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Relatos Ardientes

O amigo do meu filho dormia nu na minha cama

Sofía chegou em casa pouco antes das seis da manhã, arrastando a mala pelo corredor escuro. Três dias em Valência: apresentações numa sala sem janelas, o hotel nos arredores com a cama afundada no centro e as mensagens de Rodrigo que chegavam escassas e frias como telegramas. Quarenta e dois anos, um corpo que ainda chamava olhares nos aeroportos, e a certeza crescente de que seu casamento tinha se convertido em mais uma peça decorativa, como os quadros do corredor que ninguém olhava.

Acendeu a luz da sala.

O estrago era considerável. Garrafas vazias empilhadas ao lado do sofá, copos plásticos espalhados pelo tapete como cogumelos depois da chuva, o cheiro denso e grudento de álcool misturado com fumaça fria. A televisão continuava ligada, com o som desligado, iluminando o caos com lampejos de cores frias. No sofá, sob uma manta xadrez amassada, dormia seu filho Pablo com a boca aberta e o cabelo colado na testa suada.

—Pablo. —Sacudiu-o pelo ombro sem delicadeza—. Levanta agora mesmo.

Ele abriu os olhos devagar, piscou várias vezes e levou alguns segundos para se situar.

—Mãe... você já chegou? Achei que voltava amanhã...

—Já é amanhã. São seis da manhã e a sua casa parece um lixão. Junta tudo agora mesmo. Cada garrafa, cada copo, cada bituca que encontrar. E esfrega o chão antes que eu me dê ao trabalho de conferir a cozinha.

Pablo se sentou de maneira desajeitada, resmungando algo que ela preferiu não escutar. Sofía deixou a mala ao pé da escada e subiu os degraus com a sensação de que o cansaço da viagem se multiplicava a cada passo. O corredor do andar de cima não estava melhor: roupa alheia jogada pelo piso de parquet, o banheiro de hóspedes com a porta escancarada e o cheiro inconfundível de alguém que vomitou e limpou pela metade. Um copo virado sobre a prateleira escorria restos de algo rosa para o chão.

—Meu Deus —murmurou para si mesma, pisando com cuidado.

Seu quarto era o único refúgio que lhe restava: a cama com lençóis de linho, o armário cheio de roupas que Rodrigo já não olhava, o espelho onde ainda se reconhecia nas noites em que se permitia se encarar. Empurrou a porta esperando encontrar ao menos aquele canto intacto.

Não estava intacto.

No centro da sua cama de casal dormia um rapaz que não era seu marido.

Reconheceu-o na hora: Marco, o melhor amigo de Pablo, aquele que ela tinha visto meia dúzia de vezes em casa e que sempre sustentava seu olhar um segundo a mais. Tinha vinte anos, o corpo de quem levava a academia a sério — ombros largos, peito marcado, uma linha de pelos escuros descendo do umbigo — e estava completamente nu sobre os lençóis de algodão egípcio. Dormia de costas, com os braços abertos, alheio a tudo, com aquela maneira despreocupada de ocupar espaço que os homens jovens têm, ainda sem saber que o mundo pode encolhê-los. Uma tatuagem geométrica serpenteava pelo ombro esquerdo até a lateral do tronco.

Sofía ficou parada no umbral, com a mão ainda na maçaneta.

Devia tê-lo acordado aos gritos. Devia ter descido à procura de Pablo e obrigado o filho a levá-lo embora dali. Devia ter feito muitas coisas. Mas a viagem tinha sido muito longa, e a solidão daqueles três dias no hotel ainda estava grudada à sua pele como uma segunda roupa.

Três noites sozinha. Rodrigo com seus “compromissos” que já nem se dava ao trabalho de disfarçar por completo. E agora isso.

Fechou a porta com cuidado, sem fazer barulho.

Foi até a cama devagar. Tirou os saltos e os deixou ao lado da cômoda sem tirar os olhos dele. Marco respirava fundo e ritmado, os lábios entreabertos, o peito subindo e descendo num ritmo hipnótico. Estendeu a mão e a pousou sobre a coxa dele. A pele estava quente sob seus dedos, firme, muito diferente das carícias mornas que Rodrigo lhe dava de vez em quando como quem cumpre uma obrigação.

Marco murmurou algo ininteligível e se mexeu levemente, sem acordar.

Sofía sentiu o próprio pulso acelerar de um jeito que já não lembrava. Não era irreflexão o que a movia: era simplesmente o fato de ter passado tempo demais esperando que alguém a olhasse como se valesse a pena. Ajoelhou-se ao lado da cama com movimentos lentos, o carpete afundando sob seus joelhos, e se inclinou sobre ele.

O que fez a seguir não foi um impulso. Foi uma decisão tomada com toda a clareza que o cansaço e a raiva acumulada concedem: uma mulher de quarenta e dois anos que passou três noites num hotel imaginando algo que nunca chegava e que, de repente, tem diante de si uma possibilidade concreta. Desceu a mão pelo ventre dele até sentir o peso duro e morno que se despertava sob a pele. Marco abriu os olhos de súbito, desorientado, e ela não lhe deu tempo para pensar: tomou-o com a boca devagar, engolindo-o com uma calma obscena, enquanto a língua percorria a base, a veia, a ponta que ia endurecendo entre seus lábios. O sabor da pele, do suor seco da festa e do leite salgado que já começava a aparecer o arrancou meio que à força do sono.

—O que...? —Abriu os olhos. Fechou-os. Abriu de novo—. Senhora Sofía...

Ela ergueu o olhar sem soltá-lo por completo.

—Cala a boca —disse, e sua voz saiu mais rouca do que esperava—. E não se mexe.

Marco obedeceu pela metade, tremendo por puro desorientação. Sofía levou o tempo que quis, sem pressa, saboreando o controle da situação: a dureza sob sua língua, o pulso que latejava em sua boca, a forma como os dedos do rapaz se perdiam em seu cabelo sem ousar apertar. Quando o engoliu mais fundo, até a garganta roçar a base, Marco soltou um gemido quebrado e ergueu o quadril por reflexo.

—Senhora Sofía, isso não deveria... —começou.

Ela se afastou o bastante apenas para olhá-lo de baixo, com os lábios úmidos e a respiração controlada.

—Eu sei o que deveria e o que não deveria —disse—. Você é o garoto que dormiu na minha cama sem permissão, depois de ajudar a transformar a minha casa num chiqueiro. Então agora você fica quieto e me deixa fazer o que quero.

Marco a encarou com aquela mistura sincera de desejo e estupor que só os garotos jovens demais têm para disfarçar. A respiração dele já estava mais curta. O pau pulsava contra a língua dela com uma urgência que o traía.

—Sim —disse apenas.

***

Quando ela se ergueu e começou a tirar a roupa, ele a observou sem fingir que não olhava. Sofía se despiu sem pressa, deixando que ele visse: a blusa de seda que caiu no chão, o sutiã que a seguiu, as curvas que quatro décadas de vida tinham dado ao seu corpo. Tinha os quadris largos e os seios pesados, e as estrias prateadas nas coxas que fazia anos havia desistido de esconder. A pele do ventre ainda era macia, mas marcada pela vida; as aréolas escuras, os mamilos já duros pela atenção daquele olhar jovem.

Marco a olhava como se valesse a pena olhar para ela.

Subiu nele sem mais cerimônia. Guiou-o com uma mão e desceu devagar, os dentes cerrados pelo esforço de não fazer barulho, centímetro por centímetro, até tê-lo inteiro dentro de si. Ele soltou o ar de uma vez e as mãos subiram para os quadris dela por instinto, segurando sem saber ao certo se tinha permissão. Sofía sentiu a pressão abrindo-a, o atrito úmido e profundo, a dor deliciosa de ser preenchida por um corpo duro e jovem que entrava até o fundo de uma só vez.

—Isso —disse ela, respondendo à pergunta não formulada.

Começou a se mover. O ritmo no início foi lento, exploratório, medindo o ângulo. Marco tentou empurrar de baixo para cima e ela o conteve com o peso do corpo, apoiando as mãos no peito dele.

—Quieto —ordenou—. Isso aqui eu conduzo.

Ele obedeceu.

Sofía encontrou o ritmo que queria e o manteve com os olhos semicerrados, concentrada na sensação com uma intensidade que há meses não experimentava. Os seios oscilavam a cada movimento e ele os olhava com uma atenção que lhe agradava. Quando ela se inclinou para a frente e apoiou as palmas no peito dele, ele ergueu a cabeça e a boca buscou um mamilo sem que ninguém pedisse. Pegou-o primeiro com desajeito, depois com mais fome, chupando e rodeando com a língua, e ela respondeu com um impulso do quadril que o fez entrar mais fundo.

—Isso... —murmurou ela, com a garganta áspera.

Os gemidos que saíam de sua garganta eram no início baixos, contidos, embora em certo momento deixassem de sê-lo. Sofía se esqueceu de Valência, do hotel, de Rodrigo e dos telegramas frios dele. Esqueceu a hora e o desastre do andar de baixo. Só restou aquilo: o calor, o peso de um corpo jovem sob o dela, a sensação de que alguém a queria exatamente ali onde ela estava. Marco segurou os quadris dela com mais firmeza e começou a empurrar por baixo, tentando um ritmo desajeitado que ela corrigiu marcando o compasso com a pelve.

—Mais —pediu, cravando as unhas no peito dele—. Mais forte.

Ele obedeceu, e a cama começou a ranger sob as investidas, primeiro curtas e depois longas, profundas, cada uma entrando até tocar aquele ponto exato que a fazia arquear-se com violência. Sofía ergueu uma perna e a passou por cima do quadril dele, abrindo-se mais, puxando-o para si com uma fome que não pretendia negar. O suor molhava a pele dos dois, escorrendo entre seus ventres, e o cheiro de sexo começou a preencher o quarto com uma intensidade quase selvagem.

—Olha pra mim —disse ela.

Marco ergueu a cabeça, atordoado, e a olhou como se estivesse se afundando.

—Assim —sussurrou Sofía—. Quero te ver quando gozar.

Ele engoliu em seco, a mandíbula tensa, e continuou fodendo-a com mais segurança, segurando seus quadris, afastando-se o suficiente para voltar a entrar com uma pancada seca que arrancava dela uma sequência de suspiros. O colchão batia na parede. Os lençóis se amassavam sob as pernas. O corpo de Sofía, que tantas vezes sentira sério demais, controlado demais, funcional demais, abriu-se de súbito numa onda de necessidade que a fez se inclinar, pegar o rosto dele com uma mão e morder a boca com força.

Ele soltou um som rouco, quase um rosnado.

—Caralho —disse, já sem pensar em respeito nem em nome—. Sofía...

—É isso —respondeu ela, se movendo sobre ele com mais violência—. Fala de novo.

Gostou de ouvir seu nome assim, saindo daquela boca jovem, quente, quase incrédula. Deixou-se levar pelo ritmo até que o prazer se tornasse quase insuportável, uma corda se esticando e se esticando dentro dela. Marco a sustentou com as duas mãos, investindo mais fundo, mais rápido, até que as coxas de Sofía começaram a tremer e o orgasmo explodiu com uma força seca, vibrando em seu ventre e na parte baixa do abdômen, apertando sua garganta para que não gritasse alto demais.

Mas não pararam. Ele continuou movendo-a sobre o pau, já desordenado pelo próprio desejo, e Sofía sentiu a segunda onda subir da pelve até os seios. Baixou a mão entre os corpos, se apertando onde o atrito com ele a deixava louca, e gozou outra vez com um tremor longo, sustentado, enquanto Marco ficava rígido sob ela, respirando em golfadas.

—Não para —disse ela, com a voz reduzida a um fio—. Enfia tudo.

Ele obedeceu com uma pancada profunda que a fez se fechar ao redor dele, e então o garoto perdeu completamente o controle: agarrou-a pela cintura, empurrou-a para cima e para baixo com uma força crescente, e o som do colchão se misturou ao de suas bocas úmidas, seus arfares e o choque de pele contra pele. Sofía montou nele de novo, mudando o ângulo, erguendo-se apenas o bastante para voltar a se sentar sobre ele com mais peso, mais pressão, deixando-o entrar até o fundo enquanto esfregava o clitóris no osso púbico dele. Sentia cada pulsação dentro, cada sacudida do pau de Marco endurecendo mais com o esforço, e o prazer a deixava insolente, despudorada, feroz.

—Assim, porra —murmurou ele, já completamente perdido—. Assim, não para...

O terceiro orgasmo a atingiu com violência, fazendo as pernas tremerem e obrigando-a a se apoiar no peito de Marco para não cair. Ele continuou investindo mais algumas vezes, até que o corpo dele se retesou por completo e soltou uma gozada quente dentro dela, com um gemido abafado que o fez fechar os olhos e encostar a testa no ombro dela. Sofía sentiu o jato espesso preenchendo-a, o pulso frenético do corpo dele se esvaziando dentro dela, e ficou imóvel por um segundo, respirando aquilo, deixando-o acabar.

***

A porta se abriu de repente.

Pablo apareceu no umbral com um saco de lixo na mão e os olhos completamente abertos. A cena era inequívoca: sua mãe debaixo do melhor amigo de toda a vida, com o cabelo solto e desalinhado sobre o travesseiro, os dois suados e sem fôlego. Marco ficou paralisado. Sofía não.

Virou a cabeça em direção à porta com uma calma que a surpreendeu a si mesma.

—Fecha a porta —disse.

—Mãe... o quê...? —A voz de Pablo saiu quebrada, irreconhecível.

—Eu disse para fechar a porta e descer para continuar limpando. Agora.

Pablo não se mexeu durante três segundos que se tornaram longos. Seu olhar foi da mãe para Marco e de Marco para a mãe, e no rosto dele passaram coisas que nenhum dos três saberia nomear. Depois deu um passo para trás, fechou a porta e seus passos se afastaram apressados pelo corredor.

Dentro do quarto, Marco soltou o ar que vinha prendendo.

—Caralho —murmurou.

—É —disse Sofía. E não disse mais nada.

***

Depois, deitados nos lençóis amassados, o silêncio do quarto era denso e tranquilo ao mesmo tempo. Sofía olhava para o teto. Marco olhava para Sofía.

—Eu devia ir —disse ele por fim.

—Sim, devia.

Vestiu-se em silêncio, recolhendo do chão a roupa que a festa tinha deixado espalhada. Na porta, parou um momento com a camiseta na mão.

—Sofía, eu...—

—Não —disse ela sem olhá-lo—. Isso não foi nada. Pode ir.

Marco assentiu, terminou de se vestir e desceu a escada. A porta da rua se fechou com um clique suave.

Sofía tomou banho devagar, deixando a água quente cair sobre os ombros tempo demais, até o espelho ficar completamente embaçado. Quando desceu, vinte minutos depois, a casa estava em silêncio. Pablo estava sentado no sofá com o saco de lixo cheio aos pés e o olhar fixo no piso de madeira, que brilhava limpo. A sala estava impecável: as garrafas tinham desaparecido, os copos também, o tapete recuperava sua cor original e o ar cheirava a produto de limpeza e janela aberta.

Sofía amarrou o cinto do roupão e se sentou na poltrona à frente dele.

—Bom trabalho —disse.

Pablo levantou os olhos. Tinha a cara de alguém que vinha tentando organizar pensamentos que não queriam se organizar.

—Mãe, eu preciso... —começou.

—Não —interrompeu ela com calma—. Primeiro você me escuta.

Recostou-se na poltrona, os braços cruzados, olhando-o com a serenidade de quem já tomou todas as decisões que precisava tomar.

—O que você viu hoje de manhã não existe. Você não vai contar nada ao seu pai quando ele voltar, nem esta semana nem qualquer outra. —Fez uma pausa—. Em troca, eu também não vou contar que você transformou esta casa num bar de madrugada enquanto nós dois estávamos fora trabalhando. Que havia roupa alheia jogada pelo corredor. Que alguém esteve na nossa cama sem permissão.

Pablo engoliu em seco.

—Mãe, eu não faria...—

—Eu sei que não faria. —Sofía se levantou—. Porque você é esperto e porque sabe perfeitamente como essas conversas terminam quando alguém decide iniciá-las. Você com a sua festa, eu com as minhas coisas. Nós dois guardamos silêncio e seguimos em frente. Entendido?

Um momento de silêncio. Depois Pablo assentiu devagar, sem erguer os olhos do chão.

—Ótimo. —Sofía pegou a mala ao pé da escada—. Agora vai dormir umas horas. Você está com cara de quem não fechou os olhos a noite inteira.

Subiu a escada sem olhar para trás. No quarto, com a luz cinza da manhã filtrando pelas persianas, estendeu as mãos sobre os lençóis limpos que tinha trocado antes do banho. Pensou em Valência, no hotel, em Rodrigo. Depois parou de pensar neles.

Deitou-se de barriga para cima, fechou os olhos e, pela primeira vez em três dias, pegou no sono imediatamente.

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