Meu namorado caiu no ringue e eu caí com o vencedor
Adrián e eu estávamos juntos havia quase três anos quando parei de mentir para mim mesma. Não me entenda mal: eu o amava. Amava seu riso fácil, a forma como me abraçava por trás enquanto eu cozinhava, sua teimosia obstinada em transformar o boxe amador em algo mais que um hobby de bairro. Mas o desejo é um animal que não entende de carinho, e o meu estava dormindo havia meses em um canto do nosso apartamento em Triana, faminto por algo que nenhum dos dois nomeava.
Meu nome é Lorena. Tenho vinte e quatro anos, escrevo resenhas para uma revista cultural que quase ninguém lê e, à noite, enchia um caderno com fantasias que jamais confessei a ninguém. Adrián treinava seis dias por semana. O sexo tinha se tornado previsível, terno, eficiente: domingos de manhã, beijos na testa, tudo medido. E eu, em silêncio, começava a sonhar com mãos que não mediam nada.
Numa sexta-feira de outubro, o céu de Sevilha estava baixo e encoberto, carregado de uma tempestade que não acabava de cair. Adrián entrou no quarto com o cabelo úmido e aquela energia de menino grande que ele tinha.
— Vai comigo ao ginásio, vai. Uns dois assaltos leves e eu descarrego a semana — disse, enquanto amarrava os tênis —. Me dá asas você estar lá me olhando.
Revirei os olhos, mas aceitei. Vê-lo treinar sempre acendia alguma coisa em mim. Me vesti de propósito: um legging preto justíssimo, uma camiseta fina de alças, nada por baixo. Que ele repare em mim quando terminar, pensei. Eu não imaginava que, naquela noite, quem ia reparar em mim seria outro.
***
O ginásio se chamava Aço Velho e era um subsolo reformado perto da ponte de Triana, uma caverna que cheirava a suor impregnado, linimento e couro gasto. Sacos pendiam do teto em correntes que rangiam, o ringue central tinha a lona amarelada e manchada, e as luzes zumbiam como insetos irritados. Genaro, o dono, um velho pugilista de nariz achatado, abriu a porta para nós com um resmungo.
— Às nove eu fecho. Não me arrumem confusão — avisou, e subiu para o apartamento dele com uma cerveja, deixando-nos sozinhos.
Quase sozinhos. No canto do fundo, diante de um espelho embaçado, um homem castigava o saco pesado com uma fúria metódica. Cada golpe era um trovão surdo que vibrava no chão de cimento. Adrián parou na hora.
— Olha só quem está aí — murmurou, entre o respeito e a desconfiança —. Aquele é o Fernando. Chamam ele de o Muro.
Fernando se virou devagar, como se tivesse nos farejado antes de nos ouvir. Era enorme, muito mais alto que Adrián, mas não aquela beleza de academia que meu namorado tinha. O dele era outra coisa: massa funcional, ombros de carregar motor, um peito coberto de cicatrizes finas e tatuagens escuras que subiam pelos braços. Uma marca branca cortava sua sobrancelha. A barba por fazer sombreava uma mandíbula que parecia talhada em pedra. Tinha trinta e um anos e o olhar de alguém que a vida tinha acertado primeiro e que passara anos devolvendo o favor.
— Uau, o galã — disse, com um sorriso torto, enxugando o suor do torso nu —. Veio pra eu dar uma geral em você, ou só pra se exibir pra moça?
Adrián riu, alto demais.
— Só uns golpes leves, nada mais. Minha Lorena quer ver ação.
Me aproximei e estendi a mão a Fernando. A dele era uma garra calejada, quente, que envolveu a minha com uma força tranquila, sem apertar, como quem sabe que não precisa provar nada.
— Lorena — disse eu —. Prazer. Ou espero que seja, se eu não acabar recolhendo meu namorado do chão.
Ele me percorreu de cima a baixo sem o menor disfarce. Não foi grosseiro; foi pior: foi franco. Senti como seu olhar parou um segundo a mais nos meus mamilos, marcados sob o tecido, e um calor traidor me subiu pelo pescoço.
— Fernando — respondeu —. E se hoje à noite ele te deixar viúva, linda, você já sabe onde encontrar consolo.
Ri, nervosa, e me sentei num banco lascado ao lado do ringue, com as pernas cruzadas para controlar alguma coisa que já começava a despertar entre elas.
***
O assalto começou sem campainha, só com o choque seco das luvas no centro da lona.
— Jabs limpos, nada de safadeza, e se um falar “água”, a gente para — ditou Adrián, dançando leve.
Fernando assentiu com um rosnado grave que senti no estômago.
No começo, meu namorado era pura elegância. Rápido, preciso, desviando com uma graça felina que fazia a camiseta encharcada se colar ao torso. Eu aplaudia, incentivava, mas por dentro algo ia se torcendo. Porque Fernando não boxeava para se exibir. Bloqueava com os antebraços como se fossem escudos, encaixava os golpes de Adrián como uma parede encaixa a chuva, e cada vez que rosnava um arrepio me percorria e terminava bem entre minhas pernas.
Se controla, Lorena. É seu namorado que está aí em cima.
Mas eu não conseguia parar de olhar para o contraste. A beleza de Adrián contra a ameaça de Fernando. A dança contra o muro.
No segundo minuto, o equilíbrio se quebrou. Fernando baixou a guarda por um instante, uma armadilha óbvia, e Adrián mordeu a isca como peixe. Desferiu um gancho que assobiou no ar vazio. O Muro antecipou, bloqueou com um choque de ossos que reverberou pelas paredes e contra-atacou com um golpe ascendente que pegou em cheio a mandíbula do meu namorado.
O estalo foi horrível. Adrián recuou dois passos, balançando a cabeça, cuspe voando em gotas finas.
— Puta que pariu, que pegada — reconheceu, sorrindo para não perder a pose, mas a voz saiu rouca.
— Cuidado, amor! — gritei. E me odiei, porque minha voz tremia, e não era só de medo.
Fernando não sorriu. Avançou como um tanque, encurralando Adrián nas cordas com uma sequência de golpes que cortavam o ar. Adrián se dobrou com um impacto no corpo, soltando todo o ar de uma vez. Eu me ergui pela metade, as unhas cravadas nas palmas, uma vozinha escura sussurrando no meu ouvido: e se ele cair? E se o partir ao meio na sua frente?
Sentei de repente, apertando as coxas.
***
O fim chegou no quinto minuto, anunciado como uma tempestade.
Adrián, cego de suor, lançou um direto desesperado. Fernando o viu vindo em câmera lenta. Bloqueou e soltou a direita: um punho como um aríete que aterrissou na têmpora do meu namorado. As pernas de Adrián viraram gelatina. Antes que pudesse se recompor, veio o gancho no corpo, e depois o golpe ascendente sob o queixo, um som que ressoou como um disparo no subsolo vazio.
A cabeça de Adrián foi para trás. Ele caiu de costas contra as cordas e desabou sobre a lona, os braços abertos, as pernas moles, o peito subindo em respirações superficiais. O ringue tremeu sob o peso dele.
— Para! Já chega, pelo amor de Deus! — gritei, escalando as cordas.
Me ajoelhei ao lado dele em uma poça de suor alheio, as mãos tremendo enquanto procurava o pulso no pescoço. Fraco, mas firme. Ele estava desacordado, não morto. Um hematoma florescia em sua mandíbula e um fio de sangue escorria do canto da boca. Limpei sua boca com a barra da minha camiseta, que ficou manchada de vermelho.
— Adrián, acorda, por favor — soluçei.
Fernando tirou as luvas com uma calma exasperante. Se aproximou e se agachou ao meu lado, ofegante, o calor do corpo dele me invadindo como uma névoa espessa.
— Calma, boneca. É um soninho técnico. Em dez minutos ele vai estar contando carneirinhos — disse, com uma vitória sádica na voz —. O garoto é duro. Mas não tanto quanto pensa.
Ergui o rosto, furiosa, os olhos ardendo de lágrimas.
— Some daqui, filho da puta! Tá vendo o que você fez? Podia ter matado ele!
Empurrei o peito dele com as duas mãos. Foi um erro. Sob minhas palmas, a pele estava quente e escorregadia, o músculo duro como ferro forjado, e não cedeu nem um milímetro. Algo naquele contato me deu curto-circuito.
— Relaxa — murmurou, roçando meu ombro nu com uma mão enorme —. O lugar está vazio. Ninguém vai interromper o nosso momento. E seu namorado precisava dessa pancada. Todo machinho como ele se acha até um punho lembrar a ordem das coisas: o forte toma, o fraco cai.
O hálito dele roçou minha orelha. Cheirava a suor limpo, a esforço, a alguma coisa crua e masculina que me revirou por dentro. E o pior, o que me apavorava enquanto acontecia, era que meu corpo respondia. Os mamilos duros, a umidade encharcando o tecido, o coração batendo não só de pânico.
— Vai se foder, Fernando — disse eu. Mas a voz tremeu, e ele percebeu. Esses homens sempre percebem.
***
Ele se ergueu, tirou a camiseta encharcada de um golpe e ficou completamente exposto: uma paisagem de músculo, cicatrizes e tatuagens, uma faixa de pelos escuros descendo até o cós. O volume na calça já marcava de forma inequívoca.
— Olha pra você — disse, agarrando minha nuca com dedos ásperos e me obrigando a erguer o rosto —. Você está tremendo. E não é de medo. Cruza as pernas para não dar na vista, mas eu vejo. Aposto que está toda molhada de ver eu derrubar seu homem.
— Me solta — sibilei, me debatendo. Mas, ao me mover, meu braço roçou na coxa dele, senti o calor que irradiava, e um gemido abafado me traiu na garganta.
As lágrimas me caíam, quentes, e eu já não sabia quantas eram por Adrián e quantas pela coisa escura que despertava em mim. Vê-lo vencido a um metro de distância, indefeso, despertava algo que eu tinha enterrado por anos no meu caderno secreto: o desejo proibido de ser reivindicada por quem vence, de me entregar ao mais forte enquanto o que eu conhecia jazia quebrado no chão.
Fernando deslizou a mão pelas minhas costas, devagar, até fechá-la sobre minha bunda por cima do elástico, amassando com uma força possessiva. Ofeguei, e meus quadris se ergueram sozinhos contra a palma dele.
— Não... Adrián... ele está... — sussurrei, virando o rosto para meu namorado inconsciente, sereno na derrota.
A culpa me apunhalou. Mas o desejo era um incêndio.
***
Ele não esperou eu pedir com palavras. Meu corpo já tinha dito tudo. Me guiou contra as cordas — o mesmo canto onde Adrián tinha caído minutos antes, como um eco cruel — e me sentei sobre a lona áspera, as pernas se abrindo numa rendição que já não fingia resistir.
Ele se ajoelhou entre minhas coxas. Num puxão selvagem, rasgou a costura do legging, e o ar frio do subsolo bateu na minha pele nua. Baixou a cabeça sem preâmbulos nem ternura e enterrou a boca em mim, a língua plana e larga traçando uma lambida longa que me arrancou um grito que ricocheteou pelas paredes vazias.
Ele não beijava: devorava. Sugava, puxava, serpenteava, enquanto eu cravava as unhas no cabelo curto dele, os quadris empurrando contra a cara dele com uma desesperação que me envergonhava e me acendia ao mesmo tempo. Olhei de lado para Adrián, o rosto relaxado, alheio a tudo, e a culpa se misturou com o prazer até se tornarem indistinguíveis.
— Desculpa — sussurrei, sem saber se dizia isso a ele ou a mim mesma.
Gozei contra a boca dele com um tremor que me sacudiu inteira, mordendo a mão para não gritar o nome de quem não devia. Fernando se ergueu, a barba brilhando, um sorriso de lobo nos lábios.
— Isso é só o começo — disse.
Ele se livrou da calça. O que ficou à mostra era intimidante, muito mais do que eu conhecia, e eu não consegui desviar o olhar. Me horrorizou o quanto eu o desejava.
— Me pede — ordenou, roçando em mim, separando a carne com uma lentidão calculada —. Diz que você quer enquanto seu namorado dorme a um metro daqui.
Fechei os olhos. Pensei em Adrián, nos três anos, nos domingos de manhã. E, ainda assim, a palavra saiu da minha boca como um segredo que eu vinha guardando havia tempo demais.
— Eu quero — disse. — Porra, eu quero.
Entrou de uma só vez, fundo e brutal, e o grito que soltei não foi de dor. Ele me preencheu de um jeito que eu não conhecia, que quase doía, e começou a se mover sem piedade, cada investida arrancando meu ar, a lona arranhando minhas costas, as cordas rangendo acima de nós. Ele agarrou meus pulsos, me pregou no chão, e eu me rendi por completo, fodida no mesmo ringue onde tinham acabado de derrubar minha namorada, a um metro do corpo dele dormindo.
— Olha a cara de perdedor dele enquanto você goza comigo — rosnou ele contra meu pescoço.
E eu fiz isso. Gozei olhando para ele, sufocada em culpa e em um êxtase que eu não sentia havia anos, enquanto Fernando se esvaziava dentro de mim com um rugido grave que se perdeu na penumbra do ginásio.
***
Depois houve silêncio, só quebrado pelo zumbido das luzes e pelas nossas respirações descompassadas. Me vesti com as mãos trêmulas, o legging rasgado, as pernas bambas, uma dor prazerosa entre as coxas que me denunciaria por dias.
Adrián gemeu. Começava a voltar. Ajoelhei ao lado dele, acariciei sua testa, sussurrei que estava tudo bem, que ele tinha desmaiado, que já estávamos indo pra casa. Quando abriu os olhos, confuso, sustentei seu olhar e menti com uma facilidade que me assustou.
Fernando já juntava suas coisas no canto, sem olhar para nós, como se nada tivesse acontecido. Mas, na saída, enquanto eu passava meu braço sob o de Adrián para sustentá-lo, captei sua voz baixa, só para mim:
— Você já sabe onde me encontrar, Lorena.
Ajudai meu namorado a subir as escadas, mancando os dois por motivos diferentes. E, enquanto a porta metálica se fechava atrás de nós, soube, com uma clareza terrível, que aquilo não tinha sido a última vez. Que algo tinha se quebrado naquela noite no ringue, e que não era só a mandíbula de Adrián.





