O amigo da minha esposa chegou na noite em que ela me deixou
—O que quer que digam, foi inesperado —murmurou, sem se virar para o convidado.
Rodrigo aspirou o cigarro com calma e a brasa brilhou como um ponto vermelho na penumbra. Era amigo de Camila, o único que apareceu sem avisar na noite em que ela fez as malas. Fazia duas horas que o escutava, sem apressá-lo, sem interrompê-lo mais do que para se servir de vodca.
—Inesperado? —repetiu, com aquela voz grave que se instalava no peito de quem a ouvia—. Depois do que o senhor me contou, homem, o que ainda pode surpreender? Camila, Valeria, a da academia, todas na sua cama. Qualquer um diria que nada mais o abala.
Esteban soltou uma baforada da fumaça adocicada do cachimbo. A fumaça flutuou entre eles como uma névoa espessa que demorou a se desfazer. O olhar do convidado não pedia licença para entrar; entrava sozinho e procurava.
—O inesperado não foi a orgia —disse Esteban, e pigarreou—. A orgia foi preparada por ela, até o último detalhe. O inesperado foi perceber que aquilo não ia bastar para ela.
—Conte do começo —pediu Rodrigo, apoiando o copo sobre a mesa de ferro com um tilintar discreto.
—As três chegaram juntas, rindo, já com meia garrafa de aguardente de Mompox na cabeça. O quarto se encheu em menos de um minuto com tecidos que caíram sem ruído sobre o tapete. Camila pendurou o sutiã preto de Valeria na minha luminária de cabeceira, do lado em que eu durmo. Antonella, a da academia, fez o mesmo com uma calcinha vermelha-cereja, encharcada no meio, e deixou pingando sobre o criado-mudo. Como se marcassem território.
—Uma declaração de intenções —observou Rodrigo, com um sorriso torto.
—As três pareciam diferentes na penumbra. Minha mulher, com as coxas grossas e a cintura curta, toda morena, com os mamilos escuros já duros de tanto atrito. Valeria, branca como creme, seios em forma de gota, o pelo do púbis aparado numa faixa fininha. Antonella, comprida e estreita, com um piercing brilhando no umbigo e outro, menor, atravessando o capuz do clitóris. Eu fiquei sentado na beira da cama sem saber o que fazer com as mãos, com o pau já me esticando a calça até doer.
—E quem comandou a coreografia? —perguntou Rodrigo, inclinando-se um pouco.
—Camila. Como sempre. Sentou-se ao meu lado, enfiou a mão pela braguilha e me tirou o pau para fora com a mesma naturalidade com que alguém destampa uma garrafa. Disse, quase ao meu ouvido, que aquilo não era inteiramente para mim. Tinha perdido uma aposta boba com as amigas: Antonella, segundo ela, jamais tinha tido um orgasmo vaginal com nenhum dos seus namoradinhos, e minha mulher jurou que eu podia resolver isso. A aposta era eu.
—“Faz isso por mim, moninho” —ela me disse, enquanto me punhetava devagar com o punho fechado, olhando nos meus olhos—. “Deixa esse cu bem cheio, come ela até ela gritar e guarda um pouquinho do teu leite pra depois também”. Soltou isso rindo, como quem pede um favor entre amigas.
Rodrigo pousou o copo na mesa e, por um segundo, abandonou a pose de observador. Soltou um assobio baixo, quase de admiração.
—Caralho. Que estrategista.
—Essa é a palavra. E eu, o peão. Mas não me importei. Fiz. Antonella se ajoelhou primeiro entre minhas pernas, sem dizer uma palavra, e enfiou meu pau na boca até a metade. Tinha uma língua treinada, daquelas que só as mulheres que chuparam muito e bem têm. Mamava em mim com as bochechas fundas, tirando saliva de propósito, deixando escorrer pelo queixo até os peitinhos. Camila agarrou o cabelo dela e enfiou a cabeça mais para baixo, até Antonella ter ânsia e recuar tossindo, com fios grossos pendendo dos lábios. “Assim, puta, assim você chupa ele” —minha mulher dizia, rindo—. “Faz marcar na garganta”.
—Camila colocando a outra no ritmo —sussurrou Rodrigo.
—Camila colocando a outra no ritmo. Depois a deitou de costas na cama, abriu as pernas dela bem escancaradas e mostrou a Valeria onde tinha que ir. Valeria se atirou em cima dela de cabeça, o queixo fincado no púbis de Antonella, e começou a lamber-lhe o sexo com uma minúcia de gata. Abriu os lábios dela com dois dedos, puxou a língua inteira para fora e passou do ânus ao clitóris com o piercing, chupando devagar, puxando a bolinha com os dentes até Antonella arquear as costas sobre o colchão. Eu observava com o pau na mão, sem me mexer, até Camila me empurrar pelos ombros e dizer: “Agora, moninho. Enfia tudo de uma vez”.
—E o senhor enfiou?
—De uma vez. Sem preliminar. Antonella estava tão molhada que o pau entrou sozinho, até os culhões, com um som líquido que fez as três rirem. Fodi-a com força, com as mãos nas ancas ossudas, vendo meu pau entrar e sair brilhante, lambuzado, enquanto Valeria continuava chupando o clitóris dela bem em cima do ponto onde eu a penetrava. A língua de Valeria às vezes roçava meu tronco, e aquele toque me arrepiava as costas. Minha mulher, agachada ao lado, com dois dedos enfiados na própria boceta e o polegar sobre o clitóris, se punhetava nos olhando, ofegando baixinho, comentando cada investida como uma treinadora. “Mais fundo, moninho, vai com a anca, faz ela gemer”.
—E os gemidos?
—Os três gemidos eram diferentes. Isso é o que eu mais lembro. Como um gemido não se parecia com o outro. Valeria gemia com a boca ocupada, um zumbido molhado que fazia a boceta de Antonella vibrar e fazia a ponta do meu pau vibrar também. Antonella soltava uns gritos secos, como latidos, toda vez que eu batia no fundo. E Camila, de um lado, respirava como se estivesse correndo, xingando baixinho, murmurando: “Vem cá, me dá um pouco, me dá”.
—E conseguiu o que sua esposa apostou?
—Antonella gozou duas vezes. A primeira em silêncio, com os olhos fechados e as pernas tremendo sobre minhas ancas; senti direitinho como a boceta dela se fechava ao redor do meu pau, apertando-me em ondas, enquanto Valeria continuava lambendo o clitóris sem parar. Virei-a, coloquei-a de quatro e enfiei o pau por trás, segurando-a pelo cabelo com uma mão e pela anca com a outra. Valeria se enfiou por baixo, de costas, e chupava o clitóris com a língua esticada enquanto eu continuava comendo-a. A segunda vez Antonella gozou com um grito que acordou o cachorro do vizinho, com um jato quente que manchou o rosto de Valeria da testa ao pescoço. Camila aplaudiu. Aplaudiu de verdade, com as duas mãos, nua e satisfeita, como se estivesse no teatro. E depois veio a vez dela. Jogou-se na cama de barriga para cima, abriu as pernas e me disse: “Agora sim, moninho, vem cá pra dentro que eu tô fervendo”. Cravei o pau molhado da boceta da outra, e ela deu um grito de puro prazer. Gozou três vezes seguidas, mordendo meu ombro, até arrancar meu leite de um puxão e engoli-lo em beijos, depois passando a boca cheia para Valeria para dividirem. Terminamos as quatro peles coladas de suor e sêmen, com os lençóis feitos um trapo.
Rodrigo riu, desta vez sem sarcasmo. Tomou outro gole da vodca e se ajeitou melhor na cadeira de vime.
—Vou lhe confessar uma coisa, homem. Até aqui a história fazia sentido. Parece uma noite que qualquer um gostaria de viver uma vez. Mas o senhor disse que o inesperado veio depois. Aí eu ainda não acredito.
Esteban se sentou na cadeira de balanço à frente dele. O cachimbo já tinha apagado. Ele o deixou sobre o cinzeiro, como quem desiste dele. O céu, para leste, começava a perder a negrura.
***
—Ela voltou à carga dois meses depois. Uma noite, na cama, enquanto me fazia um boquete lento, daqueles em que ela tomava seu tempo, com a língua enrolada no freio e os olhos fixos nos meus. Soltou isso como quem pede um café sem açúcar, com o pau ainda na boca e falando com aquela voz molhada. Disse que, da próxima vez, gostaria de experimentar comigo e outro homem. Que, em vez de mais uma mulher, fosse um cara. Que queria sentir dois paus ao mesmo tempo, um na boceta e outro no cu, ou um na boca e outro por trás, não importava a ordem. Uma orgia de filme, disse, rindo com meu porra entre os dentes, porque justamente naquele momento me fez gozar e engoliu devagar, sem tirar os olhos de mim, como se fosse uma travessura nova.
O convidado piscou. Pela primeira vez na noite, piscou duas vezes seguidas.
—Não respondi o que estava pensando. Disse que sim, claro, quando você quiser, e apertei-lhe as nádegas como se a ideia me tivesse entusiasmado. Por dentro, prometi evitá-la a todo custo. Deixar que ela transasse comigo com quem quisesse, vá lá. Mas eu vendo outro pau afundar até os culhões nela? Eu aceitando que outro homem a abrisse de pernas na minha frente e lhe enchesse a boceta de leite alheio? Não.
—E ela aceitou essa negativa silenciosa? —perguntou Rodrigo, com cuidado.
—Camila não aceita negativas. Espera. Ela sabe esperar o momento. E o momento chegou numa sexta-feira à noite. Voltei de uma viagem de trabalho, tarde, e antes de enfiar a chave na fechadura já a escutava pelo corredor. Música de vallenato, risadas, copos, e um gemido feminino longo, longuíssimo, que passou por baixo da porta. Quando abri, estavam na sala. Camila e Valeria, dançando coladas. Tão coladas que, a princípio, achei que se amparavam para não cair.
—E não se amparavam —murmurou Rodrigo.
—Não se amparavam. Camila tinha a mão enfiada debaixo da minissaia de Valeria, até o punho, mexendo lá dentro num ritmo lento; os dedos chapinhavam ali e dava para ouvir. Valeria, com a cabeça jogada para trás, mordia o pescoço da minha mulher e apertava um seio por cima da blusa com a mão livre. Camila me olhou dali, por cima do ombro da amiga, com dois dedos sujos até os nós, e eu soube que não seria convidado. Tirou-os da boceta de Valeria bem devagar, de propósito, e levou-os à boca um por um, chupando-os com os olhos cravados nos meus. Esperei um tempo, parado como um idiota com a mala na mão. Quando tentei me aproximar, ela me afastou. Com dois dedos, os mesmos que acabara de chupar. Suave, mas me afastou.
—“Vai dormir, moninho” —me disse—. “Esta noite é de despedida; Valeria vai para a Turquia e merece sua despedida. Amanhã nós dois vamos para uma fazenda, eu te aviso quando subir”. Vi as duas irem de mãos dadas para o quarto de hóspedes. Antes de fechar a porta, Camila levantou a saia e me mostrou que não usava nada por baixo, a boceta depilada e já brilhando. Apaguei as luzes. Deitei sozinho. Encostei o ouvido na parede, homem. Como um adolescente. E ouvi. Ouvi as bocas, as línguas, o chape-chape. Ouvi Valeria pedir mais dedos, quatro, todos, o punho. Ouvi minha mulher gritar coisas que nunca tinha gritado para mim: “Goza, puta, goza na minha cara, vai, vai”. Ouvi Valeria gozar duas vezes, três. Com o pau na mão, me masturbei de raiva e gozei sobre a barriga sem me dar prazer.
Rodrigo baixou o olhar para o copo. Desta vez não havia sorriso. Só o barulho do gelo derretendo.
—Camila voltou às cinco. Beijou minha testa, ainda com o cheiro da boceta de Valeria no cabelo, se enroscou contra minhas costas e não disse nada. Eu também não. Às dez saímos para essa fazenda. Um lugar para casais com problemas, segundo ela. Uma convenção, ela chamou. Entendi na hora que tipo de fazenda era.
—Um clube de troca —disse Rodrigo, quase sem voz.
—Uma casa enorme, com piscina de borda infinita, sauna, mesa de sinuca, redes duplas nas varandas. E regras. Camila me recitou tudo no carro, como quem lê uma lista de compras. “Se você não quiser ninguém, não tem problema. Mas eu quero, moninho. Você sabe que eu preciso disso”. Quarenta minutos dirigindo com essa frase batendo na minha cabeça.
—E cedeu?
—Cedi. Cedi a olhar, porque me negar teria significado descer do carro no meio da estrada. Cedi a tomar duas taças de vinho no bar de madeira entalhada enquanto ela jogava pôquer com dois casais que conhecia e eu não. Cedi a vê-la sair do salão pelo braço de um cara mais jovem que eu, com a camisa aberta e o sorriso de quem já tem tudo acertado. Cedi, Rodrigo. Cedi a ficar numa rede da varanda enquanto ouvia a cama do quarto ao lado reclamar por uma hora longa. As molas rangendo num ritmo contínuo. Os golpes de um púbis contra umas nádegas. E a voz de Camila —essa voz que eu conhecia nota por nota— pedindo ao cara para enfiar mais fundo, para não parar, para cravá-lo até o fundo, e depois, mais grave, mais rouca, pedindo que ele a comesse também pelo cu, que a abrisse, que não tivesse medo. Ouvi o grito com que ela gozou por trás, um grito que eu nunca tinha arrancado dela em vinte anos. Depois o silêncio. Depois a risada dela. Depois o som inconfundível de um pau escorregando para fora de um corpo e de um jato de sêmen caindo sobre uma barriga. E soube, enquanto ouvia, que Camila não precisava que eu participasse. Precisava que eu estivesse ali. Precisava de plateia. Isso foi o inesperado.
Rodrigo ficou longo tempo em silêncio. A luz cinza da madrugada suavizava-lhe as feições.
—Isso deve ter doído muito, Esteban —disse por fim—. Não a traição. A revelação de que a traição podia acontecer na sua frente, com sua autorização assinada.
—Mais do que doer, me apagou. Voltamos no domingo. Não falamos do fim de semana. Nunca mais falamos nisso. Mas, a partir daquela noite, Camila saía duas vezes por mês, sem me dizer aonde, e voltava com marcas de dedos na cintura, mordidas nos seios, o cabelo despenteado e às vezes sêmen seco ainda no canto da boca. Eu nunca perguntei. Até ontem à noite, quando ela fez as malas e me disse, com o mesmo sorriso, que já não lhe servia ser minha plateia se eu fosse fingir que não via nada.
***
O celular vibrou sobre a mesa. Esteban o ergueu com dedos lentos. Era Carolina, irmã de Camila, perguntando se a sobrinha Renata ainda estava dormindo em casa ou se ela a buscaria mais tarde. Respondeu em três linhas. Que a buscasse às onze. Que ele estaria lá. Que não se preocupasse com nada.
Rodrigo apagou o cigarro no cinzeiro e se pôs de pé. A luz já entrava pela savana e desenhava os primeiros contornos do vale. Os pássaros começavam, tímidos, em alguma árvore no fundo do jardim.
—Vou lhe pedir um favor, homem —disse, sem olhá-lo—. Quando Camila me ligar, e vai me ligar, não vou contar nada disso a ela. Mas também não vou dizer que vim. Se ela perguntar, digo que me perdi na estrada e dormi num albergue.
Esteban Mariano o encarou sem entender direito. E então entendeu. O amigo da mulher viera se despedir, não para consolá-lo. Viera confirmar com os próprios olhos o que pressentira desde o início: que Camila ia embora porque já não restava nada para olhar, porque o público se acostumara ao espetáculo e já não aplaudia.
—O senhor a amou alguma vez? —perguntou Esteban, devagar, quase em voz baixa—. Ela, digo. Amou-a como amigo ou sempre esteve esperando a sua vez?
Rodrigo demorou a responder. Ajustou a jaqueta sobre os ombros, olhou para o vale se iluminando e voltou o rosto para o anfitrião.
—Eu a amei como amigo. Mas houve uma noite, há anos, em que me ocorreu a ideia. Camila percebeu antes de mim. Me disse para nem pensar, que ela tinha escolhido um homem só e que com aquele lhe bastava. —Fez uma pausa—. Esse homem era o senhor.
Esteban não respondeu. Levantou-se da cadeira de balanço, caminhou até a cozinha e voltou com a cafeteira italiana na mão e duas xícaras limpas. Serviu em silêncio. O café fumegava no ar frio como uma pequena oferenda.
—Forte —disse, antes que Rodrigo perguntasse—. E sem açúcar. Como ela gosta.
Rodrigo aceitou a xícara com as duas mãos e tomou um gole longo. O sol apareceu na borda do morro e, por um segundo, a varanda inteira se tingiu de laranja. Os dois homens ficaram olhando sem falar, segurando cada um sua xícara, esperando algo que nenhum dos dois sabia nomear.