube como. Tampouco quis explicar a essa mulher de quadris largos e olhar limpo que havia voltado à Espanha justamente para reconquistá-lo. Que imaginara, durante o voo, a cara que ele faria ao vê-la em seu escritório. Que tinha pronta uma desculpa longa, com parágrafos, com pausas. Tudo isso estava se derretendo no quadrado de sol do hall.
— Vou dizer a ele que você veio dar um oi — disse Carla, e a Lucía aquilo pareceu uma bondade desnecessária —. Se quiser deixar um recado, eu anoto.
— Não. Parabenize-o pelo menino.
Carla assentiu, tocou-lhe o braço de leve e voltou ao elevador. Quando as portas se fecharam, Lucía largou a bolsa, pegou-a de volta, saiu para a rua com o passo de quem quer alcançar a esquina antes de desabar. Desabou na esquina. Chorou apoiada na vitrine de uma farmácia, com um segurança de banco olhando sem saber se se aproximava.
***
No mês seguinte comprou uma pequena propriedade num povoado da serra, longe de qualquer estrada principal. Levou o Lobo, já velho, e alguns livros. Não teve mais amantes. Não teve mais festas. Não teve mais nada. Sentava-se na varanda para ver o riacho levar as folhas e, quando anoitecia, acendia a lareira e pensava no rosto de Adrián atrás do para-brisa. O rosto, não de ódio, mas de pena. O de quem acabara de entender algo que já não podia ser desfeito.
O karma não chegou com relâmpagos nem com justiça bíblica. Chegou assim: uma mulher ainda jovem numa propriedade grande, com um gato que ronrona, uma conta cheia de dinheiro que não comprava ninguém e a fachada se cobrindo de mofo. Aprendeu que a infidelidade não era uma aventura, mas uma porta. E que as portas, quando se fecham atrás de nós, nem sempre têm maçaneta do outro lado.
Aquela última noite no apartamento, enquanto Adrián escrevia a carta em silêncio para não acordá-la, Lucía sonhava que era livre. O sonho não mentiu para ela. Só adiantou a fatura.