Ela me beijou quando eu ainda ardia por outra mulher
O mundo ainda dormia, mas eu já estava de pé. Quatro da manhã tinha virado o meu horário — não por disciplina militar, mas porque dentro do corpo já não havia espaço para o sono.
Eu estava havia quinze dias sem notícia de Daniela. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum sinal que me confirmasse que aquela manhã no apartamento dela tinha existido fora da minha memória.
Às vezes, a vontade de ir ao hospital e esperá-la na porta me subia pelo peito como brasa viva. E às vezes, bem a tempo, eu apagava aquilo. Se quisesse continuar, teria me dado o número dela. Eu repetia para mim mesma. Talvez tivesse sido só um jogo: levar a campeã para a cama, abrir as pernas dela, fazê-la gozar três vezes contra o colchão e nada mais.
Saí para correr por exatamente uma hora. O ar frio me atingia o rosto como se quisesse me despertar por completo, como se quisesse arrancá-lo do meu peito. Aquela madrugada chovia sem parar, e cada gota parecia cair mais para dentro do que para fora. Enquanto eu corria, a lembrança do gosto do cu dela na minha língua subia até a boca sem pedir licença: eu tinha passado quase uma hora inteira entre as coxas dela naquela noite, chupando o clitóris até que ela cravou os calcanhares nas minhas costas e me implorou, com a voz partida, que eu não parasse.
Voltei, tomei banho, vesti o uniforme. Debaixo do jato de água quente, passei os dedos entre as pernas quase sem pensar, e percebi que já fazia quinze dias que eu me molhava sozinha no chuveiro, apertando o clitóris com a ponta do polegar enquanto a via na cabeça, com a língua de fora, gemendo «mais» no meu ouvido. Terminei rápido, mordendo o lábio, apoiada nos azulejos, e a gozada veio com raiva, como se o orgasmo também estivesse zangado com ela.
Às seis, eu já estava pronta para mais um dia na Promotoria. Ali, eu não era Camila, a vulnerável. Ali, eu era a legista. A militar. A mulher que olhava para a morte sem piscar.
E a morte não dava trégua.
Aquela manhã trouxe três novos relatos. Uma universitária que não voltou para casa depois da aula; os colegas a registraram como desaparecida porque tinham um trabalho em grupo e ela nunca faltava sem avisar. Uma garçonete de um povoado próximo, vista pela última vez sozinha no ponto de ônibus. E uma jovem do cantão que alugava um quarto no centro histórico: saiu para comprar tortilhas em plena luz do dia e a rua a engoliu.
O padrão já não era padrão. Era método. O que anos atrás parecia tentativa e erro, agora era uma máquina fria, cirúrgica, eficiente. E eu precisava entendê-la.
Afundei nas autópsias anteriores, em busca de coincidências nos cortes, nas marcas, nas mensagens ocultas. Como escolhem as vítimas?, que assinatura estão deixando?, quantas outras ainda estarão vivas, esperando? As perguntas me sustentavam melhor do que o café.
Só percebi que já era meio da manhã quando Mariana Cordero, a promotora responsável pelo caso, entrou.
—Bom dia, major Herrera —cumprimentou sem formalidades, com aquela mistura de respeito e algo mais que sempre ficava em seu olhar—. Você tem cinco minutos para um café?
—Bom dia, promotora. Não posso. Obrigada —respondi sem levantar os olhos.
—Café nunca se recusa. E você está precisando.
—Estou bem.
—Não está, Camila. Suas olheiras estão fundas e você está esquecendo o almoço. São cinco minutos. Não me obrigue a ordenar que você vá —disse, sorrindo de um jeito que amoleceu a rigidez do ar.
Ela tinha razão. Eu não descansava. Não porque não pudesse, mas porque não sabia como. Ultimamente apareciam hematomas dos quais eu não me lembrava de ter feito, arranhões nos braços sem explicação, um tremor leve nos dedos que me obrigava a segurar o bisturi com mais força do que o necessário.
Suspirei e cedi. Às vezes, tudo o que eu precisava era parar de pensar e caminhar.
***
A cafeteria ficava a três quadras da Promotoria. Mariana pediu dois cappuccinos. Sabia exatamente como eu tomava, sem perguntar. Sentamos no terraço, onde o ar estava morno, daquele tipo que fica depois de chover de madrugada e o sol ainda não esquentar de verdade.
—Há quanto tempo você não dorme? —perguntou sem rodeios.
—Estou focada. Isso não me afeta.
—Você pode dizer isso para qualquer um. Para mim, não. Eu te conheço demais para que você se esconda atrás das palavras.
Desviei o olhar, fingi interesse pelo trânsito. E então tudo dentro de mim desmoronou.
Eu a vi.
Daniela estava sentada a poucos metros, cercada de colegas de uniforme do hospital. Usava a blusa branca de algodão que naquela manhã eu tinha desabotoado botão por botão, com os dentes marcados em seu pescoço enquanto eu apertava seus seios por cima do sutiã e ela sussurrava para mim «me come logo, não aguento mais». Eu a lembrei sob a luz morna da janela dela, com a pele ainda molhada, rindo contra a minha boca quando eu mordi a clavícula. Lembrei dela sentada no meu rosto, movendo a buceta devagar contra a minha língua, agarrada à cabeceira, com os mamilos duros e as bochechas acesas, me olhando de cima enquanto eu lambia até a última dobra. Lembrei dela segurando minha cabeça com as duas mãos como se tivesse medo de eu ir embora, com dois dedos meus ainda enterrados até o fundo da buceta encharcada dela.
E agora ela estava ali, ao lado de um homem de jaleco branco, tocando o braço dele com uma intimidade que me arrancou o ar. Sorriu. Sorriu para ele como nunca tinha sorrido para mim.
Nossos olhares se encontraram, e o mundo parou. Não foi um reencontro. Foi uma emboscada emocional.
Fiquei imóvel. O estômago se fechou. O coração apertou como um punho. A raiva se transformou numa dor surda que subiu aos olhos em forma de lágrimas que não iam cair. Ali, não. Nunca ali.
—Você está bem? —perguntou Mariana em voz baixa.
Não respondi. Só fechei a mão sob a mesa, sentindo a unha cravar na palma.
Mariana seguiu a direção do meu olhar. Não entendeu tudo, mas entendeu o suficiente. Se levantou, pegou minha mão com firmeza e me tirou do terraço sem me dar tempo de discutir.
—Ela não merece nem mesmo te ver assim —sussurrou.
Ela passou o braço na minha cintura enquanto caminhávamos. Não como amante. Não como amiga. Como alguém que esperou muito tempo para tocar sem quebrar.
***
Daniela saiu atrás de nós assim que nos viu se afastando pelo terraço. Só soube depois, quando Renata, minha melhor amiga, me contou que ela tinha chegado atrasada ao encontro e a alcançado na porta. Renata segurou o antebraço dela com aquela força tranquila que tinha para parar as pessoas sem machucá-las.
—Você não pode segui-la. Não agora —tinha dito.
—Eu só... preciso falar com ela —murmurou Daniela, com a voz quebrada.
—Você sabe perfeitamente o que fez com ela, não sabe? —respondeu Renata, embora não soubesse de nada em particular. Só sabia que um dia eu a tinha ligado contando que passara uma noite extraordinária com uma mulher que esperava do lado de fora do apartamento, e que depois esse assunto se tornara um campo minado entre nós.
—Não... quer dizer, sim. Eu não sei como explicar. Por favor, me dá o número dela. Eu te imploro!
Renata ficou olhando para ela. Acreditava nela. Dava para ver pelos olhos dela. Mas não ia ceder o que não lhe pertencia.
—Se ela não te deu, é porque tinha seus motivos. Não vou passar por cima disso. Mas, se você realmente quer falar com ela, não desista. A oportunidade chega.
Para que ela não desabasse de vez, Renata deixou o próprio número com Daniela e pediu o dela. Se chegasse a hora, eu decidiria. Não ela.
***
De volta à Promotoria, corri para a sala de medicina legal e mergulhei nos processos. Repetia os mesmos documentos uma e outra vez sem realmente lê-los, esperando que as letras me distraíssem do tremor sob a pele.
Mariana entrou algum tempo depois, com uma expressão mais amável do que de costume.
—Eu não te perguntei antes porque não era o momento, mas... o que aconteceu, Camila?
—Nada que valha a pena falar.
Ela se sentou ao meu lado. Não insistiu. Só pousou a mão sobre a minha.
—Estou aqui. Não porque você me deva uma explicação. Mas porque você importa para mim.
Fechei os olhos. Você merece alguém capaz de te amar sem feridas abertas. E eu, simplesmente, não podia. Ainda não.
Mariana se levantou ao entender o silêncio.
—Quando você estiver pronta, eu estarei aqui. Às vezes, falar basta.
***
Se passaram vários dias. Eu funcionava como uma máquina: autópsias de manhã, processos à tarde, quilômetros antes do amanhecer. Mariana se mantinha por perto, sem invadir. Renata percebia tudo. Sabia que algo continuava preso dentro de mim, mas também sabia que não era hora de perguntar.
Numa manhã, Mariana conseguiu me convencer a voltar à cafeteria.
—Só café. Sem drama —prometeu.
Eu aceitei. Talvez porque precisasse respirar. Talvez porque o jeito sereno dela de sustentar o meu caos estivesse começando a me amolecer.
Mas o destino não dava trégua. Quando entrei, Daniela estava lá. Sozinha. Sentada na mesa onde tudo tinha começado, como se passasse as manhãs esperando.
Ao me ver, ela se levantou e veio direto até mim.
—Camila, por favor... podemos conversar?
Não respondi. Meus olhos a percorreram como quem volta a ver um sonho que dói. Lembrei do cheiro da pele limpa dela, lembrei dos dedos dela enroscados no meu cabelo enquanto eu enfiava a língua entre as pernas dela até que arqueasse as costas e apertasse minha cabeça contra a buceta para eu não parar de chupar. Lembrei de como eu a tinha colocado de quatro contra os azulejos do banheiro antes de o sol terminar de nascer, de como a tinha aberto com dois dedos enquanto mordia a bunda dela, de como ela tinha gozado gritando meu nome com a bochecha colada à parede fria e o cu tremendo contra o meu rosto. Quase não pisquei. O coração falhou por um segundo e se recompôs.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Mariana passou o braço por trás da minha cintura. Um gesto sutil, mas claro: você não está sozinha.
Daniela ficou imóvel, sem saber se avançava ou recuava. E então, a cena mudou de repente.
Um homem surgiu de lado, jaleco branco, sorriso fácil.
—Oi, amor. Não esperava te ver tão cedo, e muito menos no seu dia de folga —disse, beijando a bochecha dela.
Senti uma fisgada aguda atrás das costelas. O médico, sem notar o incêndio que acabara de acender, olhou para Mariana e estendeu a mão.
—Não sabia que você era amiga da promotora Mariana Cordero. Prazer. Sou o doutor Adrián Solano.
Mariana não se moveu. Mas a sobrancelha dela se ergueu, desconfiada.
Ela não era Mariana Cordero para o público em geral. Para a imprensa, para os processos externos, para os corredores do fórum, era Inés Beltrán. O nome verdadeiro só era conhecido por um círculo muito estreito. Como ele sabia?
Vi um arrepio percorrer-lhe as costas, embora ela o disfarçasse perfeitamente. Manteve a postura.
—O senhor está enganado, doutor. Nós não nos conhecemos. Acabamos de nos encontrar aqui. Mas é um prazer cumprimentá-lo.
Ela não estendeu a mão. Ao contrário, pegou no meu braço.
—Meu amor, vamos? Os cafés já devem estar prontos.
Na minha cabeça, ainda ecoava o «amor» que ele tinha dito para Daniela. Ignorei todo o resto, inclusive o sobressalto que atravessou o rosto dela ao ouvir o «meu amor» de Mariana.
Saímos sem olhar para trás.
***
Mariana não dirigiu até a Promotoria. Dirigiu até a casa dela. Pediu por telefone para Renata ir até lá. No caminho, não me explicou nada, e eu, ainda nublada pela imagem de Daniela ao lado daquele homem, a segui sem discutir.
A casa dela era o tipo de calma que eu não merecia: madeira clara, plantas em cada canto, luz entrando em diagonal pelas janelas. Ela me ofereceu água. Sentei no sofá. Ela se sentou ao meu lado, perto demais e, ao mesmo tempo, na distância exata.
—Eu não quero invadir você, Camila. Mas você me importa mais do que deveria, e eu não vou negar isso. Há pessoas que morreriam por estar com você, por te amar sem condições. Eu sou uma delas.
E então ela me beijou. Um beijo lento, com a língua na medida certa, que não exigia nada e, ao mesmo tempo, pedia tudo. A mão dela subiu pela minha coxa por cima da calça do uniforme, parou na cintura e voltou a descer sem pressa. Eu não a detive. Também não a beijei de volta, não de início. Mas minha mandíbula relaxou, como se o meu corpo soubesse algo que a minha cabeça ainda não processava. Ela cheirava a jasmim e a café recém-passado.
Quando me dei conta, já estava retribuindo o beijo. Mordi o lábio inferior dela, chupei-o, e ela soltou um gemido baixo que apertou tudo entre as minhas pernas. Ela enfiou uma mão por dentro da minha camisa, acariciou meu ventre com as pontas dos dedos, subiu até o sutiã e apertou meu mamilo entre o polegar e o indicador com uma lentidão calculada que me fez fechar os olhos e abrir as coxas sem querer.
—Me diz para parar e eu paro —murmurou contra a minha boca.
Não disse nada. Segurei sua nuca e a beijei de novo, com mais força. A mão dela desceu, abriu o botão da minha calça, baixou o zíper. Quando os dedos dela entraram por dentro do elástico da calcinha e encontraram minha buceta já molhada, escapou dela uma risada rouca de satisfação.
—Você está encharcada, Camila.
Ela começou a acariciar meu clitóris em círculos lentos, com a ponta do dedo médio, sem pressa. Eu respirava entrecortado contra o pescoço dela. A outra mão dela tirou um seio do sutiã e se abaixou para chupá-lo, fechou os lábios ao redor do mamilo, mordeu de leve, deixando-o brilhando de saliva. Quando enfiou dois dedos dentro de mim, apertei as coxas contra a mão dela quase com raiva, porque eu não queria gostar do corpo dela —e estava gostando demais.
—Assim —sussurrou, curvando os dedos, tocando aquele ponto exato por dentro—. Deixa eu cuidar de você dessa vez.
Ela moveu o pulso devagar, entrando e saindo, enquanto o polegar continuava trabalhando meu clitóris. Cravei as unhas no ombro dela por cima da blusa. A gozada se armou rápido, suja, quase contra a minha vontade, apertando meu ventre e minhas pernas, e, quando explodi, fiz isso em silêncio, mordendo o pescoço dela, com a mão encharcada entre as minhas coxas e a boca dela ainda no meu mamilo. Por um instante, fechei os olhos e deixei acontecer, como se fosse possível acreditar numa mulher inteira, sem a sombra de outra por cima.
A campainha tocou. Renata tinha chegado, e eu agradeci em silêncio a interrupção. Subi o zíper com dedos desajeitados, ajeitei o sutiã, passei a mão no cabelo. Mariana lambeu os dedos com uma calma provocadora antes de se levantar para abrir a porta, e eu precisei respirar fundo duas vezes para voltar a ser a major Herrera.
***
Quando Renata cruzou a porta, a energia da sala mudou. Mariana recuperou o tom profissional. Eu, a postura militar.
—O que aconteceu? —perguntou Renata ao ver meu rosto.
—Talvez não seja nada —começou Mariana—. Mas há algumas horas conhecemos o doutor Adrián Solano. —Fez uma pausa para me olhar. Só de ouvir o nome, eu já tinha voltado a me despedaçar um pouco—. Quando se apresentou, ele me chamou de Mariana Cordero.
Renata se enrijeceu. Eu me endireitei. Até aquele momento eu não tinha processado por completo o que havia acontecido, mas ali, na sala, tudo se encaixou de uma vez.
—Você o conhecia? —perguntou Renata, tentando parecer neutra.
—Negativo. Foi a primeira vez. E você, Camila, já tinha falado com ele?
—Não. Já o tinha visto antes, mas nunca troquei palavra com ele. E também não mencionei seu nome para ninguém. —Dei ênfase ao «ninguém», e Mariana entendeu que eu me referia a Daniela.
—Então não tem como ele saber por acaso.
—Por isso as chamei aqui. Ele não devia saber. Isso significa que alguém dentro da investigação está vazando informação.
—Esse nome... Adrián Solano... —murmurou Renata—. Já li antes. Não sei onde, mas já vi.
Renata pegou o tablet e começou a abrir prontuários médicos, registros de vítimas, laudos de autópsia. Mariana e eu fizemos o mesmo nos nossos computadores. Durante mais de uma hora, revisamos arquivos digitais e fotos mal escaneadas.
—Aqui —disse Renata de repente—. Uma das últimas vítimas identificadas tem um laudo médico assinado com iniciais: A. S.
—Pode ser ele? —perguntou Mariana.
Aproximei-me da tela. Meu olhar se afilou. Pedi para procurar mais prontuários, não os recentes, mas os anteriores. E encontrei.
—Aqui. Essa garota, uma das encontradas na vala, foi paciente dele. Adrián Solano aparece como o médico responsável antes do desaparecimento dela. —Cerrei os lábios com raiva—. Isso muda tudo.
Levantei-me. Algo acendeu atrás dos meus olhos, aquela faísca que sempre chegava quando um caso me devolvia ao meu terreno. Eu tinha voltado a ser a soldado. A estrategista. A mulher que não temia ir até o fundo.
E, pela primeira vez em dias, o coração deixou de doer.
Só para começar a arder.
Porque, naquela sala, nós não tínhamos acabado de encontrar apenas um nome. Tínhamos acabado de encontrar o próximo elo do medo. E o pior era que esse elo estava dormindo do outro lado da cama de Daniela.