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Relatos Ardientes

O que aconteceu junto à fogueira enquanto ele dormia

Marisol soltou um suspiro, apenas um fio de ar diante do estrépito do escritório e do teclar incessante dos teclados. A imobiliária era um formigueiro mesmo numa terça-feira à tarde, com o sol de Sevilha prenunciando um verão espesso e pegajoso. Tinha o olhar cravado na planilha, mas sua mente já não estava nas vendas: estava nas malas pela metade e na expedição que Gonzalo tinha organizado com tanto entusiasmo.

Aos trinta e três anos, depois de três anos de casamento, ela aproveitava a estabilidade que haviam construído. Mas o planejamento das férias sempre trazia à tona suas diferenças: ela era uma mulher de asfalto e cultura, e sua ideia de descanso passava por se perder nas capitais europeias, entre museus e cafés tradicionais. O safári na Tanzânia que o marido tanto havia promovido não lhe parecia um sonho, e sim um castigo para sua zona de conforto. Ela tinha concordado a contragosto, depois de semanas de negociação.

Gonzalo, por outro lado, vivia para a aventura. Trabalhava numa agência de viagens e, para ele, a África não era apenas um destino: era a promessa de escapar da rotina que ela, paradoxalmente, tanto valorizava. Ele tinha investido meses para convencê-la, sabendo que sua resistência era uma barricada contra o desconhecido.

A viagem começou com a voragem habitual dos aeroportos. Já a bordo do voo para Kilimanjaro, ela ajustou a máscara e tentou bloquear o mundo: o ruído dos motores, as vozes alheias, até mesmo a mão de Gonzalo pousando com ternura sobre sua coxa. Ele, ao seu lado, não cabia em si de felicidade, alheio ao muro de silêncio que ela erguia entre os dois.

Pousaram ao cair da tarde. O ar denso, carregado de uma umidade que Marisol não conhecia, atingiu-a ao descer do avião. O burburinho, as cores dos tecidos locais e um cheiro de terra e especiarias confirmaram seus piores temores: estava muito longe de casa.

O acampamento era um conjunto de bangalôs de adobe e telhados de palha espalhados num claro da savana. A mosquiteira sobre a cama parecia mais uma gaiola do que um abrigo. Não havia televisão, nem Wi-Fi estável, nem a promessa de um café decente na esquina.

—Isto é autêntico, Marisol. Não te parece incrível? —exclamou Gonzalo com um sorriso que ela percebeu forçado.

—Sim, incrível —murmurou ela, desfazendo a mala com um fatalismo resignado.

***

Na primeira noite, antes que a poeira da savana cobrisse seus corpos, o ritual do amor se impôs como uma fronteira conhecida em território estranho. Gonzalo a buscou com a familiaridade de quem conhece cada recanto da sua anatomia. As mãos dele percorreram as costas estreitas dela e se detiveram em seus seios pequenos. Beijaram-se com uma ternura pausada, reafirmando aquele vínculo que sobrevivia a qualquer disputa por roteiros. Foi um encontro confortável, rítmico, um exercício de afeto que os deixou abraçados após um clímax sereno.

Pouco depois, o peso da viagem venceu Gonzalo, que adormeceu quase de imediato. Marisol, ao contrário, permaneceu de olhos abertos. Imaginou a luz azulada do crepúsculo sobre os telhados de Paris, uma taça de vinho gelado na mão, o murmúrio de uma cidade que nunca dorme. Suspirou no escuro, perguntando-se se conseguiria perdoar o marido por ter trocado tudo aquilo por aquele silêncio inquietante e selvagem.

No dia seguinte, quando o céu mal se tingia de laranja, o grupo subiu em dois jipes. Dois guias os acompanharam. Um, com uns quarenta anos e sorriso afável, apresentou-se como Tobías no espanhol que aprendera. O outro, mais jovem, alto, de constituição atlética que se adivinhava sob o uniforme, chamava-se Adimu. Seus olhos escuros pareciam absorver a luz do amanhecer. Ele não falava espanhol, e sua presença silenciosa logo se fez notar.

A savana se estendia como um mar de relva dourada salpicado de acácias. Elefantes pastavam à distância, girafas mordiscavam as folhas altas, leões cochilavam à sombra das pedras. A beleza era crua e incontestável, e Marisol, apesar da resistência, não conseguia deixar de admirá-la.

À medida que os dias passavam, ela começou a notar uma presença constante. Adimu, o guia calado, tinha uma estranha habilidade de estar sempre perto. Quando desciam do veículo, ele aparecia oferecendo uma mão firme, ajustando a mochila com um gesto discreto. Seus olhos raramente se cruzavam com os dela de frente, mas a observavam pela periferia. Marisol percebeu isso e, embora tentasse ignorar, uma pequena faísca de algo primitivo começou a se acender dentro dela.

***

Uma noite, ao fim de uma jornada mais longa que o habitual, chegaram a um acampamento avançado no coração da reserva. Não era um hotel, mas plataformas de madeira protegidas por paredes de caniço. A fogueira central, sempre acesa, era o único ponto de referência na escuridão.

Gonzalo, exausto pela intensidade do sol, caiu rendido em sua cama quase de imediato. Marisol continuava alerta. O calor remanescente e o zumbido dos insetos a mantinham em suspenso. Levantou-se e saiu em busca de algum alívio. Todos dormiam, exceto Tobías e Adimu, que conversavam junto à fogueira em vozes baixas.

—Boa noite —disse ela em tom suave—. Não consigo dormir.

Tobías lhe dedicou um sorriso amável. —A savana à noite é barulhenta no começo. Depois se torna a melhor melodia.

Marisol ergueu os olhos para um céu salpicado por milhões de estrelas, sem a menor poluição luminosa. Era uma beleza avassaladora, algo que ela nunca tinha visto. Por um instante, sentiu algo parecido com gratidão.

Tobías a convidou a sentar-se num tronco. Conversaram um pouco, mas aos poucos suas palavras foram ficando mais lentas, os olhos dele se pousaram em Adimu, e, com uma despedida discreta, ele se retirou para sua rede. Marisol e Adimu ficaram sozinhos, a fogueira crepitando entre eles.

A química que ela intuía havia dias tornou-se densa, palpável no ar. Adimu a observava, os olhos negros fixos nela. Aquele homem, com o corpo fibroso e a pele reluzindo à luz do fogo, atraía-a de uma forma quase animal. O ressentimento contra Gonzalo, por tê-la arrastado até ali, misturava-se a essa atração confusa. Isso não significava que ela não amasse o marido, mas a umidade que agora sentia entre as pernas não tinha nada a ver com ele.

Adimu disse algo no idioma dele, uma frase suave e gutural que ela não entendeu, mas que soou como um convite. Aproximou-se um pouco mais e sua mão se estendeu com uma deliberada lentidão até pousar sobre um dos seios pequenos dela. Marisol sentiu uma corrente atravessar o corpo, um pulso que desceu direto para sua vagina. A resistência derreteu nela como cera ao calor do fogo.

Adimu se levantou com uma pachorra felina, sua figura recortada contra o brilho das brasas. Sem tirar os olhos dela, desabotoou o cinto. O som do metal e do zíper rasgou o silêncio da noite.

Quando a calça cedeu, a realidade superou qualquer fantasia. Diante do rosto dela, a poucos centímetros, ergueu-se um membro de uma magnitude que a deixou absorta. Era uma peça imponente, de um negro profundo que brilhava com o reflexo do fogo, percorrida por veias grossas. Marisol nunca tinha visto algo parecido; naquele instante, a lembrança de Gonzalo lhe pareceu o eco de outra vida.

O medo do desconhecido se fundiu a uma curiosidade voraz. Ela estendeu uma mão trêmula e envolveu apenas parte daquela grossura. A pele dele estava em chamas.

—É... —o sussurro morreu em sua garganta, incapaz de articular palavra.

Ele a segurou pela nuca e a obrigou a inclinar a cabeça para trás. Os lábios se encontraram num beijo que tinha gosto de sal e de terra, um beijo que não pedia licença. Enquanto a língua de Adimu explorava sua boca com uma urgência que Gonzalo nunca tinha demonstrado, Marisol sentiu a vontade se partir. A culpa continuava ali, latente, mas o prazer que começava a transbordar era um juiz muito mais convincente.

Com o olhar fixo nele, rodeou a base da ereção e começou a acariciá-lo devagar, de menos a mais, explorando a dureza, a rugosidade das veias. Sua própria boca entreabriu-se, como se reclamasse o que as mãos tateavam. Adimu entendeu a mensagem e direcionou a ponta para os lábios dela. Ela sentiu o roçar úmido, o gosto salgado, e o abocanhou sem hesitar, a língua percorrendo cada centímetro com uma devoção inesperada, os olhos sempre presos aos dele.

O prazer dele foi evidente. Fechou as pálpebras, um gemido rouco escapou de sua garganta, antes de olhar para baixo e contemplar a cabeleira loura dela se movendo num ritmo entregue. Para Adimu, Marisol era uma aparição clara e etérea no meio da escuridão africana.

Ela sentia o próprio corpo responder com uma voracidade que já não lembrava. Com um movimento decidido, ergueu-se, tirou o short e a última peça de roupa, e deixou a pele pálida exposta à luz trêmula da fogueira.

Sem esforço aparente, ele a ergueu como se ela não pesasse nada, os braços envolvendo sua cintura. Marisol se agarrou a ele, as pernas em volta da cintura dele, os seios comprimidos contra aquele torso duro. Quando ele a fez descer com uma lentidão torturante, ela sentiu aquela invasão abrindo caminho centímetro por centímetro, uma mistura exquisita de dor e prazer que a obrigou a arquear as costas.

—Ah! —O gemido se afogou na escuridão, ressoando apenas no silêncio da savana.

Ela se agarrou ao pescoço dele enquanto as mãos grandes e firmes do guia a mantinham suspensa. Cada movimento apagava um traço da Marisol contida de Sevilha. O prazer foi uma maré que acabou por romper suas defesas: entre espasmos incontroláveis, ela gozou com um grito agudo. Um segundo depois, o pânico a atingiu; o eco do próprio êxtase poderia ter acordado Gonzalo.

Sem lhe dar tempo para pensar, Adimu a desceu, virou-a e a inclinou para a frente. Com as pernas trêmulas, ela buscou apoio no tronco áspero de uma acácias próxima. Ele a penetrou de novo por trás com uma veemência renovada, e ela voltou a gemer a cada investida, perdendo o controle dos próprios sons.

Adimu aumentou o ritmo, as estocadas cada vez mais curtas e violentas. De repente soltou um rugido surdo que vibrou contra as costas dela. Nesse mesmo instante, como se a terra respondesse, um bramido profundo rasgou a noite ao longe: o eco de um leão na escuridão. Ambos os sons se fundiram numa única frequência selvagem, deixando Marisol atravessada não só pela carne, mas pela essência indomável de uma savana que já não lhe parecia alheia.

Aquela plenitude a arrastou para um novo orgasmo, um espasmo que a deixou sem fôlego. Enquanto recuperava o ar, ainda apoiada na árvore, o rastro da traição era sentido como uma marca de fogo na pele. Sabia-se adúltera, uma mulher que havia quebrado todas as suas regras sob o céu da África, mas ao mesmo tempo se sentia mais viva, mais real, mais plena do que lembrava.

***

Minutos depois, depois de se limpar de forma rápida sob o abrigo das sombras, voltou à fogueira. Adimu já estava ali, com os olhos fixos nas brasas, como se nada tivesse acontecido.

Foi então que Tobías emergiu da penumbra, caminhando com uma calma que denunciava que ele nunca tinha chegado a dormir. Sentou-se junto deles com a naturalidade de quem retoma uma vigília compartilhada, um sorriso enigmático desenhando-se nos lábios. Não fez perguntas, não demonstrou surpresa; simplesmente jogou um punhado de gravetos secos no fogo.

Marisol sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a brisa. A calma de Tobías, e o olhar que trocou com Adimu — um lampejo de entendimento mudo —, fez com que ela compreendesse que o que acontecera sob a acácias não fora um acidente. Parecia um rito combinado de antemão entre os dois homens, uma hospitalidade selvagem da qual ela tinha sido o centro.

—A noite é longa, Marisol —disse Tobías, e o uso do nome dela soou mais íntimo do que nunca—. Mas o fogo sempre sabe quem esteve perto dele. Há segredos que a savana guarda, e que os homens compartilham em silêncio.

Adimu não se alterou, embora a tensão nos ombros tenha relaxado. Ela permaneceu rígida, o pulso acelerado, consciente de fazer parte de um jogo cujas regras desconhecia.

—Não se sinta mal por seu marido —acrescentou Tobías—. Ele sonhava em vir para cá para se sentir um explorador, mas é um turista. Amanhã, quando olhar para ele, vai lembrar que o rugido do leão desta noite também era para você.

Foi justamente então que a lona da cabana se agitou e Gonzalo apareceu, quebrando o feitiço com a voz carregada de sono.

—Marisol? —soltou um suspiro de alívio ao vê-la recortada contra a claridade do fogo—. Acordei e você não estava. Por um segundo pensei que tivesse se perdido, ou que algum animal...

Sentou-se ao lado dela e a envolveu com um braço. Ela se retesou apenas um milímetro, reação que ele atribuiu ao frio da madrugada.

—Não conseguia dormir —respondeu com uma voz estranhamente densa—. O ar da noite é... diferente. Tem um peso que eu não esperava.

—É o que eu te dizia, querida —assentiu Gonzalo, olhando as brasas com respeito—. Este lugar muda você por dentro. Não é, Tobías? Você, que vive aqui, sabe que a África não deixa ninguém partir sendo o mesmo.

Tobías sorriu, e na penumbra seus olhos brilharam com uma inteligência que Gonzalo interpretou como sabedoria ancestral, mas que ela reconheceu como cumplicidade absoluta.

—Tem muita razão, senhor —respondeu com seu sotaque pausado—. A savana é muito generosa com quem sabe se entregar a ela. Sua esposa demonstrou uma capacidade de adaptação impressionante. Não resistiu ao que a noite lhe oferecia.

Marisol olhou para o fogo, sentindo como o rastro de Adimu deslizava imperceptível sob a roupa limpa, uma lembrança líquida de sua nova realidade.

—Sim, Gonzalo. Você tem razão. Ela me deixou uma marca... —fez uma pausa, e por um segundo seu olhar se cruzou com o de Tobías— ...muito profunda. Tão profunda que eu já nem sei onde termino eu e onde começa tudo isso.

***

Meses depois, o zumbido elétrico do escritório em Sevilha continuava o mesmo, mas Marisol já não o escutava da mesma forma. Tinha voltado à rotina, aos vestidos de linho e aos jantares de sexta-feira com Gonzalo, mas algo na sua estrutura interna se rompera de forma irreversível.

Debaixo da mesa, cruzou as pernas, sentindo o roçar da seda contra a pele, e por um instante o ar-condicionado se transformou no vento quente da savana. Podia evocar, com uma nitidez quase dolorosa, a textura da casca daquela acácias onde se apoiara enquanto Adimu a reclamava. Fechou os olhos por um segundo, e o cheiro de café do escritório se tornou aroma de terra úmida, suor e fogo.

Sabia-se adúltera, reconhecia o peso da traição, mas não encontrava arrependimento em nenhuma dobra da consciência. O que sentia era uma plenitude amarga: a certeza de que a segurança do seu mundo cosmopolita era uma prisão de vidro, e que em algum lugar remoto da savana, sob um céu sem luzes artificiais, havia ficado a parte mais autêntica de si mesma.

Um sorriso imperceptível desenhou-lhe os lábios enquanto voltava a fixar o olhar na lista de imóveis. Sabia que nunca mais seria a mesma. Agora, sob a roupa de escritório, pulsava o ritmo do selvagem, lembrando-lhe que, embora seus pés pisassem o asfalto de Sevilha, sua memória continuava habitando para sempre a imensidão de uma noite que Gonzalo jamais chegaria a compreender.

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